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estudos:gaboriau:gaboriau-aux-abords-de-la-metaphysique-3434

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 +====== ÀS PORTAS DA METAFÍSICA ======
 +
 +FGNIP
 +
 +==== Phénoménologie de l'existence ====
 +
 +=== Repetitorium ===
 +
 +//"Repetitorium" ao final do tomo "A entrada na metafísica", do excelente curso de Florent Gaboriau, "Nova iniciação filosófica" (Casterman 1962).//
 +
 +  * NOS LIMIARES DA METAFÍSICA
 +    * ABORDAGEM
 +      * Disposições de espírito sugeridas pelo início da Primeira Meditação Metafísica (Descartes), e aplicadas à nossa pesquisa (filosofia primordial):
 +        * a)  questionamento total, indo até aos princípios, às origens, aos começos absolutos (arché): arqueologia, poder-se-ia dizer, ocupando-se daquilo que ainda resta a examinar quando se tivesse feito a volta das ciências.
 +          * — e estudando o que as condiciona, o que elas têm de real, a existência. A ideia de fazer tábula rasa, de verificar radicalmente o que se estima
 +          * espontaneamente "ter" não excetuará nenhum enunciado. Nada é para ela "sagrado", no sentido de reservado, posto à parte. Tudo é objeto de "crítica".
 +        * b)  o que supõe tal empreendimento.
 +          * Maturidade, lazer, estudo.
 +          * Disponibilidade, que repudia as servidões (do trabalho exigente, como da festa dissipadora), — e que implica liberdade.
 +          * Forma de lazer que inclui o esforço, o ato de "ver" (portanto, estudo teórico); e exclui uma escolarização cortada da vida.
 +          * A existência é de fato aquilo a que se refere — para ser séria, em seu método, e em seu processo, — a elaboração da filosofia primordial.
 +        * c)  a palavra "metafísica":
 +          * um acaso editorial, em grego.
 +          * A realidade: pesquisa cujos elementos se encontram repartidos sob diversos títulos: fenomenologia, ontologia, etc.
 +    * O QUE É A FENOMENOLOGIA?
 +      * Ciência dos fenômenos, ou logos dos fenômenos. O fenômeno pode ser compreendido de duas formas:
 +        * —  reduzido ao que parece: a fenomenologia será aí síntese dos dados subjetivos (a essência estando escondida pelo parecer).
 +        * —  desvelando o "logos" (que se encontra em retirada): a fenomenologia deixando-aparecer a razão do fenômeno.
 +      * Tendência originária:
 +        * oposição ao idealismo puro;
 +        * resolução positiva (de atacar e manter-se nos fenômenos)
 +        * benfazeja por sua vontade de permanecer agarrada às coisas;
 +        * insuficiente se recusa seguir a inclinação de seu movimento próprio (e de desembocar na ontologia).
 +      * Testemunhos marcantes:
 +        * E. Husserl.
 +          * Quatro estágios:
 +            * —  análise dos fenômenos tais como aparecem (descrição)
 +            * —  pesquisa da essência e significação (redução eidética)
 +            * —  subjetividade transcendental (por //epoché// relação aos fenômenos)
 +            * —  subjetividade absoluta (em relação à consciência).
 +          * Marcos de desenvolvimento:
 +            * —  ponto de partida, as matemáticas
 +            * —  pesquisa de "lógica objetiva"
 +            * —  relação dessas formas a uma subjetividade que se constrói
 +            * —  ela repousa sobre a "intencionalidade"
 +            * —  a subjetividade não é a do eu empírico, mas de um Eu transcendental (onde é dada a significação fundamental do ser).
 +        * Max Scheler
 +          * O mundo definido como correlativo da pessoa
 +          * O poder primeiro é o "//Gemüt// emocional"
 +          * Apriorismo do amor e do ódio.
 +          * Valores e sentimentos.
 +        * M. Heidegger
 +          * —  o "//Dasein//" e a "//Wesensphänomenologie//"
 +          * —  a doutrina do ser e o "logos" ("desvelamento do velado no não-velado")
 +          * —  "//Ser e Tempo//":
 +            * o "se" (impessoal),
 +            * o "co-ser",
 +            * a "angústia",
 +            * o instrumento (vorhanden),
 +            * a futuridade do //Dasein//, ou o homem essência temporal do futuro,
 +            * "historicidade" como sentido do //Dasein//
 +          * —  "Superação da Metafísica".
 +            * "o ser"
 +            * o logos
 +            * a "coisa"
 +            * o poeta
 +            * o pensador
 +            * ...outros...
 +          * —  Analogia com a evolução constatada no idealismo de Fichte, de Schelling, de Hegel — comparável àquela, respectivamente, de Husserl, Scheler, e Heidegger.
