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estudos:dastur:replica-ontologia-negativa

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estudos:dastur:replica-ontologia-negativa [18/01/2026 15:49] – created mccastroestudos:dastur:replica-ontologia-negativa [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1
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 +====== Réplica à ontologia negativa no pensamento grego ======
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 +FDFN
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 +  * A resposta sofística à ontologia negativa: Górgias
 +    * A ontologia negativa parmenidiana suscita rapidamente uma réplica, formulada pelo sofista Górgias em seu Tratado do não-ser, conhecido por meio de Sexto Empírico.
 +      * Górgias, nascido por volta de 480 a.C. em Leontinos, colônia grega da Sicília, pertence ao mesmo mundo colonial que Parmênides, mas se move em um horizonte intelectual distinto.
 +      * Orador itinerante, mestre da persuasão e remunerado por seu ensino, Górgias encarna a figura paradigmática do sofista.
 +    * Platão atribui ao termo “sofista” um sentido pejorativo, em oposição ao filósofo.
 +      * O filósofo é definido como aquele que ama a sabedoria sem possuí-la, ao passo que o sofista se apresenta como detentor de um saber transmissível.
 +      * Essa distinção, consolidada por Platão, estrutura a tradição posterior, mas não elimina a seriedade do desafio sofístico.
 +    * Heidegger reconhece que a sofística desempenhou um papel decisivo na gênese da filosofia.
 +      * Ela desloca o foco da reflexão do mundo para a interpretação do Dasein.
 +      * Surge no contexto da democracia ateniense, como resposta à necessidade de formação retórica do cidadão.
 +    * Apesar disso, Heidegger critica a sofística por sua indiferença à coisa mesma.
 +      * O primado do discurso conduz à perda do sentido da realidade.
 +      * Essa dessubstancialização da coisa funda uma forma de inautenticidade existencial, análoga ao “falatório” [Gerede] analisado em Ser e tempo.
 +    * O sofista é caracterizado como um homem do discurso, não como um pensador do ser.
 +      * Sua prática pressupõe, porém, o horizonte ontológico dos pré-socráticos.
 +      * A sofística é uma derivação da sophia grega, fundada na compreensão do ser como presença e da verdade como alētheia [non-occultation].
 +    * A sentença de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, não deve ser lida como subjetivismo moderno.
 +      * Ela se enraíza na experiência grega de um aberto prévio, de um campo de não-ocultação.
 +      * O homem é medida enquanto limitado pelo modo como o ente se desvela para ele.
 +    * Coloca-se então a questão decisiva: o Tratado do não-ser de Górgias participa dessa mesma experiência originária da ocultação?
 +      * Heidegger limita-se a expor suas três teses, reconhecendo nelas uma seriedade filosófica.
 +      * Essas teses retomam uma problemática já presente no ceticismo antigo: a possibilidade da verdade e do ente.
 +  * As três teses de Górgias
 +    * Primeira tese: nada existe.
 +    * Segunda tese: mesmo que algo exista, é incognoscível.
 +    * Terceira tese: mesmo que fosse cognoscível, não seria comunicável nem formulável.
 +    * Do ponto de vista lógico-proposicional, tais teses são coerentes.
 +      * Elas exploram os princípios de identidade e não-contradição.
 +      * Porém, sua coerência depende de uma concepção técnica da linguagem.
 +    * O discurso de Górgias traduz o poema de Parmênides em proposições lógicas.
 +      * Ao fazê-lo, desfigura sua intenção originária.
 +      * O ser parmenidiano não se diz na forma proposicional, mas na tautologia originária eon emmenai, “o ente é”.
 +    * Essa tautologia não é um enunciado lógico, mas uma indicação fenomenológica.
 +      * Ela aponta para o ser enquanto inaparante, que se retira para deixar-ser o ente.
 +  * Pensar e ser: o ponto decisivo do confronto
 +    * O fragmento III de Parmênides afirma: “o mesmo é pensar e ser”.
 +      * Heidegger interpreta essa identidade como o “dobra” [Zwiefalt] entre ser e ente, verbo e nome.
 +      * Essa dobra pertence à Moira, à dispensação que distribui o aparecer.
 +    * O desvelamento do ente exige que o desvelamento do ser permaneça oculto.
 +      * A alētheia implica sempre lethē [ocultation].
 +      * O que aparece como pura clareza é atravessado pela obscuridade.
 +    * Parmênides pressente essa estrutura, mas não a pensa explicitamente.
 +      * Héraclito é o único pré-socrático que exprime a co-pertença de ocultação e desocultação.
 +    * Górgias, ao contrário, rompe essa co-pertença.
 +      * Ele separa radicalmente discurso e ser.
 +      * Funda assim a retórica como técnica do discurso sem compromisso com a verdade.
 +    * Sua crítica não conduz a uma ontologia negativa, mas à autonomia total da linguagem.
 +      * O logos torna-se independente do ser.
 +      * O discurso vale por sua eficácia persuasiva, não por sua relação com o desvelamento.
 +  * Da sofística ao ceticismo: a figura de Pirro
 +    * O verdadeiro contraponto à ontologia parmenidiana não é Górgias, mas Pirro.
 +      * O ceticismo nasce em um contexto histórico distinto, após o colapso da pólis clássica.
 +      * Trata-se de uma filosofia do fim de uma época, não do nascimento da filosofia.
 +    * Pirro nada escreveu; sua doutrina é conhecida por testemunhos indiretos.
 +      * Ele afirma a indiferença, indeterminação e indecidibilidade das coisas.
 +      * Nem sensação nem juízo dizem o verdadeiro ou o falso.
 +    * A atitude fundamental é a epokhē [suspension of judgment].
 +      * Não afirmar nem negar.
 +      * Não tomar partido.
 +    * Dessa suspensão decorrem dois estados:
 +      * Aphasia [speechlessness], impossibilidade de dizer.
 +      * Ataraxia [imperturbability], serenidade diante do mundo.
 +    * Segundo Marcel Conche, o ceticismo pirrônico vai além da simples suspensão do juízo.
 +      * Ele implica a dissolução universal dos entes.
 +      * Não há mais ser, nem mesmo como problema.
 +    * A diferença entre aparência e ser é abolida.
 +      * Surge a noção de uma “aparência absoluta”.
 +      * O aparecer não remete mais a um fundo ontológico.
 +    * O preço dessa crítica radical é o silêncio.
 +      * O ceticismo culmina na impossibilidade do discurso filosófico.
 +      * Assim, a resposta extrema à ontologia negativa não é um contra-discurso, mas a aphasia.
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