estudos:carneiro-leao:poesia
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| + | ====== poesia ====== | ||
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| + | //Excertos do livro " | ||
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| + | Talvez nos acenem as palavras da **poesia **: sentados nos ouvidos, escutamos um verdadeiro vazio — a estranheza do poder. O mar ecoa no ondear das ondas. O som ressoa no coro das águas. Aqui e agora, nada sobre nada. Nem mesmo um buraco. Somente a fossa da angústia. Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | 2. Num painel fronteiriço, | ||
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| + | 3. No século VI a religião, a política, a educação gregas exercem determinada consciência da **poesia ** e mitologia. Houmeros tem Hellada pepaideuke. Prisma e espelho, nesta consciência se refletem e analisam as peripécias de verdade e não verdade da existência grega. Denunciando a miopia da consciência vigente, os primeiros pensadores se lançam a pensar reciprocamente as diferenças de religião e política, de educação e habilidade, de **poesia ** e mito pela identidade do pensamento, pensando a com-pertinência de ser e pensar. Para nós, filhos do petróleo e da técnica, tardos em pensar, se tornou ainda mais difícil este mistério da identidade numa época de poluição e consumo. E por que? - Porque temos os ouvidos tão poluídos de ciência e filosofia, temos os olhos tão consumidos pelas utilidades que já não podemos ver o mistério da pobreza nem ouvir a voz do silêncio no alarido do desenvolvimento. Desconhecemos o paradoxo da revolução do pensamento. Já quase não temos sensibilidade para as vibrações de nosso destino. E isso, não tanto porque, absorvidos pelas solicitações do consumo, quase não pensamos, mas sobretudo porque, quando pensamos, quase inevitavelmente o fazemos nos moldes da filosofia e da ciência. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário | ||
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| + | Não apenas os beócios é que não pensam. Os próprios atenienses renunciaram ao pensamento quando em Sócrates, Platão e Aristóteles a filosofia inaugurou sua avalanche histórica. Para Hegel, a filosofia é uma época concentrada em pensamentos. Para os primeiros pensadores, pensar é acordar o não pensado, acionar a inércia de pensamento de uma tradição histórica. É o que. fizeram recuperando a tragédia da **poesia ** e mitologia vigente na consciência de sua época, da religião, da política, da educação. Na crítica aos poetas, aos mitos e cultos buscavam desinstalar a consciência de uma luz sem sombras, de uma verdade sem mistério, de um dia sem noite, de uma vida sem morte. O pensamento surgiu, quando o trágico obscureceu a claridade do racional e do irracional, do físico e do político, do mito e do culto, do desespero e da salvação. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário | ||
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| + | A consciência de **poesia **, de mito, de política, de educação e culto que reinava no século VI AC, prende-se a este sentido humano da tragédia. O pensamento dos primeiros pensadores gregos questiona-lhe o humanismo, buscando restituir o mistério da tragédia originária. Trágico é o jogo de Dionísio na identidade universal das diferenças. A tragédia não é uma condição simplesmente humana. É o ser da própria realidade. A totalidade do real, o espaço-tempo de todas as coisas, não é apenas o reino aberto das diferenças, | ||
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| + | E não obstante, a pretensão de uma vitória definitiva do princípio racional da luz, de um império eterno do Olimpo de Zeus, que alimenta a religião e a mitologia dos primeiros tempos, vai servir de base para a fundação da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles, | ||
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| + | Desse modo surgiu Heidegger no mundo filosófico como o pensador, que pretende repetir desde seus fundamentos toda a tradição ocidental segundo a questão prévia (die Vor-frage) sobre o Sentido e a Verdade do Ser. Quer ele trate da Sentença de Anaximandro, | ||
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| + | A época da técnica e da ciência se essencializa numa " | ||
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| + | Nas estações do caminho de seu pensamento Heidegger vai descobrindo em níveis diversos de diferenciação a presença integradora desta identidade. As figuras de suas meditações são lenhadores, camponeses e artesãos. É famoso o comentário da tela de van Gogh, Os Sapatos da Camponesa. O Curso, Was heisst denken? — O que provoca pensar? — compara o trabalho do pensador ao trabalho do carpinteiro atento às formas adormecidas no tecido da madeira. Os Vortraege und Aufsaetze — Ensaios e Conferências — aproximam e equiparam a meditação solitária do pensador ao andar pesado do camponês que, no crepúsculo, | ||
