estudos:dastur:heidegger:ereignis
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| + | ====== EREIGNIS ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Heidegger et la question du temps. Paris: PUF, 1987.// | ||
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| + | **O inacabamento de Ser e tempo e o pensamento do Ereignis** | ||
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| + | * Citação de Heidegger — "O abismo é a unidade originária do espaço e do tempo, essa unidade unificante que só os deixa separar-se um do outro em seu divórcio" | ||
| + | * A última frase de Ser e tempo é uma pergunta — "Há um caminho que conduza do tempo originário ao sentido do ser? O tempo mesmo se manifesta como o horizonte do ser?" —, sendo a análise existencial temporal apenas o caminho a percorrer para atingir o objetivo de toda pesquisa filosófica enquanto tal, a elaboração da questão do ser em si | ||
| + | * Se esse caminho da analítica existencial é o único possível, ou mesmo o bom caminho, é algo que, declara Heidegger, só pode ser decidido depois de percorrido, interrompendo-se contudo esse percurso antes de vencer sua última etapa | ||
| + | * Se, como mostrou a análise existencial temporal, a constituição ontológica do Dasein inteiro se funda na temporalidade, | ||
| + | * A terceira seção da primeira parte, Tempo e ser, que teria por tema "a explicação do tempo como horizonte transcendental da questão do ser", deveria mostrar como o que se poderia nomear a historialidade do próprio ser se " | ||
| + | * Isso não significa que o ser seja um " | ||
| + | * Enquanto ser-em-falta, | ||
| + | * Levanta-se a questão de como entender esse inacabamento — como sinal de que o caminho percorrido não podia levar ao objetivo perseguido e devia por isso ser abandonado em favor de outro, ou antes como o próprio percurso desse caminho que conduzirá Heidegger a compreender de outro modo seu caminhar uma vez atingido o objetivo | ||
| + | * É o próprio Heidegger quem, em 1946, na Carta sobre o humanismo, falará de " | ||
| + | * Ao se chocar do Dasein contra a dureza daquilo que está em questão para ele, o pensamento, longe de se afastar, se aproxima daquilo que se propôs pensar, a historialidade do ser | ||
| + | * Ter Heidegger, em 1927, renunciado a publicar sua primeira versão da terceira seção, e tê-la queimado pouco depois de escrevê-la por julgá-la insuficiente, | ||
| + | * O curso do semestre de verão de 1927, Os problemas fundamentais da fenomenologia, | ||
| + | * O programa da segunda parte de Ser e tempo, sobre os " | ||
| + | * A destruição fenomenológica da ontologia de Descartes e sua retomada da ontologia medieval é tema dos parágrafos 10 a 12 de Os problemas fundamentais da fenomenologia e de um curso de 1923-24 sobre O início da filosofia moderna, encontrando-se elementos da destruição da ontologia antiga a partir do Tratado do tempo de Aristóteles em cursos de 1924-25 sobre o Sofista de Platão e de 1926 sobre os Conceitos fundamentais da filosofia antiga, em Lógica e no curso de 1930, Da essência da liberdade humana | ||
| + | * Heidegger não abandonou, portanto, a problemática da Temporalidade do ser, apenas renunciou à sua formatação sistemática, | ||
| + | * Esse giro ou reviravolta (Kehre ou Umkehr), pelo qual o ser já não é temporal por constituir a unidade horizontal da temporalidade ekstática do Dasein, mas porque, sendo historial em si mesmo e não apenas por intermédio do Dasein, é o próprio ser que " | ||
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| + | **[continuação sem cabeçalho no original]** | ||
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| + | * Nesse texto, a verdade, que em Ser e tempo era determinação do próprio Dasein, sendo o ser do homem para si mesmo sua própria luz e o Dasein mesmo a clareira, torna-se determinação do próprio ser, agora pensado como domínio do aberto (das Offene), como alêtheia, nome grego da verdade que Heidegger traduz agora literalmente por Unverborgenheit, | ||
| + | * A existência, | ||
