estudos:crowell:sartre
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| + | ===== SARTRE ===== | ||
| + | //CROWELL, Steven Galt (ORG.). The Cambridge companion to existentialism. New York: Cambridge University Press, 2012.// | ||
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| + | **10.1 Sartre e o idealismo moderno** | ||
| + | * Sartre morreu em 1980 como intelectual público notório -- "a consciência odiada de seu século" | ||
| + | * Em 1980, a ideia de que sua filosofia merecia consideração crítica parecia antiquada: Ser e o Nada era tido como ingênuo, pré-virada linguística, | ||
| + | * Sartre era um filósofo que lidou brilhantemente com problemas filosóficos legados pela tradição moderna: antes de ser existencialista era fenomenólogo, | ||
| + | * A questão condutora do capítulo é: o que devo " | ||
| + | * O idealismo filosófico -- qualquer posição que sustente que o mundo só nos é presente mediado por entidades mentais -- é o alvo do existencialismo de Sartre, que se vê como cumprindo a promessa da abordagem fenomenológica de Edmund Husserl para libertar o pensamento moderno do legado cartesiano. | ||
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| + | **10.2 O legado de Husserl: a intencionalidade da consciência** | ||
| + | * A fenomenologia, | ||
| + | * A grande descoberta de Husserl foi que, ao " | ||
| + | * A reflexão fenomenológica não revela um mundo de sensações sem sentido atomisticamente separadas, mas aceita que a experiência é de desafios assustadores, | ||
| + | * A constituição de um vaso Ming como " | ||
| + | * A fenomenologia não é reflexão psicológica no sentido de introspecção de estados mentais particulares: | ||
| + | * Sartre insistiu contra aqueles que viam a fenomenologia como retorno ao idealismo cartesiano: "Nada é mais injusto do que chamar os fenomenólogos de ' | ||
| + | * O ego apresenta um problema nesse quadro: não é um processo mental particular como perceber, querer ou julgar -- algo imanente -- mas tampouco parece ser algo no mundo, um objeto transcendente; | ||
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| + | **10.3 O ego e a autoconsciência não posicional** | ||
| + | * Sartre rejeita a solução puramente formal de Kant -- "o 'eu penso' deve poder acompanhar todas as minhas representações" | ||
| + | * Ao refletir sobre minha experiência de correr para alcançar um ônibus, apareço a mim mesmo como agente, como estando em certo estado e como possuindo certa qualidade; mas Sartre nega que tal reflexão capture a experiência tal como vivida, onde há apenas " | ||
| + | * A experiência pré-reflexiva não precisa de um ego para unificar seus elementos porque o próprio objeto fornece a unidade necessária: | ||
| + | * Se houvesse um ego na consciência, | ||
| + | * Toda consciência é " | ||
| + | * Casos de " | ||
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| + | **10.4 O ser-em-si e o ser-para-si** | ||
| + | * Sartre escreve Ser e o Nada tendo três interlocutores principais em mente -- Husserl, Hegel e Heidegger --, o que introduz camadas de motivação que podem obscurecer o argumento geral: de Husserl toma o ponto de partida, a intencionalidade da experiência, | ||
| + | * O argumento de Sartre na Introdução gira em torno de duas formas de " | ||
| + | * O ser-em-si é o que a consciência revela: tentando caracterizá-lo sem qualquer apelo à consciência, | ||
| + | * O ser-para-si, | ||
| + | * A solução para a aparente dualidade metafísica consiste em superar a falácia do concretismo deslocado e reconhecer que o ser transcendente e a consciência " | ||
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| + | **10.5 Negação e possibilidade** | ||
| + | * "O homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo": | ||
| + | * A possibilidade ontológica que Sartre tem em mente contrasta com o que é atual: o que é possível não é, pois é meramente possível -- e nossa consciência de possibilidade, | ||
| + | * Perceber a fragilidade do vaso Ming é ser consciente da possibilidade de seu não-ser na forma de sua destrutibilidade: | ||
| + | * Sartre chama de negatités os seres cujo encontro pressupõe uma compreensão pré-judicativa do nada -- entre eles, distância, mudança, repulsa, arrependimento e distração --, mas o ponto é geral: encontrar qualquer coisa como algo é agir em relação a ela à luz de alguma possibilidade; | ||
| + | * Se a possibilidade à luz da qual as coisas se mostram como isto ou aquilo não pode derivar do em-si, é necessário perguntar o que é uma expectativa: | ||
