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| - | ===== Dastur (2002) – Dasein E " | + | ===== Ser e não-ser no pensamento grego ===== |
| - | É na medida em que é uma tal abertura — que impede que seja ele confundido com o que a filosofia moderna chama de “sujeito” e que ela entende como uma interioridade opondo-se à exterioridade dos objetos — que o Dasein, porque não é indiferente a seu próprio existir, pode, todavia, designar a si mesmo pelo pronome pessoal “eu”. Não seria necessário confundir, na verdade, como estamos naturalmente inclinados a fazê-lo, a subjetividade e a capacidade de dizer “eu”. Pela palavra “eu” o Dasein designa a si mesmo, isto é, que ele se expressa como ser-no-mundo, | + | |
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| - | (DASTUR, Françoise. A morte: ensaio sobre a finitude. Tr. Maria Tereza Pontes. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002) | + | |
| + | FDFN | ||
| + | * Ser e não-ser no pensamento grego: Parmênides, | ||
| + | * Parmênides é um pensador do início do século V a.C., nascido em Eleia, no sul da Itália, colônia fundada por fócios após a tomada de Foceia pelos persas em 546 a.C. | ||
| + | * Ele pertence, portanto, ao movimento de expansão colonial grega iniciado a partir do século X a.C., especialmente na Jônia, onde surgiram cidades como Mileto, Éfeso e Foceia, berço dos chamados “pré-socráticos”. | ||
| + | * A colonização grega, ainda que marcada por violência, produziu confrontos culturais decisivos, estimulando a reflexão de pensadores como Tales, Anaximandro e Heráclito, dos quais Parmênides é contemporâneo. | ||
| + | * A centralidade de Atenas na imagem moderna da Grécia antiga tende a obscurecer o fato de que a filosofia nasceu também nas margens coloniais do mundo grego. | ||
| + | * A democracia ateniense e a filosofia socrático-platônica representam apenas um polo de um processo mais amplo. | ||
| + | * Os pré-socráticos emergem num contexto de deslocamento, | ||
| + | * Parmênides foi considerado retrospectivamente fundador da ontologia a partir das leituras platônicas e neoplatônicas, | ||
| + | * O termo “ontologia”, | ||
| + | * “Ontologia” surge apenas no século XVII e se consolida no século XVIII, especialmente com Christian Wolff, para nomear a ciência do “ente enquanto ente” (to on hē on). | ||
| + | * Para os pré-socráticos, | ||
| + | * Phusis significa aquilo que surge de si mesmo, que se eleva à presença, ligado etimologicamente à luz (phaos, phōs). | ||
| + | * A língua grega distingue radicalmente as raízes do “ser” e do “vir-a-ser”, | ||
| + | * Parmênides inaugura uma ruptura decisiva: a passagem da phusis para o ser como tal. | ||
| + | * Seu pensamento marca a transição do muthos para o logos filosófico. | ||
| + | * Trata-se de um deslocamento da narrativa genealógica para uma estrutura de pensamento que busca fixidez, identidade e rigor. | ||
| + | * A metáfora fundamental introduzida por Parmênides é a do caminho, que instaura uma ordem metódica e pedagógica do pensar. | ||
| + | * Com ela emergem os princípios de identidade e não-contradição, | ||
| + | * O homem homérico não possui ainda um estatuto estável como anthropos; Parmênides, | ||
| + | * Parmênides pensa o ser em oposição radical ao não-ser, sem recorrer a um “terceiro” mediador. | ||
| + | * Diferentemente de Platão, que introduz o Bem como horizonte epekeina [beyond] do ser, Parmênides permanece na binaridade absoluta: ser ou não-ser. | ||
| + | * A leitura dos textos pré-socráticos exige reconhecer a distância histórica e conceitual que nos separa dos gregos. | ||
| + | * Há o risco tanto da projeção anacrônica de nossos conceitos quanto da redução dos gregos a um estágio primitivo da razão. | ||
| + | * A dificuldade é agravada pelo estado fragmentário dos textos e pela mediação interpretativa de Platão e Aristóteles. | ||
| + | * Parmênides escreve um poema que combina discurso filosófico e forma mítica. | ||
| + | * O proêmio descreve a viagem do pensador guiado pelas Filhas do Sol até a deusa da Verdade. | ||
| + | * O poema precede em quase um século a definição platônica de filosofia, o que explica o descompasso entre “grande pensamento” e filosofia como Eros inquisitivo. | ||
| + | * A tese central do poema afirma: esti gar einai, mèden d’ ouk estin, “é, pois, ser; o nada não é”. | ||
| + | * Essa afirmação funda o espanto (thaumazein) diante do fato de que há ser e não nada. | ||
| + | * Os mortais, porém, confundem ser e não-ser, razão pela qual Parmênides os chama de “duplas-cabeças” (diakranoi). | ||
| + | * O pensamento humano comum se perde no labirinto do ser-que-não-é e do não-ser-que-é. | ||
| + | * O labirinto é o caminho que retorna sobre si mesmo (palintropos keleuthos), experiência da aporia. | ||
| + | * A saída exige auxílio divino para sustentar a krisis, a distinção rigorosa entre ser e nada. | ||
