estudos:dastur:heidegger:ser
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| + | ====== SER ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Heidegger et la question du temps. Paris: PUF, 1987.// | ||
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| + | **A temporalidade do ser como questão fundamental** | ||
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| + | * Citação de Heidegger — "Não questionamos nem o ser sozinho, nem o tempo sozinho, tampouco nos indagamos sobre o ser e também sobre o tempo, mas nos indagamos ao contrário sobre sua íntima coapertinência e sobre o que dela irrompe" | ||
| + | * O jovem Heidegger, abandonando a teologia pela filosofia, consagra-se primeiro aos problemas lógicos sob a influência das Investigações lógicas de Husserl, publicadas em 1901, que determinam a forma e o tema de seus primeiros escritos, da Dissertação de 1914 sobre A doutrina do juízo no psicologismo à tese de habilitação de 1916 sobre A teoria das categorias e da significação em Duns Escoto, dominada pela ideia husserliana de uma gramática pura a priori | ||
| + | * Na mesma época toma consciência da importância da dimensão histórica, agradecendo na Dissertação a seu professor Finke, o historiador, | ||
| + | * Essa lição, primeiro texto de Heidegger dedicado ao tempo, está ainda muito distante da problemática de Ser e tempo, tratando-se de pesquisa epistemológica que visa estabelecer a especificidade do conceito de tempo da ciência histórica em oposição ao das ciências físicas | ||
| + | * Recordando seu semestre de estudos em matemática e física, mostra que, de Galileu a Einstein inclusive, a concepção do tempo na física não mudou, sendo sua função tornar possível a medida, constituindo momento necessário da definição do movimento, objeto próprio da ciência física | ||
| + | * A esse tempo homogeneizado, | ||
| + | * Heidegger, ao propor uma teoria do tempo físico próxima da de Bergson no Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, | ||
| + | * Além do problema epistemológico, | ||
| + | * Citação de Mestre Eckhart — "O tempo é o que se transforma e se diversifica, | ||
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| + | **Tempo e eternidade** | ||
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| + | * É precisamente essa oposição, aparentemente incontornável, | ||
| + | * Dirigindo-se a teólogos, Heidegger cuida de distinguir a dimensão do pensamento da dimensão da fé, o mesmo cuidado que o leva, num curso do semestre de inverno de 1921-22, a declarar que a filosofia mesma é, enquanto tal, ateia quando se compreende de maneira radical, o que significa que o filósofo não se comporta religiosamente ao pensar, ainda que seja também um homem religioso | ||
| + | * Numa conferência proferida em março de 1927 em Tübingen, Heidegger determina com a maior clareza as relações entre filosofia e teologia como as de duas ciências absolutamente distintas | ||
| + | * A filosofia é a ciência do ser, que não é um dado prévio à investigação científica mas a dimensão a partir da qual todo dado como tal aparece, ao passo que a teologia é ciência não ontológica mas ôntica, ciência de um ente previamente dado à investigação, | ||
| + | * O que constitui a positividade da teologia é a fé, modo de existência não livremente adotado mas resultante de uma revelação, | ||
| + | * Se há comunidade possível entre filosofia e teologia, é apenas porque a teologia, como toda ciência positiva, necessita da filosofia para determinar o domínio ontológico de seus próprios conceitos, não necessitando a filosofia da teologia, razão pela qual não empreende combatê-la nem anexá-la, sendo a própria ideia de uma filosofia cristã, conclui Heidegger, um círculo quadrado | ||
| + | * Somente a dimensão da fé e do que por ela é revelado permite o acesso à eternidade verdadeira que se confunde com Deus, sendo a eternidade, para o filósofo, apenas o conceito vazio de um ser permanente que, longe de ser origem do tempo, é na verdade derivado de nossa experiência ordinária da temporalidade | ||
| + | * Não se trata de buscar a origem do tempo em outro lugar senão em nós mesmos, nessa temporalidade que somos, sublinhando Heidegger ao final da conferência que não se trata de definir o tempo como sendo isto ou aquilo, mas de transformar a pergunta "o que é o tempo?" | ||