 +      * Conclusão:
 +        * desfecho inesperado da fenomenologia (nos limiares da mística);
 +        * desemboque quase necessário na ontologia.
 +    * TEMAS MAIORES DA ONTOLOGIA
 +      * "Ciência do ser", ela visa os princípios, fundamentos, causas, leis.
 +        * Os Princípios:
 +          * —  do ser estático
 +            * —  princípio de identidade: A = A.
 +            * —  princípio de contradição: A = não B.
 +            * —  princípio do terceiro excluído: A existe ou não existe, não há um terceiro caso.
 +          * —  de seu condicionamento dinâmico:
 +            * —  princípio de causalidade ou "de razão suficiente".
 +            * repousando sobre um pré-requisito cuja universalidade vem justamente a ser posta em causa, acarretando a questão dos outros "princípios"...
 +      * Questionamento das leis do ser (ou da arché):
 +        * J. Stuart Mill e D. Hume: condicionalismo e sucessão.
 +        * E. Kant: prolegômenos a toda metafísica futura... ou a questão da possibilidade mesma da metafísica
 +        * G. W. Hegel: a "Lógica" ("irmã da metafísica") apresenta a "doutrina do ser":
 +          * Análise rápida dos sumários do livro I e do livro II.
 +          * O conceito de ser, identificado ao "nada": dialética do existente que é sempre si mesmo e si-outro (devir).
 +        * K. Marx:
 +          * —  preocupação inicial nitidamente filosófica
 +          * —  preocupação específica: aplicar essa visão do mundo para transformá-lo, desaliená-lo.
 +          * —  desprendimento de um princípio metafísico (o materialismo) já antigo.
 +      * Conclusão:
 +        * pesquisa do "essencial do fundamento" (//vom Wesen des Grundes//), de sua essência primitiva (//Urwesen//);
 +        * origem de uma "ressurreição da metafísica" — consciente de sua eminente função ontológica,
 +          * mas depreciando na mesma medida a exigência "científica",
 +          * e compensando por um certo sentimento do mistério alguma reticência aos prolongamentos teológicos.
 +    * EM DIREÇÃO À TEOLOGIA
 +      * Teodiceia? A filosofia moderna imaginava "pleitear", por vias que se estimam superadas, a existência de Deus.
 +      * A virada é tomada com Descartes, substituindo uma psicologia à metafísica (Deus aí desempenha um papel de garantia para as certezas da Física).
 +      * Desse papel doravante sem objeto, ele se encontra evacuado: e nada portanto justifica mais sua existência. A carência das "teodiceias" é o efeito direto de uma insuficiência geral da Filosofia (o abatimento metafísico).
 +      * 1. Os efeitos de incerteza, provêm do fato de que a "teodiceia", deslocando o eixo das preocupações, faz parecer a "teologia" deslocada, e esvazia a metafísica dessa preocupação;
 +        * a)  Razões inoperantes: mesmo universal, o "sentimento religioso" o que provaria?
 +        * b)  Razões contrárias, (alimentos dos ateísmos):
 +          * —  deformações ou aberrações do sentido religioso
 +          * —  noções ou representações inaceitáveis da Divindade (imagética santassulpiciana ao nível das "ideias")
 +          * —  sentimento de que a "grandeza" do homem é abandonar esse recurso, de colocar em si suas esperanças (libertar as multidões balindo após uma religião degradante, quando se engrandece contando consigo só).
 +        * Dessas incertezas resulta uma coisa: a questão decisiva (para um metafísico crítico) não é determinar:
 +          * —  se muitos homens aspiram a Deus, ou se todos os homens têm da Divindade uma noção aceitável;
 +          * —  mas saber (na medida em que o espírito pode aí chegar) se realmente existe o que se evoca (ou invoca) sob esse nome (Deus),
 +          * —  por outras palavras se esse nome (convencional) corresponde a uma existência e qual?
 +      * 2.  As negações de certeza (a priori): as "provas" não são apenas ineficazes, o processo é a priori impossível, — a Teodiceia em fracasso termina em derrota da Teologia (Deu convencido de inexistência):
 +        * a)  Exposição dos motivos (segundo E. Borne): o mal, obstáculo intransponível.
 +        * b)  Incompatibilidade dessa visão com a do Tomismo (multiplicidade de filosofias, de fato, entre os cristãos).
 +      * 3.  Perspectivas
 +        * a)  os três tempos da Dialética Total (em metafísica)
 +        * b)  a "filosofia (crítica) das religiões" supõe no princípio o que a Metafísica tem normalmente por termo (a saber, uma noção crítica de Deus).