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| + | A Crítica é literária, sendo Literatura, isto é, sendo arte. Para ser literária, tem necessidade de assumir o modo da arte. Ora, a arte chega a seu modo de ser na obra. A obra de arte é passagem obrigatória de todos os caminhos para a arte. Por isso o caminho que nos levará à arte da Crítica será também aqui a obra literária: uma **poesia **! Por exemplo, a **poesia ** de Mörike, intitulada: Auf eine Lampe! "Para um candelabro" | ||
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| + | O modo de ser do instrumento manifesta uma dupla referência: | ||
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| + | Toda a **poesia ** se recolhe em dez versos. Os três primeiros falam da presença e do modo de estar presente do candelabro. A presença do candelabro se dá, " | ||
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| + | Os três penúltimos reúnem os anteriores, isto é, o candelabro, na unidade de sua presença de sedução e gravidade, de alegria e seriedade. Ambas impregnam toda a forma. Forma aqui não se opõe nem exclui mas se compõe e inclui o conteúdo. A forma é o vigor da unidade do candelabro articulada nos primeiros versos. Neste vigor a **poesia ** faz brilhar a beleza do candelabro. Embora não acenda o candelabro, ela permite que apareça a luz de sua beleza. E a beleza aparece numa oposição e diferença, que os versos 7-9 procuram evidenciar. O nono resume toda a **poesia ** até agora, ao dizer que se trata de uma obra de arte verdadeira. Resumir o candelabro é tomá-lo no vigor de sua unidade. É tomá-lo em sua beleza de obra de arte que sempre se opera numa distinção. Por isso Mörike, resumindo o candelabro, refere-se à falta de olhos para a beleza: quem ainda tem olhos para ver? É uma pergunta retórica. O que o poeta pretende é afirmar que já ninguém ou somente poucos os possuem. A pergunta é uma afirmação de pesar. Com o pesar, a pergunta afirma não só que a obra de arte escapa em seu modo de ser à consideração do homem mas também que ela pertence ao homem. Por isso há **poesia ** e o poeta suporta o pesar. O último Verso nos diz desse modo antitético de a arte — o que é belo — morar no país dos homens. Todavia o que é belo apresenta em si mesmo um brilho feliz. O modo de ser da arte é fazer brilhar em si mesmo o mundo dos homens. Na **poesia ** de Mörike isso ocorreu na iluminação do mundo por um instrumento, | ||
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| + | Essa análise nos sugere à reflexão toda uma série de questões. O que a **poesia ** faz aparecer são as mesmas referências e as mesmas revelações do mundo que constituem o modo de ser do candelabro, como meio de iluminação. Para que, então, necessitamos da **poesia **? Por que essa verdade do candelabro não se manifesta plenamente em seu emprego? Por que é preciso para isso de uma obra literária que ninguém pode usar para acender um quarto? E por que essa relação toda é privilégio de uma obra de arte enquanto a presença objetiva de um candelabro não no-la pode transmitir? Aprendendo a pensar I: Existencialismo e Literatura | ||
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| + | Somos viajantes por sempre estarmos enviados à viagem das vias de uma paisagem. O envio é o avio da Linguagem. Deixar a viagem ser este envio por todas as vias da paisagem é a **poesia ** dos viajantes. Poesia não é um fazer. Nem o fazer do discurso nem o fazer da língua nem o fazer da gramática e suas transformações. É um deixar-se enviar pela Linguagem na viagem das vias de uma paisagem. Aprendendo a pensar I: O Poeta na Terra Lingüística | ||
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| + | Teoria e técnica são como as escadas. Só se consegue subir à **poesia ** pela escada da língua e do discurso. Mas nunca se chegará à **poesia ** se desde o primeiro degrau de competência e desempenho não se for jogando fora a escada. É que uma escada só é escada se não for somente escada e por isso deixar de ser escada depois de se ter sido colhido pela **poesia **. A língua e o discurso se tornam veículos da viagem poética quando a viagem libertar os viajantes dos veículos. A **poesia ** é então a Linguagem da paisagem. Aprendendo a pensar I: O Poeta na Terra Lingüística | ||
