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| + | ====== Sentimentos incorporados ====== | ||
| + | //FUCHS, Thomas. Verkörperte Gefühle: zur Phänomenologie von Affektivität und Interaffektivität. Erste Auflage, Originalausgabe ed. Berlin: Suhrkamp, 2024.// | ||
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| + | **Introdução: | ||
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| + | 1. Os sentimentos apresentam uma ambiguidade fundamental, | ||
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| + | 2. Na cultura contemporânea, | ||
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| + | 3. A invocação do sentimento como um oráculo interior encerra o diálogo com quem não experimenta a mesma coisa, pois transforma a concordância afetiva em condição da comunicação e impede que a divergência seja elaborada em um espaço comum de razões. | ||
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| + | 4. A absolutização dos sentimentos decorre de sua interiorização, | ||
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| + | 5. A privatização e a subjetivação dos sentimentos remontam ao desencantamento moderno do cosmos, pelo qual a interpretação científico-natural transferiu progressivamente as experiências qualitativas e afetivas para o interior do sujeito e reduziu o mundo exterior a uma realidade física quantificável, | ||
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| + | 6. Com o progressivo abandono do conceito de alma, os sentimentos perderam seu lugar teórico e foram reinterpretados pela psicologia das emoções como avaliações cognitivas de estímulos externos eventualmente acompanhadas de sensações fisiológicas, | ||
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| + | 7. Uma compreensão fundada na fenomenologia do corpo vivido e no paradigma da corporificação reconhece os sentimentos mediante três aspectos inseparáveis: | ||
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| + | **(a) Ser-no-mundo afetivo** | ||
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| + | 1. O ser-no-mundo encontra-se sempre afetivamente modulado, pois sentimentos e tonalidades afetivas abrem um ambiente significativo em correspondência com as qualidades afetivas, os valores e as possibilidades de ação das próprias situações, | ||
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| + | 2. Os sentimentos constituem acontecimentos que atingem e abalam o sujeito a partir da situação vivida, envolvendo tanto o padecimento afetivo quanto uma resposta expressiva ou uma tendência espontânea de ação, de modo que estabelecem uma relação simultaneamente voltada para dentro e para fora e inserem a pessoa em uma dinâmica abrangente que não se reduz a um processo objetivo nem a uma avaliação subjetiva. | ||
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| + | **(b) Corporificação afetiva** | ||
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| + | 1. O padecimento afetivo e sua resposta são mediados pelo corpo vivido como ressonância e expressão, pois medo, raiva e alegria são inseparáveis das sensações de estreitamento ou amplitude, das tensões, excitações e tendências de movimento pelas quais o corpo sente e manifesta os sentimentos em gestos, expressões e ações. | ||
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| + | 2. A ressonância dos sentimentos intencionais repousa sobre uma camada corporal mais básica, constituída pelo sentimento de estar vivo ou vitalidade, que acompanha continuamente a experiência entre bem-estar e mal-estar, disposição e esgotamento, | ||
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| + | 3. O sentimento de estar vivo constitui também um sentimento pré-reflexivo de si, anterior à autocertificação reflexiva, pois a consciência começa como um sentir-se e uma autoafecção corporal que fundamentam o pensamento e a autoconsciência, | ||
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| + | 4. Nas tonalidades afetivas e nos sentimentos existenciais, | ||
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| + | 5. A unidade entre sentir-se corporalmente e ser afetado pela situação encontra uma expressão exemplar no tato, que reúne autoafecção e afecção pelo outro na fronteira do corpo vivido, enquanto o tocar ativo corresponde à tendência de ação dos sentimentos e permite compreender o corpo como mediação entre padecimento e resposta, afecção, expressão e ação. | ||
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| + | **(c) Interafetividade** | ||
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| + | 1. A superação da interiorização dos sentimentos exige reconhecer uma intercorporeidade originária na qual expressões, | ||
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| + | 2. A percepção cotidiana do outro apreende intuitivamente uma pessoa viva e corporificada antes de qualquer dúvida sobre intenções ocultas, de modo que o encontro não se estabelece com um objeto corporal cujos sinais exigiriam inferir um habitante mental escondido no cérebro, tornando o problema filosófico do acesso à vida psíquica alheia um pseudoproblema derivado dessa separação artificial. | ||