 +        * c)  distinguir entre
 +          * —  o ato científico (de tipo intelectual, "verdadeiro"), e o ato religioso (de tipo moral, "justo"), — mesmo quando portam, um e outro, sobre Deus.
 +          * —  a filosofia permitindo "saber" e a filosofia preocupada em viver (em conformidade de sabedoria com o que ela aprende).
 +          * —  a religião que procederia de uma metafísica acabada (inspirando viver em "justos", portanto religiosamente, no plano natural),
 +          * e a religião que procederia de uma "Palavra-de-Deus" revelando seu desígnio (Teologia com base na "fé"), introduzindo na vida efeitos (de "justiça") e um princípio (de "graça") nitidamente supra-físicos, sobrenaturais.
 +    * O CAMINHAMENTO
 +      * 1.  Molas propulsoras
 +        * a)  exigência de totalidade (sob a aparência de confusão)
 +        * b)  primado da ontologia (hoje reconhecido).
 +      * 2.  Escólios (jargão moderno, engajamento, ausência de "liberdade", etc.).
 +      * 3.  Exigências
 +        * a) de um método, que seja "de ciência".
 +        * b)  de um móvel, que a faça "sabedoria" (de vida).
 +        * c)  de uma repercussão sobre a própria linguagem:
 +          * —  precisão (linguagem inteligível, e racional, científica)
 +          * —  inspiração (de uma linguagem às voltas com uma realidade que a transborda, e a abala como um mistério).
 +    * O PANORAMA GERAL
 +      * (os seres) deste mundo
 +        * 1. Isto
 +        * 2. que
 +        * 3. são
 +      * Os três trechos de um único e mesmo itinerário à medida de sua penetração:
 +        * fenomenologia, quando se trata de analisar as espécies de formas onde se reparte, na aparência, o real;
 +        * ontologia, quando se revela a hipótese primeira (substantia prima);
 +        * teologia, quando se pressiona o mundo para entregar sua última palavra, a mais Secreta, substantia ultima, (mas veremos que essa ultima ratio não é mais uma ratio no sentido ordinário nem mesmo uma substância propriamente dita)
 +
 +  * NAS ORIGENS DA METAFÍSICA
 +    * A. PRÉ-HISTÓRIA
 +      * 1.  Significação do "mito"
 +      * 2.  Mitologia de Homero, de Hesíodo
 +      * 3.  O Orfismo
 +      * 4.  O pensamento bíblico
 +      * 5.  Mythos e Logos.
 +    * B.   OS PRÉ-SOCRÁTICOS
 +      * 1.  Os Milésios
 +        * Tales de Mileto
 +          * —  a água
 +          * —  sofia
 +          * —  hilozoísmo
 +        * Anaximandro
 +          * —  o //apeiron//
 +          * —  formação do universo
 +        * Anaxímenes
 +          * o ar
 +      * 2.  Os Pitagóricos
 +        * — vistos do exterior
 +        * —  a "vida pitagórica"
 +        * —  a metafísica, o número: medido (peras) e infinito (apeiron).
 +      * 3.  Heráclito
 +        * —  o fogo: fonte e símbolo da fluência universal
 +        * —  as oposições: mola do dinamismo
 +        * —  o "logos": medida daquilo que no devir se acende e se apaga.
 +      * 4.  Os Eleatas
 +        * Xenófanes
 +          * filosofia da religião
 +        * Parmênides
 +          * —  "o caminho da verdade"
 +            * a)  o existente é só a existir
 +            * b)  pensar e ser são idênticos
 +            * c)  o ser existe, total, único, compacto
 +          * —  o "caminho da opinião"
 +        * Zenão
 +          * argumentos contra o movimento
 +          * a erística
 +      * 5.  Os Mecanicistas
 +        * Empédocles
 +          * —  as "raízes"
 +          * —  o amor e o ódio
 +          * —  o "mecanismo"
 +          * —  formação do mundo
 +          * —  os espíritos e as almas
 +          * —  teoria do conhecimento
 +        * Leucipo e Demócrito: o Atomismo
 +          * a)  o ser
 +            * —  os "átomos"
 +            * —  o espaço
 +            * —  o movimento
 +            * —  o determinismo
 +          * b)  o conhecimento
 +          * c)  a ética
 +      * 6.  Anaxágoras
 +        * —  as Homeomerias
 +        * —  o Nous
 +      * 7.  Os Sofistas
 +        * —  filosofia engajada
 +        * —  filosofia desengajada
 +          * em relação ao ser
 +          * em relação à "lei"
 +          * em relação ao que não aparece
 +        * —  filosofia do poder.
 +
 +  * O PONTO DE PARTIDA DA METAFÍSICA
 +    * Tomar (compreender) as coisas, as coisas tais como se apresentam, e tais como são em sua constante fenomenalidade... aceder assim naturalmente — sem método preconcebido — a esse limiar "metafísico" que não se atinge de plano, mas do qual se vai ver em que "consiste" e que "existe".