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| + | A paisagem não se reduz apenas à gramática dos discursos e suas transformações. É também a Sua do viajante, de viagem na paisagem. O viajante dá os nomes da língua à paisagem. O nome encobre a paisagem, descobrindo-lhe as vias no subtrair-se da Linguagem. É uma luz que obscurece quanto mais esclarece. O subtrair-se da Linguagem gera uma força de vácuo que, rasgando as vias da língua, arrasta o viajante à **poesia ** da paisagem. Os discursos não produzem nem dominam a paisagem. São envios da Linguagem. Obviam o viajante com as vias que a Linguagem libera como a verdade da paisagem. Aprendendo a pensar I: O Poeta na Terra Lingüística | ||
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| + | O poeta recolhe o discurso na liberdade da paisagem. Para não encolher-se na prosa de uma narrativa, escolhe a liberdade da **poesia ** em que, recolhendo o discurso, deixa a paisagem vir a si mesma na Linguagem. Escolher não é superar. O poeta não ultrapassa mas se recolhe no que escolhe. Pois só colhido pela Linguagem é que a verdade da paisagem o faz acolher o discurso na **poesia **. Ser poeta não é construir um outro discurso ao lado ou além ou aquém das estruturas narrativas de uma gramática fundamental. É restituir peso ao discurso da língua na gravidade da Linguagem. O poeta é poeta por descobrir-se tão imerso no mistério da Linguagem que toda **poesia **, sendo a impossibilidade de falar sobre a Linguagem, o leva a sentir nesta impossibilidade a Linguagem de toda **poesia **. A Linguagem é ela mesma. Ser ela mesma é recolher sempre o viajante na viagem da impossibilidade de discursar sobre a Linguagem. Deixar-se colher pelo recolher da Linguagem torna o viajante poeta nas vias da paisagem. Aprendendo a pensar I: O Poeta na Terra Lingüística | ||
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| + | Na escolha poética este deixar-se colher percorre todo o diferir de atividade e passividade. Ao longo do percurso se elabora um pensamento que renuncia à onipotência de fazer a **poesia **. É o pensamento precursor do poeta que, com os ouvidos da renúncia, escuta, no próprio deserto de **poesia ** da terra lingüística, | ||
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| + | Na avalancha absorvente desta terra o pensamento essencialmente precursor do poeta viaja imperceptível nas vias da paisagem. Suas viagens são sementes cujos semeadores renunciaram a toda colheita para se dedicarem à preparação da semeadura. À preparação pertence essencialmente um sabor de Linguagem que sabe encontrar, desmoitar e cultivar um campo de semeadura. É este sabor que dirige o viajante para a paisagem da **poesia **. As muitas vias de acesso são sempre desconhecidas. Mas só uma conduz o poeta. É a sua, em cujas peripécias erram em contínuo vaivém seus discursos até assumirem a impossibilidade de falar sobre a Linguagem como a fonte de toda sua riqueza poética. Aprendendo a pensar I: O Poeta na Terra Lingüística | ||
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| + | Um Destino Histórico Essencial implanta a terra lingüística na galáxia da metafísica em cuja órbita gravitam as ciências. O pensamento precursor do poeta erra pelo espaço sem peso das ciências, à procura de gravidade. Por isso a preparação da semeadura exige uma formação do poeta no interior das ciências. Aqui o desafio é educar-se sem confundir **poesia ** nem com erudição nem com ciência. O desafio é o perigo. Um perigo tanto mais salutar quanto mais, na descendência Histórica da metafísica, | ||
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| + | Os viajantes não sabem das possibilidades que seu Destino Histórico reserva à viagem. Este não saber é fundamental. Provém da nesciência. É que não se trata de mera negatividade e ausência impotente mas da própria condição de encontro com a **poesia **. O pensamento precursor do poeta vive na nesciência tanto da pretensão de saber como da pretensão de não-saber. Pois todo saber como todo não-saber, nascendo do esquivar-se do mistério, tem na Linguagem não as fronteiras de suas limitações mas o vigor de sua força. É a nesciência da **poesia **. Só aceitando, os viajantes aprendem da viagem a ser o aprofundamento da paisagem na **poesia **. Só aprendendo, ensinam a identidade da Linguagem, destinando-se, | ||
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| + | Saussure: Se a Linguagem está livre da estrutura de sujeito e objeto, de língua e discurso, de significante e significado, | ||
