estudos:eric-nelson:tao:resistencias
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| + | ====== Coisa como resistência ====== | ||
| + | //NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, | ||
| + | **III. Complicações com as coisas** | ||
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| + | **10. A coisa como resistência, | ||
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| + | 1. Nesta seção conclusiva, a discussão é ampliada ao colocarem-se três conjuntos de questões sobre a coisa, a coisa em si mesma e a possibilidade de uma ética das coisas, de modo a preparar o terreno para os capítulos subsequentes da Parte Um, focados no vazio, na inutilidade e num comportamento de cuidado e nutrição da vida das coisas. | ||
| + | * Heidegger observou, no ensaio da obra de arte, como o pensar parece enfrentar a maior oposição por parte da coisa em sua coisidade, à medida que a coisa inconspícua não aparecente resistentemente se afasta dele, sendo dificuldade quanto à compreensão da coisa que sua aparente dabilidade, simplicidade e unidade ocultam aquilo que resiste e escapa à percepção e concepção da coisa. | ||
| + | * E a formação complexa dos sentidos e do significado que permitem à coisa ser meramente percebida, resistindo a coisa, escapando e, além disso, podendo — dependendo da coisa — pôr em perigo aqueles que dela se aproximam. | ||
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| + | 2. Há três modos de descrever a inacessibilidade da coisa a partir da situação histórica e recepção de Heidegger, que contextualizam, | ||
| + | * Constituindo assim seu senso de faticidade e realidade externa, tendo Wilhelm Dilthey identificado a coisa com força, resistência e restrição, | ||
| + | * Segundo nota posterior, "a coisa é o correlato da sensação, e o sentimento de resistência é sua condição", | ||
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| + | 3. Segundo, a complexidade da coisa parece exigir arqueologia na qual desaparece em vez de fenomenologia de seu aparecer, argumentando o neovitalista Hans Driesch contra a visão fenomenológica direta da coisa como vivência da coisa, considerando sua aparência de " | ||
| + | * Mais radical é a eliminação da coisa no emergente programa empirista lógico de Rudolf Carnap nos anos 1920, analisando a coisa como ficção interpretativa complexa, formada a partir de elementos experienciais e lógicos básicos nos quais pode ser dissolvida e reconstruída, | ||
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| + | 4. Terceiro, a realidade da coisa ultrapassa a coisa experiencial, | ||
| + | * Derrida afirma: "ao contrário do que a fenomenologia — que é sempre fenomenologia da percepção — tentou nos fazer crer, ao contrário do que nosso desejo não pode deixar de ser tentado a crer, a própria coisa sempre escapa" | ||
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| + | 5. A coisa tem identidade e unidade através do tempo e do espaço frente à consciência intencional, | ||
| + | * E a variação potencialmente infinita através da qual a coisa autoaparecente é percebida como unidade em seu horizonte aberto e indeterminado, | ||
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| + | 6. O ocultamento, | ||
| + | * Como Heidegger descreveu em passagem crucial do curso de 1937–38 Questões Fundamentais da Filosofia: não é um conhecer coercitivo como dominar, do qual a coisa enquanto coisa necessariamente se retrai e escapa, não sendo a filosofia conhecimento científico das coisas e sua essência, nem puramente inventar, formar e impor conceitos. | ||
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| + | 7. Questiona-se então o que é a filosofia, evocando Heidegger a definição aristotélica tradicional da filosofia como ciência da essência das coisas ao mesmo tempo em que a revisa de modo quase daoístico, definindo filosofia como conhecer aberto e inútil no saltar-adiante antecipatório do essenciar autoocultante das coisas. | ||
| + | * É aqui que a abertura da coisa como coisa começa a surgir como distinta da coisa enquanto disponível e útil para a existência humana, pressupondo já intencionar a coisa, e portanto a representação, | ||