| + | * Essa é a única maneira de falar temporalmente do tempo, em vez de hipostasiá-lo como ser diferente de nós ao qual seria conferida identidade que negaria seu caráter temporal, antecipando a tese, repetida várias vezes na conferência, | ||
| + | * Prefere-se aqui destacar a necessidade do que Heidegger chama o desvio que, da questão do tempo, conduz à do ente que somos nós mesmos, já nomeado Dasein, entendendo por isso o ser desse ente que conhecemos como vida humana, não bastando notar, como já viam Aristóteles e depois Santo Agostinho, que a medida do tempo só é possível pela intermediação da alma ou do espírito | ||
| + | * É preciso reconhecer que o ser humano tem relação inteiramente particular com o tempo, pois é a partir dele que pode ser decifrado o que é o tempo, não estando ele no tempo como as coisas da natureza, mas sendo em seu fundo temporal, sendo tempo | ||
| + | * A análise fenomenológica de nossa experiência da medida do tempo ensina que o relógio não indica a duração, a quantidade de tempo que decorre, mas apenas o agora fixado a cada vez em relação à ação presente, passada ou vindoura | ||
| + | * Só posso ler a hora no relógio referindo-me a esse agora que sou e que remete a essa temporalidade minha, preexistente a todos os instrumentos destinados a medi-la, não estando o Dasein, que é a cada vez meu, no sentido de um "eu sou" constitutivo, | ||
| + | * Essa temporalidade própria do Dasein, distinta da intratemporalidade das coisas do mundo, só é acessível ao Dasein quando este se compreende como ser mortal, isto é, quando antecipa seu próprio fim, seu próprio ser-passado, | ||
| + | * Por essa antecipação da morte, na qual Heidegger vê o porvir autêntico — não o que ainda não está presente, mas a dimensão a partir da qual pode haver um presente e um passado —, o Dasein se dá a si mesmo seu tempo, tornando-se manifesto que a relação originária com o tempo não é a medida | ||
| + | * No que Heidegger chama antecipação da morte — Vorlaufen, literalmente ir ao encontro dela — não se trata de perguntar quanto tempo ainda nos separa dela, mas de o Dasein apreender seu próprio ser-passado como possibilidade de cada instante | ||
| + | * Essa concepção da temporalidade originária como porvir autêntico foi descoberta por Heidegger na primeira epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, | ||
| + | * O que advém com a experiência cristã é uma nova concepção da escatologia, | ||
| + | * Ter uma relação com a parusia significa estar presentemente em vigília e não em espera de um evento ainda não advindo, transformando-se a pergunta " | ||
| + | * O que interessa a Heidegger na experiência cristã originária não é ser fé em tal ou qual conteúdo da revelação, | ||
| + | * Por não tentar dar da existência uma representação objetiva por meio de referências cronológicas e conteúdos calculáveis, | ||
| + | * Os caracteres cairológicos caracterizam a vida em sua facticidade justamente por determinarem sua relação com o tempo, relação de cumprimento, | ||
| + | * Heidegger interessa-se muito nessa época por Dilthey, cuja correspondência com Yorck von Wartenburg de 1877 a 1897 acabara de ser publicada em 1923, tendo-se descoberto recentemente, | ||
| + | * De Dilthey Heidegger retém a ideia de que a vida se compreende a partir de si mesma, que possui estrutura hermenêutica, | ||
| + | * É também nesse último curso de Friburgo que Heidegger renuncia ao vocabulário da filosofia da vida de Dilthey em favor da análise existencial, | ||
| + | * Os limites do pensamento de Dilthey são os de uma filosofia da vida que, por opor natureza e história, ser e vida, não se interroga suficientemente sobre o ente intrinsecamente historial, que Heidegger já não concebe segundo a definição tradicional de vivente dotado de razão, animal rationale, mas como ser particular ao qual é reconhecido o privilégio da compreensão do ser que ele mesmo é e do ser que ele não é, isto é, como Dasein | ||
| + | * Renunciar a dominar o tempo pelo cálculo, isto é, objetivá-lo sob a forma do tempo que é para todos porque não é para ninguém, o tempo do " | ||
