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| + | ====== NADA ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Figures du néant et de la négation entre Orient et Occident. Paris: Encre marine-les Belles lettres, 2018.// | ||
| + | **Prefácio** | ||
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| + | * Coloca-se a questão de saber se o pensamento filosófico pode, na era da mundialização e da descolonização, | ||
| + | * Citam-se os nomes de Anquetil du Perron, Eugène Burnouf, Silvain Levi, Louis Renou, Jean Filliozat, Madeleine Biardeau e, hoje, Michel Hulin, Michel Angot, Charles Malamoud e François Chenet, como atestação da rica tradição da indologia francesa | ||
| + | * Poucos trabalhos de filósofos franceses tentaram relacionar o pensamento indiano e a filosofia ocidental, a ponto de se falar em "o esquecimento da Índia", | ||
| + | * Ao contrário do que afirma este último, essa " | ||
| + | * São antes os representantes franceses da antropologia histórica da Grécia antiga, como Louis Gernet, Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet, | ||
| + | * Pergunta-se como não estabelecer aproximação entre o papel atribuído por Heráclito ao fogo e a importância dada ao fogo como único símbolo do divino no zoroastrismo, | ||
| + | * Pergunta-se também se a crença na reencarnação encontrada no mito de Er, o Panfílio, que encerra a República, teria alguma relação com a noção indiana do ciclo dos renascimentos, | ||
| + | * Questiona-se se os gregos teriam tirado tudo isso apenas de seu próprio fundo, sem jamais ter sofrido influência das culturas dos povos que os cercavam, havendo, segundo Jean-Pierre Vernant, razões ideológicas tanto para vincular os gregos aos indo-europeus, | ||
| + | * A ideia de superioridade indiscutível da cultura grega sobre a cultura indiana impregnou tanto os espíritos que um eminente arqueólogo, | ||
| + | * Um bom contraponto à ideologia europeia do " | ||
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| + | * Edward Saïd, em O Orientalismo, | ||
| + | * Saïd explica, no prefácio, esforçar-se por mostrar que "a cultura europeia se reforçou e precisou sua identidade ao se demarcar de um Oriente que tomava como forma inferior e recalcada de si mesma" | ||
| + | * Essa hegemonia cultural, que leva os dominados a adotar a visão de mundo dos dominantes e a aceitá-la como natural, dá ao orientalismo toda a sua força e está na origem da "ideia de uma identidade europeia superior a todos os povos e culturas que não são europeus" | ||
| + | * Paul Valéry, no artigo "A crise do espírito", | ||
| + | * Essa perda do espírito, apanágio exclusivo da Europa, que "é antes de tudo a criadora da ciência", | ||
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| + | * Husserl, apesar de ter sofrido, como todos os de sua geração, a influência difusa de Schopenhauer, | ||
| + | * Na conferência que profere em Viena em maio de 1935, Husserl afirma que o nível da humanidade acabada só foi atingido na Europa, ao passo que o que nomeia "os tipos empíricos de humanidade", | ||
| + | * Isso explica que Husserl possa afirmar que foi unicamente na Grécia que "essa revolução do conjunto da cultura" | ||
| + | * Há nessa conferência uma passagem problemática, | ||
| + | * Esse texto ganha hoje, quando os chamados " | ||
| + | * Deve-se reconhecer que esse texto de Husserl é a expressão de um eurocentrismo que foi, é importante lembrar, o melhor álibi do colonialismo europeu desde o fim do século XV | ||
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| + | * Entre os filósofos franceses situados na esteira do pensamento husserliano, | ||
| + | * Isso o leva, no célebre prefácio de 1961 ao livro de Frantz Fanon, Os condenados da terra, onde se lê que o colonialismo é "a violência em estado de natureza e só pode se curvar diante de uma violência maior", | ||
| + | * Antes que um apelo deliberado à violência, deve-se ver nisso apenas o reconhecimento lúcido de que a opressão engendra inelutavelmente a violência, tendo isso por corolário uma condenação sem nuances da Europa, "que não para de falar do homem massacrando-o por toda parte onde o encontra, em todas as esquinas de suas próprias ruas, em todos os cantos do mundo", | ||
