estudos:ernildo-stein:pa:critica-a-antropologia-93-97
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| + | ====== Crítica à antropologia ====== | ||
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| + | Com a questão central analisada até agora surge em Heidegger uma posição contra um tipo de pensamento que, ao mesmo tempo em que é dependente de um sujeito, se relaciona com as coisas como se fossem de um mundo exterior, dispondo sobre elas e organizando-as [94] de maneira categorial como simplesmente existentes. É por isso que a analítica existencial de Heidegger visa à crítica rachadura entre mundo e sujeito entre res cogitans e res extensa como o havia postulado Descartes ((Ver S. e T. Heidegger, parágrafos 19-21, 1997.)). O filósofo critica todas as iniciativas do pensamento metafísico que pergunta pela realidade do mundo exterior sem primeiro clarificar o próprio fenômeno do mundo.((Ver S. e T. Heidegger, parágrafo 43, 1977.)) | ||
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| + | Esta crítica volta-se radicalmente contra Kant também, filósofo que procurou estabelecer a causalidade como um fio que unisse todas as coisas e que seria tornada inteligível pela presença de um entendimento dotado de formas a priori e que possuía no eu penso o princípio unificador entre sensível e inteligível. Contra isso o filósofo estabelece a ideia de ser-no-mundo como estrutura prévia de sentido que une todas as coisas. Esta estrutura, porém, se desdobra em diversas formas a partir da compreensão do ser pelo homem. | ||
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| + | Com o estabelecimento da compreensão do ser e, a partir daí, do sentido ontológico do ser-aí, o filósofo não estabelece apenas uma ontologia fundamental, | ||
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| + | Numa outra passagem Heidegger critica a Antropologia como sendo um instrumento para a Psicologia, e Pedagogia, a Medicina e a Teologia e diz expressamente que “isso já não é mais uma moda, mas uma praga”((Heidegger, | ||
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| + | Numa célebre passagem: “o que aconteceria se talvez não soubéssemos onde estamos e que nós somos? O que aconteceria se as respostas à pergunta por quem nós somos, apenas cada vez residiriam na mesma aplicação de uma resposta já dada, resposta que não corresponde àquilo que é talvez agora tocado na pergunta por quem nós somos, pois agora perguntamos não por nós enquanto seres humanos, suposto que esse nome é compreendido no significado tradicional. Segundo este o homem é uma espécie de animal vivo (animal, zoon) que existe entre muitos outros habitantes na terra e no universo. Nós conhecemos este [96] animal vivo pois, somos de sua espécie. Existe uma grande oferta de ciências que nos informam sobre esse animal vivo — chamado ser humano — e todas estas ciências são reunidas sob o nome de antropologia”((Heidegger, | ||
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| + | O que importa é percebermos que o perguntar pelo ser, perguntar pelo ser e pelo tempo, perguntar pela essência do tempo (temporalidade) nos impele inexoravelmente para a pergunta pelo homem. Heidegger diz que o tempo só se torna tempo na medida em que o homem é. Mas será que já não houve um tempo em que não houve ser humano? Poderíamos dizer talvez que em cada tempo houve e haverá ser humano. “Não existe tempo quando o homem não foi, não porque o homem existe desde a eternidade e para sempre, mas porque tempo não é eternidade e porque o tempo só se temporaliza tornando-se tempo enquanto ser-aí humano e historiai.”((Heidegger, | ||
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| + | Quando Heidegger, portanto, pensa a Antropologia como analítica existencial ou como ontologia fundamental, | ||
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| + | Essa mudança introduzida por Heidegger representa um vetor capaz de sustentar o processo de desconstrução dos conceitos da Metafísica e os conceitos das ciências humanas contaminadas pela sua origem metafísica. Entre elas se situa a Antropologia, | ||
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| + | A partir do que foi dito, de que o ser humano é um como, toda a Psicanálise e Psicopatologia irá se ocupar com um modo de acontecer. O ser humano não é um efeito da natureza, mas é um fenômeno que surge pela compreensão do ser. Assim, o objeto da Psicanálise não é um ente no tempo linear explicável causalmente. Desaparece, então, o animal vivo, o animal com psiquismo ou o animal com espírito, visto que o ser humano é Dasein é ser-no-mundo. Por isso não podemos objetificá-lo como um objeto no espaço e no tempo. Nem podemos tratá-lo propriamente como um objeto denominado eu. A desconstrução possibilitada pela analítica existencial irá mostrar-nos que podemos apenas falar do modo de ser do ser-aí e não de sua substância. | ||
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| + | //STEIN, E. Nas proximidades da antropologia. Ensaios e conferências filosóficas. Ijuí: UNIJUÍ, 2003. | ||
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