| + | * Se, no vínculo com a morte, cada um se encontra só diante do que constitui o caráter único de seu destino, esse extremo isolamento pelo qual cada um experimenta o impartilhável é também o que torna cada um idêntico a todos os outros | ||
| + | * A finitude do tempo próprio já não se apoia numa eternidade que a compreenderia, | ||
| + | * Se, a partir da abordagem heideggeriana do tempo, algo como uma eternidade fosse ainda pensável, só o seria em sentido inteiramente diferente, a partir de uma temporalidade pensada de modo mais originário, | ||
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| + | **Questão do ser e questão do tempo** | ||
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| + | * A questão da facticidade e da temporalidade não é a primeira que se coloca Heidegger, que se dirigira primeiro à elucidação dos problemas lógicos, determinando ele sempre, ao rememorar retrospectivamente seu próprio caminho de pensamento — na entrevista com um professor japonês em 1954, na carta ao Padre Richardson em 1962, no texto autobiográfico dedicado a seu editor Hermann Niemeyer em 1963, ou na intervenção de 1969 no Congresso comemorativo do trigésimo aniversário da morte de Husserl —, como ponto de partida de seu pensamento a frase de Aristóteles to on legetai pollakhôs (o ente se diz de múltiplas maneiras), que Franz Brentano, mestre de Husserl, pôs em epígrafe de sua Dissertação de 1862, Da significação múltipla do ente em Aristóteles | ||
| + | * Esse livro, recebido em 1907 das mãos de Conrad Gröber, seu protetor e amigo, foi a primeira leitura filosófica de Heidegger e decidiu a orientação de seu pensamento para a questão do sentido do ser | ||
| + | * Aristóteles distingue quatro maneiras, aparentemente incompatíveis, | ||
| + | * A questão de Heidegger recai sobre a significação diretriz e fundamental que rege essa diversidade de sentidos que Aristóteles apenas constata, mas ao passo que Brentano dá à significação categorial do ser um privilégio sobre as demais, Heidegger, por buscar nas Investigações lógicas de Husserl a solução às questões suscitadas pela leitura de Brentano, é levado a atribuir importância decisiva ao ser como verdadeiro | ||
| + | * É no último seminário que Heidegger ministrou em Zähringen em 1973, dedicado a Husserl, que exprimiu com maior clareza o que as Investigações lógicas trouxeram de decisivo para a questão do sentido do ser | ||
| + | * Citação de Heidegger — "Com suas análises da intuição categorial, Husserl libertou o ser de sua fixação no julgamento" | ||
| + | * Afirmar, como faz Husserl na sexta Investigação, | ||
| + | * Para Husserl, o ser não é simples conceito, pura abstração, | ||
| + | * Percebia assim, na teoria husserliana da evidência, compreendida como ato de identificação do que é visado e do que é intuído, e na teoria da verdade como identidade do visado e do intuído que dela decorre, uma proximidade com o conceito aristotélico de verdade, sobretudo o do capítulo 10 do livro θ da Metafísica, | ||
| + | * Citação de Heidegger — "A fenomenologia rompe assim com a limitação do conceito de verdade aos atos de colocação em relação, aos julgamentos (...) Ela retorna, sem consciência expressa disso, à amplitude do conceito de verdade pelo qual os gregos — isto é, Aristóteles — podiam também chamar de verdadeiros a percepção enquanto tal e o simples fato de perceber algo" | ||
| + | * Se Husserl se aproxima de Aristóteles, | ||
| + | * A verdade aparece assim como dimensão do próprio ser e não do julgamento, sendo caracterizar o ser como verdadeiro dar-lhe sua determinação verdadeira, no sentido em que para Aristóteles só é verdadeiramente o que pode ser desvelado numa apreensão puramente enunciativa que nada acrescenta ao que é, apenas o apresenta | ||
| + | * Aristóteles não se interroga, porém, sobre o sentido dessa identidade entre ser e verdade, não trazendo à luz o caráter propriamente temporal da apresentação do que é na apreensão enunciativa, | ||
| + | * O único filósofo em toda a história da ontologia a ter pressentido algo dessa conexão íntima entre a compreensão do ser e o tempo é Kant, o que explica o debate de fundo que Heidegger trava com ele antes e depois de 1927, em cursos que culminarão no livro Kant e o problema da metafísica, | ||