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| + | Saussure: Quer então dizer que o poeta, para ser poeta, é tocado pelo Nada dele mesmo? / Hölderlin: É o único instante da **poesia **. Rara hora et pauca mora. Mas ser tocado pelo Nada de si mesmo, longe de facilitar, agrava-lhe a **poesia **. Pois faz o poeta experimentar toda a gravidade de seu não ser poeta e sentir este não-ser, como o peso que lhe impede saltar livremente no instante da **poesia **. Aprendendo a pensar I: A Poesia e a Linguagem | ||
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| + | Saussure: Mas uma coisa é inegável. Nenhum poeta é poeta de qualquer maneira. Todo poeta só pode ser poeta dentro de uma comunidade lingüística, | ||
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| + | Saussure: Ninguém poderá representar-se exatamente este horizonte. É tão indeterminado e fluente que está em toda e em nenhuma parte. A estrutura de língua e discurso, ao contrário, é precisamente determinada. De certo, os poetas, para serem poetas, não necessitam conhecê-la tematicamente. A **poesia ** se faz em nível de linguagem e a estrutura se dá em nível de metalinguagem. / Hölderlin: Linguagem e metalinguagem soam como aquela clareira da Floresta, tão grilada de mecânica, que já não podia ouvir o ressoar do Silêncio. Aprendendo a pensar I: A Poesia e a Linguagem | ||
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| + | A linguagem e metalinguagem da lingüística é, como a clareira da Floresta, tão grilada de mecânica que já não ouve o Silêncio da **poesia **. A maior dificuldade do lingüista em sentir a Linguagem do poeta está na mecânica aprisionante de sua clareira: a mecânica da representação e objetividade. Tudo que não se deixar aprisionar por esta mecânica, é logo entregue aos cortes epistemológicos para ser cortado como subjetivo e subjetivismo, | ||
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| + | A grilagem, não permitindo o questionamento da separação e oposição de objetivo-subjetivo, | ||
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| + | Falar a partir da Linguagem da **poesia ** não é indicar uma outra linguagem dentro ou fora da estrutura de língua e discurso. Pois assim operando, já de-finimos a Linguagem como um objeto dentro ou fora de outro objeto, já de-finimos o dentro e o fora juntamente com sua indicação, | ||
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| + | Mas se, por um lado, dessa mecânica não podemos prescindir, por outro lado, também essa mecânica não pode satisfazer a **poesia **. Pois, operando nela, procuramos sujeitar o mistério da Linguagem ao império da representação do objeto e sua objetividade pelo sujeito e sua subjetividade. Nesta sujeição, o mistério seria reduzido a um pro-blema, como se já não fosse sempre o mistério que possibilita toda operação de-finitória da estrutura de língua e discurso. Aprendendo a pensar I: A Poesia e a Linguagem | ||
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| + | Esta impossibilidade da mecânica da representação em satisfazer a Linguagem é a errância. Errância não é erro de um sujeito, comunidade de sujeitos ou projetos de pesquisa. A errância é o destino de planetarização da mecânica. Nos vórtices da planetarização só se admite como realidade o que cabe na perspectiva de objetivação. Tudo que não for objetivável é cortado, como subjetivo, e rotulado pejorativamente como irreal, seja romântico ou místico, seja ideal ou ideológico. Na carga pejorativa do subjetivo se dissimula a impotência do horizonte da representação em objetivar a realidade não objetivável do mistério. Quando de-finimos pois a Linguagem da **poesia ** como subjetiva, escamoteamos-lhe precisamente a impossibilidade de deixar-se objetivar, fazendo com que apareça no horizonte de objetivação, | ||
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| + | Nesta clareira vivemos hoje. É o que na **poesia ** "Pão e Vinho" chamei de "tempo da indigência" | ||
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| + | Saussure: Griteeeeema!... — No meio desta longa exposição adormeci e sonhei que o mundo todo era uma Festa só. A Festa da **poesia **. Fui ao Vietnam e não se ouvia um tiro. Todos dançavam na Festa. Na China, Mao recitava para a alegria de 700 milhões de chineses as **poesia **s de Chuang-Tzu, velhas sem tempo. Nos centros de processamento da IBM, os computadores estavam desligados. Os programadores tinham ido à Festa. Nas rampas de Cabo Kennedy não havia atividade. Técnicos e cientistas estavam de Festa. Na Rússia se dera anistia aos poetas. Nos grandes parques industriais da Europa, tudo parado. Os membros das comunidades lingüísticas, | ||
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| + | Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, | ||