 +    * I.   GRADUAÇÃO DO CONHECIMENTO
 +      * O comportamento dos "seres" em sua co-existência mútua revela variedades fenomenológicas naquilo que se chama seu "conhecimento"
 +      * Há...
 +        * os seres que sentem (tato vegetal ou animal)
 +        * os seres que apreciam (manifestando por sua atitude repulsão ou atração)
 +        * os seres que se lembram (persistência de imagens surdas "memória")
 +        * os seres que adquirem experiência ou habilidade (saber-fazer instintivo)
 +        * os seres que se "adestram" (corrigem, educam: docilidade ao homem)
 +        * os seres que
 +          * a)  "nomeiam" e "pensam" (fenômeno do "logos" — segundo um termo grego que não dissocia os dois aspectos do que "se apresenta" junto, nomeado e pensado ao mesmo tempo).
 +          * b)  e portanto "questionam" (ou duvidam, antes de adquirir outros conhecimentos).**-
 +      * Assim se apresenta a graduação dos seres que vivem e "conhecem". Fiquemos no fenômeno daqueles que "interrogam": fenômeno humano.
 +    * II.   A MOLA (EXISTENCIAL) DA QUESTÃO
 +      * a)  o homem "interroga" a partir de uma surpresa; o espanto, provocador da "questão" (o quê? por quê?)
 +      * b)  pôr em "questão" significa portanto: "pôr em causa" a "coisa"; buscar "razão" para o que se passa.
 +      * c)  o homem pronuncia, julga, declara, mas antes ele "põe" questão. Vejamos a "posição" do homem que "põe assim uma questão" (qualquer que seja):
 +        * —  é de "julgar" de fato que se trata. No ponto de partida, uma coisa é portanto certa: é que o aparecer (ou o fenômeno.) é citado a "comparecer"; e que o "fenômeno", o real que aparece" é devedor de uma "justa" resposta (a qual "existe" portanto, não é posta em dúvida no próprio ato de duvidar, aí se afirma ao contrário).
 +        * —  a incerteza (pois se informa) é relativa, não a essa "existência", mas à medida, à razão (que se busca precisamente), à causa dissimulada na coisa, à relação que ela aí mantém, ou não, com a existência.
 +        * —  quando portanto o real é apreendido, traduzido ao tribunal da inteligência, submetido à leitura (intus-legere, inteliger), submetido à questão, é que há resposta, há causa, há razão (//Es gibt//, — é um dado).
 +          * O dinamismo da inteligência questionadora é feito desse "dado". Tomar ato desse dado, analisar portanto essa ação intentada pelo homem ao real, esse poder que ele tem de convocar (chamar) as coisas a prestar contas e de as arrazoar, é simplesmente tomar consciência do que se passa quando se interroga; é dar-se conta de um fato, sem sair desse fato mesmo; é abri-lo; não é ainda silogizar, (ou seja, proceder ao desdobramento "científico" que o método põe em obra). Não se faz aqui senão inventariar o conteúdo de um dado de fato. Tal é o "dado" (não facultativo) do qual convém analisar o que implica de conteúdo:
 +            * Implica a existência de um respondente (de uma resposta a "definir", de uma "determinação" a fornecer). Os homens interrogando-se sobre tudo, a hipótese incluída nesse movimento, é que há (é dado, //es gibt//) "resposta" a tudo, — sem exceção alguma, seja qual for, mais uma vez, o contorno dessa determinação (a buscar).
 +            * O fato de ter razão, para aquele que fala, consistirá precisamente no sucesso dessa pesquisa; essa investigação em curso, — no corpo a corpo com o real, — resulta em lhe arrancar confissões, //redde rationem//, estende assim seu domínio, domina as coisas ao possuí-las. A palavra "razão" parece transferida das coisas ao espírito que se dá "conta".
 +            * Sobre a "realidade" da resposta em causa, não há dúvida possível (essa dúvida nunca é "dada", — pode ser depois arbitrariamente composta): nenhuma dúvida constatada de imediato sobre a realidade do "respondente" existencial. Essa "causa" existe. A "razão" encontrada, que a expressa — julgada satisfatória, — o espírito então se apazigua: ele vê, ele tem, ele sabe.
 +            * O real se apresenta portanto a nós como justificado a priori; a obra da inteligência é descobrir as justificações //a posteriori//, pelo detalhe de sua investigação, tomando cuidado para não ser enganada (como poderia sê-lo um cujo faro se deixasse enganar, desviar).
