estudos:carneiro-leao:mito
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| + | ====== mito ====== | ||
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| + | //Excertos do livro " | ||
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| + | Estranhamente o **mito ** vem interessando às pesquisas de filólogos e antropólogos, | ||
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| + | Todas essas considerações não atingem o sentido que faz os filósofos existenciais interessarem-se pelo **mito **. Pois partem todas da pressuposição de que a razão e a racionalidade constituem a última instância da verdade da existência. Mas o que é isso, razão e racionalidade? | ||
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| + | Enquanto faltar uma reflexão suficiente sobre o que é razão e racionalidade, | ||
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| + | Ora, na perspectiva de uma análise originária, | ||
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| + | Essa revisão do **mito ** é no fundo uma revelação da autoconsciência da filosofia. O que o filósofo procura na verdade do **mito ** é a verdade da própria filosofia. Na época de sua errância racional, a filosofia se sentia absolutamente autônoma e independente da não-filosofia. No espaço dessa independência julgava atingir com os recursos da razão uma verdade absoluta, necessária, | ||
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| + | Dentro dessa revolução libertadora, | ||
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| + | Ho hermeneus, o mensageiro, pode ser posto em referência com Hermes, o mensageiro dos deuses. Ele traz e transmite a mensagem do destino que trama as vicissitudes da história dos homens. Nem toda interpretação é uma hermenêutica. Somente aquela que descer até à dinâmica do destino que estrutura a história. Nesse contexto o **mito ** assume um outro sentido. Deixa de ser uma lenda — isto é, um relato de estórias sem verdade — para reaver toda a força de sua palavra. Pois ho mythos exprime o destino que se lega historicamente à existência. Por isso, em sua originalidade, | ||
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| + | Muito mais elucidativo do que uma caracterização formal da diferença entre essas três hermenêuticas é o seu exercício. O que segue é uma tentativa de se exercer a hermenêutica existencial no **mito ** da Árvore do Conhecimento. Trata-se de um dos **mito **s mais arcaicos e importantes da história ocidental. Encontra-se entre os versículos quarto do segundo e 24o do terceiro capítulo do livro do Gênese. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Ao contrário dos gregos, cuja existência sentia na tradição um apelo e um desafio de transformação, | ||
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| + | Segundo o texto hebraico é a seguinte a tradução do **mito **: 2(4): "No tempo em que o Senhor Deus fez o céu e a terra, (5) ainda não havia sobre a terra árvore de espécie alguma no campo nem tinham crescido sobre o campo qualquer espécie de erva, pois o Senhor Deus ainda não fizera chover sobre a terra nem havia homem que cultivasse o solo. (6) No entanto, uma névoa subia da terra e umedecia o solo. (7) Então o Senhor Deus fez o homem de um torrão e lhe soprou nas narinas o espírito da vida. E assim se tornou o homem um ser vivo. (8) E o Senhor Deus plantara um jardim no Éden para as bandas do Oriente e nele colocou o homem que fizera. (9) E o Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores, agradáveis à vista e boas para comer, a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim e a árvore da vida. (10) Uma torrente d' | ||
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| + | É esse o teor do Mito da Árvore do Conhecimento de acordo como o texto massorético. Deixando de lado algumas questões de crítica textual, referentes aos versículos 9 e 17 do segundo capítulo, tentaremos aqui uma interpretação hermenêutica. Semelhante tentativa exige despojarmo-nos de tudo quanto julgarmos já saber sobre o **mito **. O que mais comumente julgamos saber advém-nos da interpretação teológico-cristã. Para ela o **mito ** é a história da queda do homem. Por essa queda entrou no mundo o pecado e, com o pecado, a morte, de cujo império o sacrifício de Cristo resgatou todos os que crêem. Uma interpretação, | ||