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| + | **10.6 Possibilidade e liberdade** | ||
| + | * Uma expectativa não pode ser concebida como um estado atual ou " | ||
| + | * No exemplo sartreano, se espero encontrar Pierre no café e gradualmente me torno consciente de sua ausência, "sou necessariamente forçado a produzir um ato de pensamento que nenhum estado anterior pode determinar ou motivar... Na medida em que meu estado atual seria um prolongamento de meu estado anterior, toda abertura pela qual a negação poderia se infiltrar estaria completamente bloqueada." | ||
| + | * A verdade ontológica sobre a consciência é que ela não pode conter nada, não pode ser uma " | ||
| + | * Sartre transforma a distinção husserliana entre uma visão psicológica e uma fenomenológica da consciência numa doutrina da liberdade com implicações radicais: a existência como consciente é ser livre, e isso é carecer de uma natureza ou " | ||
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| + | **10.7 Liberdade e angústia** | ||
| + | * A " | ||
| + | * "Antes de ser uma concepção teórica, o determinismo é primeiro uma atitude de desculpa": | ||
| + | * "Na angústia o homem obtém a consciência de sua liberdade... a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser": a angústia é a experiência do " | ||
| + | * A vertigem é " | ||
| + | * A angústia da dependência é " | ||
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| + | **10.8 Engajamento, | ||
| + | * A forma mais comum de distração é simplesmente agir, perder-se no mundo: a consciência pré-reflexiva de possibilidades não é suficiente para gerar angústia; as possibilidades precisam ser tornadas explícitas na reflexão; ordinariamente, | ||
| + | * Os valores são " | ||
| + | * "Minha liberdade é o fundamento único dos valores e nada, absolutamente nada, me justifica na adoção deste ou daquele valor, desta ou daquela escala de valores. Como o ser pelo qual os valores existem, sou injustificável": | ||
| + | * A má-fé (mauvaise foi) não é uma questão de reflexão explícita, mas uma forma de pré-reflexivamente jogar esconde-esconde consigo mesmo, um tipo de autoenganação possibilitada pelo fato de que a subjetividade é constituída pela consciência de ser o que não é e de não ser o que é: é a tentativa de evitar admitir a si mesmo o sentido do próprio comportamento, | ||
| + | * Apesar de um padrão de comportamento que só pode ser descrito como " | ||
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| + | **10.9 O eu como performance: | ||
| + | * A vida, nessa visão, é performance: | ||
| + | * " | ||
| + | * O garçom sartreano que "joga de ser garçom", | ||
| + | * No fundo, a estrutura ontológica da subjetividade é contraditória e "o homem é uma paixão inútil", | ||
| + | * Embora o solipsismo seja uma possibilidade lógica, a realidade humana não é solipsista mas social: agir é agir em conformidade com normas e papéis já dados, mesmo que meu projeto seja precisamente desafiá-los; | ||
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| + | **10.10 O ser-para-outros como a morte das possibilidades** | ||
| + | * Sartre reformula o " | ||
| + | * Husserl descreveu na quinta Meditação Cartesiana como perceber outra pessoa envolve consciência de um tipo peculiar de ausência: enquanto a ausência perceptual ordinária (o lado de trás da casa) poderia ser vista se eu desse a volta, a subjetividade do outro " | ||
| + | * A inovação de Sartre está em reconhecer que tal experiência do Outro como objeto não pode ser fundacional, | ||
| + | * Na descrição em primeira pessoa de um homem espiando pelo buraco de uma fechadura numa cena de sedução, Sartre mostra como o voyeur está completamente absorto em sua experiência, | ||
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| + | **10.11 O mundo social como espaço de conflito** | ||
| + | * A análise do Olhar permite uma compreensão mais rica do " | ||
| + | * Como duas liberdades só podem existir uma para a outra como a morte das possibilidades de cada uma, as relações sociais são necessariamente conflituosas; | ||
| + | * O que significa ser judeu ou mulher é descoberto em primeiro lugar pelos olhos do antissemita ou do homem: por isso, descubro esse Eu como uma dimensão alienada mas real de meu ser e, buscando superar essa alienação, | ||
| + | * O confronto não se dá em campo nivelado: o mundo social é um mundo de assimetria e desigualdade concretas, e suas instituições estão configuradas de modo a privilegiar "o poder" -- patriarcado, | ||
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