User Tools

Site Tools


estudos:dastur:dastur-2002-dasein-e-eu

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

estudos:dastur:dastur-2002-dasein-e-eu [16/01/2026 14:40] – created - external edit 127.0.0.1estudos:dastur:dastur-2002-dasein-e-eu [18/01/2026 15:39] (current) mccastro
Line 1: Line 1:
-===== Dastur (2002) – Dasein E "EU" ===== +===== Ser e não-ser no pensamento grego =====
-É na medida em que é uma tal abertura — que impede que seja ele confundido com o que a filosofia moderna chama de “sujeito” e que ela entende como uma interioridade opondo-se à exterioridade dos objetos — que o Dasein, porque não é indiferente a seu próprio existir, pode, todavia, designar a si mesmo pelo pronome pessoal “eu”. Não seria necessário confundir, na verdade, como estamos naturalmente inclinados a fazê-lo, a subjetividade e a capacidade de dizer “eu”. Pela palavra “eu” o Dasein designa a si mesmo, isto é, que ele se expressa como ser-no-mundo, o que não significa necessariamente dizer que ele se reconhece como “sujeito”, pois este é, ao contrário, pelo fato de seu próprio nome (subjectum, “aquilo que jaz sob”), compreendido a partir do modelo do conceito de substância como res cogitans, “coisa pensante”. Há então uma ipseidade ou uma identidade do eu que não se confunde em hipótese alguma com o ser-sujeito pelo próprio fato de que ela jamais foi realizada, mas, ao contrário, sempre “está para” e este “estar para” tem a forma de um projeto de si-no-mundo que não pressupõe nenhum ser substancial como seu fundamento. +
- +
-(DASTUR, Françoise. A morte: ensaio sobre a finitude. Tr. Maria Tereza Pontes. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002)+
  