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| + | Pois é dessa pressuposição que nos afastamos para interpretar o **mito ** exclusivamente a partir de si mesmo. O único indício, que nos servirá de guia, se reduz apenas ao que é e pretende ser um tal **mito **. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Um **mito ** originário é sempre uma etiologia existencial. Procura interpretar o modo de ser do homem, reconduzindo-o às estruturas de sua constituição e de sua origem na existência. Daí, o modo de ser, que nos apresenta como presente, não ser originariamente um determinado presente histórico. É tão antigo como a história. Algo que é e sempre foi como é, por mais que se recue no tempo, é explicado pelo vigor de um destino que estrutura a dimensão vertical da existência e por isso remonta para além de toda memória histórica. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Nesse contexto se articula e nos fala o Mito da Árvore do Conhecimento. O que é e como é o homem no presente modo de ser, é explicado estruturalmente por uma história reveladora de sua origem. E uma vez que esse modo presente de ser pertence ao homem como homem, o **mito ** não trata senão da constituição da humanidade do homem. O que nos apresenta é a história da criação do homem. Ora, o homem só existe e só é homem na dinâmica da estrutura, ser-no-mundo. Por isso à criação do homem pertence essencialmente a criação da terra, do céu, das plantas, dos animais. Por isso a criação do homem não é apenas obra exclusiva dé Deus. É também obra do próprio homem. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | A explicação da criação do homem, como homem, o **mito ** desenvolve articulando três estruturas fundamentais: | ||
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| + | Para existir, o homem tem que emergir num país e instalar-se numa paisagem. Para chegar a ser ele mesmo, o homem necessita encarnar-se no mundo. Por isso o **mito ** principia com a determinação do país e da paisagem da criação do homem. Deus faz o homem na terra e da terra. Ao insuflar-lhe seu próprio hálito, torna-o ser vivo. Ser vivo não diz ser humano. Para chegar a isso, o homem necessita ainda de outras dimensões e, principalmente, | ||
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| + | O **mito ** simboliza a paisagem desse país no jardim de Deus, em que o homem é colocado. Essa paisagem é importante para o homem se tornar homem. É que o homem nunca existe pura e simplesmente num país. Ele só existe quando o país de sua imanência se transforma em paisagem. A criação do homem consiste nessa transformação. A paisagem do **mito ** não são as árvores destinadas à alimentatação do homem. O jardim não é para o homem, apenas ser vivo. É o homem que é para o jardim. Deus lá o colocou, para cultivá-lo e guardá-lo. O paraíso não é o país da indolência e inércia. Nele o homem vive em atividade. Mas não é ativo para si. É ativo para Deus, que lhe prescreve a atividade. Sua atividade não é trabalho, isto é, cuidado de si mesmo, mas serviço prestado a Deus. O jardim é o jardim de Deus que o plantou para si. Além das árvores destinadas à manutenção do homem contém ainda duas outras árvores, que não servem para saciar nem a fome nem a sede. Que não são destinadas ao homem. São as árvores reservadas para Deus: a Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Com isso, no entanto, não se completou ainda a paisagem do país do homem. Depois de localizar o jardim, o **mito ** passa a ressaltar a importância humanamente criadora das duas árvores. E o faz pondo em evidência o modo em que o homem pode vir a ser homem; em que o jardim de país pode transformar-se em paisagem. Deus proíbe, sob pena de morte imediata, tomar dos frutos da árvore no meio do jardim. Deus não revela que árvore é essa, quais os efeitos de seus frutos e por que o homem não pode servir-se deles. Nem o homem, apenas ser vivo, se interessa por saber. E Deus só proíbe comer da árvore do meio do jardim. Da árvore da vida não fala, embora também seus frutos não se destinem para o homem. É que não há necessidade de proibição. O perigo de dela comer só se apresentará ao homem quando ele se tiver servido da Árvore do Conhecimento. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | O terceiro integrante da paisagem da criação humana é a sociedade da mulher. Não se trata de um simples aparecimento e presença. O **mito ** ressalta que a sociedade da mulher é uma necessidade do homem. Por isso não se encontrou entre os animais nenhuma companhia que pudesse corresponder às exigências de sociabilidade do homem. O homem existe numa comunidade de ser com as coisas, as plantas, os animais e os outros homens. Todavia essa comunidade de ser não é unívoca. O modo de ser para os outros homens não tem o mesmo sentido do modo de ser para os animais. O **mito ** se esforça por realçá-lo. Tendo feito os animais, Deus os apresentou ao homem. Mas o homem não se encontrou em nenhum deles. Nomear é instaurar e exprimir possíveis comunidades de ser. O homem nomeou todos os animais com um nome diferente do seu. Deus mudou então de método e fez a mulher diretamente do ser do homem. Retirada de si o homem saúda a mulher com seu próprio nome: "eis enfim osso de meus ossos e carne de minha carne; chamar-se-á varoa (ischá) por ter sido tirada do varão (isch)" | ||
