estudos:carneiro-leao:ciencia
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| + | ====== ciência ====== | ||
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| + | Esta de-cisão metafísica não é um presente para sempre passado nem se reduz a simples fato de um passado encoberto pela poeira de dois mil e quatrocentos anos. É mais do que objeto de curiosidade historiográfica. Mais do que uma relíquia no museu do Ocidente. É um passado tão vigente que constitui a fonte donde vivemos hoje, a tradição, que nos sustenta. Seu vigor Histórico promoveu as transformações, | ||
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| + | a) Dicotomia entre **ciência ** e vida. **Ciência ** é exclusivamente **ciência ** exata, isto é, hipotético-dedutiva ( **ciência ** real) e axiomático-dedutiva ( **ciência ** formalizada). Aprendendo a pensar I: Contexto Problemático do Tractatus de Ludwig Wittgenstein | ||
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| + | Hoje a tempestade nos chega, pelo vigor planetário da Linguagem, na civilização da **ciência ** e da técnica. Nos vórtices da planetariedade toda diferença entre Pensamento e **Ciência ** é uma função de referência. Pois sempre de alguma maneira pertence a toda **ciência ** uma semântica. Semântica é a articulação de fatos referenciais com fatos referenciados que uma sintaxe possibilita e exerce. Destituído de semântica, o Pensamento se apresenta como alguma coisa de estranho em nosso tempo e sua tempestividade. É por esta estranheza, por ser daquelas causas, cujo destino é nunca poder encontrar ressonância semântica em seu próprio tempo que o pensamento de Heidegger é intempestivo. Daí toda a incompreensão por parte da **ciência ** e da filosofia. Pertence à atualidade de seu pensamento ser incompreendido pela exatidão de qualquer cálculo. Aprendendo a pensar I: A Morte do Pensador | ||
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| + | Por muito repetir-se já se vulgarizou dizer que vivemos na era atômica. O que significa, porém, chamar uma época da história da humanidade de era atômica? À primeira vista exprime o domínio planetário da **ciência **. A energia do átomo, descoberta pela **ciência ** e controlada pela técnica, constitui o sistema de forças, que doravante determinará a construção da existência e o curso da história. Numa progressão sempre crescente, o homem moderno se vê cercado cada vez mais dos produtos e artefatos da **ciência **. A ponto de o físico alemão Werner Heisenberg (Das Naturbild der heutigen Physik, Hamburgr 1955, p.14) escrever que num futuro não muito distante os aparelhos e instrumentos técnicos serão partes integrantes do homem, como a teia é parte da aranha e a concha do caramujo. Aprendendo a pensar I: A Filosofia na Idade da **Ciência ** | ||
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| + | Esse, porém, é apenas o sentido de superfície, | ||
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| + | Na Froehliche Wissenschaft, | ||
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| + | Na idade da **ciência ** e técnica essas risadas atingiram um número sem conta. Todas elas, porém, se fundam na constatação simples e convincente, | ||
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| + | Devido ao modo estranho de seu vigor a filosofia se vê relegada, na idade da **ciência ** mais do que em qualquer outra idade, a uma posição marginal. Por isso se torna imperiosa a necessidade de se discutirem as relações entre filosofia e **ciência **. Pois só discussões dessa natureza poderão preparar o espírito do homem moderno para a grande decisão. A decisão sobre o sentido de sua existência, | ||
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| + | É sempre um esforço penoso e muito difícil o acesso à **ciência **, apesar de toda a ajuda dos professores. O processo de aquisição da **ciência ** descreve uma trajetória de crescentes graus de dificuldades: | ||
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| + | Pois a **ciência ** é uma possibilidade historicamente concretizada do homem, em primeiro lugar do homem ocidental. Essa possibilidade realizada no Ocidente começa hoje a alongar-se e cobrir o mundo inteiro, informando com sua forma todos os povos. Sem dúvida, não é um mero acaso. , Não se trata de um processo, cuja evolução poderia ter sido sustada. Estamos diante de um destino histórico. Mas donde , provém esse destino? Aprendendo a pensar I: A Filosofia na Idade da **Ciência ** | ||
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| + | Costumamos distinguir a vida pré-científica da atitude científica. Nessa distinção a vida pré-científica se nos afigura mais ampla, mais rica e variada. É tecida de comportamentos e relações, que se entrelaçam numa infinidade de setores: no campo das atividades práticas, do uso e confecção das coisas; no terreno da comunicação religiosa com poderes divinos; na esfera da convivência social com os outros homens; no plano de experiências estéticas da beleza, e em muitos outros. Antes de qualquer **ciência ** a vida humana já é dinamizada pelo jogo dos chamados fenômenos existenciais: | ||
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| + | Desse mundo pré-científico brotam os motivos que conduzem por caminhos cruzados à origem e constituição da **ciência **. Das preocupações imediatas pela subsistência e meios de defesa, da sabedoria mágica dos sacerdotes, do espírito curioso de povos aventureiros, | ||
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| + | Talvez haja aqui lugar para uma objeção: depois que o homem, encontrando o conhecimento, | ||
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| + | Sem a menor dúvida! Mas teria ele que seguir os moldes da **ciência ** ocidental? Será essa a única forma possível de racionalidade? | ||
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| + | A expressão "mundo da vida pré-científica" | ||
