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estudos:eric-nelson:tao:resistencias

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 +====== Coisa como resistência ======
 +//NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024//
  
 +**III. Complicações com as coisas**
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 +**10. A coisa como resistência, complexamente mediada e retraente**
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 +1. Nesta seção conclusiva, a discussão é ampliada ao colocarem-se três conjuntos de questões sobre a coisa, a coisa em si mesma e a possibilidade de uma ética das coisas, de modo a preparar o terreno para os capítulos subsequentes da Parte Um, focados no vazio, na inutilidade e num comportamento de cuidado e nutrição da vida das coisas.
 +  * Heidegger observou, no ensaio da obra de arte, como o pensar parece enfrentar a maior oposição por parte da coisa em sua coisidade, à medida que a coisa inconspícua não aparecente resistentemente se afasta dele, sendo dificuldade quanto à compreensão da coisa que sua aparente dabilidade, simplicidade e unidade ocultam aquilo que resiste e escapa à percepção e concepção da coisa.
 +  * E a formação complexa dos sentidos e do significado que permitem à coisa ser meramente percebida, resistindo a coisa, escapando e, além disso, podendo — dependendo da coisa — pôr em perigo aqueles que dela se aproximam.
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 +2. Há três modos de descrever a inacessibilidade da coisa a partir da situação histórica e recepção de Heidegger, que contextualizam, complicam e potencialmente desafiam sua filosofia tardia da coisa, sendo, primeiro, a coisa caracterizada como aquilo que resiste e se opõe ([[lx>termos:g:gegenstand|Gegen-stand]]) ao percebedor como faticidade irredutível ao sujeito.
 +  * Constituindo assim seu senso de faticidade e realidade externa, tendo Wilhelm Dilthey identificado a coisa com força, resistência e restrição, qualidades que formam o senso de realidade externa do sujeito, em sua obra de 1890 "A Origem de Nossa Crença na Realidade do Mundo Externo e Sua Justificação".
 +  * Segundo nota posterior, "a coisa é o correlato da sensação, e o sentimento de resistência é sua condição", à medida que as categorias da vida se formam em relação às forças e coisas que compelem e resistem ao sujeito, endurecendo seu senso da faticidade da realidade.
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 +3. Segundo, a complexidade da coisa parece exigir arqueologia na qual desaparece em vez de fenomenologia de seu aparecer, argumentando o neovitalista Hans Driesch contra a visão fenomenológica direta da coisa como vivência da coisa, considerando sua aparência de "estar-aí" formação complexamente mediada de sentido, significado e construção de ordem experiencial.
 +  * Mais radical é a eliminação da coisa no emergente programa empirista lógico de Rudolf Carnap nos anos 1920, analisando a coisa como ficção interpretativa complexa, formada a partir de elementos experienciais e lógicos básicos nos quais pode ser dissolvida e reconstruída, consistindo a coisa em projeção baseada em matéria, sensação e abstração.
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 +4. Terceiro, a realidade da coisa ultrapassa a coisa experiencial, linguística e conceitualmente mediada, ou a coisa simbólica, como na diferenciação lacaniana da coisa enquanto significada e enquanto além da significação, havendo algo da coisa que inevitavelmente se retrai, como diz Heidegger, e escapa, como aponta Derrida.
 +  * Derrida afirma: "ao contrário do que a fenomenologia — que é sempre fenomenologia da percepção — tentou nos fazer crer, ao contrário do que nosso desejo não pode deixar de ser tentado a crer, a própria coisa sempre escapa".
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 +5. A coisa tem identidade e unidade através do tempo e do espaço frente à consciência intencional, tendo, para ser justo, o próprio Husserl reconhecido em sua fenomenologia da coisa o sombreamento e o aparecer/não-aparecer da coisa na relação figura/fundo.
 +  * E a variação potencialmente infinita através da qual a coisa autoaparecente é percebida como unidade em seu horizonte aberto e indeterminado, não sendo o ocultamento da coisa na percepção da coisa faceta acidental da coisa, mas antes fundamento de objeção que refutaria seu ser e significado.