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| + | Nos 24 versículos do terceiro capítulo o **mito ** expõe a hominização do homem, articulando o país e a paisagem de sua imanência com a transcendência, | ||
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| + | A serpente não mentiu. Verificou-se o que ela predissera. Será então que Deus não disse a verdade? A interpretação cristã procura sair da aporia, recorrendo à imortalidade. O homem fora criado imortal. O que Deus predissera com a cominação imediata da morte foi a perda da imortalidade. Mas o **mito ** desconhece totalmente uma imortalidade do homem tanto depois como antes da transgressão. Por outro lado, o **mito ** também afirma que a serpente enganou o homem. Interrogada por Deus, diz a mulher no versículo 13: "a serpente me enganou para que eu comesse" | ||
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| + | Essa criação do homem no **mito ** evidencia-se ainda mais na punição, mostrando-se como a síntese de imanência e transcendência constitutiva da existência. Depois de constatar pela vergonha do homem a transgressão de seu preceito, Deus distribui os castigos da punição. É significativo que os castigos não são outra coisa do que o reconhecimento da própria hominização do homem. Não há nenhuma diferença fundamental entre os efeitos do fruto proibido e os castigos pela transgressão. Ambos exprimem a humanidade do homem. A mulher é castigada com os sofrimentos da gestação e as dores do parto. Uma condição caracteristicamente humana. Os animais não a manifestam. A mulher hominizada, embora preveja essa contingência humana, não a procura evitar. Sua naturalidade animal, os desejos de seus instintos, a impelem à maternidade. É curioso que os desejos da mulher se expliquem no **mito ** como castigo quando os do homem se explicaram pela formação da mulher de seu corpo. É importante compreender a razão dessa curiosidade. Pois exprime a decadência. É que a sexualidade da mulher é problemática. Não inclui apenas, como no homem, uma fonte de prazer mas também um motivo de sofrimentos, | ||
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| + | Mais clara ainda aparece a decadência na punição do homem. É que o castigo da mulher tem uma importância subordinada. O principal é a punição do homem, que para o **mito ** é o homem propriamente dito. O primeiro castigo é o trabalho. Novamente uma expressão de humanidade. Os animais não trabalham. Trabalhar é cuidar de si pela integração no presente de futuro e passado. Somente dentro do projeto de bem e mal é possível o trabalho. No paraíso o homem não vivia ocioso. Mas sua atividade não era trabalho, isto é, cuidado por seu porvir no presente. O homem existe, isto é, o homem é homem por se lhe descortinar o porvir como limite e doação de possibilidades. A estruturação da existência pela temporalização do tempo nos permite compreender tanto a correlação entre o conhecimento do bem e do mal e a necessidade do trabalho como o sentido do último castigo imposto, a morte. A morte humana, estrutura do homem como homem, não é a morte biológica, o simples deixar de viver. A morte humana é saber aceitar a morte. O homem é o único ser vivo que sente a sua morte. Esse sentir a morte como a impossibilidade de suas possibilidades e ao mesmo tempo como a extrema possibilidade de suas possibilidades transforma-lhe a vida. Desde que se tornou homem, o homem morre a cada instante de sua vida. Desde então a morte do homem é viver a morte. Nesse sentido a morte se instaurou na vida do homem a partir do dia em que comeu do fruto proibido. Foi o que não disse a serpente e, por não ter dito, enganou a mulher, embora o que disse não tenha sido falso. Aprendendo a pensar I: A Hermenêutica do Mito | ||
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| + | Depois de anunciar a punição, Deus fala para si mesmo: "Eis que o homem se fez como um de nós e conhece o bem e o mal. Que também não estenda sua mão e tome da Árvore da Vida, coma e viva eternamente" | ||
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