| + | * Dessa " | ||
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| + | * Emmanuel Levinas, introdutor da fenomenologia husserliana na França e primeiro a questionar e abalar decisivamente, | ||
| + | * Num texto de título significativo, | ||
| + | * Levinas explica que, se o platonismo foi de fato vencido, já que não é mais possível hoje reivindicar, | ||
| + | * Segundo Levinas, era preciso a invenção europeia do humanismo e da ética para se orientar nessa " | ||
| + | * Não é sem inquietação que se lê, no texto que Levinas dedica em 1952 a Simone Weil, a seguinte passagem: "o paganismo é o espírito local: o nacionalismo naquilo que tem de cruel e impiedoso, isto é, de imediato, ingênuo e inconsciente [...]. Uma humanidade enraizada que possui Deus interiormente com os sucos que lhe sobem da terra é uma humanidade floresta, uma humanidade pré-humana" | ||
| + | * Esse texto virulento responde aos próprios julgamentos, | ||
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| + | * Interroga-se se seria preciso voltar-se então para esse outro leitor de Husserl que foi Maurice Merleau-Ponty para verdadeiramente sair do eurocentrismo | ||
| + | * Nas páginas de introdução a Os filósofos célebres, Merleau-Ponty pergunta-se se a " | ||
| + | * Merleau-Ponty sublinha que esse julgamento vem de Hegel, pois "Hegel e os que o seguem só reconhecem ao pensamento oriental dignidade filosófica tratando-o como uma longínqua aproximação do conceito" | ||
| + | * Voltando-se para Husserl, Merleau-Ponty reconhece que este " | ||
| + | * Merleau-Ponty sublinha, no entanto, que o último Husserl, ao declarar que "a filosofia como ciência rigorosa, o sonho terminou", | ||
| + | * Merleau-Ponty retoma, contudo, de Hegel o tema do Oriente como infância do pensamento: "a ' | ||
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| + | * Tal diálogo entre o " | ||
| + | * Isso explica que, na entrevista dada à Express após uma estada de um mês em Madagascar em 1957, época em que o movimento autonomista ali recupera vigor, Merleau-Ponty considere que o acesso da ilha à independência não resolveria o problema que é, para ele, " | ||
| + | * Insensível à violência inerente ao colonialismo, | ||
| + | * Merleau-Ponty não hesita em afirmar que o colonialismo está "três quartos terminado" | ||
| + | * Merleau-Ponty confessa "sem constrangimento" | ||
| + | * Encontra-se aqui sempre o mesmo traço da mentalidade colonial, o da afirmação de um " | ||
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| + | * As coisas mudaram muito desde então, permanecendo a Europa hoje a primeira potência comercial e econômica do mundo, embora o mundo atual não seja mais majoritariamente moldado pelos valores e interesses dos países europeus | ||
| + | * Os europeus continuam, em sua maioria, a se considerar o centro do mundo, a crer que o mundo inteiro se posiciona em relação à Europa e que ela está, portanto, em posição de dar lições de civilização aos habitantes dos outros continentes | ||
| + | * Esse " | ||
| + | * Ao se fazer o inventário das técnicas existentes no mundo antes do início do século XVIII, é preciso levar em conta invenções provenientes do resto do mundo, em particular do Oriente, como mostra bem John Hobson em The Eastern Origins of Western Civilisation, | ||
| + | * Note-se que John Montagu Hobson é bisneto de John Atkinson Hobson, jornalista econômico britânico conhecido pela crítica ao imperialismo britânico em Imperialism. A Study, de 1902, obra que inspirou diretamente Lênin na redação, em 1917, de O imperialismo, | ||
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| + | * Pergunta-se por que a Europa tomou, no século XIX, tal avanço sobre o resto do mundo do ponto de vista científico e tecnológico, | ||
| + | * Isso foi fortemente questionado nas últimas duas décadas por um conjunto de trabalhos de historiadores da história global ou história-mundo, | ||
| + | * Foi o livro do historiador americano Kenneth Pomeranz, Uma grande divergência. A China, a Europa e a construção da economia mundial, de 2000, que originou esse novo modo, não eurocêntrico, | ||