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| + | 8. O conhecer requer essa abertura da coisa e a abertura abrindo espaço para a coisa em seu aparecer e não-aparecer, | ||
| + | * Que se trata de aspecto da própria coisa, e não puramente de falha de experiência e concepção que está em jogo. | ||
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| + | **11. A questão da "coisa em si"** | ||
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| + | 9. Continua-se a questionar a coisa, sendo faceta crucial da coisa seu autorretraimento, | ||
| + | * Ou a coisa simbolicamente ordenada significada e a coisa como alheia, inquietante e real além da significação na teoria-da-coisa de Lacan. | ||
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| + | 10. Nas interpretações heideggerianas da coisa aparecente e não aparecente kantiana durante os anos 1920 e 1930, a coisa-em-si de Kant é modo distinto de relacionar-se com a coisa, outra perspectiva sobre ela, sendo relação ou perspectiva incomum sobre a coisa. | ||
| + | * Tal como Deus enquanto coisa mais distante última, por estar removida de toda atestação e indisponível de todo modo ao conhecimento humano, não sendo nem Deus nem as coisas interpretados como alteridade incondicional ou monstruosidade lacaniana. | ||
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| + | 11. Como descrito antes, Heidegger tem, de fato, senso da inquietante estranheza e violência da natureza como phúsis, que celebrou como criativa em meados dos anos 1930, aparecendo em Heidegger a inquietante estranheza da coisa na avaria de sua utilidade, sua ausência faltante e sua aniquilação tecnológica. | ||
| + | * Ao abordar a alteridade da coisa, é caracteristicamente descrita mais no sentido de temor reverente, maravilha e sublime que no sentido da monstruosidade alheia da reimaginação lacaniana da coisa freudiana. | ||
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| + | 12. O autoocorrer e autoocultar da coisa (si no sentido de " | ||
| + | * Para (3) o que não aparece de modo algum ao mesmo tempo em que está em obra na autonaturação da coisa (isto é, nada e vazio), sendo esse deslocamento livre e desimpedido através de perspectivas múltiplas, igualando as miríades de coisas e desfazendo fixação e bifurcação. | ||
| + | * Necessário para encontro e habitação apropriados com a coisa na liberdade de seu próprio devir. | ||
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| + | 13. Essa perspectiva da liberdade da coisa implica ethos ou modo de habitar diferente, que reconhece seu autodevir bem como seu uso antropocentricamente demarcado, contrastando com a exigência de dominação da natureza expressa no contexto chinês antigo nas críticas de Xunzi a [[spc> | ||
| + | * Vendo-se isso na visão baconiana do domínio da natureza analisada na Dialética do Esclarecimento de Horkheimer e Adorno, ou na Fenomenologia do Espírito de Hegel, que considera a liberdade da coisa autocontraditória e afirma que toda coisa livre sem senhor deve ser transformada em propriedade controlada e útil. | ||
| + | * Mas, ao esquecer e obscurecer a vida das coisas, a dominação da natureza não conduz à liberdade do espírito frente à natureza sobre a qual reina, como propôs Hegel, sendo antes, como diagnosticaram Adorno e Horkheimer, a escravização humana como peça de natureza dominada. | ||
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| + | 14. " | ||
| + | * Isto é, há resistência onde há coerção, e o perigo traz à luz sua resposta, exigindo e animando a própria aflição a liberdade da natureza como — para pensar com e além de Heidegger a fim de questionar o presente — imagem exemplar, porte e comportamento orientadores, | ||
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| + | **12. Questionar o ethos das coisas** | ||
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| + | 15. A perspectiva desse outro ethos e voz implica questões conceituais e existenciais que serão consideradas preliminarmente aqui e mais plenamente abordadas no Capítulo 5, além das questões da realidade e ficcionalidade, | ||
| + | * Havendo dificuldades concernentes ao ethos de nutrir a vida ou, para lembrar a descrição de Okakura, ao modo e arte do ser-no-mundo como habitar com e em meio às coisas, podendo colocar-se duas questões, informadas pelas leituras críticas de Heidegger transmitidas por Levinas e Adorno. | ||
