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| - | ===== Dastur (2015: | + | ===== Ontologia e desconstrução da história da ontologia |
| - | Binswanger, a despeito de algumas afirmações imprudentes, | + | |
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| - | Vem daí o fato de “a questão cardinal” colocada por Binswanger ser a de saber se o amor deve ser compreendido a partir da temporalidade no sentido heideggeriano e, então, a partir da estrutura do cuidado ou se, ao contrário, ele não se temporaliza de modo nenhum. Se o amor não pode ser compreendido a partir do cuidado, o que para Binswanger deriva de seu próprio ponto de partida que é a nostridade, isso não quer dizer que ele esteja de algum modo “para além do tempo”, mas que sua temporalidade “deve ser interpretada não a partir da finitude do Dasein, mas a partir da infinitude”, | + | |
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| - | Vemos, portanto, que não se trata, com as Grundformen, | + | |
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| - | Há, de fato, para Binswanger uma “realidade do amor” sobre a qual ele afirma sem rodeios que constitui “o mais real de ‘nosso’ Dasein”, rompendo, assim, tanto com Feuerbach, de quem ele se sente, por outros motivos, (83) muito próximo, quanto com Freud, que vê todos os dois, o eu e o tu, no amor como estando numa ilusão. Não se trata certamente de ver na libido a origem do fenômeno amoroso, mesmo que se possa encontrar no amor sexual a sua realização mais elevada — e há nesse ponto uma “diferença imensa” entre o ponto de vista genético da psicanálise e o ponto de vista antropológico de Binswanger que “impede comparar sua concepção com a da psicanálise”. | + | |
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| - | O verdadeiro pomo da discórdia entre Binswanger e Heidegger concerne, então, à noção de Jemeinigkeit, | + | |
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| - | A “minhidade” da existência não é, então, de modo nenhum incompatível com o ser-com-os-outros, | + | |
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| - | Para Binswanger, Heidegger não chegou a dar lugar ao amor em sua concepção da relação com o outro, porque ele o compreende, sobre a base do cuidado, como preocupação (Fürsorge), | + | |
| + | FDFN | ||
| + | * Heidegger: Ontologia e desconstrução da história da ontologia | ||
| + | * Pode parecer paradoxal tomar como ponto de partida, no percurso sobre o nada, a negação e a negatividade, | ||
| + | * A imagem “externa” de Heidegger costuma reduzir sua obra a teses, esquecendo que seu vínculo com a Grécia se mantém, antes de tudo, na atitude do questionamento, | ||
| + | * A pergunta heideggeriana pelo sentido do ser, explicitada em 1927, não reforça a tradição ontológica, | ||
| + | * O “caminho de pensamento” de Heidegger começa com Ser e Tempo (1927), inaugurado pela citação do Sofista de Platão, em que o Estrangeiro de Eleia confessa o embaraço diante do sentido de on (ente) e, por consequência, | ||
| + | * Esse embaraço acerca do sentido de “ser” atravessa toda a primeira fase de sua obra, explicando a interrupção de Ser e Tempo ao fim da segunda seção da primeira parte e a não publicação da terceira seção (“Tempo e Ser”), cuja versão redigida Heidegger destruiu por julgá-la insuficiente. | ||
| + | * O abandono editorial não significa abandono do projeto: até 1930, cursos e escritos permanecem dedicados à elaboração da problemática e ao intento de concluir Ser e Tempo, inclusive com Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia (verão de 1927) como “nova elaboração” da terceira seção. | ||
| + | * Em 1946, na Carta sobre o Humanismo, Heidegger descreve a não publicação como “fracasso”, | ||
| + | * A “linguagem da metafísica” é caracterizada como a linguagem da substância, | ||
| + | * A afirmação aristotélica de que to on legetai pollakhōs, isto é, que o ser se diz de muitos modos, expõe uma diversidade (ser por si/por acidente; potência/ | ||
| + | * A questão heideggeriana consiste em explicitar o sentido fundamental que governa essa multiplicidade, | ||
| + | * Daí resulta a tese de que o tempo não diferencia “regiões” do ser, mas que o próprio ser, tal como pensado, é já temporalizado pelo horizonte do presente. | ||
| + | * “Repetir” a pergunta do ser, em 1927, significa recolocá-la de modo mais radical, o que exige partir do ente que compreende o ser: não o “sujeito” ou a “consciência”, | ||
