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| + | ====== Ferreira da Silva ====== | ||
| + | **Vicente Ferreira da Silva (1916–1963)** | ||
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| + | Filósofo, ensaísta, lógico e tradutor brasileiro, Vicente Ferreira da Silva é amplamente reconhecido como uma das inteligências filosóficas mais fulgurantes, | ||
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| + | **1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)** | ||
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| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Elementos de Lógica Matemática. Prefácio de Willard Van Orman Quine. São Paulo: Edição do Autor, 1940. | ||
| + | * Foco: Lógica matemática e cálculo formal; primeira obra sistemática de lógica simbólica publicada no Brasil. Com prefácio laudatório de W. V. O. Quine, o tratado introduz a formalização moderna da lógica proposicional, | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Ensaios Filosóficos. São Paulo: Gráfica Nova, 1943. | ||
| + | * Foco: Filosofia geral, epistemologia e reflexão conceitual; compilação de ensaios breves que documentam a transição entre a exegese do formalismo lógico e as primeiras interrogações metafísicas acerca do estatuto do conhecimento e da intencionalidade. | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Prelúdios a uma Filosofia Trágica. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1947. | ||
| + | * Foco: Filosofia existencial, | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Dialética das Consciências. São Paulo: Saraiva, 1950. | ||
| + | * Foco: Filosofia do espírito, antropologia metafísica e teoria da intersubjetividade. O autor investiga os confrontos constitutivos entre consciências a partir da dialética hegeliana do senhor e do escravo, articulando-a com as modulações fenomenológicas de Sartre e Gabriel Marcel para demonstrar a dramaticidade do reconhecimento ético e a irredutibilidade da liberdade humana perante o determinismo social. | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Ideias para um Novo Conceito de Homem. São Paulo: Saraiva, 1951. | ||
| + | * Foco: Antropologia filosófica e crise da civilização moderna. Ensaio programático que denuncia o esgotamento do homem humanista, racionalista e instrumental gerado pelo Iluminismo. O autor propõe a superação do sujeito cartesiano através da reinserção da condição humana no horizonte cósmico do sagrado e das forças míticas originárias. | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Teologia e Anti-Humanismo. São Paulo: Saraiva, 1953. | ||
| + | * Foco: Filosofia da religião, ontologia fundamental e crítica da secularização. Vicente Ferreira da Silva rompe definitivamente com as pretensões de um humanismo secular autossuficiente, | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Instrumentos, | ||
| + | * Foco: Ontologia da técnica, hermenêutica da linguagem e crítica cultural. O pensador disseca a transformação do mundo pela tecnologia planetária (Gestell heideggeriano), | ||
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| + | **2. Obras Póstumas, Antologias e Edições das Obras Completas** | ||
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| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Obras Completas. 2 volumes. Organização e introdução de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), 1964. | ||
| + | * Foco: Publicação monumental póstuma comemorativa que reuniu pela primeira vez a totalidade dos tratados de Vicente, precedida de ensaios e memórias de sua viúva e companheira intelectual, | ||
| + | * SILVA, Vicente Ferreira da. Obras Completas de Vicente Ferreira da Silva. Edição revista em volume único com prefácio e aparato crítico. São Paulo: É Realizações, | ||
| + | * Foco: Reedição contemporânea das obras do filósofo, restituindo ao debate acadêmico nacional os textos integrais de suas fases lógica, existencial e mitológica, | ||
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| + | **3. Contexto Institucional, | ||
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| + | * O Círculo Filosófico de São Paulo e o Diálogo Internacional: | ||
| + | * Na década de 1940 e 1950, a residência de Vicente e Dora Ferreira da Silva converteu-se no epicentro irradiador da vida intelectual independente paulistana. O casal congregava figuras proeminentes da filosofia, da poesia e da crítica literária — como Vilém Flusser, Guimarães Rosa, Eudoro de Sousa, Milton Vargas e Agostinho da Silva —, além de receber e debater com pensadores internacionais que visitavam o país (como Julian Marias e Karl Löwith). | ||
