estudos:foucault:tempo
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| + | ====== Tempo ====== | ||
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| + | FBAE | ||
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| + | * I. O problema do tempo | ||
| + | * 1. O tempo na patologia mental | ||
| + | * 2. A raiz comum da história e da temporalidade em nível existencial | ||
| + | |||
| + | * II. Análise de dois casos de esquizofrenia | ||
| + | * 1. O caso Georg (Roland Kuhn) | ||
| + | * 2. Uma análise de Alfred Storch | ||
| + | |||
| + | * III. Descrição fenomenológica e análise existencial | ||
| + | * 1. A experiência patológica do tempo no quadro de uma descrição puramente fenomenológica | ||
| + | * 2. O caso Rudolf R. (Roland Kuhn) | ||
| + | * 3. A psicoterapia como verificação do projeto de mundo | ||
| + | |||
| + | * O problema do tempo, na patologia mental, apresenta-se sob um duplo aspecto, pois constitui ao mesmo tempo a trama da história biográfica do sujeito e o significado vivido do passado e do futuro, isto é, o modo como o sujeito se insere no presente. | ||
| + | * Um sintoma como a fobia mostra exemplarmente essa duplicidade, | ||
| + | * A psicanálise reconduz a fobia a um evento traumático infantil e a uma angústia real que se prolonga ao longo da vida por meio de substituições simbólicas. | ||
| + | * Contudo, a angústia fóbica não é vivida como simples repetição do passado, mas como relação imediata com um futuro ameaçador que se impõe no presente. | ||
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| + | * Na agorafobia, o espaço vazio manifesta diretamente o futuro como possibilidade angustiante que deve ser assumida sem garantias. | ||
| + | * O espaço aberto exige uma antecipação decisiva do que ainda não está dado, expondo o sujeito a um futuro irrecusável. | ||
| + | * Ao contrário, o espaço cheio e delimitado permite um avanço progressivo, | ||
| + | * O espaço vazio impede qualquer ocultamento do futuro e revela a recusa fóbica de uma temporalidade aberta. | ||
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| + | * Outras fobias revelam a mesma estrutura temporal fundamental. | ||
| + | * Na fobia de animais, o medo não se dirige ao objeto em si, mas a um perigo potencial e indeterminado que nele se anuncia. | ||
| + | * Na fobia da sujeira, o temor não é do sujo enquanto tal, mas da impossibilidade de garantir sua eliminação futura. | ||
| + | * O futuro aparece como incapaz de reparar o presente ou apagar o passado, instaurando a angústia do irreparável, | ||
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| + | * A fobia revela assim uma unidade de estilo entre história e temporalidade. | ||
| + | * A história individual se desenvolve como repetição estereotipada de uma mesma angústia. | ||
| + | * A temporalidade, | ||
| + | * História e tempo convergem para uma tendência à imobilidade, | ||
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| + | * O problema fundamental consiste em encontrar o ponto em que historicidade e temporalidade se enraízam em um mesmo movimento originário da existência. | ||
| + | * Freud tentou localizar essa origem na repetição e na cristalização do passado traumático. | ||
| + | * A perturbação da temporalidade seria, segundo ele, efeito da interrupção da história. | ||
| + | * Essa interrupção remeteria a um conflito metafísico entre instinto de vida e instinto de morte. | ||
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| + | * Eugène Minkowski, em oposição, atribui primazia às perturbações da temporalidade. | ||
| + | * Para ele, não é a repetição histórica que engendra a patologia, mas a falência do impulso temporal. | ||
| + | * O passado deixa de garantir o futuro, que se torna inteiramente aberto à catástrofe. | ||
| + | * O tempo não flui mais, acumula-se como ameaça constante sobre o presente. | ||
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| + | * Apesar de suas divergências, | ||
| + | * Ambos explicam história e temporalidade a partir de um nível vital pré-humano. | ||
| + | * Ambos afastam-se da existência concreta como lugar originário do sentido temporal. | ||
| + | * A análise existencial propõe reconduzir história e temporalidade ao próprio modo de ser do homem. | ||
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| + | * A descrição fenomenológica visa libertar o tempo das mitologias metafísicas que o alienam. | ||
| + | * O significado vivido do tempo indica a unidade estrutural da existência. | ||
