| Se há um primeiro esquecimento, o que ele produz é um imemorial absoluto: não um passado que, tendo estado presente e, portanto, já aberto e destinado à memória, teria subsequentemente se tornado inacessível nele ou para ele, mas um passado inicialmente passado e originalmente perdido, um passado antecipado e por essência roubado de toda memória futura, um passado simultâneo com sua própria passagem e roubo, sempre já passado, sempre já desaparecido, sendo apenas para ter desaparecido. Heidegger insiste com frequência no redobramento do esquecimento: para esquecer de verdade, esquecer não é suficiente, porque esquecer ao lembrar que esquecemos é apenas um modo de lembrar, precisamente aquele que nos permite redescobrir o que foi esquecido. O esquecimento consumado, mostra ele, é o esquecimento do esquecimento, o desaparecimento do próprio desaparecimento, onde a própria cobertura é coberta . Esse redobramento, esse segundo poder do esquecimento deve, na verdade, ser colocado como o primeiro: não é uma forma superior de esquecimento que sucede a outra por exponenciação, pois o esquecimento que não é esquecido constitui, ao contrário, uma primeira memória, uma primeira abertura para a superação do esquecimento. O mesmo se aplica à ignorância socrática: a ignorância que se ignora a si mesma não é uma ignorância excepcional, é a própria ignorância, enquanto o conhecimento de nossa ignorância é o primeiro conhecimento e o acesso a todo conhecimento. Se há um primeiro esquecimento, ele só pode ser este: o esquecimento que se esquece de si mesmo, que já se esqueceu de si mesmo, radicalmente inacessível, radicalmente inacessível, a própria perda perdida, a perda que não podemos nem mesmo reter como perda, a perda na qual nada falta e que não cava em nós nada que queiramos preencher. | Existe um esquecimento primário? O pensamento pode se voltar para um esquecimento radical, que não pressupõe a memória e não consiste em interrompê-la, adiá-la ou suspendê-la em um ou outro de seus poderes? Quando o esquecimento apenas perturba a memória, seja essa perturbação duradoura ou fugaz, leve ou grave, ele retira da memória todo o seu sentido e, por essência, se subordina a ela, sempre secundário e secundário. Ele chega então tarde demais para fundar e destinar. Pode-se começar pelo esquecimento, com o esquecimento, no esquecimento? A única possibilidade de um esquecimento inicial parece contraditória, até mesmo absurda. O que poderia significar o apagamento do que não teria sido primeiro inscrito, fixado, gravado, a obliteração do que não teria sido marcado e notado, a recuperação do que não teria sido descoberto? Começar pelo esquecimento equivale a começar pela perda, e como se pode perder o que não se teve anteriormente, o que não se foi inicialmente? Se a perda é privação, ela pressupõe, logicamente e ontologicamente, aquilo de que priva. Nesse sentido, se é possível pensar em começar pelo vazio e pela vacância, como os místicos que fazem do eterno clarão do Nada divino, pura iluminação do abismo antes de todo o ser, a origem absoluta, parece absurdo colocar no início uma privação, tardia por definição. Do que o esquecimento poderia privar se começasse, e seria então, ainda ou já, propriamente esquecimento? |
| | Se há um esquecimento primário, o que ele faz surgir é um absoluto imemorial: não um passado que, tendo sido presente, e portanto já aberto e destinado à memória, se tornaria posteriormente inacessível nela ou para ela, mas um passado inicialmente passado e originalmente perdido, um passado antecipadamente e por essência roubado de toda memória futura, um passado simultâneo à sua própria passagem e roubo, sempre já passado, sempre já desaparecido, existindo apenas por ter desaparecido. Heidegger insiste frequentemente na duplicação do esquecimento: para esquecer verdadeiramente, esquecer não é suficiente, pois esquecer lembrando-se de que se esqueceu é apenas um modo de lembrança, aquele que precisamente nos permite reencontrar o que foi esquecido. O esquecimento consumado, mostra ele, é o esquecimento do esquecimento, o desaparecimento do próprio desaparecimento, onde o próprio coberto se cobre. Essa duplicação, essa segunda potência do esquecimento, deve, na verdade, ser colocada como primeira: não é uma forma mais elevada de esquecimento que sucede a outra por exponenciação, pois o esquecimento que não se esquece constitui, ao contrário, uma primeira memória, uma primeira abertura para superar o esquecimento. O mesmo se aplica à ignorância socrática: a ignorância que se ignora a si mesma não é uma ignorância excepcional, é a própria ignorância, enquanto o conhecimento da nossa ignorância é o primeiro conhecimento e o acesso a todo o conhecimento. Se existe um esquecimento inicial, ele só pode ser assim: esquecimento que se esquece, já tendo se esquecido antes, imemorial radicalmente inacessível, perda em si perdida, perda que nem mesmo podemos reter como perda, perda em que nada falta e que não cria em nós nada que queiramos preencher. |