estudos:caron:tradicao-visivel-peos-264
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| estudos:caron:tradicao-visivel-peos-264 [24/01/2026 04:26] – created mccastro | estudos:caron:tradicao-visivel-peos-264 [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Husserl e a tradição do visível (2005:264) ====== | ||
| + | |||
| + | PEOS | ||
| + | |||
| + | * A fenomenologia transcendental de Husserl recobre uma vontade de desvelamento absoluto da totalidade do ente pela inquisição permanente da certeza. | ||
| + | * Esta vontade a assemelha à tradição cartesiana, em raízes mais profundas do que Husserl mesmo imagina poder arrancar de si. | ||
| + | * Não se trata de que o ego de Husserl seja a mesma //res cogitans// de Descartes, mas de que Husserl se inscreve em uma tradição que faz da clareza, da evidência, da distinção – em suma, do visível – o elemento último de todo pensamento. | ||
| + | * Esta tradição filosófica, | ||
| + | * Ela pretende reter como verdadeiramente sendo apenas o que é manuseável pelo pensamento racional ou pelo olhar objetal. | ||
| + | * É uma tradição da // | ||
| + | * Em Husserl, o ato objetivante como estrutura da realidade é uma declinação dessa vontade de só considerar o // | ||
| + | * O sujeito transcendental produz permanentemente o horizonte para a vinda ao olhar de um // | ||
| + | * Apenas o que a consciência atinge nela mesma, sob suas exigências estruturais, | ||
| + | * O " | ||
| + | * Esta tradição, nomeada por Heidegger como "a metafísica", | ||
| + | * O vínculo de Husserl com Descartes se dá no terreno da evidência como fonte de verdade, não no da identificação das teorias do eu. | ||
| + | * Esta parentesco no nível do apego à teoria da evidência repercute, contudo, na teoria do eu. | ||
| + | * A evidência na subjetividade produz um modo de evidência //dessa// subjetividade, | ||
| + | * Para Husserl, não se pode remontar aquém da intuição, única doação originária. | ||
| + | * Heidegger responde que uma intuição, mesmo originária, | ||
| + | * O si vive sua presença a si no enigma; toda conquista da presença a si é uma traição do fato de uma não coincidência a si. | ||
| + | * As maneiras de Husserl são cartesianas, | ||
| + | * A presença a si, característica de ser da consciência, | ||
| + | * A filiação a Descartes, com base na evidência da presença, repercute na compreensão que o si tem de si mesmo. | ||
| + | * A esfera do ego não consegue se romper; da imanência à substância há apenas uma diferença quantitativa, | ||
| + | * A forma do ego permanece a de uma coisa (ponteada, móvel, viva em Husserl; mais fixa em Descartes). | ||
| + | * O problema de Husserl, como o de Descartes, é o do fundamento das ciências. | ||
| + | * O "giro transcendental" | ||
| + | * Husserl se considera herdeiro da tradição que vai de Descartes ao início do cumprimento kantiano. | ||
| + | * Heidegger pensa a fenomenologia husserliana como uma vontade de reduzir o pensamento ao domínio do visível. | ||
| + | * Neste sentido heideggeriano, | ||
| + | * O idealismo vulgarmente atribuído a Husserl recobre um idealismo mais profundo: o reinado do ver. | ||
| + | * Heidegger vincula Husserl à tradição cartesiana e ao ideal científico da filosofia moderna. | ||
| + | * Não se deve aproximar excessivamente Husserl e Nietzsche, sob risco de perder os dois projetos fundamentais. | ||
| + | * Husserl visa o fundamento das ciências e a certeza; Nietzsche relativiza noções como certeza e ciência pela prevalência da vontade de poder. | ||
| + | * Nietzsche, na leitura heideggeriana, | ||
| + | * Ele representa uma caricatura da vontade de domínio sobre o visível que a metafísica dissimula desde Platão. | ||
| + | * Em Husserl, o projeto metafísico não é tão manifesto devido às épocas das quais se reconhece herdeiro. | ||
| + | * Heidegger é claro: o acabamento da metafísica se chama " | ||
| + | * Nietzsche antecipa o acabamento dos Tempos Modernos; está meta// | ||
| + | * Nietzsche é a figura extrema, concentrada, | ||
| + | * A fenomenologia de Husserl se dissocia claramente do projeto nietzscheano. | ||
| + | * A luta de Husserl contra o psicologismo e sua vontade de fundar uma lógica pura o distanciam das exagerações biologizantes de Nietzsche. | ||
| + | * A fenomenologia visa evitar toda pressuposição, | ||
| + | * Do ponto de vista heideggeriano, | ||
| + | * Criticar demais Husserl e Nietzsche é perder de vista que Husserl sobe uma ladeira que Nietzsche desce. | ||
| + | * O conceito de vontade de poder em Nietzsche é mais violento que as consequências sistemáticas da fenomenologia transcendental. | ||