| + | * Pergunta-se então como explicar que a revolução industrial tenha ocorrido na Grã-Bretanha e não na China, sustentando Pomeranz que isso se deve unicamente a fatores contingentes, | ||
| + | * A maioria das análises históricas anteriores partia do postulado de uma inferioridade econômica consubstancial da Ásia em relação à Europa, tendo sido assim ocultado o conjunto de fenômenos transnacionais de ordem política, econômica, cultural e científica que uma história marcada pela fragmentação em histórias nacionais e pelo eurocentrismo não permitiu restituir | ||
| + | * Pomeranz mostra, ao contrário, que não se trata mais de explicar por que, por quais incapacidades ou faltas congênitas, | ||
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| + | * Esse livro, uma das primeiras obras de referência da história global, foi seguido de muitos outros trabalhos, em particular os do historiador indiano Sanjay Subrahmanyam, | ||
| + | * No livro que dedicou em 1997 a Vasco da Gama, primeiro europeu a chegar às Índias em 1498, grande sucesso editorial nos países anglo-saxões, | ||
| + | * A chegada de Vasco da Gama não impressiona os autóctones, | ||
| + | * Todo o trabalho de Sanjay Subrahmanyam consiste em descentrar o olhar lançado sobre as chamadas " | ||
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| + | * Não deve, portanto, surpreender o aparecimento em 2000 do livro de outro historiador indiano, Dipesh Chakrabarty, | ||
| + | * Nesse livro, cujas duas referências essenciais são Marx e Heidegger, questiona-se profundamente o que se chama " | ||
| + | * A Europa não está mais no centro do mundo, a história europeia não constitui mais a história universal, de modo que o pensamento europeu, embora permanecendo indispensável, | ||
| + | * O que está em jogo é renovar as ciências sociais, saindo de uma visão que reduz as nações não europeias a exemplos de falta e incompletude, | ||
| + | * Chakrabarty precisa desde logo que " | ||
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| + | * Em entrevista recente, Dipesh Chakrabarty explica que seu interesse pelo pensamento heideggeriano foi despertado por Ranajit Guha, fundador da escola histórica indiana que deu origem aos Subaltern Studies | ||
| + | * Chakrabarty declara ter se sentido desde logo em acordo com Heidegger, pois "não estava em suas intenções ' | ||
| + | * O livro de Chakrabarty abre-se com citação de Gadamer posta em epígrafe: "a Europa desde 1914 foi provincializada, | ||
| + | * Essa referência a Gadamer não é fortuita, pois é na perspectiva de uma fenomenologia hermenêutica que se situa Chakrabarty, | ||
| + | * Chakrabarty apoia-se essencialmente nos trabalhos do marxista não ortodoxo Ranjit Guha, em seu estudo do universo social subalterno empreendido à luz da teoria da hegemonia cultural do marxista italiano Antonio Gramsci, e em sua análise do discurso colonial, mas, como mostra o esclarecedor artigo de Matthieu Renault, " | ||
| + | * A questão da história e da historicidade está no cerne da interpretação do pensamento de Heidegger proposta por Mehta, que sublinha ter-se passado, de Husserl a Heidegger, da celebração da europeização da terra à sua crítica mais radical | ||
| + | * O pensamento heideggeriano, | ||
| + | * Haveria assim possibilidade de os orientais acolherem o Ocidente sem serem despossuídos por ele de sua própria cultura e história, afirmando Chakrabarty que é preciso, para superar o ressentimento em relação ao pensamento europeu, não " | ||
| + | * Provincializar a Europa não significa portanto eludir o pensamento europeu, mas, ao término do imperialismo europeu, recebê-lo como presente num " | ||
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| + | * Heidegger, como Husserl, foi levado a ver na filosofia grega o ato de nascimento do homem ocidental, que diz ser aquele que, pela primeira vez, encontra acesso ao ser em totalidade | ||
| + | * Heidegger afirma peremptoriamente, | ||
| + | * O projeto de Heidegger, o de uma desconstrução da história da ontologia, é, contudo, desde a origem, radicalmente diferente do projeto husserliano, | ||
