estudos:franck:problema-da-carne-1986
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| + | ====== PROBLEMA DA CARNE E O FIM DA METAFÍSICA (1986) ====== | ||
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| + | * Instauração da questão do ser pela analítica do Dasein e exigência de superar o primado do ente | ||
| + | * A colocação da questão do ser segundo o fio condutor de uma analítica do Dasein, cuja essência consiste na própria compreensão ontológica, | ||
| + | * Essa mudança implica a destruição do conceito tradicional de homem enquanto animal racional, pois a definição antropológica herdada deixa de ser suficiente para sustentar a tarefa ontológica que se abre quando a compreensão do ser é tomada como tema e condição. | ||
| + | * O fracasso de Sein und Zeit diante do problema da carne impõe, ao término do percurso, a explicitação de uma necessidade historiale, na qual o acabamento da metafísica torna necessária uma reflexão sobre a encarnação. | ||
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| + | * Identificação da metafísica como determinação subjetiva do ser do ente e definição historial de seu término | ||
| + | * A filosofia compreende o ser como presença constante, isto é, como ousia e parousia, e essa presença, enquanto fonte de todo aparecer, funda o ente como seu hypokeimenon, | ||
| + | * Sob a condição de não restringir sujeito ao sentido moderno de egoticidade, | ||
| + | * A expressão fim da filosofia designa então o instante historial em que as possibilidades essenciais da metafísica se esgotam, pois a subjetividade é absolutizada e, com isso, o horizonte que determina o ser como presença alcança sua saturação. | ||
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| + | * Articulação heideggeriana entre Hegel e Nietzsche como dupla absolutização da subjetividade sob o esquema animal racional | ||
| + | * No curso de 1940 sobre o niilismo europeu, ao tratar do fim da metafísica, | ||
| + | * A absolutidade da subjetividade hegeliana é caracterizada como unidade do querer e do saber, isto é, como espírito, ao passo que a absolutidade da subjetividade nietzschiana é caracterizada como carne, pulsões e afetos, isto é, como vontade de potência. | ||
| + | * A essência do homem desempenha papéis distintos nessas duas figuras da subjetividade incondicionada, | ||
| + | * Consideradas em sua unidade de essência historial, as duas metafísicas levam racionalidade e animalidade à validade absoluta, de modo que Nietzsche completa Hegel ao elevar à subjetividade absoluta o componente animal que Hegel reabsorve no espírito, enquanto Hegel completa Nietzsche ao elevar à subjetividade absoluta o componente racional que Nietzsche submete à carne. | ||
| + | * A divergência entre ambos se concentra na ênfase, pois Hegel acentua a racionalidade e assume a filosofia como empreendimento levado adiante com radicalidade, | ||
| + | * A absolutização da determinação subjetiva do ser do ente, realizada no horizonte da definição do homem como zoon logon ekhon, inaugura o acabamento da metafísica. | ||
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| + | * Dificuldades hermenêuticas da construção historiale e questionamento do lugar de Nietzsche na configuração final | ||
| + | * A construção historial descrita não se estabelece sem dificuldades hermenêuticas cuja carga é decisiva, pois dizem respeito, para além do termo, ao destino da ontoteologia como totalidade. | ||
| + | * Mesmo abstraindo problemas relativos a Hegel, que entende a certeza sensível como momento da vida do espírito e ordena a carne ao tempo vulgar aparelhado a esse mesmo espírito, a figura do fim da filosofia sob a dupla forma indicada requer que Nietzsche jamais tenha posto em causa o ser do homem. | ||
| + | * Contudo, apesar de traços de humanismo eventualmente detectáveis, | ||
| + | * O próprio Heidegger reconhece que o nome além-do-homem não visa um ser fabuloso, mas o homem que excede o que foi até então, cujo Dasein e relação ao ser permanecem determinados pelo platonismo sob algum de seus aspectos. | ||
| + | * A tese de que o homem é ponte e não fim torna, por consequência, | ||
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| + | * Redução heideggeriana de encarnação a animalidade e contestação a partir da grande razão da carne em Zaratustra | ||
| + | * A conjunção de Hegel e Nietzsche numa mesma época depende de uma identificação prévia da encarnação com a animalidade e desta com a sensibilidade em sentido platônico. | ||
| + | * Embora um lado do discurso de Nietzsche possa induzir tal identificação, | ||
| + | * Ao ser pensada como grande razão, a carne deixa de ser sensível no sentido requerido pela identificação platônica, e o além-do-homem, | ||
| + | * A instauração do fim da filosofia como absolutização da subjetividade animal e racional depende então de uma interpretação do conceito dionisíaco de carne, interpretação cuja insuficiência é pressentida quando se observa que a inversão nietzschiana do platonismo não é simples revolução hierárquica nem prelúdio imediato a uma nova experiência do sensível. | ||
| + | * A observação de que a animalidade invertida não vale mais como pura sensibilidade, | ||
| + | * Uma vez que a animalidade é compreendida desde a carne, torna-se impossível decidir o fim da metafísica sem interrogar a carne, pois a chave interpretativa deixa de ser estável. | ||
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| + | * Insuficiência do esquema da unidade racionalidade-animalidade e necessidade de circunscrever a constelação final a partir da carne | ||
| + | * Ao compreender a absolutização da subjetividade como unidade sistematicamente fechada de racionalidade e animalidade, | ||
| + | * O agravamento do problema da carne atinge tanto a analítica existencial do Dasein quanto a analítica intencional da consciência, | ||
| + | * A morfologia da vontade de potência também conduz a essa necessidade, | ||
