estudos:casey:lembramento-caracteristicas-primarias
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| + | ====== Traços Fenomenológicos Primários do Lembramento ====== | ||
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| + | Casey2010 | ||
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| + | * Delimitação do sentido de traços e justificativa do agrupamento em pares | ||
| + | * Os traços visados designam características de certas formas de lembrar que se encontram sempre de fato presentes ou ao menos potencialmente presentes em numerosas ocasiões. | ||
| + | * A generalidade desses traços não significa uniformidade de ocorrência, | ||
| + | * O agrupamento em pares responde a uma exigência interna do fenômeno, pois certos traços se articulam por alternância, | ||
| + | * A estrutura em pares pretende captar relações internas entre modos de operar do lembrar, evitando a descrição atomizada de características isoladas. | ||
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| + | * Busca e exibição como movimentos correlatos e distintos do lembrar | ||
| + | * Busca designa um conjunto de procedimentos aliados mobilizados para lembrar melhor ou para lembrar pela primeira vez aquilo que não se mostra de imediato. | ||
| + | * A recordação é caracterizada, | ||
| + | * A busca mantém correlação estreita com o esquecer, mas não se esgota nele. | ||
| + | * O campo do buscado excede o campo do esquecido, pois o lembrar pode visar aspectos tornados marginais, isto é, fora do pensamento atual sem terem sido propriamente apagados. | ||
| + | * A busca pode visar conteúdos que jamais receberam atenção especial, de modo que a falha de evocação não coincide com a perda do conteúdo por esquecimento. | ||
| + | * A ausência de lembrança é explicada, nesse caso, pela falta originária de tematização e não por deterioração ou supressão do traço memorial. | ||
| + | * Quando há esquecimento genuíno, a busca tende a adquirir forma mais concentrada e prolongada, tornando-se mais dependente de inferências. | ||
| + | * A inferência aparece como recurso para suprir lacunas, indicando que a busca pode operar por reconstrução indireta quando o acesso imediato falha. | ||
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| + | * Exibição como efetivação do lembrado e modos de sua ocorrência | ||
| + | * Exibição designa a ocorrência de uma memória efetivamente recuperada. | ||
| + | * Ela pode surgir ao final de uma busca, no curso dela, ou sem qualquer busca, o que mostra que a memória pode aparecer como resolução, | ||
| + | * Exibições podem emergir espontaneamente, | ||
| + | * A espontaneidade da exibição evidencia que a memória se autoatualiza em certas condições, | ||
| + | * Busca e exibição podem compor uma mesma experiência mnemônica. | ||
| + | * Um episódio pode iniciar-se sem convocação, | ||
| + | * A exibição não é necessariamente visual. | ||
| + | * Ela pode ser multissensorial, | ||
| + | * O polimorfismo das exibições exige exame ulterior, pois a memória não se restringe a um único canal de apresentação. | ||
| + | * A variedade de modalidades mostra que reduzir a memória ao modelo imagético empobrece a descrição do fenômeno. | ||
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| + | * Encapsulamento e expansão como traços complementares e não meramente alternativos | ||
| + | * Diferentemente de busca e exibição, que tendem a suceder-se como alternativas, | ||
| + | * Um traço contrativo e um traço distensivo coexistem, configurando o lembrar como simultaneamente condensador e proliferante. | ||
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| + | * Encapsulamento como poder contrativo do lembrar e suas formas principais | ||
| + | * Encapsulamento intrasscênico ocorre quando uma cena lembrada contém outra como parte de seu próprio conteúdo, de modo que uma memória se apresenta como pertencente à memória de outra. | ||
| + | * Esse emboîtement é descrito como relativamente raro e dependente de meios auto-representativos capazes de inserir versões de si mesmos, como o filme. | ||
| + | * Encapsulamento por amontoamento amorfo reúne experiências anteriores semelhantes sob forma implícita ou fragmentária. | ||