| + | * Heidegger faz diferença radical entre a Europa e esse país da tarde que é o Ocidente, não sendo para ele o problema o da preservação dessa " | ||
| + | * A questão real concerne à necessidade de a Europa se tornar, em sentido literal, o Ocidente, isto é, o país da tarde, de modo que uma nova manhã para o destino do mundo possa ali ser preparada, tratando-se de a Europa se tornar verdadeiramente ocidental, o que significaria tomar consciência do esquecimento do ser e se compreender doravante como um destino | ||
| + | * O Ocidente, que tem seu começo no momento grego, não pode mais retornar à grandeza desse começo, não devendo, contudo, a Europa, enquanto país da tarde, permanecer isolada, devendo antes, como Heidegger afirma laconicamente no último texto dedicado a Hölderlin, onde também cita A crise do espírito de Valéry, " | ||
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| + | * Enquanto Husserl não hesitava, na carta que escreveu em março de 1935 a Lucien Lévy-Bruhl após ler A mitologia primitiva, livro que este acabara de publicar, em enfatizar que os primitivos são "sem história" | ||
| + | * Heidegger distingue a história enquanto realidade (Geschichte) da história enquanto discurso (Historie) e enfatiza que o que funda a historicidade do homem é seu ser fundamentalmente temporal, sua temporalidade originária, | ||
| + | * Não há para Heidegger sociedade humana alguma da qual se possa dizer que é sem história, geschichtslos, | ||
| + | * Deve-se reconhecer que a cotidianidade é um modo de ser do Dasein "mesmo e precisamente quando este se move numa cultura altamente desenvolvida e diferenciada", | ||
| + | * No curso de 1929-1930 sobre Os conceitos fundamentais da metafísica, | ||
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| + | * Heidegger afirmou com vigor, na conferência de 1955 em Cerisy intitulada "Que é a filosofia?", | ||
| + | * Na mesma conferência, | ||
| + | * Para Heidegger, a filosofia tem um começo, com Platão, e um fim, com a metafísica de Nietzsche, como declara numa das notas de 1936-1946 dedicadas à " | ||
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| + | * A filosofia se vê assim identificada a toda a metafísica, | ||
| + | * Como Heidegger mostrará em conferência de 1964 intitulada "O fim da filosofia e a tarefa do pensamento", | ||
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| + | * Longe de ver em Heidegger um defensor incondicional do Ocidente e um pensador obcecado pelo pensamento grego e advogando o retorno aos pré-socráticos, | ||
| + | * Trata-se de pensar, sob esse nome, o pertencimento do ser do humano a essa clareira que é o mundo, o que exige esse Schritt zurück, esse "passo atrás" | ||
| + | * É somente a partir daí que um diálogo pode se estabelecer com o que está além ou aquém do grego, não significando para o Ocidente sair de seu isolamento certamente adotar o modo de pensar oriental, mas ser capaz, a partir do grande começo grego ao qual nenhum retorno é possível, de se abrir ao que faz a especificidade desses outros grandes começos do pensamento dos quais os próprios gregos foram em parte herdeiros | ||
| + | * Não se trata de modo algum, como ainda queria Husserl, de trabalhar pela europeização de todo o planeta, europeização da qual Heidegger diz que "ataca e corrói pela raiz tudo o que é essencial", | ||
| + | * Será a obra de Heidegger a referência maior a partir da qual se buscará interrogar esse pensamento do nada e da negação que atravessa tanto o Oriente quanto o Ocidente | ||
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| + | * Houve já, nos últimos anos, numerosos estudos dedicados à questão do nada, do não-ser e do nada na história da filosofia ocidental, tratando-se aqui apenas de relacionar e fazer dialogar entre si certos textos pertencentes a mundos de pensamento diferentes, seguindo nisso a ideia merleau-pontiana de " | ||
| + | * A questão é menos confrontar, segundo o modelo do que hoje se chama comparative philosophy, " | ||
| + | * É esse esboço, por definição incompleto, de uma " | ||
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| + | * O texto que se segue é a versão desenvolvida de quatro conferências realizadas em março de 2014 no âmbito das " | ||