| + | * Com base nessa concepção da ek-sistência do homem, reconhece-se-lhe agora pertencimento a uma história, que só é história da humanidade por ser primordialmente história do ser | ||
| + | * Citação de Heidegger — "O homem ek-siste significa agora — a história das possibilidades essenciais de uma humanidade historial é salvaguardada para ela na desocultação do ente em seu conjunto. É do modo como a essência originária da verdade desdobra seu ser que nascem as raras e simples decisões da história" | ||
| + | * Se Heidegger fala de " | ||
| + | * Citação de Heidegger — "Esse giro não é uma modificação do ponto de vista de Ser e tempo, é antes nele apenas que o pensamento tentado em Ser e tempo chega à localidade da dimensão a partir da qual Ser e tempo é experimentado e experimentado a partir da experiência fundamental do esquecimento do ser" | ||
| + | * Coloca-se a questão de ratificar a auto-interpretação de Heidegger e considerar que esse giro não é tanto a saída de um pensador encurralado num impasse ou peripécia própria do pensamento questionante, | ||
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| + | **O desenvolvimento da ontologia temporal como ciência transcendental de 1927 a 1929** | ||
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| + | * A temporalidade é a condição de possibilidade da constituição ontológica do Dasein, devendo por isso sê-lo também da compreensão do ser que faz parte dessa constituição, | ||
| + | * Isso significa que a tematização do ser encontraria seu fio diretor a partir do qual se tornaria possível uma " | ||
| + | * Precisa-se o sentido dessa terminologia em Os problemas fundamentais da fenomenologia — enquanto os termos alemães que designam a temporalidade são usados no quadro da analítica existencial, | ||
| + | * A elaboração científica dessa interpretação exige a objetivação do ser em si, o destacamento da dimensão que já tornava possível sua compreensão pré-científica, | ||
| + | * A elaboração da Temporalidade do ser consiste na tentativa de conceber o que Platão designa na Alegoria do sol da República como o epekeina tês ousias, esse além do ser "que faz função de luz, de esclarecimento para todo desvelamento do ente, como aqui de esclarecimento para a compreensão do próprio ser" | ||
| + | * Por só haver ser na compreensão do Dasein, o destacamento da Temporalidade do ser não pode consistir na elaboração de um conceito de tempo englobante, não sendo a unidade do sentido do ser, para Heidegger, de ordem genérica, mas na explicação da Temporalidade do ser a partir da temporalidade do Dasein | ||
| + | * É esta que torna possível a ontologia como ciência e é enquanto tal que é nomeada Temporalidade — citação de Heidegger — "O termo Temporalität (...) significa a Zeitlichkeit na medida em que esta é ela mesma tematizada como condição de possibilidade da compreensão do ser e da ontologia como tal" | ||
| + | * Explica-se assim ter-se traduzido pela mesma palavra portuguesa temporalidade os dois termos distintos alemão e latino, distinguindo-os apenas por maiúscula, não se tratando de dois fenômenos distintos mas de um só e mesmo fenômeno visto sob dois pontos de vista diferentes | ||
| + | * Trata-se de mostrar como a temporalidade torna possível a compreensão do ser — sendo esta possibilitada pela constituição fundamental do Dasein como ser-no-mundo, | ||
| + | * Esse pequeno parágrafo representa, em relação à questão do sentido do ser, o ponto culminante do livro, pondo a unidade do ser do Dasein e do mundo, ao mostrar que este também se funda na temporalidade | ||
| + | * Numa longa nota de Da essência do fundamento, texto dedicado a Husserl por seu septuagésimo aniversário e cujo tema central é a transcendência, | ||
| + | * O conceito heideggeriano de transcendência dirige-se contra a representação da interioridade do sujeito como " | ||
| + | * Por querer mostrar que o Dasein enquanto ser-no-mundo não se confunde com o sujeito no sentido moderno, Heidegger rejeita a oposição tradicional entre imanência e transcendência que ainda rege, apesar da pluralidade de sentidos que Husserl reconhece a esses conceitos, a problemática da intencionalidade da consciência | ||
