estudos:carneiro-leao:saber
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| + | ====== saber ====== | ||
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| + | //Excertos do livro " | ||
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| + | Devido ao modo estranho de seu vigor a filosofia se vê relegada, na idade da ciência mais do que em qualquer outra idade, a uma posição marginal. Por isso se torna imperiosa a necessidade de se discutirem as relações entre filosofia e ciência. Pois só discussões dessa natureza poderão preparar o espírito do homem moderno para a grande decisão. A decisão sobre o sentido de sua existência, | ||
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| + | É sempre um esforço penoso e muito difícil o acesso à ciência, apesar de toda a ajuda dos professores. O processo de aquisição da ciência descreve uma trajetória de crescentes graus de dificuldades: | ||
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| + | Animal racional, o homem arde por necessidade de sua natureza, no desejo de **saber **. Numa sede insaciável de sempre mais conhecimentos. Para o homem finito não há **saber ** que seja completo, definitivo, satisfatório. Que lhe apague a atração do desconhecido, | ||
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| + | Nesse sentido o desejo de **saber ** é um fenômeno central da existência, | ||
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| + | Toda trama de relações nunca se compõe apenas de dois termos. Pressupõe antes um terceiro fator, que serve de espaço comum à articulação das divergências e convergências entre os termos relacionados. No caso de ciência e filosofia é a existência humana, que, em seu desejo originário de **saber **, serve de ponto comum de referência. A identidade e diferença, a convergência e divergência entre ambas, se articulam em função da atitude do homem frente a elas. Na terra dos homens a ciência, não constituindo uma exteriorização essencial da existência, | ||
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| + | Essa luz estranha, que a filosofia irradia de si, não resulta, porém, de uma deficiência de conhecimentos. Não é, por **saber **mos pouca coisa, mas por **saber **mos muita coisa demasiado externa da filosofia, que encontramos dificuldade em pensar filosoficamente. Hoje conhecemos toda uma galeria historiográfica de grandes filósofos, um museu doutrinário, | ||
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| + | No primeiro livro da Metafísica Aristóteles esboça uma graduação das dimensões em que se articulam as possibilidades da sabedoria. Num primeiro grau a percepção sensível, " | ||
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| + | O que Aristóteles pretende nesse esquema não é um sistema estático de graduação, | ||
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| + | Sensibilidade e memória, experiência e perícia, reflexão e filosofia formam a perspectiva em cujo horizonte se articulam previamente as dimensões significativas das palavras " | ||
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| + | Nessas questões milenárias a filosofia se essencializa como ontologia, articulando a pré-compreensão do Ser no sistema dos conceitos transcendentais, | ||
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| + | Geralmente se opõe pressentimento a **saber **, ora colocando-o abaixo ora acima, em todo caso fora do **saber **. No vigor de sua essencialização, | ||
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| + | Todavia por ser a chave de um **saber ** seguro e universal, a consciência histórica não pode ser construída mas apenas encontrada pelo filósofo. O fracasso da metafísica está em não haver visto que toda concepção abstrata e uma construção que passa por cima da dualidade fundamental de coisa e vida e se descuida por isso de distinguir rigorosamente as ciências da natureza das ciências do espírito. A vida, como o dado originário, | ||
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| + | O mundo humano descansa na coesão de indivíduo e espírito objetivo" | ||
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| + | Estabelecido o significado radical na estrutura vivência-compreensão para a consciência histórica, levanta-se o problema das condições de possibilidade de sua articulação nas ciências do espírito. É aqui que sente Dilthey a tarefa mais importante de seus esforços de filósofo. Na Crítica da Razão Pura, Kant apresentou a articulação das condições de possibilidades das ciências da natureza. Ora, em razão da diferença fundamental entre espírito e natureza a Crítica de Kant não serve para uma fundamentação das ciências do espírito. Para estas oferece Dilthey sua Crítica da Razão Histórica: " | ||
