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| + | ====== HUSSERL ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Husserl: des mathématiques à l’histoire. 1. éd ed. Paris: Presses Univ. de France, 1995.// | ||
| + | **As grandes etapas do pensamento husserliano** | ||
| + | * a obra de Husserl estende-se por quase cinquenta anos, indo dos primeiros trabalhos publicados no outono de 1887, a dissertação de habilitação Sobre o conceito de número, até os últimos manuscritos datados de 1937, embora os textos publicados em vida tenham sido pouco numerosos e representem apenas pequena parte de sua abundante produção filosófica | ||
| + | * quando, poucos meses após a morte de Husserl, o padre franciscano belga Léo Van Breda empreendeu a transferência dos manuscritos de Husserl para a Bélgica, onde, graças ao apoio de uma fundação belga e da Universidade de Louvain, foram fundados os Arquivos Husserl, já se podia medir a amplitude da obra póstuma, com mais de 40.000 folhas estenografadas segundo o método Gabelsberg usado por Husserl, e cerca de 10.000 páginas já transcritas e passadas a limpo à mão ou à máquina por seus assistentes Edith Stein, Ludwig Landgrebe e Eugen Fink | ||
| + | * a publicação das obras completas de Husserl só pôde ser empreendida após a guerra, saindo em 1950 o primeiro volume das Husserliana, | ||
| + | * caracteriza o pensamento de Husserl tanto a diversidade dos caminhos que sua reflexão percorre por vezes simultaneamente quanto a multiplicidade dos traços estenográficos que testemunham uma meditação ininterrupta e a reelaboração ao longo de longos anos de textos que em sua maioria não chegarão ao estágio da publicação, | ||
| + | * Husserl jamais chegou a dar a seu pensamento forma definitiva e canônica, não cessando de se considerar a si mesmo como um principiante, | ||
| + | * podem-se distinguir três grandes etapas nesse longo itinerário filosófico | ||
| + | * uma primeira etapa, a do nascimento da fenomenologia, | ||
| + | * uma segunda etapa, mais longa, estende-se de 1905, ano das Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo e da descoberta da redução fenomenológica, | ||
| + | * uma terceira e última etapa, a da última filosofia, marcada pela importância reconhecida à dimensão histórica, cobre os últimos oito anos da vida de Husserl, sendo o tema essencial o da crise das ciências e da necessidade de uma questão que retorne ao que ele nomeia o "mundo da vida", centro da última obra, A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, | ||
| + | * não se trata aqui de fazer exposição fiel do conjunto da filosofia de Husserl, nem de retraçar todas as sinuosidades do percurso de seu pensamento, mas simplesmente de tentar dar ideia do emaranhado das vias de sua reflexão escolhendo alguns dos problemas mais cruciais encontrados em sua tentativa de fundar a fenomenologia como ciência rigorosa | ||
| + | * o primeiríssimo problema enfrentado por Husserl é o do necessário combate contra o psicologismo com vistas a uma reconquista da autonomia da filosofia e à fundação da fenomenologia como ciência distinta tanto dessa ciência empírica que é a psicologia quanto dessa ciência racional e abstrata que é a lógica | ||
| + | * no primeiro capítulo, consagrado à análise da relação que a fenomenologia mantém com essas ciências dos objetos ideais que são a matemática e a lógica, tratar-se-á de medir a importância, | ||
| + | * o segundo problema encontrado por Husserl, após a fundação da fenomenologia nas Investigações lógicas, é o problema da proto-constituição (Urkonstitution) do próprio sujeito | ||
| + | * as Investigações se dão por tarefa a constituição dos objetos ideais, dos objetos das ciências matemáticas e lógicas, mas a intencionalidade propriamente matemática e lógica pressupõe uma constituição mais originária, | ||
| + | * é da dificuldade da autoconstituição do sujeito que tratará o segundo capítulo, atendo-se essencialmente ao primeiro texto de Husserl consagrado a esse problema, as Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo | ||
| + | * o terceiro problema com o qual Husserl se confronta em sua tentativa de fundação da fenomenologia como ciência transcendental é o da constituição do alter ego, do outro sujeito | ||
| + | * o ego transcendental é a fonte de todos os objetos constituídos, | ||
| + | * como seria então possível encontrar acesso a uma filosofia da intersubjetividade se o outro deve ser constituído, | ||
| + | * seria, contudo, inteiramente errôneo imaginar que só ao fim de todo um período dedicado à constituição da fenomenologia transcendental e ao desenvolvimento do que, com o próprio Husserl, se pode chamar a via cartesiana da redução, é que o problema do outro é enfim encontrado, tratando-se antes, num terceiro capítulo, de mostrar que a questão da intersubjetividade não cessou de acompanhar a problemática da redução fenomenológica, | ||
| + | * o quarto problema que Husserl vê surgir é o da história, cabendo notar que o projeto de uma " | ||
| + | * é preciso antes ver nisso o fio condutor de todo o seu trabalho desde a Filosofia da aritmética, | ||
| + | * tratar-se-á então, num quarto e último capítulo, de interrogar o projeto perseguido por Husserl em sua última filosofia, o qual consiste em fazer aparecer a historicidade paradoxal daquilo que se dá sob o rosto do intemporal — a historicidade da própria verdade | ||
| + | * o caminho assim esquematicamente traçado de Husserl, que o conduz das matemáticas à história, passando pela consideração da temporalidade intrínseca da consciência e do caráter estruturalmente pluralista da subjetividade, | ||
| + | * por isso esse longo périplo, longe de afastá-lo cada vez mais de seu ponto de partida, apenas o traz de volta a ele, de certo modo | ||
| + | * seria isso um fracasso? o que está em jogo nessa questão não é menos que a possibilidade da fenomenologia sob sua figura transcendental, | ||