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 +6. O ocultamento, a periculosidade potencial e a inquietante estranheza da coisa clamam por humildade diante da profundidade e multiplicidade da coisa e abertura para adaptar-se apropriadamente aos padrões fluentes e transformantes das coisas, clamando a coisa por suas próprias formas de "saltar-adiante".
 +  * Como Heidegger descreveu em passagem crucial do curso de 1937–38 Questões Fundamentais da Filosofia: não é um conhecer coercitivo como dominar, do qual a coisa enquanto coisa necessariamente se retrai e escapa, não sendo a filosofia conhecimento científico das coisas e sua essência, nem puramente inventar, formar e impor conceitos.
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 +7. Questiona-se então o que é a filosofia, evocando Heidegger a definição aristotélica tradicional da filosofia como ciência da essência das coisas ao mesmo tempo em que a revisa de modo quase daoístico, definindo filosofia como conhecer aberto e inútil no saltar-adiante antecipatório do essenciar autoocultante das coisas.
 +  * É aqui que a abertura da coisa como coisa começa a surgir como distinta da coisa enquanto disponível e útil para a existência humana, pressupondo já intencionar a coisa, e portanto a representação, sua abertura.
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 +8. O conhecer requer essa abertura da coisa e a abertura abrindo espaço para a coisa em seu aparecer e não-aparecer, analisando Heidegger isso como seu desvelamento e autoocultamento (das [[lx>termos:s:sichverbergen|Sichverbergen]]), indicando o "si" ou "si mesmo" autorreflexivo ou autorrelacional, expresso no pronome reflexivo alemão de terceira pessoa "sich".
 +  * Que se trata de aspecto da própria coisa, e não puramente de falha de experiência e concepção que está em jogo.
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 +**11. A questão da "coisa em si"**
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 +9. Continua-se a questionar a coisa, sendo faceta crucial da coisa seu autorretraimento, autoocultamento, e seu surgir e funcionar a partir do nada, tema que fontes Lao-Zhuang iniciais abordam sem bifurcar a coisa entre a coisa aparecente e a coisa em si em Kant, na Crítica da Razão Pura.
 +  * Ou a coisa simbolicamente ordenada significada e a coisa como alheia, inquietante e real além da significação na teoria-da-coisa de Lacan.
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 +10. Nas interpretações heideggerianas da coisa aparecente e não aparecente kantiana durante os anos 1920 e 1930, a coisa-em-si de Kant é modo distinto de relacionar-se com a coisa, outra perspectiva sobre ela, sendo relação ou perspectiva incomum sobre a coisa.
 +  * Tal como Deus enquanto coisa mais distante última, por estar removida de toda atestação e indisponível de todo modo ao conhecimento humano, não sendo nem Deus nem as coisas interpretados como alteridade incondicional ou monstruosidade lacaniana.
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 +11. Como descrito antes, Heidegger tem, de fato, senso da inquietante estranheza e violência da natureza como phúsis, que celebrou como criativa em meados dos anos 1930, aparecendo em Heidegger a inquietante estranheza da coisa na avaria de sua utilidade, sua ausência faltante e sua aniquilação tecnológica.
 +  * Ao abordar a alteridade da coisa, é caracteristicamente descrita mais no sentido de temor reverente, maravilha e sublime que no sentido da monstruosidade alheia da reimaginação lacaniana da coisa freudiana.
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 +12. O autoocorrer e autoocultar da coisa (si no sentido de "zi" e "sich") requerem transição da fenomenologia de (1) o que aparece à consciência intencional ou encorporada e às aparências como descritível e apreensível, para (2) o que aparece como resistente, escapante e retraente no autoocultamento da coisa.
 +  * Para (3) o que não aparece de modo algum ao mesmo tempo em que está em obra na autonaturação da coisa (isto é, nada e vazio), sendo esse deslocamento livre e desimpedido através de perspectivas múltiplas, igualando as miríades de coisas e desfazendo fixação e bifurcação.
 +  * Necessário para encontro e habitação apropriados com a coisa na liberdade de seu próprio devir.
