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| * A observação de que //Acheminement à la parole// constitui o último livro de Heidegger permite situar esse escrito como um gesto de despedida, no qual o pensamento alcança o ponto em que já não se trata de abrir novos caminhos, mas de reconhecer aquele em que se chegou. A enumeração das denominações tradicionais da linguagem — γλῶσσα, lingua, langue, langage — prepara a declaração segundo a qual o termo Sprache já não é empregado senão com reserva, sempre que se trata de pensar o foyer no qual ela é mais plenamente ela mesma, indicando que algo essencial escapa às categorias herdadas com que o Ocidente nomeou o fenômeno da linguagem. | * A observação de que //Acheminement à la parole// [GA12] constitui o último livro de Heidegger permite situar esse escrito como um gesto de despedida, no qual o pensamento alcança o ponto em que já não se trata de abrir novos caminhos, mas de reconhecer aquele em que se chegou. A enumeração das denominações tradicionais da linguagem — γλῶσσα, lingua, langue, langage — prepara a declaração segundo a qual o termo Sprache já não é empregado senão com reserva, sempre que se trata de pensar o foyer no qual ela é mais plenamente ela mesma, indicando que algo essencial escapa às categorias herdadas com que o Ocidente nomeou o fenômeno da linguagem. |
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| * A razão dessa reserva se deixa compreender quando se retorna ao texto inaugural do livro, no qual a frase Die Sprache spricht aparece como formulação decisiva. O deslocamento do acento para die Sprache impede a leitura segundo a qual a palavra possuiria simplesmente a propriedade de ser falante, exigindo que se entenda que é a própria palavra que fala. Essa inversão dissolve a crença segundo a qual o homem seria o agente originário da linguagem e reconduz o falar humano a uma proveniência mais originária, anterior a qualquer língua instrumental ou comunicativa. | * A razão dessa reserva se deixa compreender quando se retorna ao texto inaugural do livro, no qual a frase Die Sprache spricht aparece como formulação decisiva. O deslocamento do acento para die Sprache impede a leitura segundo a qual a palavra possuiria simplesmente a propriedade de ser falante, exigindo que se entenda que é a própria palavra que fala. Essa inversão dissolve a crença segundo a qual o homem seria o agente originário da linguagem e reconduz o falar humano a uma proveniência mais originária, anterior a qualquer língua instrumental ou comunicativa. |
| * Mesmo quando se acredita firmemente ser o locutor da língua, permanece em operação um estado essencial da palavra, do qual procede tudo aquilo que se chama linguagem. Essa fonte não se encontra em um além inacessível, mas numa proximidade extrema, tão próxima que poderia ser experimentada a qualquer momento, não fosse ela constantemente encoberta pelo entendimento da língua como ferramenta de comunicação. Cada língua se afasta dessa fonte no momento em que se compreende a si mesma como instrumento disponível. | * Mesmo quando se acredita firmemente ser o locutor da língua, permanece em operação um estado essencial da palavra, do qual procede tudo aquilo que se chama linguagem. Essa fonte não se encontra em um além inacessível, mas numa proximidade extrema, tão próxima que poderia ser experimentada a qualquer momento, não fosse ela constantemente encoberta pelo entendimento da língua como ferramenta de comunicação. Cada língua se afasta dessa fonte no momento em que se compreende a si mesma como instrumento disponível. |
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| * A insistência em não traduzir Sprache por “língua” ou “linguagem” visa afastar o pensamento de qualquer enquadramento linguístico ou metalinguístico. O recurso ao termo “parole”, próprio das línguas românicas, permite marcar uma diferença essencial, pois ele não remete imediatamente a um sistema, mas a um acontecimento. Essa diferença é reforçada pela origem grega do termo, //parabolè//, que designa uma justaposição, um pôr-em-paralelo, no qual algo é colocado junto a outra coisa para ser comparado. | * A insistência em não traduzir Sprache por “língua” ou “linguagem” visa afastar o pensamento de qualquer enquadramento linguístico ou metalinguístico. O recurso ao termo “parole”, próprio das línguas românicas, permite marcar uma diferença essencial, pois ele não remete imediatamente a um sistema, mas a um acontecimento. Essa diferença é reforçada pela origem grega do termo, //parabole//, que designa uma justaposição, um pôr-em-paralelo, no qual algo é colocado junto a outra coisa para ser comparado. |
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| * A referência ao uso geométrico de parabolè em Euclides esclarece a precisão dessa acepção, pois ali a parabole consiste em construir uma figura igual a outra, reconduzindo uma forma desconhecida à clareza de uma forma conhecida. Essa operação estabelece uma identidade que preserva a diferença, tornando visível como a palavra pode fazer passar algo de um regime de opacidade a um de maior diafaneidade, sem jamais abolir a distância que os separa. | * A referência ao uso geométrico de parabole em Euclides esclarece a precisão dessa acepção, pois ali a parabole consiste em construir uma figura igual a outra, reconduzindo uma forma desconhecida à clareza de uma forma conhecida. Essa operação estabelece uma identidade que preserva a diferença, tornando visível como a palavra pode fazer passar algo de um regime de opacidade a um de maior diafaneidade, sem jamais abolir a distância que os separa. |