 +            * A inteligência pode também conhecer a si mesma (enquanto o cão não se caça a si mesmo)? Sim, mas não exclusivamente nem começando por si mesma. O conhecimento de si não é primitivo, no máximo ex-aequo, desde que um companheiro de existência (o outro) o desperte para essa curiosidade, reflexiva, espelhante, portando sobre si.
 +      * "Consentir ao real" não é portanto um ato facultativo e matéria para opção. É anteriormente a toda vontade, reconhecer que o mundo faz questão, — e que o que nesse fato e desse fato, não faz absolutamente questão, se encontra portanto relativamente certo (digo relativamente para ser minimalista). Certeza "positiva" portanto, dada, interior à questão como tal e que sustenta esse fenômeno desde que ele surge: existência de uma razão real, à qual precisamente se refere para questionar (duvidar), e depois julgar.
 +      * O real é portanto dado (apresentado à inteligência) como "justificado", ou seja, como justiciável de um tratamento "racional". Nesse sentido, a fórmula hegeliana "tudo o que é real é racional" seria, no estado de enunciado, a expressão do "ponto" de partida a partir do qual — exatamente — se desencadeia todo o esforço do homem para "saber". Preferir-lhe: "tudo o que é real é inteligível". Eis muito precisamente o ponto de partida da Metafísica: pois, quem manifesta uma dúvida (uma interrogação, uma suspensão) manifesta por isso mesmo um apego ao real (do qual ele "de-pende"). Se dele estivesse desapegado, independente, não hesitaria: afirmação ou negação lhe seria, no julgamento, indiferente. Ao interrogar, ao recusar pronunciar-se antes de investigação e sem razão, ele revela uma dependência, uma ausência de absoluto (de liberdade absoluta), que está na raiz da ciência; ele manifesta uma presença ao ser-real, mesmo escondido; a presença de uma "relação" impossível de banir e implicada em todo "logos" é esse ponto de partida "atual" de toda pesquisa metafísica.
 +      * A Confrontação que constitui a questão é dupla:
 +        * a)  o ser do mundo sem limitação de extensão (pois suas determinações me escapam indefinidamente).
 +        * b)  o ser do homem-questionador, sem limitação de "competência" (isso o diz respeito).
 +    * III.   OS GRAUS CONDUZINDO AO SABER
 +      * A questão é uma caça ao ser, em toda hipótese e desde o ponto de partida. Mas caça especializada segundo os pontos de vista, os setores, as "razões". Não há caça guardada para a inteligência (exploração de todo o real).
 +      * Os patamares do conhecimento conduzem ao limiar do homem. Os patamares do saber tomam o seu relé, quando o objeto do conhecimento se torna o universo. Desde que "tudo" faz questão, e que ele quer ter "resposta" a tudo, o homem está em busca de "saber".
 +      * Mas esse saber comporta graus. Interrogar o mundo pode fazer-se de vários pontos de vista: físico, matemático, metafísico. Heterogêneos, esses pontos de vista se chamam porém um ao outro.
 +      * O "grau de abstração" é esse nível diferente da escala onde se coloca. Subindo mais alto, se deixa cair mais, abstrai e subtrai, para atrair mais a si.
 +      * Mais abstrata é uma ciência, menos sensivelmente controlável é sua démarche. Mas os níveis de abstração se emprestam um apoio mútuo, é sua solidariedade mesma que os estratifica.
 +      * O "saber" é relativo à "questão". Questionar = estar inquieto. Saber = satisfeito. De que é feita essa satis-fação.
 +      * Para saber, é preciso conhecer de uma maneira privilegiada: ter o objeto de tal sorte que se com-prende com ele sua causa, o que se tem-com (a questão leva precisamente a declinar a identidade da coisa com o que ela im-plica, e com-porta). "Sabe-se" portanto uma coisa quando se a "concluiu", — encerrada, apreendida na rede mesma onde ela se situa de fato (a inteligência presume necessariamente, mas verifica pelas razões, pelas causas). A questão se inquieta justamente do que não vai, não é dado com... Há "ciência" depois daquilo que a princípio está escondido. "Saber" é portanto conhecer uma coisa em suas implicações e consequências.
 +      * A saúde da inteligência está na força de seu apetite, na variedade de seus alimentos. No animal humano, a faculdade de "se lembrar", e de "aprender" contribui para lhe fazer adquirir — previamente à "ciência" propriamente dita, — a experiência e a técnica:
 +        * a)  Experiência. Por sedimentação de casos particulares. Diz respeito ao individual. Virtuosidade adquirida, dom de natureza animal (sem "logos" universal), permitindo realizar o que se apresenta a "fazer": plano do //homo faber//, ou animal faber (levar empiricamente a bem-fazer).