| + | * História e temporalidade definem-se desde o início em um mesmo estilo existencial. | ||
| + | * A descrição rigorosa prepara, mas não substitui, a análise existencial. | ||
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| + | * O caso Georg, analisado por Roland Kuhn, ilustra exemplarmente essa unidade de sentido. | ||
| + | * Georg, jovem diagnosticado com hebefrenia, apresenta uma história marcada pela ilegitimidade, | ||
| + | * Sua experiência delirante articula mito, tempo e história numa mesma configuração. | ||
| + | * A figura de Ifigênia encarna um passado ideal de fidelidade e comunidade impossível de ser integrado ao presente. | ||
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| + | * A dissociação entre presente e passado estrutura a existência de Georg. | ||
| + | * O presente aparece como caos dispersivo, fragmentado e sem continuidade. | ||
| + | * O passado idealizado fecha-se como comunidade perdida e irrecuperável. | ||
| + | * O delírio tenta restaurar uma unidade temporal por meio do mito, sem jamais consegui-la. | ||
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| + | * A psiquiatria tradicional separaria artificialmente tempo biográfico e tempo vivido. | ||
| + | * Contudo, ambos exprimem um mesmo significado existencial. | ||
| + | * A história de Georg e seu delírio remetem a uma forma comum de temporalidade radical. | ||
| + | * Apenas um pensamento objetivante pode dissociar aquilo que é unido no sentido. | ||
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| + | * A unidade de história e temporalidade não é harmônica, mas tensional. | ||
| + | * Ela se estrutura como oposição entre um tempo transitivo e um tempo intransitivo. | ||
| + | * O tempo do mundo envelhece, acumula marcas e anuncia o futuro. | ||
| + | * O tempo da consciência flui como retenção e protensão, segundo a análise de Edmund Husserl. | ||
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| + | * A experiência patológica altera a correlação entre instante e campo de presença. | ||
| + | * Essa alteração pode ser observada no caso analisado por Alfred Storch. | ||
| + | * O paciente vive crises nas quais o tempo do mundo se imobiliza ou se totaliza. | ||
| + | * O presente perde sua função mediadora entre passado e futuro. | ||
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| + | * Nas crises descritas por Storch, emergem figuras temporais extremas. | ||
| + | * O mundo da luz corresponde à totalização do futuro e à supressão do devir. | ||
| + | * O mundo da queda exprime a acumulação culpável de um passado que não passa. | ||
| + | * A experiência do fim do mundo, Weltuntergang, | ||
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| + | * A descrição fenomenológica desses distúrbios não basta para fundamentá-los. | ||
| + | * Ela esclarece estruturas, mas não alcança seu sentido existencial. | ||
| + | * A análise existencial define o patológico como um modo de existência. | ||
| + | * Cada perturbação temporal expressa um projeto de mundo contraditório. | ||
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| + | * A análise do caso Rudolf R., apresentada por Roland Kuhn, confirma essa perspectiva. | ||
| + | * A vida de Rudolf é marcada por uma relação não elaborada com a morte da mãe. | ||
| + | * A repetição de cenas de cadáveres atravessa sua história biográfica. | ||
| + | * O passado não se transforma em essência, mas persiste como quase-presença. | ||
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| + | * A ausência do trabalho do luto impede a separação entre presença e essência. | ||
| + | * O passado persegue o presente como ameaça interna. | ||
| + | * Toda presença carrega a possibilidade latente do cadáver. | ||
| + | * O tempo perde sua função de mediação e torna-se ambíguo. | ||
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| + | * O crime aparece como tentativa de restaurar uma ordem temporal impossível. | ||
| + | * O assassinato visa separar artificialmente vida e morte, presente e passado. | ||
| + | * O gesto homicida busca dominar o passado ao invés de integrá-lo. | ||
| + | * O projeto fundamental de Rudolf consiste em conservar o passado como presença corporal. | ||
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| + | * A psicoterapia permite verificar e transformar esse projeto existencial. | ||
| + | * Ela promove a interiorização do passado por meio da memória. | ||
| + | * Conduz ao reconhecimento do outro em seu significado essencial. | ||
| + | * A autenticidade do tempo só se realiza na verdade da relação com os outros. | ||
