estudos:caron:capacidade-manifestacao-peos-1090
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| + | ====== manifestidade como fonte da estrutura predicativa (2005:1090) ====== | ||
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| + | * A questão da possibilidade da adequação entre enunciado e coisa só pode ser retomada de maneira não dogmática quando se adota a atitude fenomenológica, | ||
| + | * A exigência de que o enunciado seja verdadeiro se ele expressa a coisa tal como ela é só adquire sentido se já estiver operante uma estrutura que permita à coisa aparecer como algo visável segundo uma perspectiva diretriz, isto é, segundo uma Hinsicht que não acrescenta nada à coisa, mas a deixa aparecer. | ||
| + | * Essa estrutura da Hinsicht não é um acréscimo subjetivo posterior, mas pertence à própria possibilidade de haver enunciado, pois todo dizer já é sempre um dizer-a-partir-de e um dizer-sobre. | ||
| + | * A concepção corrente da adequação exige dela uma tarefa impossível, | ||
| + | * Quando a adequação ocorre entre duas coisas homogêneas, | ||
| + | * No enunciado predicativo, | ||
| + | * O fato de que enunciados predicativos efetivamente estabelecem uma concordância com a coisa, apesar da heterogeneidade radical entre linguagem e ente, indica que a estrutura fundamental da adequação foi mal compreendida pela tradição. | ||
| + | * Não é possível supor que o enunciado se torne material ou que a coisa se espiritualize, | ||
| + | * A separação entre intelectus e res, longe de ser superada pela teoria da adequação, | ||
| + | * A alternativa tradicional entre diferença irredutível sem relação real e identidade abstrata sem diferença dissolve a possibilidade mesma do enunciado verdadeiro, pois em ambos os casos a adequação perde seu sentido. | ||
| + | * Ou os termos permanecem absolutamente heterogêneos e a adequação é impossível, | ||
| + | * A própria prática efetiva do enunciar exige uma estrutura que permita uma mesmidade na diferença, isto é, uma relação que não suprima nem a alteridade nem a identidade. | ||
| + | * O problema deve ser recolocado a partir da estrutura do enunciado enquanto tal, isto é, a partir do fato de que todo enunciado rende presente a coisa tal como ela é, segundo um so wie constitutivo. | ||
| + | * O enunciado não se refere a representações internas nem a imagens mentais, mas à coisa mesma enquanto apresentada. | ||
| + | * O “tal-como” não diz respeito a uma comparação externa, mas à própria maneira de presentificação da coisa no enunciar. | ||
| + | * A estrutura fundamental do enunciado é apofântica, | ||
| + | * O dizer é um deixar-aparecer que se orienta pelo ente e não por estados psíquicos. | ||
| + | * O enunciado é sempre já um estar-fora, um ser-junto-ao-ente, | ||
| + | * A presença da cópula “é” no enunciado manifesta que todo dizer se posiciona desde o início em uma relação de verdade com a coisa e pretende pronunciar algo válido sobre o ente mesmo. | ||
| + | * Todo enunciado pretende ter razão, isto é, pretende dizer o que é o caso. | ||
| + | * Essa pretensão não se explica a partir de uma subjetividade encapsulada, | ||
| + | * A adequação não pode constituir o termo último de uma regressão transcendental, | ||
| + | * A evidência se impõe precisamente porque não é mais interrogada. | ||
| + | * Pensar a essência da verdade exige, portanto, remontar à estrutura do so wie como condição da predicação. | ||
| + | * A tradição, ao reduzir o //como// [als] ao acesso à essência inteligível da coisa, absolutizou a forma e negligenciou o ato mesmo de mostrar que o //als// implica. | ||
| + | * O sujeito foi assim pensado como fechado em si, possuidor de ideias que lhe seriam internas. | ||
| + | * A estrutura apofântica do enunciado permaneceu na sombra. | ||
| + | * A comunicação entre sujeito e objeto foi pensada como comunicação onticamente mediada pela essência, concebida como algo comum a ambos. | ||
| + | * Essa comunicação do mesmo com o mesmo ignora o fato essencial do poder de se relacionar. | ||
| + | * A essência, enquanto onticidade fixa, não pode conter em si a estrutura de relação. | ||
| + | * Somente ao reconhecer a função apofântica do so wie é possível compreender como sujeito e objeto podem comunicar-se sem serem reduzidos um ao outro. | ||
| + | * Essa comunicação não ocorre no plano do ente, mas no plano da abertura ao ser. | ||
| + | * O ser constitui o elemento comum no qual algo como relação e conhecimento se tornam possíveis. | ||
| + | * A subjetividade representativa pensa o sujeito como coisa que recebe impressões e as transforma segundo sua própria estrutura, introduzindo a ideia de refração. | ||
| + | * O sujeito é comparado a um meio material que deforma o dado recebido. | ||
| + | * A relação sujeito/ | ||
| + | * Essa concepção conduz à metáfora digestiva da consciência, | ||
| + | * A consciência é pensada como órgão. | ||
| + | * A verdade torna-se produção energética e não manifestação do ente. | ||
| + | * A representação não é pensada enquanto ato de apresentar, mas apenas enquanto produto apresentado. | ||
| + | * O //als// permanece reduzido ao visível. | ||
| + | * A abertura na qual o sujeito está lançado permanece impensada. | ||
| + | * A rígida oposição entre dentro e fora governa toda a teoria da representação e obscurece o fato de que a distinção sujeito/ | ||
| + | * O sujeito é pensado como interioridade inviolável. | ||
| + | * O mundo é pensado como exterioridade absoluta. | ||
| + | * O Dasein, ao contrário, é ser-no-mundo, | ||
| + | * Entre Dasein e mundo não há relação, mas mesmidade. | ||
| + | * O so wie manifesta o si como inseparável de sua abertura. | ||
| + | * O enunciado é estruturalmente dirigido para fora e não pode ser compreendido como expressão de um interior psíquico. | ||
| + | * Dizer algo é sempre visar o ente mesmo. | ||
| + | * A possibilidade de pronunciar “é” já rompe toda clausura subjetiva. | ||
| + | * A pretensão à objetividade é constitutiva de todo enunciado, inclusive daqueles que se declaram subjetivos. | ||
| + | * Falar é sempre expor-se ao outro. | ||
| + | * O silêncio mesmo pode tornar-se modo de pronunciar-se. | ||
| + | * O si humano distingue-se do animal não pela comunicação, | ||
| + | * O animal transmite informações. | ||
| + | * O homem emite juízos e constrói visões de conjunto. | ||
| + | * O ser do si consiste em não estar jamais fechado em si, mas em existir ekstaticamente fora de si. | ||
| + | * O si só é relação a si retornando de um fora sempre prévio. | ||
| + | * Ele não sai de si, pois jamais esteve encerrado. | ||
| + | * O enunciado é ser-para-a-coisa mesma e só é verdadeiro se o ente se mostra nele tal como é em si. | ||
| + | * A verdade do enunciado funda-se na verdade do ente. | ||
| + | * A verdade não está originariamente alojada na proposição. | ||
| + | * Para que a predicação seja possível, o ente deve já estar manifesto antes de toda determinação predicativa. | ||
| + | * A predicação pressupõe um tornar-manifesto não predicativo. | ||
| + | * Intencionalidade do enunciado e surgimento do ente são co-originários. | ||
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