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 +13. Essa perspectiva da liberdade da coisa implica ethos ou modo de habitar diferente, que reconhece seu autodevir bem como seu uso antropocentricamente demarcado, contrastando com a exigência de dominação da natureza expressa no contexto chinês antigo nas críticas de Xunzi a [[spc>taoismo:chaung-tzu:|Zhuangzi]] de que a natureza externa e interna deve ser ativamente controlada e forçosamente remodelada.
 +  * Vendo-se isso na visão baconiana do domínio da natureza analisada na Dialética do Esclarecimento de Horkheimer e Adorno, ou na Fenomenologia do Espírito de Hegel, que considera a liberdade da coisa autocontraditória e afirma que toda coisa livre sem senhor deve ser transformada em propriedade controlada e útil.
 +  * Mas, ao esquecer e obscurecer a vida das coisas, a dominação da natureza não conduz à liberdade do espírito frente à natureza sobre a qual reina, como propôs Hegel, sendo antes, como diagnosticaram Adorno e Horkheimer, a escravização humana como peça de natureza dominada.
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 +14. "Natureza" e coisas como livres da necessidade ostensiva de dominação, sacrifício e utilidade parecem improváveis em meio à devastação e aflição predominantes que são mais que ecológicas, sendo, contudo, como Heidegger reitera de Hölderlin, "onde há perigo, cresce também o que salva".
 +  * Isto é, há resistência onde há coerção, e o perigo traz à luz sua resposta, exigindo e animando a própria aflição a liberdade da natureza como — para pensar com e além de Heidegger a fim de questionar o presente — imagem exemplar, porte e comportamento orientadores, desprendimento e expectativa responsivos, chamado profético e modelo social e ambiental crítico.
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 +**12. Questionar o ethos das coisas**
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 +15. A perspectiva desse outro ethos e voz implica questões conceituais e existenciais que serão consideradas preliminarmente aqui e mais plenamente abordadas no Capítulo 5, além das questões da realidade e ficcionalidade, plenitude e pobreza, da coisa como aparecente e não aparecente.
 +  * Havendo dificuldades concernentes ao ethos de nutrir a vida ou, para lembrar a descrição de Okakura, ao modo e arte do ser-no-mundo como habitar com e em meio às coisas, podendo colocar-se duas questões, informadas pelas leituras críticas de Heidegger transmitidas por Levinas e Adorno.
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 +16. Primeiro, questiona-se se é possível ser responsivo às coisas em relações miméticas e correlacionais livres e desimpedidas (que desfazem fixações) em oposição a relações servis e temerosas (que estabelecem fixações em vez de deslocar-se através delas), e sem fetichismo e idolatria.
 +  * Sendo a primeira requisito para confrontar a degradação de coisas vivas e não vivas, mesmo devendo a última preocupação — expressa por Levinas em seu ensaio de 1961 "Heidegger, Gagarin e Nós" — ser genuinamente abordada e evitada.
 +  * Segundo, questiona-se se mudança na cultura e no modo de habitar a terra requer transformação correlata nas condições econômicas e sociais, interrogando Heidegger, admitidamente, de modo inadequado as relações materiais de produção, troca e consumo sob as estruturas capitalistas existentes.
 +  * Obscurecendo-as e mistificando-as, segundo seu contemporâneo Adorno.
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 +17. As interrogações críticas de Adorno e Levinas, como leitores polêmicos mas atentos do imaginário agrário rural de Heidegger, indicam cantos ausentes do quadrado: a importância de não negligenciar relações inter-humanas e as circunstâncias materiais e político-econômicas da existência humana.
 +  * Não obstante, a despeito de problemas filosóficos e sociopolíticos contundentes no pensamento de Heidegger, confrontar a alienação, mercantilização e reificação persistentes da existência humana exige contestar o que se tornou de coisas e ambientes, bem como de pessoas.
 +  * A fim de encontrá-los com ecofronese de modo mais apropriado e receptivo, como tendo padrões, processos e permutações autogeradores próprios.