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| + | * Exigências para uma pensamento da encarnação e necessidade de uma mutação da linguagem | ||
| + | * A tarefa requer, em primeiro lugar, que a essência do homem deixe de ser caracterizada segundo a perspectiva platônica que opõe corpo sensível e alma inteligível, | ||
| + | * A razão dessa exigência é que a subjetividade é apenas modalidade da presença, isto é, da parousia, enquanto a existência é sempre temporal, ao passo que a carne se encarna sem ser nem tempo, o que rompe o quadro no qual ser e tempo permanecem co-implicados. | ||
| + | * Em segundo lugar, a tarefa requer uma mutação da língua, pois, se a temporalidade é sentido do ser, então ela é ipso facto sentido de todo a priori, e a retratação do parágrafo 70 de Sein und Zeit significa que não há a priori possível para um espaço destemporalizado ou para uma carne que se encarna sem ser nem tempo. | ||
| + | * A carne e o espaço são refratários ao discurso filosófico cujo a priori é a própria condição de recurso, de modo que o problema da encarnação se confunde desde o início com o problema de uma língua cuja marca metafísica possa ser obliterada. | ||
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| + | * Necessidade de atestar a emergência originária do problema da carne na aurora do destino historial | ||
| + | * A autenticação do problema da carne não se esgota em assegurar sua posição no fim da metafísica, | ||
| + | * A fulguração inicial é procurada ali onde os gregos deixaram transparecer a mão, pois a mão aparece como lugar em que o problema pode ser dito antes do longo silêncio recolhido por Sein und Zeit. | ||
| + | * A mais antiga palavra da história do ser, a de Anaximandro, | ||
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| + | * Interpretação de to khreon como nome da presença e como traço originário da diferença entre ser e ente | ||
| + | * O caminho heideggeriano no ensaio sobre a palavra de Anaximandro atinge seu cume na interpretação de to khreon, após elucidar que a palavra fala do ser do ente e que a segunda frase nomeia o presente, isto é, das Anwesende, no modo de sua presença, isto é, Anwesen, esclarecendo o ser-em-presença desde o ente presente. | ||
| + | * A primeira frase reduzida a kata to khreon deve, inversamente, | ||
| + | * Nessa determinação, | ||
| + | * Apenas o diferenciado se descobre, o presente e a presença, mas não enquanto diferenciado, | ||
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| + | * Condição linguística da possibilidade de pensar a diferença e caráter vestigial de to khreon | ||
| + | * A diferença entre ser e ente não poderia ser pensada se não tivesse deixado traço na língua e na palavra primitivas do ser, isto é, se não tivesse, de alguma maneira, se desvelado no próprio dizer originário. | ||
| + | * Isso não implica que a diferença tenha aparecido como diferença, mas que o vínculo com o presente pode manifestar-se na presença enquanto tal, de modo que a presença advém à palavra como esse vínculo. | ||
| + | * To khreon, nomeando esse único brilho do ser, conserva tanto a possibilidade da metafísica como esquecimento quanto a possibilidade de uma pensamento voltada à verdade do ser, e, assim, reconduz à cisão inaugural da história do ser. | ||
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| + | * Recondução de to khreon à mão e determinação do ser como entrega que guarda | ||
| + | * A tradução usual de to khreon por necessidade é afastada ao reconduzir o termo à língua de proveniência, | ||
| + | * Khrao significa tomar algo na mão, aproximar-se dele, prestar-lhe a mão, e significa também pôr na mão, devolver em mão própria e, assim, entregar em mão própria, confiando a uma pertença. | ||
| + | * Essa entrega é tal que mantém na mão, ao mesmo tempo, a confiança e o que com ela é confiado, de modo que o entregar não é simples transferência, | ||
| + | * To khreon é interpretado como entrega em mão própria da presença, entrega que entrega a presença ao presente e, assim, mantém em mão, isto é, guarda na presença, o presente enquanto tal. | ||
| + | * A tradução por der Brauch, entendida como manutenção, | ||
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| + | * Autenticação do problema da carne pela ressonância da mão no primeiro nome do ser e abertura de uma pensamento outra que metafísica | ||
| + | * O fato de a mão ressoar na única palavra que conserva traço e memória da diferença e de atravessar a conceitualidade de Sein und Zeit como rememoração tardia atesta a autenticidade do problema da carne, pois vincula o problema ao ponto originário em que o ser advém à língua. | ||
| + | * A mão pela qual o ser é entregue ao ente apropria a diferença a si mesma e, com isso, abre o espaço de uma pensamento que não se reduz ao esquema metafísico da presença, já que a diferença é guardada no gesto de entrega. | ||
| + | * Se a mão ressoa através do primeiro nome do ser, então o lugar em que o ser e sua essência se levam à linguagem exige ser construído, | ||
| + | * Aparecendo de modo velado tanto na origem da história do ser quanto no limiar de um outro começo, a carne, enquanto guarda da presença, oferece-se como o sítio próprio em que o pensamento deve buscar seu desdobramento. | ||
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| + | * Observação final sobre Sein und Zeit como ascensão interrompida e indicação de um faltante | ||
| + | * A anotação de que falta algo a Sein und Zeit se articula à imagem de uma ascensão inédita, na qual a escarpa e o desconhecido impõem precipícios e a possibilidade de desvio. | ||
| + | * A queda eventual do caminhante é descrita como ocorrência que pode passar despercebida ao leitor, uma vez que a paginação prossegue, e essa continuidade formal encobre a ruptura efetiva do percurso. | ||
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