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| + | Dilthey não pode construir sua Crítica da Razão Histórica com os recursos do método transcendental. Tem que partir da própria vida em seu curso. Tem que tentar justificar a história historicamente por si mesma. A sua Crítica não poderá ser senão a investigação da crítica que a vida faz de si mesma em seu curso histórico. Para isso dispõe apenas das ciências do espírito que são as objetivações da vida no tempo. A missão da Crítica da Razão Histórica consiste em ressaltar e distinguir a estrutura das ciências do espírito, a fim de acompanhar o "fio condutor" | ||
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| + | 2) Nossa época vive a avalanche de um sistema de controle, montado na equação: **saber ** = controlar = poder. Uma voracidade insaciável submete ao serviço do sistema as possibilidades humanas. Todas as dimensões do homem, materiais, naturais, culturais, espirituais, | ||
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| + | Em qualquer caso, quer seja questionada com a questão de fundo ou passe imperceptível pelas questões, quer nos mobilize mais intensamente ou nos deixe indiferentes, | ||
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| + | A pergunta decisiva agora é **saber ** o que é ensinar e aprender. Ao ouvir a pergunta e sentir-lhe a necessidade, | ||
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| + | Na escola de motorista treinamos e nos exercitamos no uso até nos apossarmos dos meios e modos de lidar com o carro. Só então lhe dominamos o uso. Dominar o uso significa sintonizar nosso modo de proceder e agir com o que exige e requer o funcionamento do veiculo. Mas no treino não aprendemos apenas a debrear, frear, acelerar, guiar os movimentos do carro. Não aprendemos apenas a manejar e coordenar os reflexos mas, em tudo isso e por tudo isso, aprendemos sobretudo a conhecer o veículo. Aprender inclui sempre um conhecer. Nos treinos aprendemos a conhecer o carro. É que na aprendizagem há dimensões de aprender, tais como aprender a usar, aprender a conhecer. E este aprender a conhecer possui vários níveis e graus. Assim, aprendemos a conhecer um determinado carro, aprendemos a conhecer um carro de passeio, um carro de carga; aprendemos a conhecer um carro mecânico ou um carro automático, | ||
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| + | A respeito da realidade de qualquer coisa há também um aprender a conhecer mais originário ainda. Algo que deve ter sido aprendido previamente, | ||
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| + | É por este aprender que responde o ensinar. Ensinar é um dar e prestar. Mas o que no ensino se dá e se presta, não são conteúdos, doutrinas, técnicas, em uma palavra, informações apenas. São condições e indicações para se tomar e aprender por si mesmo o que já se tem. Por isso se alguém aprende e toma apenas conteúdos e doutrinas, técnicas e know how, se armazena apenas informações, | ||
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| + | Aprender-e-ensinar é pois a identidade e diferenciação de nossas diferenças com a realidade, tanto com a realidade que nós mesmos somos, como com a realidade que nós mesmos não somos. Para aprender, não podemos receber tudo mas devemos, de certo modo, trazer alguma coisa conosco para o encontro. Os gregos chamavam esta dinâmica, do que pode ser aprendido e do que pode ser ensinado, de máthema, donde provém os termos ocidentais de matemático e matemática. Quando os ouvimos, associamos logo números, funções e conjuntos. E realmente o matemático e os números se acham numa relação íntima. A questão é apenas **saber ** se tal relação existe porque o matemático é algo numérico ou porque o número é algo matemático. Neste último caso, por que então é sobretudo o número que vale e se considera como o matemático por excelência? | ||