| + | * Para Heidegger não é a coisa que é transcendente, | ||
| + | * O que ele transcende é o ente em sua totalidade em direção ao mundo, que é transcendente por pertencer à estrutura do ser-no-mundo e não por ser constituído pela soma dos objetos " | ||
| + | * A partir dessa transcendência assim definida é possível compreender a intencionalidade não apenas a partir da intentio do " | ||
| + | * O comportamento intencional só permite a descoberta do ente, o que pressupõe a abertura prévia de seu ser, implicando que, supondo toda relação com o ente a compreensão de seu ser, a intencionalidade, | ||
| + | * A problemática da transcendência permite tornar visível esse além do ser que constitui o horizonte de sua compreensibilidade sem sair da " | ||
| + | * É este que torna possível a ultrapassagem em direção ao mundo, na medida em que as ekstases da temporalidade comportam em si mesmas o horizonte que lhes é próprio, devendo a unidade estrutural da transcendência e do mundo ser compreendida como a das ekstases da temporalidade com seus esquemas horizontais | ||
| + | * Sendo a transcendência que torna possível a compreensão do ser, e fundando-a a unidade originária ekstático-horizontal da temporalidade, | ||
| + | * É considerando a temporalidade completa, a unidade inseparável das ekstases e dos horizontes, que Heidegger formou o conceito de Temporalität — citação de Heidegger — "É a Zeitlichkeit, | ||
| + | * Heidegger usa o conceito de Temporalität em sentido estrito e em sentido amplo, designando ora, em sentido amplo, a Zeitlichkeit como condição de possibilidade da compreensão do ser, ora, em sentido estrito, apenas o esquema horizontal da Zeitlichkeit, | ||
| + | * É sobre o conceito de horizonte que Heidegger se mostra mais explícito, precisando em seu curso de 1928, que versa em parte sobre a teoria leibniziana do julgamento, que o termo horizonte, vindo do grego horizein, não se relaciona primordialmente com o ver e o intuir, mas significa simplesmente o que delimita e encerra | ||
| + | * Toma assim distância do conceito moderno de horizonte que, de Leibniz a Husserl inclusive, define ao mesmo tempo o domínio infinito do cognoscível e os limites do conhecimento claro possível, não se tratando para Heidegger de relacionar a " | ||
| + | * O horizonte não constitui para ele o campo da visão teórica, mas o domínio do projeto, devendo ser compreendido, | ||
| + | * A ekstase deve certamente ser vista como movimento de ultrapassagem, | ||
| + | * Enquanto condição da abertura ao outro, o horizonte não pode ele mesmo tornar-se temático, não podendo constituir correlato da ekstase da qual é, no entanto, inseparável, | ||
| + | * O horizonte, ao contrário do noema, que é imanente em sentido intencional mas não real, não tem seu lugar de estabelecimento na esfera do sujeito, não sendo localizável nem espacial nem intratemporalmente, | ||
| + | * Isso explica que o horizonte escape tanto ao modo de pensamento moderno, para o qual todo ser é constituído na consciência, | ||
| + | * Por representar o horizonte a condição de possibilidade para a ekstase de um movimento geral de ultrapassagem, | ||
| + | * Não sendo os horizontes compreensíveis a partir de outra coisa que não eles mesmos, isso implica ser impossível objetivar e analisar integralmente as condições de possibilidade da temporalidade destacando-as, | ||
| + | * É esse o sentido da tese do parágrafo 65 de Ser e tempo — "o tempo originário é finito" | ||
| + | * Isso implica compreender de modo positivo, e não negativo, o fechamento do horizonte — o horizonte, enquanto constitui o fim do movimento ekstático, é ao mesmo tempo o começo da abertura do ente, não constituindo o horizonte, tampouco a morte, limite externo para o Dasein | ||
| + | * Em Ser e tempo a morte " | ||
| + | * A horizontalidade da temporalidade exprime a positividade da finitude, no sentido em que o positivo se esclarece essencialmente a partir do negativo, sendo a dependência do Dasein em relação a um ente predado que exige a produção de um horizonte no interior do qual o ente já presente poderá aparecer | ||
