estudos:dufrenne:jaspers:ciencia
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| + | ====== Ciências ====== | ||
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| + | //DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947// | ||
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| + | **OS LIMITES DA EXPLORAÇÃO DO MUNDO** | ||
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| + | 1. Compreendido que o mundo não forma um todo homogêneo e coerente, identifica-se, | ||
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| + | **Os limites do saber** | ||
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| + | 2. Toda ciência aspira a um saber objetivo, universal e intemporal, propondo ao homem que a conhecimento arranca da quietude da vida orgânica um triplo conforto: um saber constrangedor diante da ignorância, | ||
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| + | 3. O saber não pode ser inteiramente constrangedor, | ||
| + | * a necessidade matemática não é inteiramente transparente nem absoluta, repousando em última análise sobre axiomas intuitivos ou convencionais, | ||
| + | * a necessidade empírica é própria do fato, relativa duplamente, pois implica uma teoria que sempre pode ser questionada e porque o real em suas estruturas mais profundas é impermeável à lógica | ||
| + | * a opacidade última do fato é atestada pela desordem elementar entrevista nas leis estatísticas | ||
| + | * mesmo a intuição das essências, que teria plenitude em si mesma, encontra limite na dificuldade de exprimir-se e transmitir-se, | ||
| + | * apenas a moderação racional evita as armadilhas de confundir saber com autoridade, preparando-se para admitir verdades não constrangedoras como as que concernem à existência e à transcendência | ||
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| + | 4. O indefinido não é superável, pois embora não seja real como o ser empírico dado e presente enquanto objeto, tampouco é irreal como a série dos números sempre inacabada, atestando antes que o mundo transborda todo objeto, como mostram o espaço e o tempo. | ||
| + | * a método científico esforça-se por substituir o definido pelo indefinido, e as matemáticas propõem regras que permitem localizar cada caso particular numa série sem somá-la | ||
| + | * sempre permanece no limite um indefinido que o método não pode dominar, mas a realidade limita esse indefinido opondo-lhe o infinito, totalidades ricas de conteúdo, indecomponíveis embora reais, como o espírito ou o organismo vivo | ||
| + | * esse infinito, que transborda o saber por sua plenitude e não por sua pobreza, não pode ser confundido com o indefinido mecânico, pois este não pode produzir o infinito espiritual | ||
| + | * o infinito nunca pode ser encontrado em estado puro, permanecendo sempre solidário do indefinido, de modo que o real se desdobra sempre sobre um fundo de indefinido sem que se possa pensar seu começo e seu fim, impedindo o saber de alcançar a unidade | ||
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| + | 5. Resta compreender que o saber não pode formar uma imagem coerente do mundo, o que se verifica ao examinar o esforço das ciências para encontrar uma unidade do mundo seja no fundo das coisas, seja nas ideias. | ||
| + | * a ciência formula modelos emprestados do mundo sensível que fazem falência quando aplicados ao mundo microscópico ou macroscópico | ||
| + | * quando esquemas abstratos forjados pela matemática coincidem com o real, isso não significa que exprimam o ser autêntico do mundo, pois concernem apenas ao ser empírico estendido no espaço e no tempo | ||
| + | * outras chaves, como as enteléquias do vivente ou o inconsciente da alma, tampouco dão acesso à totalidade do real, pois o que se considera fundo do real é sempre relativo a uma região determinada do ser | ||
| + | * as ideias também não fornecem princípio de unidade, pois em sentido kantiano não são reguladoras, | ||
| + | * nas ciências do espírito as ideias tornam-se objeto de investigação empírica, mas o que ganham em objetividade perdem em poder unificador, pois o espírito é inesgotável e suas ideias múltiplas e inadequadas, | ||
| + | * nem a unidade do mundo nem a unidade do espírito são acessíveis, | ||
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| + | 6. Os limites de princípio do saber, que decorrem principalmente de seu objeto, têm consequências para a ação prática, sempre solidária do saber, pois à ideia de um mundo integralmente explorável liga-se a esperança utópica de uma posse definitiva do mundo, esperança que também esbarra em limites de princípio. | ||
| + | * a técnica parece onipotente quando se apoia num conhecimento das causas que permite exata previsão, mas de fato só tem poder sobre eventos particulares, | ||
| + | * a técnica necessita de um dado para sua indústria, não podendo fazer algo do nada, e mesmo quando permite ao homem bancar o demiurgo não o liberta das condições cósmicas e biológicas a que toda vida está submetida | ||
| + | * a técnica só tem domínio sobre o que releva do mecanismo, enquanto vida, alma e espírito requerem outro modo de ação em que a influência substitui a fabricação, | ||
| + | * a educação fracassa quando degenera em adestramento, | ||
| + | * a ação política, referindo-se à vontade alheia, comporta limites evidentes, pois nunca atinge o cerne de uma vontade estranha nem consegue abarcar todas as vontades que mobiliza, e ao exortá-las acaba por transformá-las, | ||
| + | * a ação política esbarra sobretudo na incondicionalidade da existência, | ||
| + | * qualquer que seja o tipo de ação concebido, é preciso renunciar à utopia de um domínio total do universo, pois a ação constitui uma tarefa infinita sem objeto último designável | ||