 +        * b)  Técnica. Como a experiência, visa ao concreto (onde se trata de operar também), mas a partir de uma consideração universal, logos. A "técnica" é portanto "lógica": ela aplica um "saber por quê" (ciência). Ela ultrapassa os "casos", e procede de um conhecimento das "causas", — ou seja, de um conhecimento mais universal e mais profundo das coisas.
 +          * A técnica se transmite por ensino; a experiência é incomunicável. A técnica pode defender-se racionalmente, (por ex. médico); a experiência é indefensável (por ex. o curandeiro). A técnica se define por um recurso constante e progressivo à "teoria" (de onde depende a "prática"). Ora, é a "ciência" que fornece essa "teoria".
 +        * c)  Ciência. Estágio último do conhecimento, definido não mais pela preocupação de "fazer", mas pela necessidade de "ver": o olhar de fato muito mais que o tato permite co-ser (o verdadeiro conhecedor = espectador).
 +          * O "saber" como tal consiste em "ver", descobrir, — "teoria" — da qual pode acontecer depois uma "aplicação prática" (no nível da arte ou da técnica).
 +          * A "ciência" é "teórica": o que se chama hoje "pesquisa pura", abstração consequentemente e "contemplação".
 +          * O "saber" tende a erigir-se em valor puro, não-prático, não-produtor (substituto de religião; mesmo em regime materialista); de fato, é um tipo de "visão", — e finalmente, vamos vê-lo, uma "visão do mundo inteiro", que ela proporciona legitimamente, de pelo dinamismo mais natural do intelecto.
 +    * IV.   O NÍVEL DAS TEORIAS (VISÕES CIENTÍFICAS DAS COISAS)
 +      * O objetivo da ciência porta sobre o real, portanto sobre o ente. Trata-se de aí observar as coisas existentes, de um ponto de vista que engloba, ou seja, "generaliza". A "teoria" apresentará portanto resultados diferentes, segundo se tenha assim não visado a matéria do mundo (física), o número do mundo (matemática), ou a existência do mundo (metafísica).
 +      * a)  Física.
 +        * As ciências físicas pesquisam as causas do mundo cambiante (ou seja em grego "impulsionante" = "física"). Por quê? Como? Em que medida e proporção? É o que se quer saber: o segredo desse "movimento"!
 +        * A "exatidão" das ciências: noção idolátrica. A ciência é "teoria", e a teoria para ser autêntica não precisa ser "acabada", imperfeita, imutável. Ela é perfeita ao contrário, essencialmente, quando se trata de "física": uma certa relatividade é inseparável desse domínio, e o esforço do saber é precisamente decifrar e reduzir as inexatidões remanescentes. Mais "exata" a ciência o seria a um nível de abstração mais avançado: deixa-se então cair as coisas materiais, a oscilação é excluída, e o número do mundo, percebido.
 +      * b)  Matemática.
 +        * Tendência da ciência a abstrair mais para ser mais "acabada", mais "exata": afasta-se da matéria para dela melhor conhecer um aspecto, o quântico, — para si mesmo.
 +        * O recurso às matemáticas se inscreve no físico mesmo, como uma maneira diferente de observar no mesmo real uma formalidade distinta. Considera-se uma grandeza, — independentemente do material onde eventualmente ela encontra sua realização térmica, energética, elétrica, etc.
 +        * Nesse ponto, as matemáticas podem bem encontrar campos de aplicação no nível do mundo físico, mas sem deixar de gozar de uma autonomia que se deve a seu objeto próprio, distinto da substância material; partindo, beneficiam de uma ex-atidão nocional da qual a teoria física é congênitamente privada. Em seu nível, que é o da concepção pura, as matemáticas escapam às leis da pesantez "física" e de sua variabilidade: estão libertadas de toda relação ao realizável ou ao imaginável. Desligadas, — abstraídas, — de tudo exceto do número; valores racionais imóveis, medidas necessárias e fixas. Existencial de tipo puramente racional, o "quântico" goza de uma espécie de existência ideal, própria ao nível do intelecto capaz de desprendê-la suficientemente. O olhar do matemático é o de um "teórico" (de um "sábio"), que se desvia de observar as leis da mobilidade, para se dedicar às da invariabilidade, da constância dos ritmos.
 +        * O objeto das ciências físicas (ou naturalistas) é corruptível: mesmo as estrelas envelhecem. O objeto das ciências matemáticas está a salvo de toda variação: não é mais uma substância material e portanto móvel, é a imutável e incorruptível realidade do número. O número é, como tal, independente dos seres materiais múltiplos donde se o desprendeu para começar (três homens, quatro cavalos, etc.): a matemática trabalha sobre o quântico como tal, substantificado de algum modo em sua medida própria (o 114 nunca será o 115; tomá-los um pelo outro seria um erro!)
