estudos:caron:dedicar-se-ao-dado-191
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| + | ====== dedicar-se ao dado (2005:191) ====== | ||
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| + | * Os vividos como fonte de direito de todo fenômeno e base da ciência pura. | ||
| + | * Os vividos, pelo entrelaçamento do ego absoluto que se desdobra neles, são a fonte de direito de todo fenômeno; são o próprio fenômeno. | ||
| + | * Sua evidência para a consciência é a base sobre a qual Husserl se apoia para afirmar não existirem outros meios de acesso a uma ciência pura e rigorosa da vida psíquica. | ||
| + | * A presença imediata dos vividos à consciência é a base ou a garantia da verdade do método, que encarna o princípio da ausência de pressuposição nas pesquisas da teoria do conhecimento. | ||
| + | * A intuição como domínio absoluto e acesso privilegiado à essência. | ||
| + | * Na evidência do vivido, tudo é dado, tal como um objeto seria dado a um entendimento infinito. | ||
| + | * A consciência atinge intuitivamente a própria essência; ela é o domínio da presença absoluta. | ||
| + | * Esta intuição possui um caráter todo-poderoso, | ||
| + | * Exemplo da intuição do vermelho: mantendo a imanência pura e realizando a redução, atinge-se a essência " | ||
| + | * Tal intuição, domínio do absoluto, é a estrutura do ego transcendental. Com ela, não se pode sonhar melhor acesso à coisa. | ||
| + | * A evidência da qual o eu é capaz lhe confere atributos tradicionalmente reservados à divindade. | ||
| + | * A não-interrogação da possibilidade dessa potência do eu. | ||
| + | * Esta potência de apreensão do ser do próprio objeto pelo eu não é interrogada em sua possibilidade. | ||
| + | * Para Heidegger, que o eu seja absoluto é um fato da redução, não um elemento de pensamento. | ||
| + | * Este acesso do eu ao ser, ou mesmo esta identificação do eu e do ser em torno da dominação do eu afirmado como único ser, permanece considerado como uma evidência, um fato. | ||
| + | * A questão do caráter de ser de uma intuição tão poderosamente fenomenalizante não pode, no entanto, ser rigorosamente evitada. | ||
| + | * A intuição como termo intransponível e o apelo à tradição mística. | ||
| + | * Para Husserl, a intuição permanece o termo intransponível ou a fonte inesgotável de direito. Nela deve-se buscar a origem do ser. | ||
| + | * Husserl não considera a evidência como uma pressuposição, | ||
| + | * Ele se refere a Descartes como o " | ||
| + | * Não desdenha a comparação com a noção mística de intuição sine comprehension (intuição sem compreensão), | ||
| + | * O misticismo husserliano versus o misticismo religioso. | ||
| + | * Pela redução, que é a manutenção provocada na pura visão ou evidência, Husserl desvela uma atitude mística mais ambiciosa que a do mais puro dos místicos. | ||
| + | * O místico (ex.: São João da Cruz) sabe que não pode se manter no coração dessa visão nua, pois ela não detém em si mesma sua possibilidade, | ||
| + | * O místico tem consciência de não poder agarrar a luz para dela se tornar senhor. Sua relação é de busca, gemido e ausência. | ||
| + | * Para Husserl, o "olhar da vista" ao qual recorre para aceder a uma esfera de evidência não sofre a comparação com o olhar ou a certeza mística, que se depara com uma luz tenebrosa ou uma treva luminosa. | ||
| + | * A opacidade na fenomenologia: | ||
| + | * Husserl fala de zonas de opacidade na vida da consciência, | ||
| + | * Para a fenomenologia transcendental, | ||
| + | * A resposta à crítica heideggeriana: | ||
| + | * Contra as declarações de Heidegger de que Husserl não considerou o caráter de ser da subjetividade, | ||
| + | * Husserl declara que o "eu sou" é o fato primitivo diante do qual, como filósofo, não pode desviar o olhar. | ||