| + | * É o fato de o intuitus humano ser onticamente não criador que exige sua criatividade ontológica naquilo que Kant nomeia a exhibitio originaria da síntese produtora da imaginação | ||
| + | * Deve aqui esclarecer-se a noção de " | ||
| + | * A imaginação pura, ao formar o esquema, procura de antemão uma " | ||
| + | * O que Kant descobriu em sua teoria do esquematismo é "a produtividade originária do sujeito", | ||
| + | * Ao buscar fazer de Kant "um advogado em favor de sua própria questão do ser", Heidegger é levado a " | ||
| + | * É unicamente com base nessa ipseidade que o ser finito pode ser submetido à receptividade, | ||
| + | * As ekstases pré-figuram para si mesmas a vista a partir da qual poderão se manifestar como modos específicos de abertura, sendo assim o fundamento do que as torna compreensíveis, | ||
| + | * Por ser a liberdade finita, por não ser ela mesma sua própria origem, é precisamente, | ||
| + | * Em Os problemas fundamentais da fenomenologia, | ||
| + | * Sendo a percepção um comportamento intencional, | ||
| + | * À ekstase como tal pertence um esquema horizontal, que no caso do presente é o praesens, indicando o recurso ao latim tratar-se aqui de fenômeno não ekstático mas horizontal, projetando a apresentação enquanto movimento ekstático o que apresenta em direção à praesentia | ||
| + | * A significação temporal do ser enquanto subsistência é, portanto, a presença (Anwesenheit, | ||
| + | * A proposição kantiana segundo a qual o ser (subsistente) é posição só recebe seu sentido completo a partir de sua interpretação temporal — a " | ||
| + | * A análise temporal do ser no sentido de subsistência permitiu compreender que é o esquema horizontal da praesentia que prescreve tanto ao comportamento intencional do Dasein quanto ao descobrimento do ente sua modalidade específica | ||
| + | * Compreende-se então por que as ekstases não constituem por si sós o fundamento do ser-no-mundo — sem os esquemas horizontais a partir dos quais o Dasein retorna intencionalmente ao ente, a própria intencionalidade permaneceria incompreensível, | ||
| + | * O ser é a abertura horizontal produzida pela autoprojeção da ekstase a partir da qual o comportamento intencional por ela possibilitado se compreende a si mesmo, de modo que possa ocorrer um descobrimento determinado do ente, definindo-se assim a existência do Dasein, fundada na temporalidade, | ||
| + | * É a estrutura da temporalidade que torna possível esse ente que é o Dasein — um ente sempre já " | ||
| + | * Se " | ||
| + | * Esse poder-diferenciar deve ser compreendido como um poder-esquematizar, | ||
| + | * A análise existencial da esquematização poderia dar conta de que o discurso em que ela se articula não possa remeter à abertura de uma ekstase particular, mas à unidade horizontal dos esquemas, isto é, ao próprio mundo, sendo num curso do semestre de inverno de 1929-30, Os conceitos fundamentais da metafísica, | ||
| + | * É por a distinção entre ser e ente estar sempre já de certo modo desvelada em todo comportamento humano que pode ser expressamente conhecida e conceitualmente apreendida, nomeando Heidegger, quando explicitamente compreendida, | ||
| + | * É sobre um comportamento fundamental do Dasein que se funda, portanto, a ontologia, pois a possibilidade desta, isto é, da filosofia como ciência, depende da possibilidade de cumprir de modo suficientemente claro a distinção entre ser e ente | ||
| + | * Por ser a transcendência o que torna possível a objetivação do ser, a ciência do ser é ciência transcendental em sentido mais originário que o sentido kantiano do termo, sendo, por ter-se mostrado que o horizonte da compreensibilidade do ser, seu horizonte transcendental, | ||
| + | * Isso implica a renúncia à ideia tradicional da absolutidade e eternidade da verdade, aparecendo o ideal de objetividade ligado a um sentido do ser, o do ser como subsistência, | ||
| + | * A ontologia da Vorhandenheit, | ||