 +FDFN
  
 +  * Ser e não-ser no pensamento grego: Parmênides, Górgias, Pirro
 +    * Parmênides é um pensador do início do século V a.C., nascido em Eleia, no sul da Itália, colônia fundada por fócios após a tomada de Foceia pelos persas em 546 a.C.
 +      * Ele pertence, portanto, ao movimento de expansão colonial grega iniciado a partir do século X a.C., especialmente na Jônia, onde surgiram cidades como Mileto, Éfeso e Foceia, berço dos chamados “pré-socráticos”.
 +      * A colonização grega, ainda que marcada por violência, produziu confrontos culturais decisivos, estimulando a reflexão de pensadores como Tales, Anaximandro e Heráclito, dos quais Parmênides é contemporâneo.
 +    * A centralidade de Atenas na imagem moderna da Grécia antiga tende a obscurecer o fato de que a filosofia nasceu também nas margens coloniais do mundo grego.
 +      * A democracia ateniense e a filosofia socrático-platônica representam apenas um polo de um processo mais amplo.
 +      * Os pré-socráticos emergem num contexto de deslocamento, confronto cultural e ruptura com o mundo mítico.
 +    * Parmênides foi considerado retrospectivamente fundador da ontologia a partir das leituras platônicas e neoplatônicas, sobretudo no Sofista.
 +      * O termo “ontologia”, porém, não pertence nem aos pré-socráticos nem à Grécia clássica, assim como “metafísica”, que originalmente designava apenas a ordenação editorial dos tratados aristotélicos.
 +      * “Ontologia” surge apenas no século XVII e se consolida no século XVIII, especialmente com Christian Wolff, para nomear a ciência do “ente enquanto ente” (to on hē on).
 +    * Para os pré-socráticos, como sublinha Heidegger, o ser não se manifesta primariamente como objeto conceitual, mas como phusis.
 +      * Phusis significa aquilo que surge de si mesmo, que se eleva à presença, ligado etimologicamente à luz (phaos, phōs).
 +      * A língua grega distingue radicalmente as raízes do “ser” e do “vir-a-ser”, o que permitiu separar conceitualmente ser e devir, como se vê de Parmênides a Platão.
 +    * Parmênides inaugura uma ruptura decisiva: a passagem da phusis para o ser como tal.
 +      * Seu pensamento marca a transição do muthos para o logos filosófico.
 +      * Trata-se de um deslocamento da narrativa genealógica para uma estrutura de pensamento que busca fixidez, identidade e rigor.
 +    * A metáfora fundamental introduzida por Parmênides é a do caminho, que instaura uma ordem metódica e pedagógica do pensar.
 +      * Com ela emergem os princípios de identidade e não-contradição, em contraste com a lógica ambivalente do mito.
 +      * O homem homérico não possui ainda um estatuto estável como anthropos; Parmênides, ao contrário, ancora o pensamento no cosmos como instância fixa.
 +    * Parmênides pensa o ser em oposição radical ao não-ser, sem recorrer a um “terceiro” mediador.
 +      * Diferentemente de Platão, que introduz o Bem como horizonte epekeina [beyond] do ser, Parmênides permanece na binaridade absoluta: ser ou não-ser.
 +    * A leitura dos textos pré-socráticos exige reconhecer a distância histórica e conceitual que nos separa dos gregos.
 +      * Há o risco tanto da projeção anacrônica de nossos conceitos quanto da redução dos gregos a um estágio primitivo da razão.
 +      * A dificuldade é agravada pelo estado fragmentário dos textos e pela mediação interpretativa de Platão e Aristóteles.
 +    * Parmênides escreve um poema que combina discurso filosófico e forma mítica.
 +      * O proêmio descreve a viagem do pensador guiado pelas Filhas do Sol até a deusa da Verdade.
 +      * O poema precede em quase um século a definição platônica de filosofia, o que explica o descompasso entre “grande pensamento” e filosofia como Eros inquisitivo.
 +    * A tese central do poema afirma: esti gar einai, mèden d’ ouk estin, “é, pois, ser; o nada não é”.
 +      * Essa afirmação funda o espanto (thaumazein) diante do fato de que há ser e não nada.
 +      * Os mortais, porém, confundem ser e não-ser, razão pela qual Parmênides os chama de “duplas-cabeças” (diakranoi).
 +    * O pensamento humano comum se perde no labirinto do ser-que-não-é e do não-ser-que-é.
 +      * O labirinto é o caminho que retorna sobre si mesmo (palintropos keleuthos), experiência da aporia.
 +      * A saída exige auxílio divino para sustentar a krisis, a distinção rigorosa entre ser e nada.
 +    * No fragmento VIII, o ser é descrito por meio de sinais (semata).
 +      * A noesis, pensamento humano, avança metodicamente apoiando-se nesses sinais enviados pela deusa.
 +      * Os semata são analogias ontológicas [ontological analogies], não propriedades reais do ser, mas modos de dizer e indicar o ser.
 +    * Cada sinal exprime o ser como um todo, não como atributo parcial.
