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estudos:franck:encarnacao-2014

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estudos:franck:encarnacao-2014 [24/01/2026 13:48] – created mccastroestudos:franck:encarnacao-2014 [10/02/2026 19:34] (current) – external edit 127.0.0.1
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 +====== ENCARNAÇÃO DE UM OUTRO CORPO (2014) ======
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 +Franck2014
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 +===== 1. Estratificação da constituição do mundo objetivo ======
 +  * A análise da alteridade é situada programaticamente no interior de uma estratificação dos níveis constitutivos do sentido do mundo objetivo.
 +    * O primeiro nível é a constituição do outro ego, entendido como ego excluído da concreção própria do ego primordial.
 +    * A partir dessa constituição primeira, ocorre uma superadição universal de sentido pela qual o mundo primordial adquire o sentido de mundo objetivo idêntico para todos.
 +  * O primeiro não-eu é determinado como o outro ego.
 +    * A objetividade do mundo deriva de uma comunidade monádica intencionalmente harmoniosa.
 +  * A possibilidade da experiência do outro é assim estabelecida como condição da possibilidade da objetividade em geral.
 +
 +===== 2. Alteridade como núcleo da experiência ======
 +  * A experiência do outro é interrogada quanto ao seu sentido próprio enquanto experiência de alteridade.
 +    * A experiência não é compreendida como mera autodoação, mas como movimento essencial em direção ao outro.
 +  * A constituição do outro implica que nem todos os modos da consciência sejam modos de autoconsciência.
 +    * Existem intencionalidades constitutivas que excedem a esfera do próprio.
 +  * A tarefa inicial consiste em descrever a intencionalidade específica da experiência do outro.
 +    * Husserl reconhece explicitamente as dificuldades fenomenológicas dessa descrição.
 +
 +===== 3. Impossibilidade de uma intuição originária do outro ======
 +  * A experiência é definida como consciência originária que doa o objeto em sua ipseidade, na carne.
 +    * No caso do outro, há uma presença encarnada diante de mim.
 +  * Essa encarnação não implica doação imediata do ser do outro.
 +    * Se o outro fosse dado originariamente em si mesmo, ele seria dado do mesmo modo que eu me dou a mim mesmo.
 +    * O outro tornar-se-ia então um momento da minha própria essência.
 +  * Conclui-se que não há intuição originária do outro.
 +    * Essa definição negativa parece contradizer o princípio fenomenológico da intuição originária.
 +  * Contudo, o sentido do outro deve ser fenomenologicamente acessível.
 +    * Caso contrário, a fenomenologia teria de renunciar a si mesma.
 +
 +===== 4. Mediação intencional e conceito de apresentação ======
 +  * Husserl introduz a necessidade de uma mediação intencional específica.
 +    * Essa mediação parte do mundo primordial e faz comparecer um ali que nunca pode tornar-se um aqui.
 +  * Essa estrutura é denominada apresentação.
 +    * Trata-se de um fazer-co-presente que não se converte em presença originária.
 +  * A apresentação não é exclusiva da experiência do outro.
 +    * Ela já opera na percepção das coisas transcendentes.
 +  * Na percepção do corpo, distingue-se apresentação impressionante e copresentação.
 +    * O corpo é dado como presente em presença encarnada, embora apenas um de seus lados seja originariamente apresentado.
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 +===== 5. Dupla originalidade da doação perceptiva ======
 +  * Torna-se necessário distinguir dois tipos de originalidade.
 +    * Originalidade primária, correspondente ao aparecer impressionante.
 +    * Originalidade secundária, correspondente ao não-aparecente copresente.
 +  * Tudo o que é copresente pode, em princípio, tornar-se presente.
 +    * Os lados ocultos da coisa podem ser desvelados.
 +  * Contudo, a doação adequada da coisa permanece uma ideia.
 +    * A presença plena é uma possibilidade jurídica, não fática.
 +  * A carne é condição da possibilidade da coisa.
 +    * Na esfera egológica, a carne é sempre incompletamente constituída.
 +    * Por isso, apresentação e percepção são sempre alteradas.
 +
 +===== 6. Singularidade da apresentação do outro ======
 +  * Diferentemente da coisa, a apresentação do outro nunca pode converter-se em apresentação originária.
 +  * Coloca-se então a questão decisiva.
 +    * Como a apresentação de outra esfera originária pode ser motivada na minha esfera originária?
 +  * O problema é reconhecido como essencialmente temporal.
 +    * A análise do outro exige esclarecer o entrelaçamento entre temporalidade e alteridade.