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| * A partir dessa compreensão, aquilo que se chama linguagem passa a ser pensado desde o início como trajetória e percurso. Essa orientação prepara a escuta do que é dito, ao final da vida de Heidegger, acerca da “língua”, que já não pode ser entendida como um dado estável, mas como um movimento de passagem que só se deixa pensar a partir de sua fonte. | * A partir dessa compreensão, aquilo que se chama linguagem passa a ser pensado desde o início como trajetória e percurso. Essa orientação prepara a escuta do que é dito, ao final da vida de Heidegger, acerca da “língua”, que já não pode ser entendida como um dado estável, mas como um movimento de passagem que só se deixa pensar a partir de sua fonte. |
| * Quando se trata de nomear a palavra em sua proveniência, o termo escolhido é //die Sage//, imediatamente esclarecido como //das Sagen und sein Gesagtes und das zu-Sagende//. Esse termo deve ser cuidadosamente separado de seu uso corrente como relato ou lenda, pois ele visa nomear o acontecimento no qual falar, o falado e o a-falar se pertencem originariamente, sem que um possa ser pensado isoladamente dos outros. | * Quando se trata de nomear a palavra em sua proveniência, o termo escolhido é //die Sage//, imediatamente esclarecido como //das Sagen und sein Gesagtes und das zu-Sagende//. Esse termo deve ser cuidadosamente separado de seu uso corrente como relato ou lenda, pois ele visa nomear o acontecimento no qual falar, o falado e o a-falar se pertencem originariamente, sem que um possa ser pensado isoladamente dos outros. |
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| * A elucidação do verbo sagen exige atenção à sua etimologia, pois ele não se origina do radical que significa mostrar, como dicere, mas de *sekw-, que significa seguir. Essa proveniência aproxima sagen de sehen, indicando que tanto ver quanto falar consistem originariamente em um seguimento. Ver é seguir com os olhos; falar é seguir um curso, manter-se fiel a um fio que dá consistência ao dizer. | * A elucidação do verbo sagen exige atenção à sua etimologia, pois ele não se origina do radical que significa mostrar, como dicere, mas de sekw-, que significa seguir. Essa proveniência aproxima sagen de sehen, indicando que tanto ver quanto falar consistem originariamente em um seguimento. Ver é seguir com os olhos; falar é seguir um curso, manter-se fiel a um fio que dá consistência ao dizer. |
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| * Considerado a partir dessa origem, falar não é primeiramente fazer aparecer algo diante de um sujeito, mas sustentar um encadeamento sem perder o fio. Só onde esse seguimento se mantém há palavra propriamente dita; quando ele se rompe, resta apenas o discurso disperso, que pode continuar a enunciar sem, no entanto, falar verdadeiramente. | * Considerado a partir dessa origem, falar não é primeiramente fazer aparecer algo diante de um sujeito, mas sustentar um encadeamento sem perder o fio. Só onde esse seguimento se mantém há palavra propriamente dita; quando ele se rompe, resta apenas o discurso disperso, que pode continuar a enunciar sem, no entanto, falar verdadeiramente. |
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| * O uso corrente de sagen e de “dire”, reduzido à simples enunciação, manifesta uma perda inevitável, ligada ao modo de ser humano como devalamento. O mesmo ocorre com o grego //légein//, empregado sem consideração por sua acepção originária. Reconhecer essa perda não significa suprimi-la, mas manter viva a pergunta fundamental: como a palavra fala? | * O uso corrente de sagen e de “dire”, reduzido à simples enunciação, manifesta uma perda inevitável, ligada ao modo de ser humano como devalamento. O mesmo ocorre com o grego //legein//, empregado sem consideração por sua acepção originária. Reconhecer essa perda não significa suprimi-la, mas manter viva a pergunta fundamental: como a palavra fala? |
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| * A impossibilidade de formular diretamente essa pergunta a partir do termo “linguagem” decorre do fato de que, em francês, não há mais um verbo correspondente, ao passo que em alemão Sprache e sprechen conservam a mesma proveniência. Ainda assim, falar permanece um verbo intransitivo, pois não se fala algo, mas se fala de algo, o que distingue radicalmente o falar do dizer entendido como enunciação. | * A impossibilidade de formular diretamente essa pergunta a partir do termo “linguagem” decorre do fato de que, em francês, não há mais um verbo correspondente, ao passo que em alemão Sprache e sprechen conservam a mesma proveniência. Ainda assim, falar permanece um verbo intransitivo, pois não se fala algo, mas se fala de algo, o que distingue radicalmente o falar do dizer entendido como enunciação. |