| + | * É em sua teoria do esquematismo dos conceitos puros do entendimento que Kant mostra que o entendimento não pode funcionar de outro modo senão essencialmente referido ao tempo, sendo os esquemas que permitem a aplicação das categorias aos fenômenos determinações a priori do tempo | ||
| + | * Kant pressentiu, sem poder verdadeiramente percebê-la, | ||
| + | * Desde Aristóteles o tempo é definido como tempo da natureza, tempo do mundo objetivo, e enquanto se mantiver tal concepção, | ||
| + | * Heidegger propõe-se, com base numa concepção do tempo radicalmente diferente daquela que rege toda a tradição, tematizar a estrutura temporal dos fenômenos lógicos no quadro do que poderia constituir, sob o nome de cronologia fenomenológica, | ||
| + | * Tratar-se-ia de mostrar em que fenômenos que não ocorrem necessariamente no tempo, não sendo portanto necessariamente temporais (zeitlich), como a verdade ou a falsidade, não deixam de ser caracterizados pelo tempo (temporal), sentido que permanece a esclarecer, dada a grande confusão que reina no domínio filosófico quanto às determinações temporais | ||
| + | * Assim a questão ontológica inicial se reencontra com a do tempo, da facticidade e da historialidade — a questão sobre o ser enquanto presença torna-se questão sobre o caráter temporal do ser, passando o tempo a fazer questão da mesma maneira que o ser, precisamente pela impossibilidade de pensar a relação entre ser e tempo a partir do conceito de tempo herdado da tradição | ||
| + | * É da questão inicial da filosofia, tal como a colocou Aristóteles, | ||
| + | * Citação de Heidegger — "Minha questão do tempo foi determinada a partir da questão do ser" | ||
| + | * A questão do tempo parte, portanto, da questão do ser e não de uma reflexão sobre a consciência e sua temporalidade interna, acrescentando Heidegger que ela seguiu uma direção sempre estranha às pesquisas de Husserl sobre a consciência íntima do tempo | ||
| + | * Não se deve imaginar que, por aceitar, a pedido de Husserl, editar as Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo, publicadas em abril de 1928, Heidegger reconheça alguma influência do pensamento husserliano do tempo sobre o seu próprio | ||
| + | * Heidegger não deixa de reconhecer o progresso que representam as pesquisas de Husserl sobre o tempo em relação à psicologia e à teoria do conhecimento contemporâneas, | ||
| + | * Quanto ao tempo, porém, Husserl continua a vê-lo como algo imanente, interior ao sujeito, ao passo que para Heidegger trata-se de pensar o próprio " | ||
| + | * Citação de Heidegger — "O que Husserl ainda chama de consciência temporal, isto é, consciência do tempo, é justamente o próprio tempo no sentido originário" | ||
| + | * Não há para Heidegger, de um lado, o tempo em seu próprio escoamento e, de outro, as modalidades de consciência pelas quais esse escoamento seria apreendido, havendo apenas um único processo de temporalização ao qual não se pode atribuir subsistência separada, o que o torna impróprio a toda apreensão conceitual | ||
| + | * A questão do ser e a questão do tempo não constituem, portanto, dois temas separados no pensamento de Heidegger, consistindo a novidade de Ser e tempo precisamente em ter feito desses dois problemas tradicionais uma única questão, a da temporalidade do ser | ||
| + | * É isso que Heidegger quer sublinhar ao afirmar, ao final de Kant e o problema da metafísica, | ||
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| + | **O sentido temporal do ser** | ||
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| + | * Para compreender o problema central de Ser e tempo é necessário voltar-se às primeiras páginas do livro, prefácio e introdução, | ||
| + | * A citação do Sofista de Platão que abre Ser e tempo não é simples ornamento, mas indicação de que a questão do sentido do ser já foi colocada pela metafísica antiga, que conheceu algo semelhante a uma gigantomakhia peri tês ousias, um combate de gigantes acerca do ser | ||
| + | * Citação de Platão (Sofista) — "nós mesmos, até agora, imaginávamos compreendê-lo, | ||
| + | * Para Parmênides e seus discípulos, | ||
| + | * Heidegger encontra-se diante da tradição metafísica inteira na mesma situação de Platão diante de Parmênides, | ||