| + | * Cassirer, que quer manter o ideal kantiano de objetividade, | ||
| + | * Isso implica não haver filosofia livre de todo ponto de vista, pois, se a filosofia não tem por tarefa fornecer uma concepção de mundo, é contudo uma concepção de mundo o pressuposto do próprio ato de filosofar, afirmando-se por aí a historialidade da verdade, o que não conduz porém a relativismo ou historicismo, | ||
| + | * A ontologia temporal não é, portanto, " | ||
| + | * A ontologia temporal, por só se constituir em ligação com seu fundamento ôntico, escapa ao duplo perigo que sempre ameaçou a ontologia — a dissolução de todo o ôntico no ontológico, | ||
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| + | **O giro do Ereignis e a conferência de 1962** | ||
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| + | * Por já não consistir filosofar em refugiar-se ao abrigo da pura teoria, mas em expor-se ao que Heidegger nomeia, num curso de 1931, o caráter ofensivo da questão do ser que, longe de ser questão geral, atinge diretamente a raiz mesma do ser singular, o engajamento político de Heidegger em 1933 só pode ser compreendido a partir de seu engajamento filosófico | ||
| + | * Só relacionando-os com a ideia de uma finitude do próprio ser, e não apenas do Dasein, e com a concepção de um sentido intrinsecamente temporal da verdade, pode-se compreender que Heidegger, em seu Discurso de reitorado, caracterize a essência da ciência como o " | ||
| + | * A vontade de reconduzir as disciplinas separadas a sua essência comum filosófica, | ||
| + | * Já aparece contudo no Discurso de reitorado, por meio de citação de Ésquilo sobre a fraqueza do saber diante da necessidade, | ||
| + | * É nos anos seguintes ao episódio do reitorado — e como resposta filosófica a seu " | ||
| + | * Por não ser mais o homem o fundamento lançado dessa clareira, mas por se manter nela e lhe ser devedor de seu próprio ser, Dasein passará a ser escrito Da-sein, para marcar por essa nova grafia que o " | ||
| + | * É essa não coincidência entre o ser do homem e o ser em si que permite compreender que o esquecimento do ser não é tanto defeito do pensamento metafísico quanto o que constitui o " | ||
| + | * É por isso que Heidegger compreende doravante por Da-sein a relação do ser com o homem, devendo o termo Verhältnis, | ||
| + | * É essa coapertinência, | ||
| + | * Publicou-se em março de 1989, sob o título Contribuições à filosofia (Do Ereignis), manuscrito de mais de 500 páginas redigido por Heidegger entre 1936 e 1938, apresentado por seu editor como a segunda obra maior de Heidegger depois de Ser e tempo | ||
| + | * É aí que se experimenta esse giro que Heidegger diz não ter mais inventado do que dizer respeito apenas a seu próprio pensamento, compreendendo-o como "giro do Ereignis" | ||
| + | * O termo Ereignis, que nomeia a relação daquilo que está em questão em "ser e tempo" e em "tempo e ser", Heidegger o considera não como decisão terminológica própria mas como o dom supremo do idioma alemão, comparável à alêtheia grega ou ao Tao chinês | ||
| + | * A língua não fica entregue ao arbítrio da invenção humana, sendo ela mesma o modo mais próprio do Ereignis, sua melodia, que se desdobra através de nosso dizer correspondente e agradecido | ||
| + | * O termo Ereignis, que significa no alemão corrente " | ||
| + | * Ereignen enquanto eräugen significa trazer ao próprio tornando visível, trazendo o Ereignis, ao tornar visível na clareira o desdobramento do ser do homem como Da-sein, os mortais a seu próprio tornando-os próprios (vereignen) ao ser que, por sua vez, é apropriado (zugeeignet), | ||
| + | * O que Heidegger compreende sob esse termo é essa recíproca propriação do ser e do homem pela qual são postos em relação, mas, por ser o Ereignis assim a relação de todas as relações, o que lhe é mais próprio é a despropriação de si, a Enteignis, tal como à visibilidade da alêtheia que advém como Lichtung, clareira, pertence a ocultação, | ||