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| + | A falta de pensamento vive numa fuga. Na fuga da angústia de pensar. É tão angustiante pensar que não queremos nem ver nem reconhecer a indigência de pensamento. Chegamos até a negar-lhe a possibilidade de presença. Como é possível fugir de pensar numa época como a nossa, na era da ciência e da técnica? Como se pode falar hoje em indigência de pensamento, quando por toda parte se multiplicam os sucessos do **saber ** e cresce o interesse pelo conhecimento? | ||
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| + | Não é de hoje, desde sempre o pensamento do sentido é um empenho de pensar com que não podemos fazer nada e do qual todos nós, na medida em que somos escravos, sempre rimos. Na tempestade de nossas escravidões exerce a serenidade de um vigor intempestivo. Pois, se com o pensamento do sentido não podemos fazer nada, resta ainda **saber ** se o pensamento do sentido não faz alguma coisa conosco, levando-nos a sentir a fossa da angústia, até mesmo no terreno baldio da falta de pensamento em que se debate hoje nossa fuga de pensar. Mas a intempestividade não é a única restrição que sempre se faz ao pensamento do sentido. Também se alude à ascese de seu esforço. Para todas as ciências, artes ou ofícios se exige muita paciência e um longo aprendizado. Não basta ter olhos, dedos, material e instrumentos para fazer um sapato. É preciso aprender com a experiência. E ninguém chia. Somente para pensar o sentido é que não se toleram exigências. Todo mundo se julga com todo o direito de chutar. Pois todos não trazem na razão a medida da verdade, como se não trouxessem nos pés a medida do sapato. Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | O que se retira neste aqui e agora? — Não sabemos. Nós não sabemos o sentido de nosso encontro. E trata-se de uma experiência radical de não **saber **. Pois com ela aprendemos o Nada de todas as nossas pretensões. Tanto da pretensão de **saber ** como da pretensão de não **saber **. O sentido de nosso encontro se retira. E é justamente ao retirar-se que nos avia à viagem da filosofia e psicanálise. — Filosofia e psicanálise. Na retirada, somos enviados à viagem de um " | ||
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| + | Para a medicina, um sintoma é um fato. Ora, sendo sempre feito, todo fato resulta de causas. É um efeito. Por isso, para o novo universo, a neurose não é um sintoma mas um sentido. Todo sintoma pertence ao universo de discurso dos fatos e é como tal que se torna objeto de pesquisa e tratamento de ciências fatuais. A medicina é uma ciência de fatos. Quando um médico diz que a medicina só conhece o homem da sola dos pés até aos cabelos da cabeça, está dizendo, sem dúvida, uma verdade. A questão é apenas **saber ** sobre que está dizendo uma verdade. Decerto, não está falando sobre a verdade do homem, mas a partir dela sobre a verdade da medicina. Pois a verdade sobre que se fala nunca é a verdade a partir da qual se fala. Do contrário já não haveria nem homem nem medicina para falar. Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | Com simplesmente ser, a psicanálise está sempre em crise. A crise é crítica por ser clínica. Em crise, a psicanálise nos fala de outro Freud. De um Freud, que não conhecemos mas somos em tudo que de Freud temos consciência de **saber **. É que, na própria consciência de nossos conhecimentos, | ||
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| + | Entre intuição e pensamento subsiste, portanto, uma relação recíproca mas assimétrica, | ||
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| + | Kant usa o termo fenômeno num sentido mais amplo e num sentido mais restrito. Em sentido mais amplo, fenômeno é um modo de ser do real, a **saber **, o real assim como se dá e revela à intuição receptiva e pensante de uma experiência humana. Num sentido mais restrito, fenômeno indica um aspecto do objeto, o correlato da sensibilidade, | ||
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| + | A linha é a linha zero. Em contraste com os dados e fatos, os feitos e fados, com o cheio da ciência, o zero indica o vazio da nesciência. Pois é justamente lá, onde tudo se -esvazia de ciência e escorre para a nesciência, | ||
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| + | 2. Num painel fronteiriço, | ||