| + | * No fragmento VIII, o ser é descrito por meio de sinais (semata). | ||
| + | * A noesis, pensamento humano, avança metodicamente apoiando-se nesses sinais enviados pela deusa. | ||
| + | * Os semata são analogias ontológicas [ontological analogies], não propriedades reais do ser, mas modos de dizer e indicar o ser. | ||
| + | * Cada sinal exprime o ser como um todo, não como atributo parcial. | ||
| + | * Os sinais devem ser pensados conjuntamente, | ||
| + | * O ser não se revela diretamente; | ||
| + | * Os principais sinais do ser são formulados negativamente: | ||
| + | * Inengendrado (agenēton), | ||
| + | * O ser é uno (hen), contínuo (sunekhēs), | ||
| + | * Ele é mantido nesses limites pela Necessidade (Anankē) e pelo Destino (Moira). | ||
| + | * A imagem da esfera exprime um ser finito e infinito ao mesmo tempo, autossuficiente e íntegro. | ||
| + | * Parmênides inaugura assim a via de todo pensamento do absoluto. | ||
| + | * Esse absoluto só pode ser dito negativamente, | ||
| + | * A oposição entre ser e não-ser em Parmênides é abrupta e fulgurante. | ||
| + | * Diferentemente do platonismo, onde a distinção entre sensível e inteligível assume forma topográfica, | ||
| + | * Isso permite lê-lo como pensador da diferença, ainda que o termo não apareça explicitamente. | ||
| + | * O uso do particípio presente eon emmenai (“o ente é”) é decisivo. | ||
| + | * O particípio (metokhē) participa ao mesmo tempo do nome e do verbo. | ||
| + | * Ele funda a duplicidade que dará origem à ontologia geral e à teologia na metafísica aristotélica. | ||
| + | * No poema, distinguem-se três vias: | ||
| + | * A via do ser (eon), única praticável. | ||
| + | * A via do não-ser (mē eon), absolutamente impraticável. | ||
| + | * A via das aparências (dokounta), labiríntica, | ||
| + | * A experiência do nada pertence à própria experiência do ser. | ||
| + | * Decidir-se pelo ser exige excluir radicalmente o nada. | ||
| + | * A pergunta de Leibniz, “por que há algo e não nada?”, retoma essa experiência originária. | ||
| + | * O espanto grego dirige-se ao ser no sentido verbal do ente, não à multiplicidade ôntica das coisas. | ||
| + | * Trata-se da transcendência do ente para o seu ser, no interior do próprio aparecer. | ||
| + | * A segunda parte do poema trata da doxa, o domínio das opiniões e aparências. | ||
| + | * Ela apresenta uma cosmogonia fundada na mistura de luz e noite. | ||
| + | * Não se trata de criação ex nihilo, mas de ordenação do mundo (diakosmesis). | ||
| + | * O mundo da doxa emerge no horizonte da linguagem. | ||
| + | * “Tudo foi nomeado luz e noite”: nomear é distinguir, individualizar. | ||
| + | * O ser uno e íntegro é sem nome; tudo o que tem nome é finito e delimitado. | ||
| + | * A doxa não é simples ilusão subjetiva. | ||
| + | * Ela expressa a necessidade da diferenciação mundana. | ||
| + | * A potência da diferença (dia) rege tanto a distinção das coisas quanto a nomeação. | ||
| + | * Dia e noite não são elementos isolados, mas uma única dimensão de abertura e retraimento. | ||
| + | * Da alternância nasce o mundo do devir, das estações e das aparências. | ||
| + | * Esse mundo é e não é ao mesmo tempo, como aparecer do ser. | ||
| + | * Parmênides leva a aparência a sério, sem reduzi-la ao humano. | ||
| + | * A doxa não se funda no homem, mas na linguagem. | ||
| + | * O homem não cria o mundo das aparências, | ||
| + | * O humano permanece sempre no interior da doxa enquanto vive. | ||
| + | * Com auxílio divino, pode porém pensar o ser que normalmente usa sem saber. | ||
| + | * Ele é o ser da periferia, do afastamento do ser, e por isso se torna philosophos. | ||
| + | * Os sinais do ser pertencem também ao mundo da aparência. | ||
| + | * Dizer que o ser é inengendrado não descreve o ser em si, mas indica um modo humano de interpelação. | ||
| + | * A linguagem visa o indizível; fala do ser sem jamais capturá-lo. | ||
| + | * O homem pode relacionar-se às aparências de dois modos: | ||
| + | * Fascinar-se por elas, tomando-as como o próprio ser. | ||
| + | * Ou reconhecê-las como misturas de ser e não-ser. | ||
| + | * Não se trata de escapar das aparências, | ||
| + | * A transcendência do ser em Parmênides é fundativa [foundational], | ||
| + | * Há apenas o mundo das aparências, | ||
| + | * A diferença entre alētheia e doxa não é a de dois mundos. | ||
| + | * É a diferença entre o uno e o múltiplo, entre ser e entes, entre verbo e nome. | ||
| + | * O ser é o ser do aparecer, assim como o aparecer é aparecer do ser. | ||
| + | * Nesse sentido, o ser parmenídico é comparável à coisa-em-si kantiana. | ||
| + | * Não se trata de dois objetos distintos, mas de dois modos de relação com o mesmo. | ||
| + | * O ser só pode ser pensado negativamente, | ||
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