| + | * É precisamente por não ter o Ereignis a estrutura da ipseidade, por só se poder pensá-lo como um destinar (Schicken), um dar que só dá sua doação e que, dando assim, se retém a si mesmo e se retira, que ele é em si mesmo Enteignis, o fundamento sem fundo do ser, seu abismo | ||
| + | * É apenas então que Heidegger rompe verdadeiramente com a ideia de absoluto que rege toda a história do pensamento, pois a finitude do ser, de que se trata nos textos de 1929 — por exemplo, Que é metafísica? | ||
| + | * A finitude do Ereignis é pensada a partir do conceito de propriedade que Heidegger distingue do de ipseidade — o próprio é o que pertence a algo, o que o faz ser o que é, e não o que faz dele um " | ||
| + | * Esse novo conceito de finitude exige o abandono do pensamento transcendental e "a superação do horizonte como tal", como Heidegger anota à margem de seu exemplar de Ser e tempo | ||
| + | * O conceito de horizonte revela-se insuficiente para pensar o domínio de abertura, o espaço de jogo no interior do qual o ente pode fazer encontro, pois "ele é apenas o lado voltado para nós do aberto que nos rodeia", | ||
| + | * Trata-se de sair do fechamento do horizonte para pensar o afastamento próprio do longínquo — a palavra Weite em alemão tem a mesma raiz do latim vitium, cujo sentido primeiro é desvio —, o que impede reconduzir a espacialidade do Dasein à temporalidade, | ||
| + | * Pensar o próprio do espaço, o espaçamento como o desprendimento de um espaço livre, a abertura de uma clareira, só é possível na perspectiva do Ereignis compreendido como destino — Geschick —, significando schicken originariamente ordenar no sentido de arranjar um espaço — einräumen | ||
| + | * Ao empregar Heidegger a palavra Geschick a propósito do ser, quer dizer "que o ser se endereça a nós e se esclarece e que, ao se esclarecer, arranja o espaço de jogo do tempo no qual o ente pode aparecer" | ||
| + | * A Lichtung, a clareira, deve ser pensada a partir do Geschick — enquanto em Ser e tempo, como em textos posteriores (até a conferência O giro, proferida em 1949 mas publicada em 1962), é relacionada com a luz (Licht) e a claridade, em A fim da filosofia e a tarefa do pensamento (1964) é relacionada com sentido bem diferente do verbo lichten, que significa não iluminar, mas desprender um espaço livre, esclarecer no sentido de abrir uma clareira | ||
| + | * A luz e todo o reino da visibilidade ficam assim subordinados ao aberto da Lichtung enquanto clareira, ao arranjo desse espaço de jogo onde presença e ausência, luz e sombra, propriação e despropriação fazem a prova de sua coapertinência | ||
| + | * Depois de assim medida a amplitude do "giro do Ereignis", | ||
| + | * Tratando-se sempre da mesma questão — a do " | ||
| + | * Por não ser o ser nem ente nem simplesmente temporal, e não ser o tempo nem temporal nem simplesmente ente, pode-se dizer deles não que são, mas que há ser e que há tempo — em alemão es gibt, dá —, viragem impessoal já presente em Ser e tempo mas para indicar a diferença ontológica, | ||
| + | * O que se trata de pensar, se tempo e ser são o dom de uma doação, é o que é a cada vez dado e também Aquilo que dá, significando ser presença — Anwesen —, termo que em alemão significa literalmente " | ||
| + | * O ser, ao portar o ente à não-ocultação, | ||
| + | * O ser, quando já não é pensado como fundamento do ente, quando é pensado no que tem de próprio, é o dom do desdobramento da presença, dom que permaneceu impensado no esti gar einai, no "é na verdade ser" de Parmênides, | ||
| + | * Enquanto destino, o ser é em si mesmo historial, mas a história do ser não se acaba com o pensamento do Ereignis, de Aquilo que dá e destina, no sentido em que se acaba em Hegel — num saber absoluto, pela identificação do ser e do pensamento —, pois o que faz doação do desdobramento da presença não pode ele mesmo entrar em presença | ||
| + | * As épocas da história do ser não são, como em Hegel, períodos de tempo, mas o traço fundamental do destinar que se retém — sentido próprio do grego epochê — para que haja doação, sendo essa essência epocal da destinação a única que permite compreender a historialidade do pensamento que a ela responde | ||