 +        * Mais uma ciência é abs-traída, e mais ela é ex-ata. A abstração matemática permite uma exatidão maior. Ela é à abstração física o que seria a uma audição musical ordinária um estudo onde se deixaria cair os sons, o volume acústico, o coeficiente material das vozes, para não mais reter senão o ritmo, o número, o esboço aritmético. Há uma música do número, insensível ao ouvido (perceptível ao entendimento).
 +      * c) Metafísica.
 +        * Na ciência, o homem chega a assegurar-se do necessário. As coisas devem passar-se como se disse: seu movimento é conhecido, seu ritmo fixado, seu número descoberto. O homem toma assim poder e soberania sobre o mundo; ao elevar-se, ele domina; por abstrações sucessivas, ele abraça, ele tende a abraçar a totalidade do real.
 +        * Em Física, ele negligencia os casos particulares para interessar-se pelas coisas da natureza, como tais, (a cada espécie de substâncias, corpóreas.)
 +        * Em Matemática, ele se dedica a uma realidade cuja existência é essencialmente racional: o quântico.
 +        * Metafísico, ele vai considerar não mais o "móvel" como tal, não mais o "número" como tal, mas o "ente" como tal: o só "fato de ser" se encontra doravante sob seu olhar, submetido a uma observação sistemática. Pois esse "fato de ser" tem suas leis, que o exame pode tentar descobrir. Desprendendo de tal ou tal existência particular seu interesse imediato, o metafísico se dedica à existência sob todas suas formas, em todos seus departamentos, para verificar a hipótese, descobrir a norma, em suma explorá-la "cientificamente" mantendo-se ao ponto de vista que escolhe, à exclusão dos outros.
 +        * A teoria "física" porta sobre o ente móvel, e sobre sua mobilidade precisamente. A teoria "matemática" porta sobre o ente quântico -(e portanto eventualmente sobre o material), mas enquanto "quântico". O saber metafísico porta sobre o existente como tal, ou seja, quaisquer que sejam os seres, sobre as leis do ser.
 +        * O físico toma em mãos o estudo de um corpo: o ferro, o carbureto, a tintura de iodo, o bombardeamento atômico.
 +        * O matemático não tem nada nas mãos — nenhum corpo, — ele manipula realidades desprendidas, como tais, de toda espécie de corpo (e significadas no quadro negro por símbolos).
 +        * O metafísico não tem nada em mão, também; é a toda realidade porém que se apega, e a propósito de tudo que experimentando a existência ele empreende seu estudo.
 +        * Esse estudo será científico, ainda que a um nível diferente das outras ciências, se reunir as duas condições que além de sua diferença de níveis permitem aos físicos e aos matemáticos dizerem-se igualmente "sábios": a saber o processo apodítico (demonstração que faz prova, por via de //discursus//), e a firmeza da conclusão que resulta (por outras palavras a aproximação de duas ideias ou de dois fatos, cuja silogização se torna assim fecunda, permitindo uma descoberta específica daquilo que se com-prende desse modo).
 +    * V. A EXPERIÊNCIA METAFÍSICA
 +      * a) Aparição da experiência.
 +        * — o ser nunca nos é dado concretamente em sua nudez; a maneira como a existência se apresenta, tão bem enfaixada, faz que a maioria passe ao lado dela, distraídos ou entretidos, sem conseguir desvisá-la, encará-la de frente. Perfil fugidio das existências.
 +        * —  acontece porém que de improviso o sentimento da existência nos roça, nos perfura, nos angustia.
 +        * —  certas experiências-limite (//Grenzsituationen//): alegria, amor, luto, morte, fracasso, impõem como à força à consciência o sentimento fugaz, mas real de algo a tomar em consideração no mundo, outro que os objetos físicos, ou as relações matemáticas; impõem assim uma questão, uma busca no coração do ser entregue subitamente à mordida de sua contingência.
 +      * b)  Experiência "empírica" de si mesmo vivente.
 +        * —  essas experiências bastam à maioria, não tendo o lazer de serem superadas, ou assumidas. Sabedorias podem formar-se em seu nível, elementares, de bom senso.
 +        * —  mas a experiência nesses domínios não vai longe, em matéria de conhecimento assegurado (no meio de tantas ideologias sedutoras ou desorientadoras, o bom senso é frágil, logo desamparado).
 +        * —  "o homem por natureza deseja ainda saber": essas experiências chamam portanto um complemento todo natural de "teoria" verificada. A ciência ex-ata seria de fato aquela que faria do mundo existente a abstração mais completa para refletir sobre o que há na existência de mais Secreto, de mais inelutável e de mais necessário.