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| + | **Os limites de um sistema das ciências** | ||
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| + | 1. Compreendidos os limites do saber próprios a cada ciência em seu domínio, resta examinar os limites de um sistema das ciências, pois na falta de apreender o todo do ser empírico o entendimento poderia esperar, em compensação, | ||
| + | * legítima porque só a ideia de um sistema das ciências pode impedir o esfacelamento do saber, sendo a alma mesma do saber | ||
| + | * vã porque o conhecimento está sempre em devir, e mais profundamente porque a unidade de um sistema suporia unidade de objeto ou de método, e já se sabe que nem o mundo forma um todo nem a consciência em geral pode engendrar sistema coerente de categorias | ||
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| + | **As articulações fundamentais das ciências** | ||
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| + | 2. O sonho de unidade exprime-se de três maneiras diferentes, primeiro pela preponderância da dogmática, que racionaliza o conteúdo de uma fé sob forma de dogmas e reivindica presidir ou inspirar o saber, partilhando com as ciências a exatidão metódica e a pretensão à validade universal. | ||
| + | * embora as ciências mantenham contato com uma dogmática, assim que dela recebem impulso afirmam sua independência, | ||
| + | * as ciências fazem por contraste aparecer como ilusórias sua rigor e objetividade, | ||
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| + | 3. Uma ciência universal também não pode substituir a dogmática para assegurar a unidade do saber, como pretenderam a matemática, | ||
| + | * quando essas metodologias elementares se sistematizam, | ||
| + | * a pretensão de certas ciências à universalidade parece mais fundada quando seu objeto é categoria universal do real, como a lógica, a geografia, a psicologia e a sociologia | ||
| + | * psicologia e sociologia sofrem equívoco fundamental, | ||
| + | * o verdadeiro móvel dessas ciências é o interesse existencial, | ||
| + | * seu estatuto fica ameaçado, ciências ambivalentes divididas entre o caráter de ciências empíricas e pensamento que ilumina a existência, | ||
| + | * sua relação com a filosofia é ambígua, ao mesmo tempo fascinando-a e ameaçando-a conforme degradam seu objeto próprio, a existência, | ||
| + | * sua incerteza advém de estarem desde o início diante de seu limite, pois é a partir dele que abordam o ser empírico, sendo a liberdade tanto a última quanto a primeira palavra do homem | ||
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| + | 4. Resta ainda buscar princípio de unidade nas ciências construtivas, | ||
| + | * as construções psicológicas fundadas na compreensão não têm o rigor das ciências explicativas | ||
| + | * as construções matemáticas, | ||
| + | * é preciso renunciar a buscar uma ciência que comandasse a unidade de um sistema das ciências e assegurasse sua hierarquização | ||
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| + | **A dualidade das ciências da natureza e das ciências do espírito** | ||
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| + | 5. As ciências podem ser distinguidas segundo as quatro esferas de realidade já discernidas, | ||
| + | * o que anima as ciências da natureza é a vontade de conhecer as coisas em sua incompreensível objetividade, | ||
| + | * sua tarefa é determinar fatos sem perder-se na diversidade indefinida das aparências, | ||
| + | * a elaboração dos fatos é aqui o objeto próprio da pesquisa, e as ideias são apenas instrumentos para ordenar os fatos segundo ordem inteligível | ||
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| + | 6. As ciências do espírito têm outra ambição e outro andamento, sendo primeiramente ciências históricas porque o espírito se produz historicamente, | ||
| + | * mesmo as abstrações revestem-se de cor histórica, articulando-se segundo a dimensão histórica, embora se possa buscar caracteres universais do espírito através da arte, dos costumes e da religião | ||
| + | * essas buscas arriscam degenerar em esquematismo vazio se esquecerem que seu objeto próprio é o puramente histórico em sua diversidade, | ||
| + | * o espírito está em equilíbrio instável entre a realidade material que o sustenta e a existência que o inspira, e sua inteligibilidade é limitada pela opacidade muda da matéria e pela intimidade inefável da existência | ||
| + | * as ciências do espírito enfrentam dois lados, esforçando-se por apreender o espírito no real sem ceder ao espiritualismo nem ao materialismo, | ||
| + | * mas para captar o mais puro do espírito devem participar de ideias e dialogar de existência a existência, | ||
| + | * participar das ideias significa realizá-las no plano prático, como pela política ou pela educação, ou compreendê-las no plano contemplativo, | ||
| + | * o diálogo do pesquisador com o espírito objetivo prossegue em nível superior, pois a história, através das ideias, reflete as vicissitudes da existência, | ||
| + | * essa tarefa decisiva permanece sempre facultativa, | ||
| + | * as ciências do espírito extraem sua grandeza da forma como se opõem às ciências da natureza, exigindo do estudioso esforço sobre si mesmo para invocar esse algo mais que desafia a objetividade | ||
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| + | 7. Por método e por objeto, as ciências do espírito e as ciências da natureza revelam-se irredutivelmente distintas, o que basta para advertir que um sistema total das ciências é impossível, | ||
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