| + | * Para as " | ||
| + | * A fenomenologia tem a vocação de ir até o fim do ceticismo para encontrar o caminho de uma ciência rigorosa. | ||
| + | * A diferença entre " | ||
| + | * Para Heidegger, " | ||
| + | * É, ao contrário, reconduzi-lo ao que uma subjetividade reduzida às suas claridades pode dele apreender. | ||
| + | * A subjetividade só se atinge pela relação a um elemento situado mais longe que o sujeito. Para olhar o "canto escuro", | ||
| + | * Esta zona obscura, para ser iluminada como o que é, não deve ser reduzida à luz. O fundo que extingue não pode ser dominado pelas luzes científicas derivadas. | ||
| + | * A abordagem husserliana da obscuridade: | ||
| + | * Husserl não afirma de saída que a região de obscuridade é em si luminosa, mas a aborda como se estivesse destinada a sê-lo. | ||
| + | * A tarefa da fenomenologia consiste em levar a luz ao obscuro, não para fazê-lo aparecer como se dá (em sua obscuridade), | ||
| + | * A confrontação com o "canto escuro" | ||
| + | * A escolha heideggeriana: | ||
| + | * Não se trata de iluminar o canto escuro, mas de pensá-lo, sem atraí-lo a si subjetivamente, | ||
| + | * O "canto escuro", | ||
| + | * Se a subjetividade possui nativamente uma parte de obscuridade, | ||
| + | * A crítica ao primado da visão e à redução do fenômeno ao ente. | ||
| + | * O problema do projeto husserliano, | ||
| + | * A pensamento tem acesso a si mesmo e ao enigma do ser, a domínios agindo na invisibilidade. | ||
| + | * Fazer tudo depender da vista ou do que o pensamento tem acesso imediato (o ente) é perder de vista as condições da vinda à presença. | ||
| + | * Quem diz primado da vista diz primado do ente como vorhanden (subsistente) e redução do pensamento a uma atividade de manejo do ente. | ||
| + | * Uma pensamento que pensa a singularidade do ipse em obra no si e uma pensamento do ser são concomitantes. | ||
| + | * A evidência como absoluto e a questão de sua validade. | ||
| + | * A pura visão tem para Husserl valor de absoluto. A evidência é uma incontestável dada e torna-se a medida para todo pensamento. | ||
| + | * Mas de onde a evidência tira sua própria validade? Descartes ainda colocava esta questão, submetendo a evidência à hipótese do " | ||
| + | * A noção de dado absoluto não tem sentido para um cartesianismo rigoroso. | ||
| + | * Husserl, ao contrário, quer atestar que a intuição é a única ausência de pressuposição possível, pois é a única instância doadora originária. | ||
| + | * A superação do problema da adequação pela redução. | ||
| + | * Husserl realiza um progresso notável em relação às filosofias da representação: | ||
| + | * O problema da adequação entre sujeito e objeto é dissolvido pela redução, que permite a coincidência do sujeito consigo mesmo na imanência. | ||
| + | * Uma pensamento é julgada completa quando intenção e intuição se unem no preenchimento. | ||
| + | * Contudo, para Heidegger, o problema não é verdadeiramente superado, apenas resolvido ou dissolvido. A questão fundamental é a possibilidade da vinda à presença do ente. | ||
| + | * A solução husserliana como recuo sobre o sujeito e a alternativa heideggeriana. | ||
| + | * A solução de Husserl constitui um recuo sobre o sujeito, pressupondo a possível coincidência consigo de um eu puro. | ||
| + | * Heidegger demonstra que a " | ||
| + | * Esta possibilidade de reflexividade e autoquestionamento no coração do dado não é integrada por Husserl à atividade do ego absoluto. | ||
| + | * Para Heidegger, este recuo provém da proximidade ao si do ser como retração. | ||
| + | * A necessidade de interrogar a origem da evidência e a pré-compreensão do ser. | ||
| + | * É preciso ir à origem da evidência, perguntar o que faz com que a evidência possa ser, que uma fonte doadora originária possa aparecer. | ||