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| + | Heráclito: Para a experiência originariamente grega da alétheia ser e parecer não só não se excluem como se incluem necessariamente. Ao ser pertence sempre apresentar-se e ausentar-se, | ||
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| + | Heráclito: Se esta é a experiência ocidental, outra, bem outra é a experiência grega da autoridade histórica da aparência. Sempre de novo, com a novidade de ser cada vez a primeira vez, os Gregos tiveram de acolher a aparência em todas as suas conquistas: os deuses e a polis, o templo e o trágico, os jogos e as artes, a **poesia ** e o pensamento, tudo isso eles criaram no meio da aparência, dominados pela aparência, levando a sério a aparência, conhecendo-lhe na carne a autoridade. Basta lembrar a estória de Édipo. De início, salvador é senhor de Tebas, no esplendor da fama e na graça da aparência, vai sendo deslocado progressivamente desta aparência, que não constitui uma mera impressão subjetiva de Édipo a seu respeito mas a atmosfera, o luar em que aparece toda a paisagem de sua existência, | ||
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| + | O instrumento e a máquina são determinados pela funcionalidade de uma eficiência. Por isso subordinam a seus serviços o material e os mecanismos de que são feitos. Na produção de um instrumento se usa e abusa do ferro. O ferro se consome para dar lugar à instrumentalidade. O bom sapato é aquele, cujo couro não aperta os pés. O material é tanto melhor quanto mais desaparecer nos serviços da instrumentação. A obra, ao contrário, não faz desaparecer mas eleva o material a si mesmo na tensão de cultura e natureza: assim é na escultura que a lenha vira madeira, é na pintura que a tinta se faz cor, é na sinfonia que o som se torna música, é na **poesia ** que a língua vem a ser linguagem. Tudo se cria na criação da obra. Toda criação é original por ser originária. Nos vórtices desta originariedade os mecanismos são como as escadas. Só se chega à obra pela escada dos mecanismos. Mas nunca se chegará à obra, se desde o primeiro degrau não se for jogando fora a escada. É que uma escada só é escada se não for somente escada e por isso deixar de ser escada desde que se tenha sido colhido pela originariedade da obra. Os mecanismos só se tornam veículos da criação de uma obra quando a criação libertar a obra dos veículos. Pois então a obra será a linguagem da criação. Aprendendo a pensar I: Os Mecanismos da Criação Original | ||
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| + | Essa revisão do mito é no fundo uma revelação da autoconsciência da filosofia. O que o filósofo procura na verdade do mito é a verdade da própria filosofia. Na época de sua errância racional, a filosofia se sentia absolutamente autônoma e independente da não-filosofia. No espaço dessa independência julgava atingir com os recursos da razão uma verdade absoluta, necessária, | ||
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| + | Esta nesciencia nesciente do mistério que se dá enquanto se retrai em nossa época de mistério é o princípio fundamental de toda hermenêutica digna deste nome. O nome, hermenêutica, | ||
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| + | 4. A diferença entre poeta e nazista vive no movimento de diferenciação entre autoridade e poder. Na posse da autoridade o poeta encontra **poesia ** até no nazismo (o vigor poético do Guernica de Picasso). De posse do poder, o nazista iguala **poesia ** a nazismo. É o que foi prevalecen-do na institucionalização do Cristianismo. De posse do poder, Roma impera no triunfalismo planetário de uma igualdade refratária às diferenças: | ||
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| + | O Povo é a **poesia ** do Ser! Aprendendo a pensar I: A Propósito do Cristianismo Popular | ||
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| + | Certa vez, num médico-pensador do século XVII, Angelus Silesius, este amor do povo pelo mistério foi avivado numa **poesia ** de quatro versos com vinte palavras: SEM POR QUÊ! / A Flor é sem por quê, / Floresce por florescer, / Não olha para si mesma, / Nem pergunta se alguém a vê! Aprendendo a pensar I: A Propósito do Cristianismo Popular | ||
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| + | É que a popularidade do povo já é desde sempre abertura para a **poesia ** e o mistério, para o religioso e divino. E quando o espírito está franqueado pela liberdade, não importam grandeza e tamanho, valor ou poder. No talo de capim, na pedra no meio do caminho, na força do furacão, na seca da estiagem, no calor do sol, nas águas da cheia, na violência da exploração, | ||
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