estudos:figal:heidegger:ontologia-fundamental
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| + | ====== Ontologia Fundamental ====== | ||
| + | //FIGAL, G. Introdução à Martin Heidegger. Tradução: Tr Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2016.// | ||
| + | **A ontologia fundamental: | ||
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| + | **A destruição de Aristóteles** | ||
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| + | * A afirmação de que Ser e tempo, publicado em 1927, representa uma crise na filosofia de Heidegger não é, à primeira vista, evidente | ||
| + | * A própria compreensão que Heidegger tem de sua obra confirma essa leitura, como revela a carta ao literato Max Kommerell de 1942, na qual afirma que Ser e tempo foi um acidente, e a carta a Elisabeth Blochmann de 1935, em que fala de uma pasta intitulada Crítica a Ser e tempo, reconhecendo a grande imprudência subjacente ao livro e a necessidade de repor a mesma pergunta de modo mais originário | ||
| + | * A condição fragmentária do livro se comprova independentemente dos testemunhos heideggerianos, | ||
| + | * A publicação foi motivada por razões externas: a proposta da faculdade de filosofia de Marburgo, indicando Heidegger como catedrático sucessor de Nicolai Hartmann, fora recusada pelo Ministério de Berlim por falta de publicações desde a tese de habilitação, | ||
| + | * A pressão externa sob a qual nasceu Ser e tempo confere-lhe caráter de projeto programático, | ||
| + | * Duas seções da segunda parte são reconstituíveis: | ||
| + | * O fracasso do projeto sistemático não se deve a motivações externas, mas à impossibilidade de conduzi-lo tal como planejado, o que exige considerar o esquema da obra apresentado no parágrafo 8 de Ser e tempo, dividido em duas partes com três seções cada | ||
| + | * A primeira parte trata da interpretação do ser-aí na temporalidade ([[lx> | ||
| + | * A segunda parte trata dos traços fundamentais de uma destruição fenomenológica da história da ontologia a partir do fio condutor da problemática da temporalidade do ser ([[lx> | ||
| + | * O discurso do ser-aí na primeira parte do projeto, associado ao tempo e remetendo ao programa do conhecimento histórico, já é familiar após a análise do projeto sobre Aristóteles | ||
| + | * O quinto capítulo do livro, intitulado Temporalidade e historicidade, | ||
| + | * A distinção heideggeriana entre tempo, temporalidade e temporalidade do ser aparece esclarecida nas lições sobre os problemas fundamentais da fenomenologia, | ||
| + | * A intenção sistemática dessas diferenciações permanece obscura numa primeira análise, mas revela que o empreendimento heideggeriano já não visa realizar a filosofia como hermenêutica da faticidade, mas antes uma análise fundamental do ser-aí de caráter preparatório, | ||
| + | * A distinção entre a análise preparatória fundamental do ser-aí e a destruição tem consequências sobre a própria destruição, | ||
| + | * O tratamento aristotélico do tempo, na Física (livro IV), é caracterizado agora como linha divisória da base fenomênica e dos limites da ontologia antiga, dissipando-se a ênfase anterior sobre o filósofo grego, que cai vítima da destruição | ||
| + | * A ironia do destino consiste em que a mudança na consideração heideggeriana de Aristóteles se realiza justamente graças aos pressupostos que a própria filosofia aristotélica forneceu a Heidegger, cujos primeiros traços já se encontram no projeto sobre Aristóteles | ||
| + | * As remissões à interpretação aristotélica seguem fielmente a direção indicada pela noção de destruição, | ||
| + | * As testemunhas da expressão e descrição do ser-aí encontram-se sobretudo no sexto livro da Ética a Nicômaco, cujas afirmações iniciais enumeram cinco disposições pelas quais a alma diz o verdadeiro: arte, ciência, sabedoria prática, sabedoria e intelecto, distintas do juízo e da opinião, sujeitos a erro | ||
| + | * A tradução heideggeriana dessa passagem estabelece cinco modos pelos quais a alma conhece e custodia o ente enquanto não velado: o agir técnico-produtivo, | ||
| + | * As traduções heideggerianas, | ||
| + | * A distinção heideggeriana entre tomar e portar o ente como desvelado em custódia, de um lado, e afirmar ou negar, de outro, separa o modo de efetivação do afirmar e negar daquilo que primariamente não se realiza pela linguagem, distinção retomada em Ser e tempo na discussão da inautenticidade | ||