| + | * Para Husserl, este problema é absurdo, pois o ser é constituído pela fonte em questão. | ||
| + | * Para Heidegger, uma questão sobre o ser dos vividos é a mola fundamental da fenomenologia; | ||
| + | * Esta relação ao ser deve ser estudada por si mesma, sem reduzir precipitadamente o ser ao ego. | ||
| + | * A atividade fenomenológica mesma depende desta relação do si e do ser. Um ser tão condicionante não pode ser rebaixado a constituído. | ||
| + | * A pré-compreensão do ser como relação mais originária. | ||
| + | * A pré-compreensão do ser é esta relação do si e do ser, e ela é o que há de mais originário e propriamente intransponível. | ||
| + | * Esta compreensão não é inventada pela filosofia; ela já está presente na existência pré-filosófica do homem, sem a qual ele não poderia se comportar em relação ao ente. | ||
| + | * A intuição como resultado do desejo de ausência de pressuposição. | ||
| + | * Desde as Investigações Lógicas, a atitude redutora está presente em intenção, e a transcendência é reconduzida a uma visada de sentido do vivido subjetivo. | ||
| + | * A intuição é considerada como resultado do desejo de ausência de pressuposição. | ||
| + | * Sair da intuição é impossível e impensável para Husserl, assim como para Descartes era impossível sair da substância pensante. | ||
| + | * A diferença entre Descartes e Husserl: a anulação da exterioridade. | ||
| + | * Para Descartes, alcançar a transcendência do mundo é possível pela intervenção de Deus veraz. | ||
| + | * Para Husserl, nenhum termo médio é necessário; | ||
| + | * A consciência desdobra em si mesma uma exterioridade, | ||
| + | * A mudança de esquema proposta por Heidegger. | ||
| + | * Heidegger muda o esquema do imanentismo intencionalista husserliano sem perder seu resultado (a abolição do problema da ponte). | ||
| + | * A proximidade do si ao ser situa o si sempre já no exterior e junto ao ente. O si não precisa se perguntar sobre uma transcendência, | ||
| + | * O si não está menos perto de seu objeto, sem estar enclausurado em sua própria esfera. | ||
| + | * A insuficiência da explicação husserliana e a consciência do vazio. | ||
| + | * Husserl não pensa a consistência do fundo não-ôntico do ego, um tecido de evanescência cujo mistério é precisamente que um tal não-ente seja constituinte. | ||
| + | * O eu puro aparece como uma inconsistência constituinte, | ||
| + | * Husserl quer um " | ||
| + | * Há na fenomenologia transcendental uma vontade primeira de descobrir no si um elemento de solidez, a esfera intuitiva da evidência. | ||
| + | * A intuição como estrutura essencial e sua não-interrogação. | ||
| + | * A intuição é posta por Husserl como estrutura essencial do ego transcendental. Seu papel não é visto como um pressuposto, | ||
| + | * Para abrir uma brecha no pensamento de Husserl, é preciso colocar a questão do ser de toda intuição como tal. | ||
| + | * Esta questão tem dupla eficácia: força a olhar o próprio olhar e sua possibilidade, | ||
| + | * A questão fundamental: | ||
| + | * Por qual caráter de ser a intuição é doadora? O fato de poder se referir à fonte doadora colocando a questão de seu ser não coloca o questionado aquém do horizonte atestado? | ||
| + | * Se a intuição, estrutura do ego, se confunde com a estrutura da objetidade, o que significa que a objetidade seja, isto é, que a intuição seja? | ||
| + | * Como uma ipseidade intuitiva pode ser e ser intuitiva? Esta é a questão que Heidegger enfrenta. | ||
| + | * A dependência da intuição em relação ao ser. | ||
| + | * Heidegger pergunta como o " | ||
| + | * A consciência deve ser previamente submetida à estrutura fundamental de uma pré-compreensão do ser, que torna possível um rapport intuitivo ao ser do vivido. | ||