| + | * Já em 1946, em A sentença de Anaximandro, | ||
| + | * É unicamente a partir do que Nietzsche nomeava "a inocência" | ||
| + | * Quanto ao doar do próprio tempo, ao determinar-se o próprio do tempo a partir do presente (Gegenwart), | ||
| + | * O presente, compreendido a partir da entrada em presença, tem o sentido de um vir ao encontro de nós para nele permanecer (entgegenweilen), | ||
| + | * Na presença compreendida como Anwesen exprime-se a relação do ser com o homem — o homem só é homem porque o próprio ser se lhe endereça desdobrando a presença, e não porque em virtude de sua essência ekstática seja o " | ||
| + | * O porvir já não será pensado como a vinda a si do Dasein, mas como a vinda do ser ao homem, podendo Heidegger, num texto de 1958 sobre Os princípios do pensamento, dizer que o porvir corretamente pensado é o pré-sente (Gegenwart), | ||
| + | * O que Heidegger nomeava em 1946 o caráter escatológico do ser não remete à dimensão do futuro, mas unicamente ao presente compreendido nesse sentido, à exigência daquilo que vem a nós e à qual respondemos deixando vir a nós o que já não é simplesmente o " | ||
| + | * É assim somente que se pode esperar "o outrora da aurora no futuro do porvir", | ||
| + | * O que constitui, portanto, o próprio do tempo é ser em si essa doação a distância que exprime a palavra alemã reichen, que significa literalmente estender, apresentar no sentido de dar num movimento de extensão para diante, remetendo à ideia de um poder estendido, de um reino ou de uma direcionalidade do tempo | ||
| + | * O próprio tempo é assim a unidade dessa tripla doação a distância do ter-sido pelo porvir e do porvir pelo ter-sido, que em sua relação recíproca produzem o presente, nomeando Heidegger espaço de tempo (Zeitraum) a clareira aberta pela doação a distância recíproca do porvir, do ter-sido e do presente | ||
| + | * Ao tempo pertence a dimensão, que não se deve compreender de imediato em sentido espacial como domínio de medida possível, mas como a própria doação da medida, não sendo possível, estando em jogo nas três dimensões do tempo uma modalidade específica de vinda em presença, referir esta ao só presente | ||
| + | * O jogo recíproco de cada uma das dimensões do tempo, pelo qual cada uma dá as outras e é dada por elas, constitui uma quarta dimensão do tempo que é na realidade a primeira, pois é nela que reside a doação a distância da presença, propondo Heidegger compreendê-la como proximidade, | ||
| + | * A abertura da clareira é assim assegurada de antemão pela manutenção em reserva do que é impedido no ter-sido e do que é retido no porvir, atingindo esse reino do tempo o homem, que só é homem por manter-se em sua tripla dimensionalidade e por estar exposto a essa doação que é ao mesmo tempo retida | ||
| + | * A doação destinal do ser e a doação extensiva do tempo manifestam ambas, na retenção epocal para uma e no impedimento e reserva do presente no porvir e no ter-sido para a outra, o mesmo recolhimento pelo qual o Ereignis salvaguarda o que lhe é próprio e o preserva de uma desocultação sem limites que equivaleria a uma ocultação igualmente sem limites | ||
| + | * É a partir do Ereignis que ser e tempo se determinam no que têm de próprio, isto é, em sua coapertinência, | ||
| + | * Por isso, como indica Heidegger no início de A fim da filosofia e a tarefa do pensamento, a retomada da " | ||
| + | * Por ser o ser pensado a partir da clareira presença destinal, e por ser a clareira pensada a partir do Ereignis o próprio tempo, a tarefa do pensamento teria então por título, em vez de Ser e tempo, Lichtung und Anwesenheit, | ||
| + | * Com esse título, que nomeia o impensado da filosofia, determina-se o assunto próprio do pensamento, die Sache selbst, to pragma auto, ao qual a filosofia desde Platão não cessou de convocar o pensamento, razão pela qual o abandono do pensamento em seu modo filosófico não conduz Heidegger à superação da metafísica, | ||
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