| + | * Colocar de novo a questão do ser não significa retomar o questionamento platônico, mas recolocar a mesma questão do sentido do ser de modo ainda mais radical do que Platão, implicando isso que o que está em questão já não é simplesmente o ente mas o ser do ente | ||
| + | * A questão de Platão como a de Aristóteles é questão sobre o sentido a dar ao ente — to on —, ao passo que a de Heidegger concerne ao que determina todo ente enquanto ente e que, sendo ser do ente, não é ele mesmo um ente | ||
| + | * Platão deu o primeiro passo em direção à compreensão do problema do ser ao afirmar no Sofista que a filosofia começa quando se deixa de " | ||
| + | * Era isso, contudo, já o que queria Tales — sua pergunta visava o que é o ente enquanto ente, mas em sua resposta esclarecia o ente a partir de outro ente, a água, continuando assim a explicar o ser a partir de determinações ônticas, o que é próprio do mito e da teologia, na medida em que esta recorre a um Deus concebido como ente supremo para explicar o ente em totalidade | ||
| + | * Foi com esse modo de pensar que Platão e Aristóteles quiseram romper, visando sob o nome de filosofia uma ciência do ente enquanto tal que tivesse por objeto o ente do ponto de vista de sua essência | ||
| + | * Essa filosofia, porém, é ainda, em vocabulário posterior a Ser e tempo, apenas uma ciência da entidade, não se desdobrando ainda na dimensão do que Heidegger nomeia a " | ||
| + | * A diferença entre ser e ente forma, contudo, o horizonte implícito de Ser e tempo, onde se afirma repetidamente na Introdução que "o ser não é algo como o ente", não significando interrogar sobre o ser enquanto tal indagar o que é comum a tudo o que é, ainda que se compreenda, como Aristóteles, | ||
| + | * Isso, do qual não se pode dizer que " | ||
| + | * O que Ser e tempo visa é, segundo o Prefácio, "a elaboração concreta da questão do sentido do ser", do ser e não mais apenas do ente, sendo seu objetivo "a interpretação do tempo como horizonte possível de toda compreensão do ser em geral" | ||
| + | * Heidegger fala aqui de " | ||
| + | * Esse objetivo, preliminar à " | ||
| + | * A leitura atenta do Prefácio de Ser e tempo já dá indicação sobre como entender o título do livro de 1927, não podendo o " | ||
| + | * Isso só é pensável se a determinação tradicional do ser como entidade e a do tempo como sucessão de agoras pontuais forem ambas abandonadas em favor de um pensamento mais originário do ser e do tempo capaz de trazer à luz o que o próprio Heidegger nomeia, em seu curso do semestre de verão de 1930, sua " | ||
| + | * É na Introdução que essa relação se precisa, tendo "A exposição da questão do sentido do ser" por objetivo despertar novamente a compreensão para o sentido da questão do ser numa época dominada pelo neokantismo, | ||
| + | * Em sua segunda parte (parágrafos 5 e 6), expõe as duas tarefas a cumprir para elaborar a questão do ser, correspondentes às duas partes do tratado projetado, antecipando amplamente o conteúdo da obra inacabada publicada em 1927 e esboçando os grandes traços da problemática de conjunto | ||
| + | * Heidegger declara aí que " | ||
| + | * Para ver o tempo como o domínio no interior do qual se mantém toda compreensão pré-filosófica do ser e toda explicitação filosófica do ser, requer-se "uma explicação originária do tempo como horizonte da compreensão do ser a partir da temporalidade como ser do Dasein que compreende o ser", explicação que constitui o objeto da terceira seção não publicada, "Tempo e ser" | ||
| + | * A analítica do Dasein e o destacamento da temporalidade como o que constitui o sentido de seu ser preparam o terreno para responder à questão do sentido do ser, não podendo desvelar-se o tempo como o que constitui o sentido do ser do ente que não é o Dasein, mas com o qual este se relaciona, senão a partir da temporalidade como sentido do ser do Dasein | ||
| + | * É surpreendente constatar que o tempo em sua acepção corrente serve de critério para distinguir as diferentes regiões do ente, opondo-se o temporal ao intemporal (o espacial), ao atemporal (o ideal) ou ao supratemporal (o eterno), compreendendo-se sempre o temporal como o que está no tempo, sem jamais se ter interrogado sobre o fato de que uma tal função ontológica seja devolvida ao tempo | ||