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 +18. Reconstruir e reimaginar a filosofia tardia heideggeriana da coisa, informada pelo [[spc>taoismo:|daoismo]], oferece indicação formal, modelo crítico e fio condutor significativos para confrontar a degradação contemporânea de coisas e ambientes.
 +  * Precisamente ao insistir em (1) fazer e deixar não propositados e não pragmáticos, e (2) escuta poética e dizer coisa e mundo como capacidade fundamental para a habitação humana, não falando a concepção tardia de Heidegger de assertividade violenta criativa em prol de instituir novos mundos e modos de ser.
 +  * Nos quais o ser mais autêntica e coercitivamente reina, significando o poético, na guinada rumo à coisa, atender e aprender das coisas e do mundo circundante, e adotar as palavras exemplares apropriadas em interpolação interentre-coisas e intermundana com elas.
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 +**13. Buber e Heidegger como pensadores da coisa**
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 +19. Deseja-se concluir este capítulo insistindo na importância histórica e filosófica de Buber, tendo a literatura sobre Heidegger razões distintas para ignorar os escritos de Buber, mesmo se cruzando com e inspirando parte do uso conceitual e jogo linguístico de Heidegger.
 +  * Intrigantemente, dadas suas referências repetidas e dívidas para com a versão de Buber do Zhuangzi, Heidegger não é o primeiro a traçar conexões entre daoismo, tecnologia moderna e diferentes perspectivas de interação com as coisas.
 +  * Buber esclareceu essas interconexões e a significação do wuwei daoista como resposta às patologias da modernidade tecnológica em sua palestra de 1928 "China e Nós", tendo Buber insistido nas implicações éticas das fontes daoistas antigas.
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 +20. Em vez de rejeitar a modernidade, as ideias libertadoras de 1789 e o Iluminismo, a visão de Buber do daoismo permite reorientação para longe da dominação, do poder e da luta pela existência, rumo a genuíno ser-com-os-outros, nutrir criaturas e co-criar o mundo.
 +  * Buber foi fonte inicial decisiva para a interpretação de Heidegger do daoismo, sendo conhecido por privilegiar relações eu-tu sobre relações eu-isso, mas, ao mesmo tempo, elucidou modos alternativos de relacionar-se com o "isso", recorrendo a discursos daoistas da coisa e seu mistério nas décadas de 1910 e 1920 de maneiras que se cruzam com Heidegger.
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 +21. Buber observou, em palestra de 1924 "A Concepção Religiosa do Mundo", proferida poucos meses depois de suas palestras de agosto em Ascona sobre o [[spc>taoismo:tao-te-ching:|Daodejing]], que "ver as coisas sem seu mistério significa torná-las imaginárias, significa viver com fantasmas" em vez de com coisas genuínas.
 +  * Esquecemos a coisa à medida que nossos nomes falham em apreendê-las e a seu mistério, sendo a coisa alterada em mero objeto de desejo e uso, como descrito, por exemplo, na Fenomenologia de Hegel, quando é quebrada do encontro e retirada da plenitude de seu contexto relacional.
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 +22. Ainda assim, há mais na coisa que uso, troca e consumo, sendo esse canto do quadrado, a vida e o mistério da coisa articulados em Buber e Heidegger, o que constitui o foco primário da Parte Um do presente livro.
 +  * Questiona-se então quanto à coisa daoista e à coisa de Heidegger que começou a emergir nos dois primeiros capítulos, e se é acidente contingente que a guinada de Heidegger rumo à coisa em sua prioridade como formadora-de-mundo, e já não sem-mundanamente à-mão, tenha coincidido com seu engajamento intensivo com o [[spc>taoismo:tao-te-ching:|Daodejing]] e o Zhuangzi durante 1943–1951.
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 +23. Esse nexo interculturalmente enredado é elucidado nos capítulos seguintes sobre a coisa vazia e inutilmente desnecessária, com olho voltado a outros modos de habitar e encontrar — no-mundo com e em meio às coisas no sentido expansivo de seus próprios modos de ser.
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 +{{tag>Nelson Tao Ding resistências}}