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| + | 4. As definições são corretas, enquanto todas elas se regem por fatos, que se fazem no mundo da Psiquiatria. Não se pode negar que a Psiquiatria é uma busca metódica tanto de **saber ** como de poder, tanto de saúde como de doença, tanto de vida como de morte. E não só isso. A Psiquiatria é tanto uma maneira de se interpretar o mundo em sua totalidade, como uma instituição com institutos especializados e grupos de pressão, com sociedades de pesquisa e preconceitos de classe, com departamentos e honrarias, com ideologias, clínicas e sanatórios. A Psiquiatria é ofício e profissão, esforço de libertação e poder de repressão, é clínica, tratamento, cuidado, experimento, | ||
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| + | A hermenêutica originária exige despojarmo-nos de tudo quanto julgamos já **saber ** sobre o pensamento dos primeiros pensadores gregos. O que geralmente julgamos **saber **, advém-nos da tradição platônico-aristotélica: | ||
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| + | Em seu panorama da história da Física, Teofrasto se ateve, em larga escala, ao panorama dos princípios filosóficos, | ||
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| + | 10. O confronto, portanto, entre os fragmentos das Physikon dóxai e os textos de Aristóteles autoriza uma parte e desautoriza a outra parte da conclusão de E. Zeller. Teofrasto de fato "se ateve, em larga escala, ao panorama dos princípios filosóficos traçado por Aristóteles no primeiro livro da Metafísica" | ||
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| + | A índole específica desse modo humano de ser reside na iluminação da imanência ao mundo pela luz do Ser, na qual os entes aparecem em seu ser: os animais em sua animalidade, | ||
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| + | O comércio com os entes, de que necessita o homem para existir, se sustenta e articula numa pré-compreensão multiforme da Verdade do Ser, vigente na dimensão da linguagem, por cuja força o homem sempre usa a palavra " | ||
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| + | Os escritos do assim chamado Primeiro Heidegger, desde Das Realitaetsproblem in der modernen Philosophie (O Problema da Realidade na Filosofia Moderna) de 1912 até a terceira edição de Was ist Metaphysik? (O que é metafísica? | ||
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| + | A Essência da História é a dinâmica dessa estruturação. Heidegger a pensa como Geschick = destino. O que nos convida a pensar com e nessa palavra, apresenta-se na essencialização de seus significados. Trata-se de uma palavra derivada do verbo schicken, que possui um largo espetro significativo ao longo da evolução semântica do alemão. Seus três significados fundamentais são estruturar, dispor, enviar. (Desses três sentidos a palavra portuguesa, destino, só expressa de per si os dois últimos, dispor e enviar; todavia, se lhe acrescentarmos o primeiro, temos boa tradução para Geschiek.) No substantivo Ge-schick, esses três significados são reunidos num conjunto pelo prefixo Ge- (como em Ge-birge — " | ||
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| + | 3. Esta seria a visão proporcionada por um mapa de filosofia. Outra, bem outra é a fisionomia que Heidegger e Wittgenstein assumem no vigor de um Pensamento Radical. É que nos vórtices do Pensamento Radical tanto o que é pensado como o próprio pensar remontam numa referência estranha, porque original, às raízes de sua proveniência. No jogo da radicalidade o pensar e o pensado chegam a si mesmos, ao se abrirem na direção da identidade de suas respectivas diferenças. O Pensamento Radical se faz então incomparável com qualquer coisa. Não é, como a queda das folhas no outono, um fato entre fatos. Enfrentando o pensado, o pensamento se enfrenta a si mesmo. Para pensar, vive o paradoxo de uma retirada. Procura, de alguma maneira, retirar-se de si mesmo e do pensado sem nunca conseguir fazê-lo de todo. E é justamente neste paradoxo que alcança a sua originalidade. Pois, não podendo retirar-se totalmente, repercute no próprio pensamento o que ele pensa do pensado. Assim, quando se pensa radicalmente por que o amor?, o porquê repercute no próprio pensamento: por que se pensa por que o amor? Em que se funda o pensar do pensamento que pretende pensar o amor? Este porquê ainda será um pensamento, de sorte que sempre se tem de encontrar o pensamento como fundamento do pensamento? Nesta virada, a repercussão, | ||