 +      * Os sinais devem ser pensados conjuntamente, pois dizem o mesmo de modos não idênticos.
 +      * O ser não se revela diretamente; permanece à distância, acessível apenas por analogias negativas.
 +    * Os principais sinais do ser são formulados negativamente:
 +      * Inengendrado (agenēton), imperecível (anōlethron), sem partes (oulomelēs), imóvel (akinēton), sem começo (anarkhon), sem cessação (apauston).
 +      * O ser é uno (hen), contínuo (sunekhēs), indivisível (adiaireton), homogêneo (pan homoion).
 +      * Ele é mantido nesses limites pela Necessidade (Anankē) e pelo Destino (Moira).
 +    * A imagem da esfera exprime um ser finito e infinito ao mesmo tempo, autossuficiente e íntegro.
 +      * Parmênides inaugura assim a via de todo pensamento do absoluto.
 +      * Esse absoluto só pode ser dito negativamente, como ocorrerá mais tarde na teologia negativa.
 +    * A oposição entre ser e não-ser em Parmênides é abrupta e fulgurante.
 +      * Diferentemente do platonismo, onde a distinção entre sensível e inteligível assume forma topográfica, em Parmênides a oposição é originária e sem mediação.
 +      * Isso permite lê-lo como pensador da diferença, ainda que o termo não apareça explicitamente.
 +    * O uso do particípio presente eon emmenai (“o ente é”) é decisivo.
 +      * O particípio (metokhē) participa ao mesmo tempo do nome e do verbo.
 +      * Ele funda a duplicidade que dará origem à ontologia geral e à teologia na metafísica aristotélica.
 +    * No poema, distinguem-se três vias:
 +      * A via do ser (eon), única praticável.
 +      * A via do não-ser (mē eon), absolutamente impraticável.
 +      * A via das aparências (dokounta), labiríntica, própria da doxa.
 +    * A experiência do nada pertence à própria experiência do ser.
 +      * Decidir-se pelo ser exige excluir radicalmente o nada.
 +      * A pergunta de Leibniz, “por que há algo e não nada?”, retoma essa experiência originária.
 +    * O espanto grego dirige-se ao ser no sentido verbal do ente, não à multiplicidade ôntica das coisas.
 +      * Trata-se da transcendência do ente para o seu ser, no interior do próprio aparecer.
 +    * A segunda parte do poema trata da doxa, o domínio das opiniões e aparências.
 +      * Ela apresenta uma cosmogonia fundada na mistura de luz e noite.
 +      * Não se trata de criação ex nihilo, mas de ordenação do mundo (diakosmesis).
 +    * O mundo da doxa emerge no horizonte da linguagem.
 +      * “Tudo foi nomeado luz e noite”: nomear é distinguir, individualizar.
 +      * O ser uno e íntegro é sem nome; tudo o que tem nome é finito e delimitado.
 +    * A doxa não é simples ilusão subjetiva.
 +      * Ela expressa a necessidade da diferenciação mundana.
 +      * A potência da diferença (dia) rege tanto a distinção das coisas quanto a nomeação.
 +    * Dia e noite não são elementos isolados, mas uma única dimensão de abertura e retraimento.
 +      * Da alternância nasce o mundo do devir, das estações e das aparências.
 +      * Esse mundo é e não é ao mesmo tempo, como aparecer do ser.
 +    * Parmênides leva a aparência a sério, sem reduzi-la ao humano.
 +      * A doxa não se funda no homem, mas na linguagem.
 +      * O homem não cria o mundo das aparências, apenas responde à sua necessidade.
 +    * O humano permanece sempre no interior da doxa enquanto vive.
 +      * Com auxílio divino, pode porém pensar o ser que normalmente usa sem saber.
 +      * Ele é o ser da periferia, do afastamento do ser, e por isso se torna philosophos.
 +    * Os sinais do ser pertencem também ao mundo da aparência.
 +      * Dizer que o ser é inengendrado não descreve o ser em si, mas indica um modo humano de interpelação.
 +      * A linguagem visa o indizível; fala do ser sem jamais capturá-lo.
 +    * O homem pode relacionar-se às aparências de dois modos:
 +      * Fascinar-se por elas, tomando-as como o próprio ser.
 +      * Ou reconhecê-las como misturas de ser e não-ser.
 +    * Não se trata de escapar das aparências, mas de pensá-las a partir do ser.
 +      * A transcendência do ser em Parmênides é fundativa [foundational], não evasiva [evasive].
 +      * Há apenas o mundo das aparências, mas há uma verdade da doxa.
 +    * A diferença entre alētheia e doxa não é a de dois mundos.
 +      * É a diferença entre o uno e o múltiplo, entre ser e entes, entre verbo e nome.
 +      * O ser é o ser do aparecer, assim como o aparecer é aparecer do ser.
 +    * Nesse sentido, o ser parmenídico é comparável à coisa-em-si kantiana.
 +      * Não se trata de dois objetos distintos, mas de dois modos de relação com o mesmo.
 +      * O ser só pode ser pensado negativamente, como noumeno [noumenon], limite do dizer.
  
/home/mccastro/public_html/ereignis/data/pages/estudos/dastur/dastur-2002-dasein-e-eu.txt · Last modified: by mccastro