| + | * A essência do humano enquanto Dasein é existência, | ||
| + | * A terceira seção deveria mostrar como a compreensão do ser é possível a partir da temporalidade ekstática do Dasein, isto é, como a ideia de ser se constitui, em suas acepções, desde o tempo; ela é o ponto em que “tudo se inverte” e culminaria na pergunta: o tempo se manifesta como horizonte do ser? | ||
| + | * O plano de uma segunda parte de Ser e Tempo visava uma “destruição fenomenológica” da história da ontologia, guiada pela problemática da temporalidade, | ||
| + | * “Destruição” não significa aniquilamento, | ||
| + | * Essa desconstrução teria um trajeto regressivo (de Kant a Descartes e Aristóteles), | ||
| + | * A filosofia platônico-aristotélica aparece como ciência do ente enquanto ente, ao passo que a pergunta heideggeriana visa o ser enquanto tal, não como traço comum a todos os entes, mas como condição de possibilidade do ente e da própria ciência da enticidade [beingness]. | ||
| + | * A diferença ôntico-ontológica (diferença entre ser e ente) torna-se noção decisiva: ainda que não explicitada no tratado de 1927, ela estrutura implicitamente Ser e Tempo e é desenvolvida expressamente em Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia (1927), no contexto da transcendência. | ||
| + | * A condição de possibilidade do acesso ao ente é a abertura prévia do ser do ente, isto é, do mundo como horizonte de compreensibilidade; | ||
| + | * O “ser-no-mundo” implica que transcender o ente presente pertence à estrutura íntima do Dasein; a intencionalidade, | ||
| + | * A transcendência é possibilitada pela temporalidade ekstática, pois somente um ser não encerrado no presente pode comportar-se em relação ao ente em seu todo, desdobrando o horizonte do mundo, esse “nada” [nothing] que permite o retorno intencional ao ente. | ||
| + | * Existir é, por assim dizer, efetuar a distinção entre ser e ente; essa distinção é latente no modo de ser humano e marca a diferença em relação ao animal. | ||
| + | * A ontologia funda-se nesse comportamento originário do Dasein e, por isso, a ciência do ser é dita transcendental; | ||
| + | * A abertura do Dasein ao ser é compreendida como abertura ao nada, revelada na tonalidade afetiva fundamental da angústia, isto é, no sentir não-pertencimento ao todo do ente, que constitui o Dasein de modo próprio. | ||
| + | * A angústia não é ato soberano do sujeito, mas ocorrência passiva, frequentemente reprimida e, contudo, sempre latente e possível de despertar; nela se dá a abertura originária: | ||
| + | * Dessa via, Heidegger chega a uma ontologia negativa, em que o ser só pode ser pensado sob a figura do não-ente, do nada, traço a que tende toda abordagem transcendental que pensa a diferença como movimento ascensional de superação. | ||
| + | * A crítica posterior indica que a diferença ontológica, | ||
| + | * A diferença ontológica ainda parte dos entes e de sua enticidade [beingness], | ||
| + | * A diferença ontológica aparece como pensamento de transição: | ||
| + | * O risco é reificar o ser como um outro ente, como grande objeto ou summum ens, fundamento teológico; para impedir isso, Heidegger chega a riscar o ser (ser riscado [crossed-out Being]) para fazê-lo aparecer como retirada de qualquer “vis-à-vis” objetivável. | ||
| + | * A Kehre é descrita como passagem de uma “pensamento do homem em sua relação ao ser” para um “pensamento do ser e de sua verdade em sua relação ao homem”, sem ruptura, mas por fidelidade persistente à pergunta de Ser e Tempo. | ||
| + | * A ênfase desloca-se para o retraimento e a recusa do ser: o ser não é substância nem sujeito e só pode dar-se através de um negar-se a si mesmo. | ||
| + | * A diferença ontológica, | ||
| + | * Em Identidade e Diferença (1957), Heidegger propõe pensar a diferença não como separação espacial entre dois “lugares”, | ||
| + | * Ser e ente são “o mesmo” no sentido de pertencerem a um mesmo acontecimento que, ao separá-los, | ||
| + | * Nesse horizonte emerge Austrag, termo que designa o “acerto” de uma querela e, ao mesmo tempo, o levar-algo-a-termo, | ||
| + | * Heidegger privilegia Unter-schied (diferença [difference] no sentido de entre-separação), | ||
| + | * O ser deve retirar-se para fazer lugar ao ente, o que implica pensá-lo na dimensão da recusa (Verweigerung), | ||