 +  * A apresentação pertence à classe das re-presentações.
 +    * Ela remete estruturalmente a uma apresentação.
 +  * No caso do outro, essa referência não pode ser assimilada à consciência de signo ou de imagem.
 +    * O outro não é percebido como imagem nem como simples representante.
 +
 +===== 7. Rejeição da analogia imagética ======
 +  * Na consciência de imagem, um objeto presente funciona como suporte analógico para outro.
 +  * Identificar a consciência do outro com a consciência de imagem implicaria:
 +    * tomar minhas vivências como bases analógicas das vivências do outro,
 +    * dissolver a distinção entre eu e outro.
 +  * Tal identificação contradiz a descrição fenomenológica efetiva.
 +    * A consciência do outro não é nem puramente apresentada nem puramente re-presentada.
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 +===== 8. Apresentação do outro e apresentação de si ======
 +  * A apresentação do outro deve estar entrelaçada com uma apresentação de mim mesmo.
 +    * Mais precisamente, com a apresentação da minha própria carne.
 +  * Além disso, ela deve estar entrelaçada com a apresentação do corpo do outro como corpo próprio.
 +  * Husserl descreve essa operação como transferência aperceptiva ou apreensão analógica.
 +    * Um corpo aparece no mundo primordial como transcendência imanente.
 +    * Esse corpo não pode ser originariamente constituído como carne.
 +  * O sentido de carne lhe é atribuído por transferência a partir da minha própria carne.
 +    * Essa transferência exclui qualquer doação perceptiva direta das determinações específicas da carne alheia.
 +  * A base motivacional dessa transferência é a semelhança.
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 +===== 9. Dificuldades estruturais da constituição do alter ego ======
 +  * Diversas dificuldades concentram-se nessa descrição.
 +    * A possibilidade de aparecer um corpo ali pressupõe a ausência possível do outro.
 +    * Tal suposição contradiz a estrutura horizonal da experiência, que implica sempre outros.
 +  * A constituição do ali pressupõe um aqui e um espaço homogêneo.
 +    * A constituição desse espaço requer a incorporação da carne.
 +    * Essa incorporação não é possível na esfera egológica do próprio.
 +  * A oposição aqui ali pressupõe simultaneidade.
 +    * Isso implica uma temporalidade comum, objetiva e intersubjetiva.
 +  * A semelhança entre corpos, entendidos como extensões, não permite diferenciar qualitativamente.
 +  * Concentra-se assim a aporia fundamental.
 +    * A constituição do alter ego parece pressupor aquilo que pretende constituir.
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 +===== 10. Analogia, semelhança e sínteses passivas ======
 +  * Husserl retoma a análise da analogia e da semelhança na constituição dos objetos.
 +    * Toda experiência cotidiana envolve uma transferência analógica de sentido.
 +  * Essa transferência apoia-se em sínteses passivas de associação.
 +    * O sentido previamente instituído é reativado diante de um novo caso parcialmente coincidente.
 +  * A consciência de semelhança resulta de um recobrimento de sentido sem lacuna.
 +  * A analogia implica um intervalo ou distância.
 +    * Um dos termos apresenta uma lacuna em relação ao outro.
 +  * Tanto analogia quanto semelhança pressupõem afecção sensível passiva.
 +    * Elas se enraízam na associação por afinidade e estranheza.
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 +===== 11. Estranheza, temporalidade e pressuposição da alteridade ======
 +  * A associação implica necessariamente a noção de estranheza.
 +  * Coloca-se a questão de saber se a estranheza é pensável sem o outro.
 +  * A alteridade parece já operar nos níveis mais elementares da constituição.
 +  * A forma das sínteses passivas é a temporalidade.
 +    * A unidade do agora e do não-agora precede toda unificação ulterior.
 +  * A análise do outro remete assim à unidade originária de apresentação e re-presentação.
 +    * A alteridade é inscrita na própria estrutura temporal da experiência.
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 +===== 12. Necessidade de uma analítica da encarnação ======
 +  * As dificuldades encontradas remetem todas à relação entre carne e corpo.
 +  * A constituição do alter ego exige uma análise positiva da encarnação.
 +  * A carne não pode ser compreendida apenas como corpo.
 +    * Nem como simples suporte funcional da consciência.
 +  * A analítica da encarnação é apresentada como condição de possibilidade:
 +    * da experiência do outro,
 +    * da objetividade do mundo,
 +    * e da própria fenomenologia.
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 +{{tag>Franck}}