| + | * O lembrar inclui, nesse caso, uma sedimentação de experiências afins que se apresentam como massa pouco diferenciada ou como fragmentos parciais. | ||
| + | * Encapsulamento emblemático ocorre quando uma lembrança singular funciona como fiadora de uma série de outras lembranças menos definidas. | ||
| + | * Um único conteúdo exibido condensa e garante virtualmente um conjunto de memórias não recuperadas, | ||
| + | * Encapsulamento por relembrar consiste em lembrar o próprio lembrar, de modo que uma memória se torna objeto de nova memória. | ||
| + | * Essa reiterabilidade pode prolongar-se em séries sucessivas, nas quais lembrar inclui lembrar que se lembrou, produzindo uma auto-inclusão progressiva. | ||
| + | * A auto-inclusão reiterável é descrita como o encapsulamento mais abrangente do lembrar. | ||
| + | * A memória adquire aqui caráter estritamente autoencerrado, | ||
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| + | * Expansão como poder distensivo do lembrar e seus modos característicos | ||
| + | * Expansão por ramificação ocorre quando uma lembrança conduz a outras lembranças, | ||
| + | * As lembranças subsequentes podem manter continuidade de conteúdo ou formato, mas também podem surgir desconectadas, | ||
| + | * A cadeia resultante amplia significativamente o lembrar inicial, convertendo-o em ponto de partida de uma sequência. | ||
| + | * Expansão por dilatação interna ocorre quando uma lembrança se preenche por dentro, tornando-se mais completa sem adição externa de novas lembranças. | ||
| + | * Essa dilatação frequentemente resulta de busca, pois buscar implica procurar completude e, assim, promover expansão. | ||
| + | * A expansão pode servir aos interesses do encapsulamento. | ||
| + | * Uma lembrança tornada mais clara pode passar a representar melhor outras lembranças, | ||
| + | * Expansão por potencial multimodal ocorre quando a lembrança acrescenta ao episódio rememorado traços sensoriais que não foram notados explicitamente na experiência original. | ||
| + | * O lembrar amplia o conteúdo vivido ao reinscrevê-lo com riqueza sensível que excede a atenção originária. | ||
| + | * Expansão temporal consiste em prolongar a meia-vida psíquica de uma experiência ao lembrá-la e descrevê-la. | ||
| + | * Sob o aspecto de sobrevivência ou revivescência, | ||
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| + | * Persistência e passadidade como dimensões genéricas que exigem determinação própria | ||
| + | * Persistência e passadidade estavam implicitamente implicadas na discussão anterior, mas requerem explicitação autônoma. | ||
| + | * Falar de expansão temporal já implica que algo do passado se alonga no presente, e falar de encapsulamento já implica que algo do vivido persiste em forma abreviada. | ||
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| + | * Persistência como prolongamento do passado no presente e suas variações | ||
| + | * Persistência designa a prolongação do passado no presente, de modo que o vivido anterior permanece acessível e atuante na experiência atual. | ||
| + | * A persistência se manifesta de forma mais direta na memória primária, cuja função conservadora consiste em manter no presente um episódio recém decorrido. | ||
| + | * Persistência pode derivar de aprendizagem por repetição e operar quase automaticamente. | ||
| + | * Um conteúdo memorizado por encontros rotineiros persiste como informação prontamente recuperável, | ||
| + | * Persistência pode também ser imprevisível e esporádica. | ||
| + | * Um conteúdo não pensado por muitos anos pode persistir na forma mínima de poder reaparecer uma única vez, como extração ocasional do esquecimento profundo. | ||
| + | * Persistência pode consistir em tendência a ser lembrado em ocasiões recorrentes, | ||
| + | * O lugar funciona como elemento lembrante e a recordação desencadeada por ele se torna veículo da persistência. | ||
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| + | * Passadidade como proveniência temporal do lembrado e condição de lembrabilidade | ||
| + | * Passadidade nomeia a qualidade do lembrado pela qual ele se reconhece como originado em um tempo anterior ao presente. | ||