| + | * O interesse principal de Heidegger recai sobre a inteligência prática ([[lx> | ||
| + | * A phrónesis, segundo Aristóteles, | ||
| + | * A compreensão da phrónesis caracteriza-se pela presença imediata do sentido das reflexões e decisões, distinta do conhecimento adquirido pela experiência, | ||
| + | * A estratégia aristotélica na Ética a Nicômaco consiste em valorizar o saber que guia o agir cotidiano de modo a evidenciar sua correspondência com o saber filosófico, | ||
| + | * O saber filosófico, | ||
| + | * A comunhão entre phrónesis e sophia não se deve apenas à presença do noûs em ambas, mas também a um modo de realização semelhante: a phrónesis lida com ações circunscritas e concluídas, | ||
| + | * A intuição heideggeriana de que phrónesis e sophia partilham o caráter comum de movimento (motilidade) constitui, para Heidegger, a nova posição problemática fundamental da filosofia aristotélica, | ||
| + | * A distinção aristotélica entre filosofia prática e teorética, apesar dos elementos comuns entre phrónesis e sophia, é literalmente transformada por Heidegger, que caracteriza a phrónesis como custódia autêntica do em-vista-de-que da prática cotidiana da vida humana, ou seja, como autocompreensão | ||
| + | * A demonstração heideggeriana de que o próprio Aristóteles, | ||
| + | * A citação afirma que, na prudência do agir prático, a vida está concretamente em relação a um com-que, cujo ser é determinado apenas formalmente, | ||
| + | * O saber prático é determinado por Aristóteles apenas negativamente, | ||
| + | * A ordem superior atribuída por Aristóteles à sophia em relação à phrónesis se justifica porque na sophia se revela de modo puro e cumprido o que na phrónesis permanece incompleto: a percepção de algo que permanece | ||
| + | * Aristóteles, | ||
| + | * O movimento retrospectivo desse pensamento define o programa da destruição, | ||
| + | * A hermenêutica historicamente destrutiva da faticidade transforma-se em análise fundamental do ser-aí não filosófico ou pré-ontológico, | ||
| + | * A análise fundamental do ser-aí não filosófico constitui, do ponto de vista da história dos efeitos, a elaboração heideggeriana de maior repercussão, | ||
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| + | **A análise fundamental do ser-aí** | ||
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| + | * A análise do ser-aí é fundamental por elaborar as estruturas fundamentais do ser-aí, retomando o discurso anterior sobre as estruturas fundamentais da subjetividade ou da vida | ||
| + | * A análise do ser-aí é fundamental também por fundar-se em sua própria condução, realizando-se no próprio ser-aí, que ao realizar-se descobre suas próprias possibilidades como fundamento | ||
| + | * A análise do ser-aí é fundamental por mostrar o fundamento da ciência e da filosofia em geral, dado que as ciências são modos de ser do ser-aí, e a filosofia, desde Aristóteles, | ||
| + | * A análise do ser-aí é fundamental, | ||
| + | * A afirmação heideggeriana, | ||
| + | * A pergunta pelo ser em geral não pode visar apenas reencontrar em toda ontologia tradicional a estrutura do ser-aí, mas exige interrogar os conceitos ontológicos tramandados quanto à sua singularidade ontológica própria, insinuando-se a dúvida sobre se é possível reconduzir a destruição da filosofia tradicional ao início da compreensão que o ser-aí tem do ser; a segunda parte do projeto editorial nunca será publicada | ||
| + | * A estrutura fundamental do ser-aí deve ser estudada antes de se compreender por que o projeto de Ser e tempo não pôde ser completado, mostrando-se que Heidegger tende a inscrever cada instância do ser-aí numa estrutura tripartida, refletindo a tripartição da temporalidade em ter-sido, presente e futuro | ||
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| + | **O ser-aí em um mundo** | ||
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| + | * O ser-aí, enquanto nosso modo de ser, pertence essencialmente à compreensão do ser, indicando o valor ontológico do saber prático já presente em Aristóteles como saber imediato da própria vida | ||
| + | * A análise do saber usar ([[lx> | ||
| + | * A diferença de Heidegger em relação a Aristóteles está em que este orienta-se ao saber produzir uma obra (érgon), enquanto Heidegger volta-se ao saber usar do artesão, para o qual a modificação ou produção de algo está regularmente subordinada ao seu uso | ||
