User Tools

Site Tools


estudos:grassi:grassi-a-insuficiencia-essencial-da-linguagem

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
estudos:grassi:grassi-a-insuficiencia-essencial-da-linguagem [26/01/2026 09:14] mccastroestudos:grassi:grassi-a-insuficiencia-essencial-da-linguagem [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1
Line 1: Line 1:
 +====== A insuficiência essencial da linguagem. ======
 +
 +**5. A insuficiência essencial da linguagem. O silêncio e o fundamento pictórico da linguagem**
 +
 +Mas, afinal, é a linguagem semântica algo originário?
 +
 +Toda língua, cujas raízes se encontrem diretamente no primitivo, é puramente semântica; ela não demonstra: ela refere-se ou indica — como a linguagem dos mitos, das religiões, do evangelho (da pregação), das síbilas, dos profetas, dos poetas. "O poeta não consegue fazer poesia antes de ser possuído, de estar fora de si e da razão ter cessado de habitá-lo. Pois enquanto se apegar a essa faculdade, nenhum homem é capaz de fazer poesia ou de pronunciar oráculos.. . É por isso que o deus, depois de privá-los da razão, usa os poetas, os pronunciadores de oráculos e os adivinhos divinos como seus servos, para que nós, ouvintes, tenhamos a certeza de que não são eles que dizem o que é tão valioso, pois estão destituídos da razão, mas que é o próprio deus quem o diz, e que apenas nos fala através deles."
 +
 +Assim, a própria linguagem semântica tem sua origem numa "visão" imediata, imperativa, indicativa. A linguagem leva ao limitar da visão daquilo que se impõe; portanto, toda linguagem básica indicativa tem também um caráter teórico, pois "theorein" significa olhar, "theorós" é o observador nos Jogos Olímpicos. Aqui chegamos ao âmago da insuficiência da linguagem.
 +
 +Uma tradição inteira vem chamando a atenção para a insuficiência da linguagem e para o fundamento visível que a ultrapassa. As seguintes sentenças nos foram transmitidas pelo sofista Górgias, relativas à insuficiência da linguagem: "Mesmo que o ser seja reconhecível, como descrevê-lo a outrem? Como se pode dizer com palavras o que se viu"! Ou ainda, como poderia algo tornar-se claro para alguém que somente o ouve, mas não o vê? Pois como a visão não percebe o som, assim a audição não ouve«cores, mas apenas sons, e o orador fala, mas* não em cores ou coisas".
 +
 +Platão, a quem nos referimos frequentemente, diz em sua Epístola VII: "O essencial não pode, de forma alguma, ser posto em palavras como o podem outros conhecimentos".
 +
 +Poder-se-ia dizer, talvez, que a peculiaridade dos princípios supremos leva ao fracasso da linguagem, e ao silêncio? De forma geral consideramos que a função da língua é a comunicação dos nossos pensamentos, das nossas experiências e das nossas paixões. Desde que nos esforcemos por comunicar ideias subjetivas válidas para todos, a linguagem é o elemento fundador de comunidades.
 +
 +Através do que é expresso pela fala, poderemos concordar ou discordar das opiniões de outros. Mesmo diferenças mútuas somente são possíveis numa base comum, que é a premissa de cada discussão. Comunicando algo a alguém, ou a nós mesmos, a linguagem sempre adquire um caráter histórico; os outros (como nós mesmos) "passam a ser" através da nossa conversação. Este nosso "passar a ser" adquire o significado de "formar-nos", de "desdobrar-nos". O discurso, como um processo dialético é, em essência, um "acontecimento", uma história do homem.
 +
 +O discurso faz com que nos esforcemos por atingir os primeiros princípios que nos levam a definir os fenômenos, a colocar ordem no caos de impressões e a fundar nosso mundo. Portanto, a fala é fundadora de mundo. Negá-lo equivale a renunciar à história, à comunidade e à mundanidade. Não é por acaso que, em comunidades religiosas que vivem em esferas extra-históricas e extra-temporais, prevaleça a regra do "silentium", não tanto como uma punição, isto é, domínio de impulsos humanos, como é erroneamente suposto, mas como uma rejeição sólida e firme do mundo histórico. Essa esfera compreende a tradição da teologia negativa; baseando-se na tradição cristã, Dioniso Areopagita diz, em Os Nomes de Deus que o original e o primitivo são "inexpressáveis em qualquer discurso" e mais: "e o 'logos' (aqui no sentido do original, do divino) é a própria palavra que não pode mais ser expressa por qualquer palavra humana".
 +
 +Desse mesmo reconhecimento provém, para Orígenes, a dificuldade da oração: "Quem poderia negar que é impossível para o homem seguir o rastro do divino?" Considerando que não podemos expressar o divino e o originário, e considerando que a verdadeira prece teria contido aquelas palavras divinas, o homem não pode rezar corretamente "... pois o que deveríamos verdadeiramente rezar, não o sabemos".
 +
 +Digno de nota é que os credos de todas as religiões que tentam voltar-se para o originário, para o primitivo, acabam com a mesma renúncia à fala. Com referência à dificuldade da prece, diz, por exemplo, Orígenes: "a fim de dirigir-se a Deus na oração, é suficiente ter diante dos olhos o divino, o primitivo, o originário que não pode ser captado por palavras".
 +