| + | * Sem essa proveniência, | ||
| + | * O tornarse passado pode ocorrer em graus. | ||
| + | * Uma experiência ainda em curso pode adquirir passadidade suficiente quando se afasta do foco central da sensação presente e se torna recapturável como tendo acabado de ser. | ||
| + | * Passadidade inclui a dimensão de completude, término ou acabamento. | ||
| + | * O lembrado se apresenta como concluído, expirado ou em via de expirar, variando do inteiramente terminado ao ainda latejante. | ||
| + | * A completude extrema de uma experiência pode traduzir-se em incompletude memorial. | ||
| + | * A distância temporal pode tornar a lembrança lacunosa e enevoada, sugerindo que o acabamento do vivido não garante riqueza do recordar. | ||
| + | * Persistência e passadidade implicam-se mutuamente. | ||
| + | * Apenas o que é passado pode persistir através do tempo interveniente e ser reavivado no presente, e apenas o que persiste se torna efetivamente lembrável. | ||
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| + | * Atualidade e virtualidade como dupla determinação do conteúdo lembrado | ||
| + | * A passagem da passadidade à atualidade ocorre porque o passado é compreendido como domínio de atualidades, | ||
| + | * Lembrar refere-se ao que ocorreu de fato, ainda que algumas dessas ocorrências permaneçam sobreviventes no presente. | ||
| + | * Atualidades lembradas podem ser objetivamente registráveis ou não. | ||
| + | * Certos elementos podem ser observáveis e documentáveis externamente, | ||
| + | * Mesmo quando não públicos, tais elementos mantêm estatuto de eventos e, por isso, de atualidades. | ||
| + | * A atualidade inclui databilidade, | ||
| + | * Um sentimento pode ser tão datável quanto uma posição corporal no mesmo episódio, indicando que a temporalidade partilhada sustenta a igualdade de estatuto eventivo. | ||
| + | * A atualidade inclui a finishedness, | ||
| + | * A coerência varia por contexto, pois um conteúdo pode ser adequado como memória em um contexto e incoerente em outro, o que colocaria em questão seu estatuto memorial. | ||
| + | * A unidade do lembrado é descrita como condição de atualidade. | ||
| + | * O lembrado deve manter um sentido de coesão interna como experiência ou conjunto de experiências, | ||
| + | * A atualidade envolve ainda a presença do lembrante na ocorrência original. | ||
| + | * O lembrado exige que o sujeito tenha estado presente em primeira pessoa no acontecimento, | ||
| + | * Datar um fato no passado é insuficiente; | ||
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| + | * Virtualidade como prontidão de reativação e horizonte de mais-lembrabilidade | ||
| + | * Virtualidade designa a prontidão de experiências passadas para serem reativadas. | ||
| + | * Trata-se de um estar-em-reserva, | ||
| + | * O horizonte virtual pode acompanhar tanto a lembrança global quanto cada incidente particular dentro dela. | ||
| + | * Mesmo quando nenhum detalhe adicional é efetivamente recuperável, | ||
| + | * Virtualidade manifesta-se concretamente como incoesão e indefinição. | ||
| + | * A falta de definição pode habitar o fundo do cenário, mas também o primeiro plano e a própria temporalidade do lembrado. | ||
| + | * A indefinição pode situar-se entre episódios, dentro de episódios ou na forma geral de uma lembrança enevoada. | ||
| + | * A indefinição não é apenas correlato abstrato da seletividade atencional. | ||
| + | * Ela é um modo concreto pelo qual a virtualidade se insinua no lembrar, marcando zonas que solicitam exploração por se apresentarem como virtualmente ali. | ||
| + | * A virtualidade contribui tanto para a pervasividade quanto para a evanescência da memória. | ||
| + | * A sensação de que toda experiência presente está impregnada de memória é atribuída ao caráter virtual que permeia a percepção e o pensamento. | ||
| + | * A rápida retirada de muitas lembranças é entendida como retorno a uma indefinição maior, isto é, a um estado de não lembrança. | ||
| + | * O estado de não lembrança pode ser caracterizado positivamente como prontidão retida. | ||
| + | * A perda aparente não se reduz a negatividade de um desaparecimento, | ||
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