estudos:greisch:ot:27
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| + | ====== §27 Si mesmo e das Man ====== | ||
| + | //GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994, [[obra: | ||
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| + | 1. Resta um último passo a transpor nesta hermenêutica do si-mesmo ([[lx> | ||
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| + | 2. Tal é a hipótese sobre a qual se encerra a hermenêutica heideggeriana do si-mesmo, adivinhando-se, | ||
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| + | 3. Convém evitar dar de imediato uma tradução política a essa noção, sendo estar à mercê dos outros um fenômeno existencial demasiado fundamental e elementar para tolerar tradução em termos de relações de poder e de dominação política, significando a ditadura do On simplesmente, | ||
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| + | * " | ||
| + | * "Cada um é o Outro e ninguém é si-mesmo" | ||
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| + | 4. Os termos negativos utilizados não devem obscurecer a significação positiva desses fenômenos, como no caso da medianidade, | ||
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| + | * "A primeira coisa que é dada é esse mundo comum do On, isto é, o mundo com o qual se confunde o Dasein na medida em que ele ainda não veio a si mesmo, o mundo no qual ele pode sempre estar de tal modo que não é obrigado a vir a si mesmo" (GA20, 339). | ||
| + | * "O impessoal é um existencial e pertence, enquanto fenômeno originário, | ||
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| + | 5. Isso vale em particular para a noção de publicidade ([[lx> | ||
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| + | 6. Não é reivindicando um estatuto de exceção que o sujeito conseguirá encontrar-se a si mesmo, não sendo o inimigo o impessoal, que jamais se conseguirá neutralizar, | ||
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| + | * "O si-mesmo do Dasein cotidiano é o impessoal-mesmo" | ||
| + | * "A mesmidade do si-mesmo existindo autenticamente está separada ontologicamente por um abismo da identidade do Eu tal como este se mantém na multiplicidade das vivências" | ||
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| + | 7. Confirma-se assim, e não apenas no primeiro estágio, que essa análise reivindica o estatuto de uma hermenêutica do si-mesmo e não de uma teoria da identidade, podendo-se contudo perguntar, na ótica da hermenêutica do si de Ricœur, se convém permanecer nessa constatação de um abismo intransponível entre ipseidade e mesmidade, ou se não seria necessário considerar a possibilidade de um entrecruzamento eventual desses dois polos, sendo para Paul Ricœur o lugar desse entrecruzamento nada menos que a identidade narrativa. | ||
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| + | 8. Antes de encerrar essa análise, convém mencionar várias vozes críticas que dizem respeito diretamente à hermenêutica heideggeriana do si-mesmo, girando o debate por ela suscitado em torno de uma quádrupla contestação. | ||
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| + | **1. A contestação fenomenológica (E. Husserl, A. Schütz)** | ||
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| + | 9. Vários leitores de Heidegger espantaram-se, | ||
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| + | 10. Independentemente dessa querela de dependência, | ||
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| + | 11. Longamente desconhecida pelos sociólogos, | ||
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| + | **2. A contestação dialógica (Karl Löwith)** | ||
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| + | 12. Na história da recepção da análise heideggeriana do ser-com-o-outro, | ||
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| + | 13. Löwith reivindica-se do dialogismo de Ludwig Feuerbach e de Martin Buber, tornando-se nessa ótica a relação eu/tu o intérprete último de todo ser-com, devendo-se reconhecer-lhe o mérito de ter chamado a atenção para uma lacuna da descrição heideggeriana, | ||
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| + | 14. Quanto ao fundo, porém, cumpre perguntar-se, | ||
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| + | **3. A contestação erótica (Ludwig Binswanger)** | ||
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| + | 15. Na esteira direta da crítica de Löwith, cuja intuição dialógica de base compartilha, | ||
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| + | * "Ela se mantém, tremendo, diante da porta desse projeto de ser" (Binswanger). | ||
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| + | **4. A contestação ética (Emmanuel Lévinas)** | ||
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| + | 16. Mais próxima de nós, a crítica de Emmanuel Lévinas merece igualmente atenção, não sendo aqui a suspeita a de um desconhecimento da intersubjetividade como tal, mas a do desconhecimento da exterioridade específica do outro que, quando se trata da responsabilidade ética, nos arranca do horizonte do mundo no qual o Dasein encontra o outro, concentrando-se a dificuldade no sentido a dar à declaração heideggeriana de que os outros vêm ao encontro a partir do mundo em que o Dasein ocupado e circunspecto essencialmente se sustenta. | ||
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| + | * "Os outros vêm ao encontro a partir do mundo onde o Dasein ocupado e circunspecto se sustenta essencialmente" | ||
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| + | 17. Os elementos essenciais da contestação levinasiana encontram-se num artigo de 1951, intitulado "A ontologia é fundamental?", | ||
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| + | * "A compreensão do ser não supõe apenas uma atitude teórica, mas todo o comportamento humano. Todo o homem é ontologia" | ||
| + | * " | ||
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| + | **O rosto do outro: uma significação sem contexto** | ||
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| + | 18. O rosto é apresentado por Lévinas como significação sem contexto, não sendo o outro, na retidão de seu rosto, uma personagem inserida num contexto, ao contrário de toda significação no sentido habitual do termo, que é relativa a tal contexto, sendo aqui o rosto sentido por si só, aquilo que não pode se tornar um conteúdo que o pensamento abarcaria, o incontível que conduz para além, sendo por isso que a significação do rosto o faz sair do ser enquanto correlato de um saber, opondo-se a visão, busca de uma adequação que por excelência absorve o ser, sendo a relação ao rosto de saída ética. | ||
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| + | * "O rosto é significação, | ||
| + | * "Tu, é tu" (Lévinas). | ||
| + | * "A relação ao rosto é de saída ética" | ||
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| + | 19. A isso Lévinas opõe sua tese central de que a relação com o outro consiste certamente em querer compreendê-lo, | ||
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| + | * " | ||
| + | * "Não é objeto de compreensão primeiro e interlocutor depois" | ||
| + | * "O ente é o homem, e é enquanto próximo que o homem é acessível, enquanto rosto" (Lévinas). | ||
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| + | 20. Importa então perguntar se o rosto não significa de outro modo que as demais modalidades da significatividade até aqui consideradas, | ||
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| + | * "À compreensão, | ||
| + | * " | ||
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| + | 21. Vê-se bem sobre o que recai a acusação: na alteridade, Heidegger teria perdido o mais essencial, o fenômeno do rosto do outro, sofrendo a análise heideggeriana, | ||
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