 +Muito mais tarde, também na Cristandade medieval, o silêncio como comprovação da insuficiência da linguagem adquire um significado importante. Para o Mestre Eckhart, o silêncio é uma condição primeira da existência, que participa da "eternidade", do "essencial" e que pertence ao fundamental. O silêncio não é o complemento negativo da palavra; ele é, em Deus, "simultaneamente" com a palavra, a origem das histórias sagrada e humana. "Deus criou todas as coisas através da palavra, através do silêncio." Assim, o silêncio é a causa primeira divina e dele nasce a palavra, o Filho de Deus. No silêncio repousa Deus; através da palavra ele age; e portanto o Filho, como a palavra de Deus, é a origem da história sagrada, da mesma forma como a palavra humana é a origem da história humana, profana. Assim a palavra nasce constantemente do silêncio para voltar novamente ao silêncio tão logo tenha sido proferida.
 +
 +Embora o Mestre Eckhart saiba que a verdade originária é inexpressável, ele não abdica ante a insuficiência da linguagem; ele ronda o segredo com tentativas cada vez mais apaixonadas. Diante da plenitude do visível, a sua palavra aspira a tornar-se "transparente"; ele invoca um pressentimento que vem das profundezas. Este esforço tem por alvo uma relação entre o primordial e o inexpressável, que está entre o visível e o pictórico. A linguagem se baseia em algo que não é linguagem; é algo relacionado com o elemento pictórico original distinguido pelo seu caráter semântico, alusivo. O pictórico é simplesmente "visto"; para aquele que não pode vê-lo, este não poderá jamais ser "provado", não poderá ser "explicado". O silêncio aparece, portanto, como uma correspondência à "visão" originária.
 +
 +A linguagem semântica, mítica, baseia-se em algo que deva manifestar-se antes de qualquer palavra? Os gregos chamavam "symbolon" a um objeto — por exemplo, duas partes de um anel — por meio do qual as pessoas reconheciam-se uma às outras como pertencentes a uma mesma comunidade de amigos ou parentes. "Symbállein" significa unir, ligar com base em algo comum. O primordial, cuja preocupação é comum a todos os homens, não confere um significado próprio somente aos sons, que formam as palavras, mas também aos sentimentos, ações e atitudes, pois cada um significa algo diferente e mais do que os elementos puramente físicos e mecânicos dos quais o primordial é constituído; eles adquirem um significado simbólico. Por conseguinte, as duas partes do anel tem outro significado além daquele que a sua realidade material constitui; elas representam uma união, uma afinidade e uma amizade que transcende a qualidade física das partes, e que estas nunca poderão alcançar.
 +
 +Não deverá ser esquecido que o poder do símbolo também tem seu efeito ao nível da vida animal, pois no que se refere aos sentidos — como instrumentos da vida — forma e significado específicos a vida (por exemplo, significados positivos de expectativa, como o significado de nutrição ou sexual, ou negativos, como o medo) são atribuídos a causas mecânicas. Portanto, é a vida que confere aos fenômenos do ambiente o seu significado simbólico. No entanto, enquanto a vida dos sentidos está ancorada em símbolos bem estabelecidos e significativos (em símbolos e significados que são inatos à espécie), é característica específica da vida humana que o homem deva procurar os significados simbólicos dos fenômenos que são válidos para ele. O originário se manifesta na nossa necessidade de encontrar o caminho no mundo e leva-nos, passo a passo, a conhecimentos que terminam na "visão".
 +
 +Isto se aplica principalmente ao poeta e à sua linguagem. Tudo quanto ele diz, pensa ou aponta (mesa, pão, água, a figura de uma mulher), está sempre além dos objetos, além do que foi realmente dito e adquire, portanto, significado simbólico.
 +
 +Como é possível referir-se, através de sinais, sons, palavras, a algo que vai além do que foi experimentado, do que foi citado, do que foi pronunciado? O que é criado pela união simbólica, na qual e através da qual aprendemos a conhecer-nos e aos fenômenos? É sempre o originário, aquilo que diz respeito ao homem, o referente, que confere um significado a todas as coisas, o alusivo que precisamos reconhecer como uma realidade concreta da mais alta ordem. Nunca devemos degradá-lo ao nível do meramente "pensado", a um objeto abstrato de especulação intelectual, porque então estaríamos encobrindo o seu caráter perigoso, assombroso.
 +
 +Ainda: na sua Analytica posteriora, Aristóteles distingue dois tipos de crença (pistis): aquela que nasce da demonstração, a quem cabe todos os primeiros conceitos. "Se conhecemos e acreditamos nos objetos através do conceito primeiro e imediato, então também conhecemos e cremos mais no primeiro do que no que depois daí resultará, pois conhecemos e acreditamos neste último justamente através daquele primeiro."
 +
 +Uma tal concepção resulta para nós, seres racionalistas, na pretensão escandalosa de que, além da "pistis" do racional, exista uma "pistis" originária do não-racional, à qual é justamente o filósofo quem deve conduzir.
 +
 +{{tag>Grassi}}
  
estudos/grassi/grassi-a-insuficiencia-essencial-da-linguagem.txt · Last modified: by 127.0.0.1