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| + | 3. Desde os sentimentos fundamentais de realidade, pertencimento e familiaridade, | ||
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| + | 4. O ser-no-mundo afetivo, a corporificação afetiva e a interafetividade constituem os três aspectos articulados de uma compreensão dos sentimentos que abrange a relação com o mundo, o enraizamento corporal e a dinâmica intersubjetiva. | ||
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| + | 5. Os sentimentos ligam si mesmo, corpo vivido e mundo por meio de uma sintonia pré-reflexiva com a situação, revelando relações, interesses e conflitos e respondendo às qualidades afetivas do ambiente, cuja complementaridade com a experiência subjetiva evidencia o caráter reducionista de uma realidade supostamente neutra e permite reconhecer as relevâncias, | ||
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| + | 6. A afetividade fundamenta a consciência e a experiência de si porque todo vivenciar manifesta inicialmente o processo vital como autoafecção corporal, fazendo do padecimento, | ||
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| + | 7. A anterioridade dessa experiência de ser afetado também fundamenta a intersubjetividade, | ||
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| + | 8. A afetividade confere sentido à vida ao tornar possível a experiência de si, a importância das pessoas e das coisas e o reconhecimento do que merece empenho, de modo que conhecimento e vontade permanecem inseparáveis da participação afetiva no mundo, pois somente aquilo que possui relevância pode ser conhecido e somente aquilo que previamente afeta pode motivar uma resposta e orientar uma ação significativa. | ||
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| + | **Sobre o presente volume** | ||
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| + | 1. A concepção de afetividade corporificada desenvolve-se inicialmente em duas partes de fundamentação e, em uma terceira, mediante análises exemplares de sentimentos e tonalidades afetivas específicos. | ||
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| + | 2. A primeira parte, “Sentimento e corporificação”, | ||
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| + | 3. O capítulo “O sentimento de estar vivo” investiga a camada básica da experiência afetiva em suas manifestações de vitalidade e conatividade, | ||
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| + | 4. A fenomenologia das tonalidades afetivas parte das qualidades afetivas e da ressonância corporal como estruturas fundamentais do espaço afetivo, distingue suas características específicas e as organiza em um círculo segundo suas qualidades de prazer ou desprazer e seus graus de ativação. | ||
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| + | 5. A investigação das emoções intencionais articula uma discussão das principais teorias emocionais a um modelo circular dos sentimentos corporificados, | ||
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| + | 6. O capítulo “Valor e sentimento de valor” examina o estatuto dos valores em um mundo naturalizado e os compreende como formas de significatividade afetiva produzidas na interação corporificada entre os seres vivos e seu ambiente, constituindo fenômenos relacionais e, nesse sentido, qualidades objetivas da relação entre sujeito e mundo. | ||
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| + | 7. A segunda parte investiga diferentes aspectos da interafetividade e da constituição intersubjetiva dos sentimentos. | ||
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| + | 8. O capítulo “Familiaridade e confiança” examina a relação entre o enraizamento corporal originário no mundo e os vínculos de confiança com os outros, compreendendo esses sentimentos existenciais como fundamentos igualmente originários do mundo da vida compartilhado e esclarecendo-os mediante alterações da confiança em condições pós-traumáticas e esquizofrênicas. | ||
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| + | 9. O capítulo “Níveis da empatia” estende o modelo circular dos sentimentos ao encontro intersubjetivo, | ||
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| + | 10. O capítulo “Limites da empatia” investiga a preferência humana por dirigir empatia e simpatia aos integrantes do próprio grupo e a possibilidade de enfraquecê-las ou dissociá-las diante de estranhos, examinando os fatores individuais e grupais dessa dissociação mediante as execuções realizadas pelo Batalhão de Polícia 101 no contexto do extermínio nazista. | ||
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| + | 11. A terceira parte desenvolve uma fenomenologia do nojo, da vergonha e da culpa, do medo, do inquietante, | ||
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| + | 12. A articulação das análises permite compreender a riqueza da corporificação e da intersubjetividade dos sentimentos, | ||
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| + | 13. A revisão e a articulação dos trabalhos reunidos conferem unidade ao conjunto, registrando-se o reconhecimento às contribuições de colaboradores, | ||
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