estudos:daseinsanalyse:binswanger:sonho-e-existencia
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| + | ====== Sonho e Existência ====== | ||
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| + | * Sonho e Existência | ||
| + | * Convém ater-se ao significado de ser homem, pois a experiência da decepção súbita mostra que o mundo pode tornar-se repentinamente estranho, fazendo perder todo ponto de apoio, o que o dizer comum exprime legitimamente por meio da imagem do “cair das nuvens”, não como metáfora arbitrária, | ||
| + | * A linguagem não traduz estados interiores já dados, mas pensa e poetiza antecipadamente por todos, antes de qualquer pensamento ou poesia individuais, | ||
| + | * O cair experimentado na decepção não é físico nem mera analogia derivada do corpo, mas pertence à essência do próprio abalo existencial, | ||
| + | * Forma e conteúdo não estão separados nessa experiência, | ||
| + | * As explicações biologizantes ou psicofisiológicas, | ||
| + | * A teoria da expressão de Ludwig Klages, embora mais profunda, ainda pressupõe que o espiritual se manifeste em formas espaciais derivadas da organização psicofísica, | ||
| + | * Segue-se a concepção do significado desenvolvida por Edmund Husserl e Martin Heidegger, segundo a qual termos como alto e baixo designam uma perspectiva geral de sentido que se estende igualmente pelas diversas esferas do ser. | ||
| + | * O cair e o elevar-se constituem direções fundamentais da existência, | ||
| + | * A decepção é astenizante porque a existência perde o solo, fica suspensa e, se não se liberta para o alto, acaba por vacilar, afundar e cair. | ||
| + | * Essa estrutura ontológica fundamental é o fundamento a partir do qual se constituem a linguagem, a imaginação poética e, sobretudo, o sonho. | ||
| + | * O problema da relação entre corpo e mente revela-se mal formulado quando colocado em termos metafísicos tradicionais, | ||
| + | * Cair e elevar-se não derivam de outras experiências, | ||
| + | * Essa estrutura fundamenta também as representações religiosas, míticas e poéticas da ascensão do espírito e do peso do corpo, como na imagem de Friedrich Schiller sobre a transfiguração de Hércules. | ||
| + | * O “nós” que sobe na felicidade e cai na infelicidade não pode ser simplesmente identificado com o corpo individual, pois o sujeito da presença permanece ontologicamente problemático e oculto. | ||
| + | * Mito, poesia e sonho reconhecem que o sujeito da presença não se identifica com a forma corporal sensível, mas pode ser expresso por figuras que indiquem o subir e o cair. | ||
| + | * É nesse fundamento ontológico que se apoia o valor de verdade do mito, da religião e da poesia, bem como a eficácia de suas imagens do precipitar e do afundar. | ||
| + | * No exemplo de Eduard Mörike, a imagem do falcão fulminado exprime diretamente a queda existencial do sujeito, de modo que a similitude atinge imediatamente quem a lê. | ||
| + | * A passagem conduz naturalmente ao domínio do sonho, pois tudo o que foi dito pertence já à estrutura onírica da existência. | ||
| + | * A personificação dramática, característica do sonho, mostra como partes do próprio eu se destacam e se apresentam como figuras autônomas. | ||
| + | * O voar e o cair nos sonhos exprimem um traço essencial da presença, anterior à vontade consciente ou ao medo refletido. | ||
| + | * As figuras do rapace na poesia, no mito e no sonho manifestam esse elemento irrefletido e inconsciente que nos é familiar. | ||
| + | * Os sonhos de voo e queda não devem ser reduzidos a estímulos corporais ou a desejos sexuais, pois estes são apenas especificações secundárias de uma estrutura a priori mais originária. | ||
| + | * A compreensão psicológica do sonho exige a recondução das figuras às tendências existenciais correspondentes, | ||
| + | * Nos exemplos oníricos analisados, a alternância entre ascensão e queda exprime a pulsação da existência, | ||
| + | * Imagem e tonalidade afetiva não são separáveis, | ||
| + | * Fases ascendentes e descendentes podem também manifestar-se por outras imagens, como cores, luz e escuridão. | ||
| + | * Em certos sonhos patológicos, | ||
| + | * A dissolução na pura subjetividade coincide com a perda do sentido da vida, ainda que persista a busca de um fundamento aparentemente objetivo. | ||
| + | * A análise revela que mesmo o dinamismo cósmico aparente encobre necessidades pessoais e relacionais fundamentais. | ||
| + | * Na antiguidade grega, as imagens oníricas de rapaces remetem a acontecimentos exteriores e ao destino da estirpe, não a processos subjetivos individuais. | ||
| + | * Sonho, acontecimento cósmico e significado cultual formam uma unidade indivisível, | ||
| + | * Não se distingue rigorosamente interior e exterior, mas noite e dia, terra e sol, proximidade e distância. | ||
| + | * Os sonhos pertencem à esfera noturna e ctônica, ligados às divindades e às almas dos mortos. | ||
| + | * Progressivamente, | ||
| + | * A crítica antiga à oniromancia convive com teorias da simpatia e do uno-todo, presentes em Heráclito, nos estóicos e em Plotino. | ||
| + | * Com Petronius surge a afirmação de que cada um produz seus próprios sonhos, antecipando a modernidade. | ||
| + | * Essa virada marca o ressurgimento da hybris da individualidade e da pretensão de autonomia absoluta. | ||
| + | * Coloca-se então a questão de quem é esse quisque que sonha, problema ligado à distinção entre eu e fundamento universal. | ||
| + | * Diferenciações como eu e isso, eu e universo, inconsciente individual e coletivo exprimem essa tensão. | ||
| + | * A oposição entre opinião subjetiva e verdade objetiva remonta à distinção entre sonho e vigília. | ||
| + | * Para Heráclito, os despertos compartilham um mundo comum, enquanto os dormentes se voltam cada um para o seu próprio. | ||
| + | * O logos é o princípio que unifica e permite a comunicação e a verdade. | ||
| + | * Viver segundo o logos é estar desperto; viver segundo opiniões privadas é sonhar, mesmo em vigília. | ||
| + | * Em Hegel, somente a consciência do universal é consciência da verdade, enquanto a particularidade permanece no erro. | ||
| + | * A originalidade isolada e a particularidade subjetiva correspondem ao isolamento do pensamento em relação ao universal. | ||
| + | * Na prática terapêutica, | ||