| + | * A Sexta Investigação Lógica mostrou a Heidegger que o domínio das categorias é dado intuitivamente, | ||
| + | * Não podemos intuir senão porque nos mantemos incessantemente em uma compreensão do que " | ||
| + | * A omissão de Husserl: não pensar o horizonte doador da intuição. | ||
| + | * O horizonte pelo qual a intuição pode ser doadora não é pensado. A intuição mesma não é pensada. | ||
| + | * Husserl se serve da intuição categorial para desenvolver a filosofia, mas não entra na questão do ser deste ser que a condiciona. | ||
| + | * Isto é, para Heidegger, uma grave inconsistência. | ||
| + | * A compreensão do ser como fundo de todo comportamento. | ||
| + | * Não apenas na fala, mas em todo comportamento silencioso, prático ou teórico, já compreendemos o " | ||
| + | * Compreendemos o ser não apenas dos entes que nos cercam, mas também de nós mesmos e dos outros. | ||
| + | * Esta compreensão precede toda expressão e todo enunciado. Nosso comportamento é regido por esta compreensão do ser. | ||
| + | * A luz do ego alimentada por uma fonte obscura. | ||
| + | * O contato constante com o elemento noturno concede fenômeno e luminosidade. | ||
| + | * A vigília do ego luminoso e provedor de luz é ela mesma alimentada por uma fonte obscura. | ||
| + | * É da proximidade desta noite que o si se relaciona com o fenômeno e pode transmitir aparição. | ||
| + | * A crítica à falta de autoquestionamento da fenomenologia husserliana. | ||
| + | * Enquanto a intuição doadora pode ser objeto de uma questão, sem conter em si a instância de possibilidade da questão, ela permanece aquém do princípio verdadeiro. | ||
| + | * Husserl não interroga a fonte doadora, nem coloca nela a possibilidade do questionamento sobre si mesmo. | ||
| + | * Tanto ontológica quanto metodologicamente, | ||
| + | * Husserl interroga as significações, | ||
| + | * A intuição das essências e a questão de sua possibilidade. | ||
| + | * Husserl estabelece uma intuição das essências (Wesensschau) pela redução eidética. | ||
| + | * Mas como a consciência possui a capacidade do recuo necessário para tal redução? O que nela permite tal processo de distinção? | ||
| + | * Husserl não responde a estas questões ligadas à possibilidade mesma de toda redução e, portanto, de toda fenomenologia. | ||
| + | * O trabalho sobre o fundo intuitivo e a não-penetração na doação. | ||
| + | * Husserl trabalha exclusivamente sobre o fundo da mesma fundamentação intuitiva, constatando sua eficácia. | ||
| + | * Busca um fundo para desdobrar uma " | ||
| + | * Vê um domínio de doação, mas não se coloca diante da estrutura doadora como tal. A doação é constatada, não pensada. | ||
| + | * O mérito e a limitação de Husserl segundo Heidegger. | ||
| + | * Husserl tem o grande mérito de ter mostrado a necessidade do dado categorial. | ||
| + | * Mas não entrou na necessidade assim mostrada; não fez entrar o si sob o que lhe é dado. | ||
| + | * Não entrou no lugar do vínculo entre o si e o puro dom do ser, o que lhe teria permitido estabelecer em que termos a doação impregna a consciência. | ||
| + | * O gesto da tradição: servir-se da doação para pensar outra coisa. | ||
| + | * Husserl, como toda a tradição, serviu-se da doação para pensar outra coisa que a doação, mas não se submeteu a ela. | ||
| + | * Reconhecer seu caráter originário implicaria para o pensamento uma atitude de " | ||
| + | * Husserl vê o domínio de doação, mas não entra nele; recondu-lo a um conceito conhecido, o ego. | ||
| + | * O contato permanente do eu com a obscuridade e sua consciência de mistério são afastados para que o eu continue sendo fundamento. | ||
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