| + | * Com Nietzsche, trata-se de infinitas " | ||
| + | * O problema fundamental da fenomenologia de Husserl, para Heidegger, é não ter visto o que nela mesma se descobria. | ||
| + | * Husserl é prisioneiro de uma tradição científica e metafisicamente conotada, que tanto possibilita sua ruptura quanto o retém. | ||
| + | * Nietzsche, ao contrário, recusa violentamente essa tradição, denunciando sua ausência de valor, mesmo que a reconduza de modo mais radical. | ||
| + | * Nietzsche está, portanto, mais " | ||
| + | * É rigorosamente impossível superpor a intuição originária de Husserl e o " | ||
| + | * O primeiro quer limitar o mundo ao que se pode ver; o segundo aceita que só haja caos a ver, sobre o qual criar novas formas de visibilidade. | ||
| + | * Husserl, contudo, possui um aporte decisivo: abre um caminho para o fundo da idealidade na intuição categorial. | ||
| + | * Ele funda racionalmente a idealidade, enquanto Nietzsche impõe, a partir do preconceito ser/devir, o absurdo do domínio do não-dado. | ||
| + | * Para Husserl, o absoluto é o imediatamente presente à consciência; | ||
| + | * Para Heidegger, o si possui uma intuição mais originária do mistério através da pré-compreensão do ser. | ||
| + | * Husserl suspende dogmaticamente o olhar para o que não é dado na evidência. | ||
| + | * A fenomenologia transcendental cai no idealismo como filosofia do puro ver do visível, esquecendo o puro ver do invisível que dá acesso à visibilidade. | ||
| + | * A redução é, em última instância, uma redução ao humano ou ao humanamente visível; evita o mergulho no enigma da presença. | ||
| + | * O si é assim cortado de sua relação essencial com o ser, que é a possibilidade de toda percepção e de toda redução. | ||
| + | * Ao contrário de Nietzsche, Husserl opera a ruptura da intuição categorial, que faz aparecer a necessidade da relação inalienável entre ser e ipseidade. | ||
| + | * Esta ruptura opera um alargamento da zona subjetiva, que se dá ao pensamento como // | ||
| + | * Husserl, apesar de prisioneiro de uma tradição paralisante, | ||
| + | * Este retorno ao questionamento transcendental, | ||
| + | * Husserl permanece uma figura ambígua: abre e fecha, avança e recua simultaneamente; | ||
| + | * Ele descobre o modo de acesso ao fenômeno, mas não sonda sua essência; Heidegger se instala naquilo a que se teve acesso: o ato de doação (o ser). | ||
| + | * Heidegger usa a fenomenologia como caminho de retorno ao ser como horizonte que descobre o fenômeno, e de retorno ao si mesmo como aquele que vive em relação a esse ser. | ||
| + | * O método redutivo sofre uma transformação em Heidegger: torna-se a recondução do olhar da apreensão do ente à compreensão do ser desse ente. | ||
| + | * Uma vez levada ao limite e manifestando o // | ||
| + | * O movimento da fenomenologia heideggeriana consiste em retornar a fenomenologia contra si mesma a partir de seus próprios resultados. | ||
| + | * Não se trata de uma redução suplementar, | ||
| + | * A redução heideggeriana visa mais longe: o princípio de sua própria possibilidade, | ||
| + | * A redução se abre assim a sua própria retomada na possibilidade desdobrada pelo si, onde se reencontra o // | ||
| + | * Heidegger não visa os //Sachen// (os vividos) da fenomenologia husserliana, | ||
| + | * O problema do si e o do ser são indissociáveis; | ||
| + | * A região constituinte descoberta pela redução husserliana (a consciência) é um ponto de parada prematuro. | ||
| + | * A rigorosidade fenomenológica exige seguir até a fonte mais profunda, arriscar o olho no obscuro. | ||
| + | * Heidegger, longe de abandonar a redução, reduz no interior do resíduo obtido (a consciência pura) todo olhar dirigido ao constituído. | ||
| + | * É preciso levar a purificação do olhar até o fim, reconduzindo os vividos noético-noemáticos à sua origem possibilitadora. | ||
| + | * O olhar obtido pela redução husserliana é um olhar para os vividos, portanto, um olhar ele mesmo reduzido ou diminuído. | ||
| + | * É preciso chegar ao re-visar (// | ||
| + | * É preciso voltar à fonte mesma do olhar, ver o ser como condicionante que abre ao si toda compreensão. | ||
| + | * Colocar a questão da possibilidade do ter-visto é impossível para Husserl, prisioneiro da concepção de que o olhar basta. | ||
| + | * Heidegger não pode se contentar com uma método que não vai até o fim de si mesma. | ||
| + | * O termo radical, que é também começo radical, é a abertura do si ao ser. | ||
| + | * A fenomenologia, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