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| + | Os viajantes não sabem das possibilidades que seu Destino Histórico reserva à viagem. Este não **saber ** é fundamental. Provém da nesciência. É que não se trata de mera negatividade e ausência impotente mas da própria condição de encontro com a poesia. O pensamento precursor do poeta vive na nesciência tanto da pretensão de **saber ** como da pretensão de não- **saber **. Pois todo **saber ** como todo não- **saber **, nascendo do esquivar-se do mistério, tem na Linguagem não as fronteiras de suas limitações mas o vigor de sua força. É a nesciência da poesia. Só aceitando, os viajantes aprendem da viagem a ser o aprofundamento da paisagem na poesia. Só aprendendo, ensinam a identidade da Linguagem, destinando-se, | ||
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| + | Feito todo poderoso por sua descoberta, logo o grilo se lança à pesquisa para conquistar a Floresta. Dentro dos parâmetros da mecânica, a Floresta só pode ser maior, menor ou igual à clareira. Mas, ao constatar objetivamente que a Floresta é maior do que a clareira, o grilo sente o Silêncio da Floresta. O Silêncio é o abrir-se da Floresta como Floresta. É no Silêncio que a Floresta re-colhe a ressonância e a concentração de todas as suas diferenças de lugar, solo, árvores, clareiras, de tudo que a povoa. O Silêncio é a identidade de si mesma das Florestas gerando diferenças. Sentindo o Silêncio, o grilo se apercebe de que maior, menor, tão grande como, são termos comparativos, | ||
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| + | A grilagem, não permitindo o questionamento da separação e oposição de objetivo-subjetivo, | ||
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| + | Heráclito: Não é edipiano, portanto, o olho que per-cebe os limites da visão em tudo que se vê. Um limite, que se per-cebe, já não prende, liberta. Não é só clausura. É também uma abertura. Numa estória antiga sem tempo, o Não-Saber visitou o Saber com a pergunta: "O que é Nada?" — O Saber respondeu de pronto: "Nada é não ser!" Mas o Não-Saber não se satisfez e insistiu: "Neste caso, se Nada for mesmo Nada, não é Nada, é ser. Para ser não ser, tem que ser e, sendo, já não é não ser!" Ao Saber ocorreu logo o paradoxo do mentiroso e quis sair-se com a doutrina das suposições, | ||
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| + | 3(1): E a serpente era mais astuta do que todos os animais do campo que o Senhor tinha feito. Ela falou para a mulher: Será que Deus disse que não devíeis comer de todas as árvores no jardim? (2) E disse a mulher para a serpente: nós comemos dos frutos das árvores no jardim; (3) mas dos frutos da árvore no meio do jardim disse Deus: não comais deles nem mesmo os toqueis para não morrerdes. (4) Então disse a serpente para a mulher: de forma alguma morrereis de morte, (5) é que Deus sabe que, no dia em que comerdes, abrir-se-vos-ão os olhos e haveis de ser como Deus e **saber ** o que é bom e mau. (6) E a mulher olhou e viu que seria bom comer da árvore, e agradável experimentar que era uma árvore gratificante, | ||
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| + | É esse o teor do Mito da Árvore do Conhecimento de acordo como o texto massorético. Deixando de lado algumas questões de crítica textual, referentes aos versículos 9 e 17 do segundo capítulo, tentaremos aqui uma interpretação hermenêutica. Semelhante tentativa exige despoj armo-nos de tudo quanto julgarmos já **saber ** sobre o mito. O que mais comumente julgamos **saber ** advém-nos da interpretação teológico-cristã. Para ela o mito é a história da queda do homem. Por essa queda entrou no mundo o pecado e, com o pecado, a morte, de cujo império o sacrifício de Cristo resgatou todos os que crêem. Uma interpretação, | ||
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| + | Com isso, no entanto, não se completou ainda a paisagem do país do homem. Depois de localizar o jardim, o mito passa a ressaltar a importância humanamente criadora das duas árvores. E o faz pondo em evidência o modo em que o homem pode vir a ser homem; em que o jardim de país pode transformar-se em paisagem. Deus proíbe, sob pena de morte imediata, tomar dos frutos da árvore no meio do jardim. Deus não revela que árvore é essa, quais os efeitos de seus frutos e por que o homem não pode servir-se deles. Nem o homem, apenas ser vivo, se interessa por **saber **. E Deus só proíbe comer da árvore do meio do jardim. Da árvore da vida não fala, embora também seus frutos não se destinem para o homem. É que não há necessidade de proibição. O perigo de dela comer só se apresentará ao homem quando ele se tiver servido da Árvore do Conhecimento. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Nos 24 versículos do terceiro capítulo o mito expõe a hominização do homem, articulando o país e a paisagem de sua imanência com a transcendência, | ||