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| + | 16. Primeiro, questiona-se se é possível ser responsivo às coisas em relações miméticas e correlacionais livres e desimpedidas (que desfazem fixações) em oposição a relações servis e temerosas (que estabelecem fixações em vez de deslocar-se através delas), e sem fetichismo e idolatria. | ||
| + | * Sendo a primeira requisito para confrontar a degradação de coisas vivas e não vivas, mesmo devendo a última preocupação — expressa por Levinas em seu ensaio de 1961 " | ||
| + | * Segundo, questiona-se se mudança na cultura e no modo de habitar a terra requer transformação correlata nas condições econômicas e sociais, interrogando Heidegger, admitidamente, | ||
| + | * Obscurecendo-as e mistificando-as, | ||
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| + | 17. As interrogações críticas de Adorno e Levinas, como leitores polêmicos mas atentos do imaginário agrário rural de Heidegger, indicam cantos ausentes do quadrado: a importância de não negligenciar relações inter-humanas e as circunstâncias materiais e político-econômicas da existência humana. | ||
| + | * Não obstante, a despeito de problemas filosóficos e sociopolíticos contundentes no pensamento de Heidegger, confrontar a alienação, | ||
| + | * A fim de encontrá-los com ecofronese de modo mais apropriado e receptivo, como tendo padrões, processos e permutações autogeradores próprios. | ||
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| + | 18. Reconstruir e reimaginar a filosofia tardia heideggeriana da coisa, informada pelo [[spc> | ||
| + | * Precisamente ao insistir em (1) fazer e deixar não propositados e não pragmáticos, | ||
| + | * Nos quais o ser mais autêntica e coercitivamente reina, significando o poético, na guinada rumo à coisa, atender e aprender das coisas e do mundo circundante, | ||
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| + | **13. Buber e Heidegger como pensadores da coisa** | ||
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| + | 19. Deseja-se concluir este capítulo insistindo na importância histórica e filosófica de Buber, tendo a literatura sobre Heidegger razões distintas para ignorar os escritos de Buber, mesmo se cruzando com e inspirando parte do uso conceitual e jogo linguístico de Heidegger. | ||
| + | * Intrigantemente, | ||
| + | * Buber esclareceu essas interconexões e a significação do wuwei daoista como resposta às patologias da modernidade tecnológica em sua palestra de 1928 "China e Nós", tendo Buber insistido nas implicações éticas das fontes daoistas antigas. | ||
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| + | 20. Em vez de rejeitar a modernidade, | ||
| + | * Buber foi fonte inicial decisiva para a interpretação de Heidegger do daoismo, sendo conhecido por privilegiar relações eu-tu sobre relações eu-isso, mas, ao mesmo tempo, elucidou modos alternativos de relacionar-se com o " | ||
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| + | 21. Buber observou, em palestra de 1924 "A Concepção Religiosa do Mundo", | ||
| + | * Esquecemos a coisa à medida que nossos nomes falham em apreendê-las e a seu mistério, sendo a coisa alterada em mero objeto de desejo e uso, como descrito, por exemplo, na Fenomenologia de Hegel, quando é quebrada do encontro e retirada da plenitude de seu contexto relacional. | ||
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| + | 22. Ainda assim, há mais na coisa que uso, troca e consumo, sendo esse canto do quadrado, a vida e o mistério da coisa articulados em Buber e Heidegger, o que constitui o foco primário da Parte Um do presente livro. | ||
| + | * Questiona-se então quanto à coisa daoista e à coisa de Heidegger que começou a emergir nos dois primeiros capítulos, e se é acidente contingente que a guinada de Heidegger rumo à coisa em sua prioridade como formadora-de-mundo, | ||
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| + | 23. Esse nexo interculturalmente enredado é elucidado nos capítulos seguintes sobre a coisa vazia e inutilmente desnecessária, | ||
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