| + | * Ao desdobramento do Ser pertence o nada, de modo que o nada não pode ser concebido como negatividade meramente privativa, mas como abalo essencial do próprio Ser, mais “ente” do que qualquer ente no sentido de ser mais originário do que toda objetivação. | ||
| + | * O Ser pensado não metafisicamente se desdobra como Ereignis, termo diretriz e intraduzível, | ||
| + | * O que deve ser visado é o evento mesmo da diferença, cuja ocultação estruturou a história da filosofia, e que, embora deva ser ainda visado “de maneira grega”, não é mais ele mesmo grego. | ||
| + | * A relação de Heidegger com o “começo” grego transforma-se: | ||
| + | * Até 1929, o projeto ainda visa um cumprimento da essência grega da filosofia, como se vê na tarefa de repetir a fundação kantiana da metafísica, | ||
| + | * A partir do início dos anos 1930, repetir significa recomeçar: a “fim da filosofia” não é o fim do pensar, mas a passagem a um outro começo, no qual se trata de pensar “ainda mais gregamente” o pensado grego. | ||
| + | * O “retorno aos gregos” ganha o sentido de ultrapassagem [overcoming] da filosofia grega, não como fazer melhor do que os gregos, mas como alcançar o foco secreto de sua própria experiência de pensar, foco que o último Heidegger nomeia Ereignis. | ||
| + | * A tarefa do pensar torna-se ver a alētheia não apenas como não-ocultação, | ||
| + | * Surge a ideia de uma “fenomenologia do inaparante” [inapparent], | ||
| + | * A via aos pré-socráticos (Parmênides, | ||
| + | * Lēthē (lḗthē [lēthē]), como ocultação abissal, torna-se o “rosto verdadeiro” do nada, de onde tudo surge e ao qual tudo retorna, permitindo pensar alētheia desde a própria dinâmica de velamento. | ||
| + | * A noção de “grego” varia segundo o período: na primeira fase, “grego” significa a ontologia voltada ao mundo/ | ||
| + | * Essa orientação governa, para Heidegger, a tradição de Parmênides a Husserl e Bergson; e a filosofia aparece então como expressão de um Dasein autêntico, existindo no modo do epekeina (além [beyond]). | ||
| + | * Os pré-socráticos não estavam ausentes nos anos 1920, mas passam ao centro nos anos 1930, quando cursos e análises intensificam a leitura de Anaximandro, | ||
| + | * No período do tornante [turning], “grego” deixa de nomear uma propriedade étnica ou cultural e passa a nomear uma época do Ser, isto é, uma configuração epocal [epochal] do desvelamento e do retraimento. | ||
| + | * A história é compreendida como processo epocal em que o Ser retém (epokhē [epochē]) sua verdade de modos diversos para deixar-ser um mundo, e o esquecimento do ser torna-se múltiplo esquecimento de si do Ser, não mero defeito psicológico humano. | ||
| + | * Há, contudo, uma grande época inaugurada pelos gregos, cujo início origina o desdobramento epocal; por isso, o começo não se deixa pensar linearmente, | ||
| + | * Em tal perspectiva, | ||
| + | * A exigência de reconhecer a estranheza dos gregos aprofunda o acesso à sua aurora: o distante pode aproximar mais do que a familiaridade irreverente da ciência histórica. | ||
| + | * “Grego” nomeia um destino [destiny] historial que vincula Ser e homem ocidental numa mesma história, e não um exotismo antropológico. | ||
| + | * A leitura de Hölderlin orienta essa compreensão: | ||
| + | * A abertura a um diálogo com outros “grandes começos” não europeus aparece como tarefa futura, mas exige antes o atravessamento do outro começo no interior da tradição europeia. | ||
| + | * O diálogo com o extremo Oriente é apresentado como inevitável e, ao mesmo tempo, condicionado por um diálogo ainda por iniciar com os gregos, enquanto preparação para um pensar capaz de enfrentar o mundo técnico moderno a partir do mesmo “sítio” de sua origem. | ||
| + | * Há indícios de tentativas de interlocução com o taoismo, o budismo e tradições indianas, mas o gesto dominante permanece o de preparar a conversão da pensamento a partir da tradição europeia, sem adoção imediata de experiências orientais. | ||
| + | * O ponto de contato com interlocutores japoneses e com a escola de Kyoto é indicado como a possibilidade de pensar o inaparante [inapparent] do Ser, em que o nada é compreendido como o desdobramento do Ser na medida em que este não se deixa representar e produzir objetivamente como ente. | ||
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