| + | * O conteúdo da terceira seção fica assim claramente determinado — após mostrar que o tempo é horizonte de toda compreensão do ser, tratar-se-ia de mostrar, em contrapartida, | ||
| + | * A todos os modos do ser reconhece-se assim uma Temporalidade (Temporalität) que se pode desde já qualificar de " | ||
| + | * Trata-se de marcar por distinção terminológica a diferença da relação com o tempo entre o Dasein, de um lado, e o ente que não é da ordem do Dasein, de outro, não sendo essa diferença de modo algum uma oposição, sendo êxtase e horizonte termos inseparáveis, | ||
| + | * A resposta concreta à questão do sentido do ser só se encontra, portanto, na exposição da problemática da Temporalidade, | ||
| + | * Seu objeto é "a destruição do fundo tradicional proveniente da ontologia antiga em direção às experiências originárias nas quais foram adquiridas as primeiras determinações do ser que permaneceram em seguida as determinações diretrizes", | ||
| + | * O caminho regressivo da " | ||
| + | * Trata-se então, numa terceira etapa, de mostrar o sentido e os limites da própria ontologia antiga à luz da problemática da Temporalidade | ||
| + | * A ontologia antiga também compreende o ser a partir do tempo, mas sem ter saber expresso dessa função ontológica fundamental do tempo, considerando antes o tempo como um ente entre outros, como atesta o início do tratado aristotélico sobre o tempo (Física IV, cap. 10), que pergunta se o tempo faz ou não parte do ente antes mesmo de determinar sua natureza | ||
| + | * Essa primeira interpretação circunstanciada do fenômeno do tempo permaneceu, segundo Heidegger, determinante para toda concepção ulterior do tempo, podendo-se encontrar testemunho de que os gregos compreenderam o ser sem o saber a partir do tempo na determinação grega do ser como parousia ou ousia | ||
| + | * Ousia é o termo fundamental que designa, para Platão e Aristóteles, | ||
| + | * Na língua corrente, ousia significa a morada e o bem-fundo, o que está constantemente disponível, | ||
| + | * A significação temporal de ousia, permanecida oculta a Platão e Aristóteles, | ||
| + | * O sentido ontológico-temporal de ousia é, portanto, " | ||
| + | * Esse primado do presente provém, mostra Heidegger, do "fio condutor" | ||
| + | * Essa ênfase no logos como dimensão própria da humanidade explica que Platão dê à filosofia, isto é, à ontologia, o nome de dialética, compreendida no Sofista — diálogo ao qual Heidegger dedicou seu curso do semestre de inverno de 1924-1925 — como a discussão da relação entre os gêneros supremos | ||
| + | * Se a dialética se torna supérflua com Aristóteles, | ||
| + | * Citação de Parmênides — "to gar auto noein estin te kai einai" ("o mesmo é a um só tempo pensar e ser") | ||
| + | * Legein e noein têm a mesma estrutura temporal, a da pura " | ||
| + | * É essa significação temporal do ser, que atravessa toda a história da ontologia, que a " | ||
| + | * Citação de Heidegger — "É somente no cumprimento da destruição da tradição ontológica que a questão do ser adquire sua concreção verdadeira" | ||
| + | * A resposta à questão do sentido do ser na primeira parte — a saber, que esse sentido é temporal — permitiria mostrar, na segunda parte, o que constitui o lugar de origem da história da ontologia, o próprio tempo, evidenciando-se assim o sentido em que se fala de uma " | ||
| + | * Citação de Heidegger — "A questão diretriz — o que é o ente? — deve necessariamente converter-se na questão fundamental que indaga sobre o ' | ||
| + | * O que determina a necessidade da transformação da questão diretriz da filosofia na questão fundamental de Heidegger é unicamente a evidenciação do caráter de questão — a Fraglichkeit — da própria questão diretriz, exigindo desdobrá-la plenamente interrogar-se sobre a estrutura formal de toda questão e sobre o modo de ser do ente que questiona | ||
| + | * O que é questão diretriz para um pensamento que só vê no homem um ente entre outros torna-se questão fundamental para um pensamento que se interroga sobre o fundamento da possibilidade da compreensão do ser, sendo o tempo, enquanto tal fundamento, ao mesmo tempo o que torna possível o que é questionado, | ||
| + | * Torna-se então " | ||
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