| + | * O saber usar não se refere a uma coisa isolada, mas a um contexto de utensílios — a escrivaninha, | ||
| + | * A familiaridade com um contexto determinado não é traço isolado, pois a obviedade cotidiana depende também de nos compreendermos a nós mesmos nesses contextos, sendo o próprio contexto, e não nosso trato com as coisas, o que nos faz ser de certo modo | ||
| + | * O mundo é o nome heideggeriano para o contexto em que se tem familiaridade com as coisas, distinguindo-se âmbitos singulares, sendo o ser-aí sempre ser-no-mundo, | ||
| + | * A determinação daquilo que queremos ser se cumpre no agir, sempre no contexto do mundo, que ao mesmo tempo prescreve possibilidades e constitui o espaço livre do agir, mostrando-se as coisas que deixamos estar como dotadas de conveniência ([[lx> | ||
| + | * A conveniência e a significatividade são as determinações fundamentais do mundo, sendo este, ao mesmo tempo, determinado e indeterminado, | ||
| + | * A indeterminação do mundo é nossa própria indeterminação, | ||
| + | * A maior parte de nossas atividades depende essencialmente dos outros, sendo o mundo, segundo a análise do ser-aí, essencialmente um mundo compartilhado ([[lx> | ||
| + | * O papel essencial dos outros na constituição de como podemos e queremos ser é o aspecto mais importante do mundo compartilhado, | ||
| + | * Aristóteles já apontava, na Ética a Nicômaco, a honra de estar na consideração dos outros como finalidade da vida política, embora reconhecesse que o verdadeiro fim da vida só se alcança na condução autônoma da própria existência | ||
| + | * Heidegger radicaliza esse aspecto, afirmando que dependemos dos outros mesmo ao conduzir nossa própria vida, tanto o oportunista quanto o opositor | ||
| + | * O mundo compartilhado, | ||
| + | * O discurso heideggeriano sobre o " | ||
| + | * A descrição do mundo compartilhado lembra a compreensão heideggeriana da tradição no projeto sobre Aristóteles, | ||
| + | * O caráter determinante do mundo compartilhado surge da própria indeterminação do ser-aí, vivida como ameaça, devendo a experiência autêntica do ser-aí explicitar essa indeterminação para relativizar a determinação e liberar também os outros | ||
| + | * A indeterminação do ser-aí decorre de deixarmos sempre estar o que está no mundo, de não podermos abarcar todas as possibilidades de ações e relações, e de não sermos apenas aquilo em que nos damos a ver aos outros, reunindo-se esses três aspectos no conceito de abertura ([[lx> | ||
| + | * A escolha desse termo esclarece-se por sua proximidade com desvelamento ([[lx> | ||
| + | * As três formas de abertura examinadas por Heidegger são a situação afetiva ([[lx> | ||
| + | * A situação afetiva designa o modo como somos afetivamente situados, experimentando-se nas tonalidades afetivas a abertura do mundo, exemplificada pelo tédio, a que Heidegger dedica análise detalhada em outro ciclo de lições, e pela tonalidade afetiva elevada, em que se experimenta a abertura do mundo como liberdade de impedimentos | ||
| + | * A compreensão é o sentido da possibilidade sob outro ponto de vista, sendo percepção imediata do ser-possível sem determinação ponderada, termo reservado por Heidegger, para esta última, à interpretação ([[lx> | ||
| + | * O discurso, terceira forma de abertura, é caracterizado não como o ato de falar, mas como estrutura da linguagem em suas possibilidades de comunicação e coexistência, | ||
| + | * A tripartição da análise da abertura reflete a arquitetura de Ser e tempo, sem que as três formas se tornem autônomas, pois coconstituem uma experiência unitária do próprio ser | ||
| + | * A experiência da abertura não é inteiramente explícita, sendo o ser-aí levado a fechá-la em sua motilidade | ||
| + | * O fechamento da abertura significa querer ser o mais determinado possível, retomando Heidegger o conceito de decaimento ([[lx> | ||
| + | * A distinção, | ||
| + | * A resolução ([[lx> | ||
| + | * A resolução é também elaborada em estrutura tripartida: a tonalidade afetiva da angústia, a compreensão precursora da morte e o chamado ([[lx> | ||
| + | * As análises da angústia, do precursar a morte e da consciência atraíram mais que qualquer outra a atenção dos leitores e a polêmica dos críticos, pois é nelas que Heidegger promete resgatar sua tese de uma compreensão pré-ontológica do ser | ||
