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| + | ====== MORTE ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. La mort: essai sur la finitude. Paris: Presses universitaires de France, 2007.// | ||
| + | **Introdução. A grandeza da morte** | ||
| + | * Transcrevem-se em epígrafe os versos de Rilke: "a morte é grande, somos seus, de boca risonha; quando nos julgamos em pleno meio da vida, ela ousa chorar em nosso meio" | ||
| + | * Spinoza afirma que o homem livre em nada pensa menos que na morte, sendo sua sabedoria meditação não da morte, mas da vida, parecendo essa afirmação, | ||
| + | * Mesmo Nietzsche, antimetafísico que não nutre esperança alguma de um além, parece ecoar Spinoza ao declarar: "fico feliz em ver que os homens se recusam absolutamente a querer pensar na morte; gostaria de contribuir para tornar a ideia da vida ainda mil vezes mais digna de ser pensada" | ||
| + | * É possível ver na certeza da morte precisamente o que torna a vida ainda mais preciosa, considerando-se, | ||
| + | * Chegar assim a ver na morte o aguilhão da vida já supõe esse reviramento dialético do negativo em positivo constantemente em obra em todas as tentativas humanas de superar a morte | ||
| + | * Vencer a morte é o programa não apenas da metafísica, | ||
| + | * A morte é objeto de espanto e só parece poder ser enfrentada na medida em que se vê relativizada e parece então ter domínio apenas sobre parte do ser | ||
| + | * Novalis, sensibilizado pela morte precoce de sua jovem noiva ao caráter ilusório das fronteiras que separam vida e morte, aqui e além, sente que "só morremos até certo ponto, por assim dizer", | ||
| + | * Não são apenas místicos e românticos que chegam a ver na morte espécie de libertação, | ||
| + | * O que assim se sente " | ||
| + | * Encontra-se aqui atitude própria do estoicismo, a de uma justificação de tudo o que a vida contém de negativo, decorrente da crença metafísica na harmonia universal, expressa também na tese leibniziana do " | ||
| + | * Nietzsche denuncia o defeito de tal otimismo moral e teológico ao declarar: "esse modo de pensar me repugna fortemente; ele subestima o valor da dor, tão útil e favorável quanto o ar, o valor da emoção e da paixão; somos por fim forçados a dizer: tudo o que acontece é bom, nada mais desejo; já não se remedeia mal algum porque se matou a sensibilidade aos males" | ||
| + | * Dar todo o seu valor ao afetivo no homem exigiria apelar a uma aceitação inteira de seu ser intrinsecamente temporal e de sua finitude, aceitação que não deve ser servil nem se limitar a assumir a realidade tal como é sem nada querer mudar, não se confundindo assim com um fatalismo cego | ||
| + | * Essa aceitação assume, contudo, em Nietzsche a figura de um Amor fati, de um "sim eterno a todas as coisas, o imenso sim, o amém ilimitado", | ||
| + | * Uma afirmação absoluta da vida pode exigir por si mesma o " | ||
| + | * " | ||
| + | * Haveria relação diferente da esquiva a se encontrar com a morte, sendo preciso para isso renunciar a absolutizar o devir e chegar a ver na " | ||
| + | * O idealismo alemão, de Kant a Hegel, passando por Schelling e Hölderlin, pôde ver na imortalidade um " | ||
| + | * É fácil demais considerar, como faz Nietzsche, que a filosofia alemã, em particular a saída do Stift de Tübingen, não é em seu conjunto senão uma teologia dissimulada, | ||
| + | * Também se esquece que o inimigo principal de Hölderlin, Schelling e Hegel é a teologia ortodoxa ensinada no Stift, cujos representantes defendem a religião revelada contra a nova teologia " | ||
| + | * Caberia atentar para a extraordinária transfiguração sofrida pela ideia de Deus, ao mesmo tempo que a do próprio fenômeno religioso, talvez único meio de salvar o divino nessa época da "noite dos deuses", | ||
| + | * Hölderlin explica, nesse pequeno texto onde, com as provas cosmológica e ontológica da existência de Deus, toda a tradição teológica se vê recusada, que Deus só pode ser demonstrável a partir da estrutura total formada pelo homem e o mundo | ||
| + | * Essa estrutura não produz, contudo, no sentido estrito, " | ||
| + | * Esse Deus, ao contrário do Deus metafísico e do Deus da revelação, | ||
| + | * Encontra-se assim em Hölderlin, no lugar da demonstração metafísica da existência de Deus, uma atestação fenomenológica apoiada na análise estrutural da vida comunitária efetiva | ||
| + | * Não há princípio " | ||
| + | * Husserl, fundador da fenomenologia, | ||
| + | * Husserl, rejeitando também a ideia de um infinito atual e positivo, confere assim ao tempo nova importância ontológica: | ||
| + | * As verdades lógicas não são para ele " | ||
| + | * Todas as idealidades são, por consequência, | ||
| + | * Deus enquanto logos absoluto não " | ||
| + | * Heidegger, obedecendo ao mesmo esquema de pensamento, empreende mostrar que é o próprio tempo que constitui o horizonte da compreensão da noção de ser | ||
