| (...) algo também poderia ser de tal modo transformado no interior da transposição, que não poderíamos mais reconhecê-lo como aquilo que ele é. O único ponto de apoio para o fato de termos neste caso algo em comum com uma transposição seria o próprio processo de transposição. Sob esta pressuposição, Nietzsche generalizou o conceito de transposição e procurou compreender todo conhecimento e, para além do conhecimento, toda pretensa relação objetiva como uma transposição ou, como se diz em grego, como uma “metáfora”, como uma “interpretação”. Em seu ensaio antigo, em alguns aspectos programático, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, ele esboça uma imagem do conhecimento, segundo a qual esse conhecimento aparece como uma consequência de transposições descontínuas. Em primeiro lugar, “um estímulo nervoso (...)” seria “transposto para uma imagem”. Em seguida, a “imagem” seria “uma vez mais transformada em um som”. E “a cada vez” aconteceria “um salto completo por sobre uma esfera para o meio de uma esfera totalmente diversa e nova”. Nietzsche ilustra essa ideia a partir de um experimento físico, no qual uma fina camada de areia sobre uma superfície é de tal modo posta em vibração, que ela reproduz ondas sonoras. As coisas dão-se “para todos nós com a linguagem” tal como acontece com um homem surdo que “nunca teve uma sensação do som e da música” e que (70) poderia afirmar que “agora sabia seguramente o que os homens denominam o som”: “nós acreditamos saber algo sobre as coisas mesmas e, contudo, não possuímos senão metáforas das coisas, metáforas que não correspondem de maneira alguma às essencialidades originárias”. | (...) algo também poderia ser de tal modo transformado no interior da transposição, que não poderíamos mais reconhecê-lo como aquilo que ele é. O único ponto de apoio para o fato de termos neste caso algo em comum com uma transposição seria o próprio processo de transposição. Sob esta pressuposição, Nietzsche generalizou o conceito de transposição e procurou compreender todo conhecimento e, para além do conhecimento, toda pretensa relação objetiva como uma transposição ou, como se diz em grego, como uma “metáfora”, como uma “interpretação”. Em seu ensaio antigo, em alguns aspectos programático, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, ele esboça uma imagem do conhecimento, segundo a qual esse conhecimento aparece como uma consequência de transposições descontínuas. Em primeiro lugar, “um estímulo nervoso (...)” seria “transposto para uma imagem”. Em seguida, a “imagem” seria “uma vez mais transformada em um som”. E “a cada vez” aconteceria “um salto completo por sobre uma esfera para o meio de uma esfera totalmente diversa e nova”. Nietzsche ilustra essa ideia a partir de um experimento físico, no qual uma fina camada de areia sobre uma superfície é de tal modo posta em vibração, que ela reproduz ondas sonoras. As coisas dão-se “para todos nós com a linguagem” tal como acontece com um homem surdo que “nunca teve uma sensação do som e da música” e que (70) poderia afirmar que “agora sabia seguramente o que os homens denominam o som”: “nós acreditamos saber algo sobre as coisas mesmas e, contudo, não possuímos senão metáforas das coisas, metáforas que não correspondem de maneira alguma às essencialidades originárias”. |