| + | * A angústia é experiência da possibilidade, | ||
| + | * O precursar a morte (Vorlaufen zum Tode) não se resume à incerteza radical da morte antes de qualquer certeza, tema já anunciado no lema das lições do semestre de inverno de 1921/22, que reúne uma citação de Kierkegaard e uma frase da exegese luterana ao livro do Gênesis afirmando que desde o ventre materno começamos a morrer | ||
| + | * A morte é pura possibilidade, | ||
| + | * A análise da consciência ([[lx> | ||
| + | * A consciência, | ||
| + | * A resolução, | ||
| + | * O deslocamento de acento decisivo de Heidegger em relação à ontologia aristotélica consiste em inverter a relação entre possibilidade e realidade, entre indeterminação e determinação, | ||
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| + | **O tempo: temporalidade e temporalidade do ser** | ||
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| + | * A compreensão heideggeriana evidencia que a análise fundamental do ser-aí vive do pensamento da composição temporal do ser-aí, mostrando-se o futuro imediatamente no compreender e o caráter temporal também na situação afetiva, sempre presente num " | ||
| + | * O caráter temporal do discurso é mais difícil de apreender, partilhando com a compreensão o caráter de futuro enquanto abertura para os outros, mas oferecendo também possibilidades de relação realizadas em atos linguísticos como promessas, favores, ordens, desejos ou asserções | ||
| + | * A presentificação tem função privilegiada e constitutiva no discurso, associação que o próprio Heidegger considera pouco satisfatória, | ||
| + | * As três formas temporais — futuro, passado, presente — copertencem-se essencialmente, | ||
| + | * O tempo, segundo Aristóteles, | ||
| + | * A primeira parte do projeto, caracterizada como interpretação do ser-aí em referência à temporalidade, | ||
| + | * A interpretação da relação entre ser-aí e temporalidade não segue mais definitivamente a compreensão do ser própria da cotidianidade pré-filosófica e pré-ontológica, | ||
| + | * O futuro indeterminado do compreender tem primado sobre o futuro determinado, | ||
| + | * O discurso ocupa posição particular nesse jogo de determinação e indeterminação, | ||
| + | * A interpretação filosófica do ser-aí em referência à temporalidade pode parecer não mais sujeita à cotidianidade, | ||
| + | * A concepção filosófica do tempo exige compreender antes como a filosofia é compreendida na existência cotidiana, retomando-se as três " | ||
| + | * O futuro compreendido como "tempo do ser indeterminado que está diante" | ||
| + | * A resposta sobre o caráter esquemático do horizonte do tempo é dada pelas lições Os problemas fundamentais da fenomenologia (semestre de verão de 1927), caracterizadas pelo próprio Heidegger como nova elaboração da terceira seção da primeira parte de Ser e tempo | ||
| + | * A análise aprofunda-se sobretudo em relação ao esquema horizontal do presente, mostrando que tudo o que se encontra no presente está sujeito ao esquema horizontal da presença ([[lx> | ||
| + | * A tradução do termo central da ontologia aristotélica, | ||
| + | * A citação afirma que os gregos, assim como Kant, não tiveram consciência de que interpretavam o ser a partir do tempo, seguindo antes a tendência imediata do ser-aí existente, que compreende o ser do ente de modo implicitamente temporal | ||
| + | * A ausência, nas lições de 1927, de esquemas análogos para passado e futuro não pode ser casual, colocando em risco a continuidade do programa da temporalidade tripartida | ||
| + | * O motivo pelo qual Heidegger orienta a questão da temporalidade do ser ao presente, e não ao futuro, relaciona-se à caracterização da filosofia como " | ||
| + | * A coisificação ou objetivação significa presentificação linguística e origina-se do presente, estando também as determinações conceituais de Ser e tempo sujeitas à presença, o que ameaça a própria concepção da temporalidade tripartida | ||
| + | * A introdução do esquema horizontal da presença reforma a estrutura da temporalidade em sua tripartição, | ||
| + | * A revisão heideggeriana dos conceitos de Ser e tempo, posterior a esse impasse, reinterpreta os resultados da análise do ser-aí de modo que a filosofia passe a ser compreendida na própria estrutura do ser-aí, que se torna substancialmente filosófico, | ||
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