estudos:ferreira-da-silva:dialogo-do-rio-2010
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| + | ====== Diálogo do rio ====== | ||
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| + | O espírito fluvial do rio através do leito das coisas. Entretanto, parece que não é o rio que flui nas coisas, mas as coisas que fluem no rio, heracliteanamente. Na urdidura líquida das águas aparecem estranhas figuras e desenhos bizarros que não detêm o seu fluir, mas que deslizam no tempo desse Tempo. Esse rio corre porque só pode correr. O poder-correr de seu correr é uma lei secreta que “ama ocultar-se”. Quem deflagrou esse rio em seu correr? Quem pôs as coisas a correr ou pôs o correr como coisas? – Quem pergunta, busca uma resposta e o espírito fluvial põe-se em diálogo. O diálogo pede os dialogantes conclamados pelo espírito do diálogo e pelo espírito do rio. E duas vozes se defrontam na imensidão dos tempos. | ||
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| + | Voz I – Esse rio é cheio de formas e de vida como o estanque de que falava Leibniz. E não existe se não nas formas fugidias que o habitam. | ||
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| + | Voz II – Entretanto, não se identifica com qualquer dessas formas ou vidas! | ||
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| + | Voz I – Ou melhor, é mais do que elas justamente por ser o advir simultâneo ou sucessivo de todas! | ||
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| + | Voz II – Mas então é um rio que corre ao contrário de todos os rios? | ||
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| + | Voz I – Não percebo o significado de tua pergunta. | ||
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| + | Voz II – Todos os rios correm das fontes para o mar. E as fontes são o passado do rio. Os rios provêm e não advêm das fontes. Mas o rio que somos advêm de uma fonte de ser por vir. Essa fonte, pois, é o futuro do rio. | ||
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| + | Voz I – Que coisas estranhas dizes, falas como as antigas Sibilas! Admito que as águas deste rio assemelham-se a um diagrama que fosse magicamente se presentificando a partir do nada. | ||
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| + | Voz II – É certo que há algo de mágico, de Magia cosmogônica, | ||
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| + | Voz I – Consideras que o futuro, que o possível é o Nada? | ||
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| + | Voz II – Não; acredito que o futuro, essa franja de potencialidades futuras que rodeiam uma coisa é justamente o que permite sua “constituição” contínua. | ||
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| + | Voz I – As essências de que falava Platão corresponderiam pois às possibilidades que se entificam perenemente no ser-presente das presenças? | ||
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| + | Voz II – Creio que o mundo flui do futuro para o presente e daí para o passado. | ||
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| + | Voz I – Então o poder-ser é mais forte e decisivo que o estar-aí do real? | ||
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| + | Voz II – O real se realiza e o realizar-se do real é a sua essência. Um dos maiores filósofos de nossa época afirmou que o mundo se mundifica (die Welt weitet). | ||
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| + | Voz I – O ocorrer do mundo seria, então, o seu porvir, a partir do horizonte virtual consignante. Esse mundo futuro consignante deteria portanto o título de Fons et Origo. | ||
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| + | Voz II – Se falamos de uma primazia do futuro na estrutura do Mundo, isso não significa que devemos esquecer que o tempo é constituído por três dimensões, todas elas essenciais à compreensão do existente. | ||
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| + | Voz I – O momento prospectivo, | ||
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| + | Voz II – A forma das coisas é desenhada originalmente num transcender imaginante, através de uma imaginação produtiva que configura seu espaço de manifestação. É certo que essa imaginação não é um poder humano, pois o homem consiste num algo imaginado ou consignado por essa imaginação que é uma Imaginatio Divina. | ||
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| + | Voz I – Queres então dizer que ao des-fechar as coisas, prospeccionando-as imaginativamente, | ||
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| + | Voz II – O rio do tempo ou dos tempos seria, segundo creio, algo de construído ou de desobstruído, | ||
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| + | Voz I – Compreendo. Todo o movimento do movível está ancorado na Imobilidade desse Abrir ou Des-obstruir ek-stático. Na cena imóvel de uma prospecção mitológica transcorre o movimento voraz das o-corrências. | ||
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| + | Voz II – A lei que “ama ocultar-se” seria essa proto-ocorrência do Ser, como abrir do aberto. O manifestado ocorrente e corrente estaria fundado numa secreta e oculta des-ocultação que marcaria a irrupção de um tempo. | ||
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| + | Voz I – Todo o tempo seria o tempo de uma Fascinação, | ||
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| + | Voz II – Entretanto, a temporalidade da cena des-fechante não está, por sua vez, imersa num processo ou temporalidade transcendente? | ||
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| + | Voz I – Estamos então diante de uma lei mais secreta que a lei que “ama ocultar-se”. A experiência do fundamento arrasta-nos. Segundo me parece, de segredo em segredo. E deparamos assim com cadeias cada vez mais secretas de princípios. | ||
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| + | Voz II – Nesse ponto creio que o pensamento é vítima de uma ilusão, quando tenta aplicar no fundante a lei do fundado. O império des-fechante do Ser é um poder deflagrador, | ||
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| + | Voz I – Todo ente ou corte de possibilidades de desempenhos sugeridos por esse Poder são sugestões induzidas pelo Ser-Su-gestor, | ||
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| + | Voz II – Então o Ser-Sugestor, | ||
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| + | Voz l – O que Heidegger denomina a História do Ser seria, no fundo, a sucessão de suas parusias e a sua dialética interna. Não podemos falar da história do que é, por essência, meta-histórico, | ||
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| + | Voz II – Mas o Ser está presente em todas as suas parusias ou desvelamentos, | ||
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| + | Voz I – Existe, entretanto, nessas fulgurações a que te referes, e que em última instância são as Matrizes míticas da História, uma fidelidade maior ou menor ao Ser-Sugestor. Ou por outra, existe uma proximidade maior ou menor da Vida em relação à verdade originante. | ||
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| + | //FERREIRA DA SILVA, Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, | ||
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