| + | * Fundação do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF) e da Revista Brasileira de Filosofia (1949–1951): | ||
| + | * Em parceria indissociável com Miguel Reale, Luís Washington Vita e Heraldo Barbuy, Vicente participou ativamente da fundação do Instituto Brasileiro de Filosofia e da Revista Brasileira de Filosofia (RBF), órgão que fixou o cânone e o vocabulário filosófico acadêmico no país, operando como o principal fórum de debate doutrinário de alto nível técnico entre as décadas de 1950 e 1980. | ||
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| + | **4. Recepção Acadêmica e Eixos de Circulação** | ||
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| + | * O Julgamento de Guimarães Rosa e Vilém Flusser: | ||
| + | * A envergadura filosófica de Vicente Ferreira da Silva suscitou testemunhos memoráveis da alta cultura de sua época. João Guimarães Rosa considerava-o o maior filósofo brasileiro e o seu interlocutor espiritual mais próximo na tessitura da dimensão mítica de Grande Sertão: Veredas. Por sua vez, Vilém Flusser dedicou-lhe ensaios axiais, asseverando que Vicente fora a única inteligência brasileira capaz de conceber uma metafísica ontológica genuína e de envergadura comparável às grandes matrizes europeias. | ||
| + | * Circulação no Espaço Lusófono: | ||
| + | * Embora a sua produção tenha sido temporariamente obscurecida pela hegemonia sociológica e pelo marxismo universitário que dominaram as cátedras acadêmicas a partir da década de 1970, a obra de Vicente Ferreira da Silva foi objeto de constante reavaliação crítica. Destacam-se os estudos monográficos e teses dedicadas ao seu pensamento na USP, na PUC-SP, na UERJ, na UFSC e em Portugal (notadamente em torno da filosofia da saudade, do mito e do pensamento luso-brasileiro nos círculos de Eudoro de Sousa e António Quadros). | ||
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| + | **5. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica** | ||
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| + | * A Superação do Positivismo e a Desilusão da Lógica Pura: O itinerário de Vicente Ferreira da Silva é regido por uma ruptura dialética exemplar. Tendo dominado o instrumental mais avançado da lógica formal de sua época sob a égide de Quine, Vicente compreendeu precocemente que a lógica simbólica e a epistemologia analítica esgotam-se na análise formal da sintaxe dos enunciados, permanecendo cegas perante a questão ontológica fundamental: | ||
| + | * O Existencialismo Trágico e a Incompletude Humana: Na fase inaugurada por Prelúdios a uma Filosofia Trágica, Vicente concebe a existência não como uma substância autônoma estável, mas como um abismo e uma tensão perpétua. Dialogando com Heidegger, o pensador assevera que o homem é o ser que existe como projeto lançado no mundo, tendo a morte como horizonte ontológico inultrapassável. A tragédia não é uma categoria puramente literária antiga, mas a própria estrutura de nosso existir: a consciência descobre-se dilacerada entre a aspiração ao infinito e a condenação incontornável à finitude temporal. | ||
| + | * A Filosofia do Mito e a Epifania do Sagrado: Na sua fase culminante, Vicente Ferreira da Silva operou uma restauração audaciosa da imaginação mítica. Inspirando-se em Schelling (a Filosofia da Mitologia) e na história das religiões antigas de Walter F. Otto e Károly Kerényi, o filósofo sustenta que o mito não é uma ilusão pré-racional ingênua a ser superada pela ciência, mas a linguagem ontológica primordial pela qual o Absoluto se manifesta à consciência. Os mitos são verdadeiras epifanias do sagrado: neles, os deuses emergem como potências vivas e ordenadoras da physis que configuram mundos históricos concretos. Filosofar autenticamente significa reaprender a habitar o espaço do mito e acolher o pulsar divino que anima a natureza. | ||
| + | * O Anti-Humanismo e o Reencantamento do Cosmos: Contra a arrogância antropocêntrica da modernidade técnica — que transformou o homem no tirano demiúrgico de uma matéria inerte —, Vicente propõe um anti-humanismo radical. O homem só recupera a sua grandeza quando renuncia à pretensão idolátrica de ser o centro legislador do universo. Ao descentrar a subjetividade humana perante a grandeza transcendente dos deuses e do destino cósmico, a metafísica de Vicente Ferreira da Silva desponta como um apelo veemente ao reencantamento do mundo: um convite à escuta reverente do Ser, no qual a filosofia, liberta do jugo tecnocrático, | ||
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