| + | * Isso implica não ser mais possível, como tradicionalmente se faz, e como continua fazendo o próprio Nietzsche, opor ser e devir, chegando Heidegger a falar de " | ||
| + | * Se a ontologia, ciência do ser, deve ser assim reconduzida à sua condição de possibilidade, | ||
| + | * A questão ontológica encontra sua origem nesse ser particular que é o homem, ser capaz de colocar questões não só sobre os demais seres, mas também sobre o ser que ele mesmo é, sendo a compreensão do ser um modo de ser ou comportamento humano | ||
| + | * Vê-se aqui o quanto a questão ontológica se torna, com Heidegger, a mais concreta das questões, não se tratando de questão sobre as generalidades mais abstratas, mas de questão que concerne àquele mesmo que a coloca, englobando por consequência o próprio questionante | ||
| + | * O ser do homem só está aberto a si mesmo, aos outros e ao mundo na medida em que o ameaça continuamente a possibilidade do fechamento a tudo o que é, sendo preciso pensar o existir sobre fundo de mortalidade e a abertura do ser do homem sobre o fundo de um fechamento mais originário, | ||
| + | * A existência do homem, enquanto ser lançado no mundo e ser-para-a-morte, | ||
| + | * A finitude do tempo não se vê mais adossada a uma eternidade que a compreenderia, | ||
| + | * É ao contrário, como sublinha Heidegger, o conceito tradicional de eternidade, nele definida como um "agora fixo", como um nunc stans, que provém da compreensão ordinária do tempo entendido como sucessão infinita de agoras pontuais | ||
| + | * Se, a partir da abordagem do tempo que Heidegger propõe, algo como uma eternidade ainda fosse pensável, isso só poderia ser num sentido inteiramente distinto, a partir de uma temporalidade pensada de modo mais originário, | ||
| + | * Chegar a encontrar assim na finitude do tempo, isto é, na própria morte, o recurso da vida, exige entregar-se sem reserva ao pavor que ela suscita e aceitar permanecer constantemente sob seu domínio | ||
| + | * Tratar-se-ia então de compreender que deixar a esse nada que é a morte o governo da vida não implica nem heroísmo niilista nem lamentação nostálgica, | ||
| + | * Para quem é apenas tempo, só há verdadeira alegria ou hilaridade, isto é, segundo a definição espinosista, | ||
| + | * É a grandeza da morte, o que nela se recusa a ser pensado, isto é, pesado segundo qualquer sistema de equivalência, | ||
| + | * Poder-se-ia dizer da morte o que a tradição ocidental tão bem diz de Deus, a saber que é "algo maior do que o qual nada se pode conceber", | ||
| + | * Assim como se pode descobrir um " | ||
| + | * Se o pensamento só pode negar a si mesmo ao negar o ato pelo qual coloca a existência do absoluto, já que esse ato constitui sua própria essência, deve contudo reconhecer previamente que essa própria posição só ocorre no seio da temporalidade do ser pensante e sobre o fundo de sua mortalidade | ||
| + | * Essa absoluta grandeza que é a da dimensão do divino toma assim tudo emprestado da absoluta grandeza e da total impenetrabilidade da morte, de modo que se acaba por perceber que, em sentido essencial, o divino e a morte estão intrinsecamente ligados um ao outro, e que todos os deuses que o homem foi levado a reconhecer e nomear ao longo de sua longa história nunca são senão deuses da morte, sendo aqui o genitivo unilateralmente subjetivo, de uma morte capaz de engendrar no homem sua relação com o mais que humano, sendo assim a fonte imperecível e noturna dessas " | ||
| + | * Talvez seja mais necessária, | ||
| + | * Heráclito já dizia: " | ||
| + | * Os deuses vivem de sua oposição aos mortais porque precisam da morte dos homens para se conhecerem como imortais, assim como os mortais perdem na morte a vida que concedem aos imortais | ||
| + | * Não é impossível compreender do mesmo modo o relato da criação do homem encontrado no Gênesis: Deus cria o homem porque precisa dele para cultivar seu jardim, mas reserva para si só os frutos da árvore de vida que é a árvore do conhecimento do bem e do mal, proibindo ao homem colhê-los | ||
| + | * Por transgredir essa proibição, | ||
| + | * Nietzsche descobre esse verdadeiro sentido do divino, não certamente no Deus do cristianismo, | ||
| + | * Essa nova abordagem do divino, "para além do bem e do mal", não é propriedade exclusiva de Nietzsche, supondo antes a transformação fundamental da figura de Deus já advinda com Kant | ||
| + | * Poder-se-ia opor a Nietzsche, quando afirma que "no fundo apenas o Deus moral foi superado", | ||
| + | * O Deus kantiano, embora permaneça um deus da razão, ainda que de uma razão prática e não teórica, só encontra sentido a partir da presença da lei moral na consciência de um ser finito para o qual ela tem necessariamente o sentido de um imperativo categórico, | ||
| + | * Se " | ||
| + | * Heidegger pôde ver, nesse sentido, o mais das vezes falsamente interpretado como um " | ||