 +        * —  trata-se menos de uma curiosidade científica a satisfazer que de uma necessidade vital, existencial, de encontrar no ser a justificação de si mesmo, alguma certeza de sua orientação, em suma um "equilíbrio" (= sabedoria), um regime de cruzeiro. É "o homem" que busca "se" compreender, e a metafísica, sem pretender lhe trazer uma salvação pronta, pode ao menos ajudá-lo a se salvar na perspectiva de uma luz mais alta, de uma luz sem cessar mais alta. É de fato que a menor reflexão sobre o sério da vida desemboca no problema do ser.
 +      * c)  A experiência vivida da inserção no cosmo.
 +        * —  o homem conhece melhor hoje sua inserção no mundo: donde o desejo de se compreender nessa ligação.
 +        * —  o que faz em parte a ciência: precisando os limites de tal e tal regime em tal e tal domínio.
 +        * —  mas no Universo um Destino nos "submeteu" ao ser, obrigados a ser: "sujeitos" somos. Ligados a qual regime, submetidos a qual norma?
 +      * d) A osmose recíproca: Metafísica — Experiência.
 +        * —  o esforço perpetuamente requerido para manter sobre o ser a atenção do espírito, além das aparências.
 +        * —  a metafísica está sempre a "reviver", a re-imergir na existência fenomenal: trata-se de assegurar a fidelidade do espírito a uma verdade sempre ameaçada em nós.
 +        * —  vivificar as fórmulas mesmas, moedas estereotipadas, relacionando-as ao Capital fundiário, ao ser laborioso cuja presença em nós é o verdadeiro fato primitivo, pressuposto a toda metafísica.
 +        * —  uma tal "filosofia", como apetite de sabedoria, coincide com uma decisão pessoal de conformar-se à significação do universo.
 +        * —  situar a metafísica como estrutura do saber humano é fazer justiça a uma exigência científica de progresso; e seguir o homem numa direção onde se torna evidente que não se saberia pará-lo sem frustrá-lo de uma necessidade tão natural quanto o Pão.
 +        * —  as diversas ciências, ao reivindicarem sua autonomia, rendem à metafísica um grande serviço de libertação e de autenticidade reencontrada.
 +        * —  a experiência nutre a metafísica, e esta dá um sentido à experiência de que vive.
 +    * VI. OS LIMITES DE UMA COMPETÊNCIA
 +      * No princípio da questão: choque do espanto, existência de uma causa a descobrir! No termo da questão: a causa apreendida, a coisa sendo sabida, o assunto criticamente julgado. Para tanto, teve-se de deixar:
 +        * 1.  a matéria individual, para apegar-se à substância-móvel como tal (Física).
 +        * 2.  a substância cambiante, para apegar-se ao só aspecto quântico (Matemática).
 +        * 3.  finalmente deixar tudo cair para não mais considerar em tudo e por toda parte senão essa formalidade muito concreta: a existência, como tal, em tudo e por toda parte. A entrada em metafísica só se abre a esse nível. Um desprendimento menor a bloqueia, e é em vão que então emprestando o nome, mas faltando a coisa, se acreditaria forçar a passagem. A ilusão está aí, de tantas pseudo-metafísicas... paródias ridículas da exigência científica. Falta de estudar pura e simplesmente "o ser", elas se perdem em outros terrenos... Posta a ponto e abertura do diafragma vão juntas, — acopladas por assim dizer segundo um procedimento ao mesmo tempo seletivo e objetivo, que é o processo científico.
 +      * Consequências práticas: relativamente à omni-competência do filósofo. Ela depende de condições às quais não pode se subtrair, às quais não deve renunciar. Solicitações constantes, extra-filosóficas, tendendo a fazê-lo deixar seu eixo, e a impor-lhe desvios interessados. Degradação possível do sistema em sistematização, paralelamente àquela do Estado em estatalização, — este se esforçando em fazer degenerar a filosofia em justificação de sua política (ou inversamente, a oposição procurando fazer passar por a sabedoria mesma o que é talvez uma opção racional entre outras). Perigo: absolutizações prematuras.
 +      * É a esse perigo que se oporá a Fenomenologia: fazendo justiça a todos os fenômenos de existência, examinando todas as formas, — assim relativizadas uma pela outra, — acolhendo como manifestações da realidade todas as aparências, tomando a sério para analisar todos os gêneros de questões que sua variedade faz pôr sucessivamente (em que lugar? em que momento? etc.). A sabedoria é interessar-se primeiro por tudo-o-que-se-passa. //Accidit quod est//: nada existe de fato, que primeiro não aconteça.
 +      * É portanto aí que se aborda a prospecção da existência. A Entrada na Metafísica se faz por essa abertura.
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 +{{tag>Gaboriau}}
  
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