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| + | A serpente não mentiu. Verificou-se o que ela predissera. Será então que Deus não disse a verdade? A interpretação cristã procura sair da aporia, recorrendo à imortalidade. O homem fora criado imortal. O que Deus predissera com a cominação imediata da morte foi a perda da imortalidade. Mas o mito desconhece totalmente uma imortalidade do homem tanto depois como antes da transgressão. Por outro lado, o mito também afirma que a serpente enganou o homem. Interrogada por Deus, diz a mulher no versículo 13: "a serpente me enganou para que eu comesse" | ||
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| + | Segundo o texto, três foram os efeitos: a abertura dos olhos, o **saber ** do bem e do mal, a consciência da nudez. Curioso é ser o primeiro efeito o reconhecimento da nudez. E mais curioso ainda, que, de acordo com o juízo do próprio Deus, pela consciência da nudez o homem se tenha feito como Deus. Ao tomar consciência de sua nudez, os homens não apenas constatam um fato. Eles a escondem com folhas de figueira. O homem se envergonha de sua nudez. E não se trata de uma falsa vergonha, pois Deus a ratifica, vestindo-o com roupas de pele. Segundo o juízo de Deus, o homem que reconhece a sua nudez necessita cobri-la. É, ainda, a vergonha da nudez, e não o medo do castigo, que leva o homem a esconder-se da presença de Deus. A vergonha é assim a chave para a compreensão da hominização do homem pela transcendência do espírito. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Mais clara ainda aparece a decadência na punição do homem. É que o castigo da mulher tem uma importância subordinada. O principal é a punição do homem, que para o mito é o homem propriamente dito. O primeiro castigo é o trabalho. Novamente uma expressão de humanidade. Os animais não trabalham. Trabalhar é cuidar de si pela integração no presente de futuro e passado. Somente dentro do projeto de bem e mal é possível o trabalho. No paraíso o homem não vivia ocioso. Mas sua atividade não era trabalho, isto é, cuidado por seu porvir no presente. O homem existe, isto é, o homem é homem por se lhe descortinar o porvir como limite e doação de possibilidades. A estruturação da existência pela temporalização do tempo nos permite compreender tanto a correlação entre o conhecimento do bem e do mal e a necessidade do trabalho como o sentido do último castigo imposto, a morte. A morte humana, estrutura do homem como homem, não é a morte biológica, o simples deixar de viver. A morte humana é **saber ** aceitar a morte. O homem é o único ser vivo que sente a sua morte. Esse sentir a morte como a impossibilidade de suas possibilidades e ao mesmo tempo como a extrema possibilidade de suas possibilidades transforma-lhe a vida. Desde que se tornou homem, o homem morre a cada instante de sua vida. Desde então a morte do homem é viver a morte. Nesse sentido a morte se instaurou na vida do homem a partir do dia em que comeu do fruto proibido. Foi o que não disse a serpente e, por não ter dito, enganou a mulher, embora o que disse não tenha sido falso. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Depois de anunciar a punição, Deus fala para si mesmo: "Eis que o homem se fez como um de nós e conhece o bem e o mal. Que também não estenda sua mão e tome da Árvore da Vida, coma e viva eternamente" | ||
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| + | Porque o homem é sempre a ponte de passagem para o mistério, seu conhecimento nunca é apenas o poder da discursividade. É sobretudo e em tudo o vigor de deixar ser o mistério. Destarte, o mistério não é o provisório e passageiro mas o originário e permanente. A tal ponto que é o não-mistério, | ||
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| + | 10. No tocante à diferença entre autoridade e poder, esta provocação nos chega hoje na virulência da funcionalidade de tudo e de todos. Em seu processo de elaboração, | ||
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| + | A perspectiva de diferença do presente diálogo é constituída pelo Pensamento Essencial (das wesentliche Denken) de Martin Heidegger. Em seu processo de elaboração, | ||
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