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| + | Mas as coisas não são assim tão simples. Se ele frequentou uma escola, já perdeu a inocência pré-científica. Já entrou em contacto com o mundo da **ciência **, ainda que tenha sido de um modo primário e inocente, aprendendo apenas a ler, escrever e contar. Se não frequentou nenhuma escola, sabe ao menos que a infinidade dos instrumentos e produtos de seu mundo são descobertas e invenções da **ciência **. De há muito o mundo, em que vivemos, deixou de ser a natureza intacta e virginal do selvagem. Já nem é mais a paisagem bucólica, cultivada pela habilidade camponesa e artesã. É a natureza violada pelas invenções industriais, | ||
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| + | Isso significa: as ciências reagem sobre a esfera de onde nasceram, entulhando-a de seus produtos. E não apenas na forma de instrumentos técnicos. Em nosso tempo do papel impresso, da voz transmitida, | ||
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| + | O que significa essa presença inevitável do homem moderno na esfera de domínio da **ciência **? Participa realmente da vida científica pelo fato de viver às voltas com os produtos da técnica, por repetir de modo semi-inconsciente as linguagens e formulações de uma literatura popular? — Ninguém ousará afirmá-lo com seriedade. Isso todavia não destrói o fato real e inconteste de já não viver mais inteiramente fora da **ciência **. De já ter perdido a inocência do selvagem. De existir imerso numa tradição cultural, que inclui uma longa história da **ciência **. Nesse sentido todos os homens da era atômica possuem sempre uma ideia, quando nada, uma ideia de papel do que seja **ciência **. Se bem se analisa essa imersão histórica do homem, desfaz-se por si mesma a contradição, | ||
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| + | Nesse sentido o desejo de saber é um fenômeno central da existência, | ||
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| + | Toda trama de relações nunca se compõe apenas de dois termos. Pressupõe antes um terceiro fator, que serve de espaço comum à articulação das divergências e convergências entre os termos relacionados. No caso de **ciência ** e filosofia é a existência humana, que, em seu desejo originário de saber, serve de ponto comum de referência. A identidade e diferença, a convergência e divergência entre ambas, se articulam em função da atitude do homem frente a elas. Na terra dos homens a **ciência **, não constituindo uma exteriorização essencial da existência, | ||
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| + | A primeira divergência, | ||
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| + | Essa luz estranha, que a filosofia irradia de si, não resulta, porém, de uma deficiência de conhecimentos. Não é, por sabermos pouca coisa, mas por sabermos muita coisa demasiado externa da filosofia, que encontramos dificuldade em pensar filosoficamente. Hoje conhecemos toda uma galeria historiográfica de grandes filósofos, um museu doutrinário, | ||
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| + | As mais das vezes esse acúmulo de conhecimentos periféricos só nos cega para a presença extraordinária da filosofia na existência. A fim de identificá-la, | ||
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| + | No primeiro livro da Metafísica Aristóteles esboça uma graduação das dimensões em que se articulam as possibilidades da sabedoria. Num primeiro grau a percepção sensível, " | ||
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| + | Na **ciência ** tudo é mais claro e definido. Toda **ciência ** apresenta um estado atual de progresso. Resultado de uma longa história de desenvolvimento, | ||
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| + | Ao homem pertence por necessidade de natureza a compreensão do Ser! Embora repouse imóvel nas preocupações imediatas da vida, nela se constrói o arcabouço das categorias em que as coisas re-velam sua presença no mundo dos homens. Na compreensão do Ser se estrutura o horizonte, em que, antes de toda experiência, | ||
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| + | Na existência o vigor desse apelo mora num pressentimento do próprio Ser, cuja originariedade, | ||
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| + | Geralmente se opõe pressentimento a saber, ora colocando-o abaixo ora acima, em todo caso fora do saber. No vigor de sua essencialização, | ||
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| + | A originalidade de nosso século está em haver deslocado o problema das relações entre história e verdade para o próprio diferir e referir da diferença e referência de temporal e intemporal, de relativo e necessário, | ||
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| + | A consciência histórica moderna deve sua formação e desenvolvimento à consciência científica moderna. Esta se caracteriza por uma nova relação do homem com o mundo. "A natureza, escreve Dilthey, já não se lhe apresenta como uma criatura divina. O homem meteu-lhe as mãos para arrancar as " | ||
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| + | A descoberta fundamental de Dilthey em suas análises do curso da vida nas ciências do espírito foi a tensão dialética que constitui a dinâmica de toda vicissitude histórica. Exprimiu-a na coesão de vivência e compreensão. Não se trata de dois fatores autônomos mas de um único processo. Do campo ou sistema de forças consubstanciai à dinâmica da própria vida. Nem basta vivência sem compreensão nem pode haver compreensão sem vivência no vigor vital da história. O desenvolver-se da compreensão histórica não é possível senão " | ||
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| + | A pergunta decisiva agora é saber o que é ensinar e aprender. Ao ouvir a pergunta e sentir-lhe a necessidade, | ||
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| + | Não se trata de um propósito moderno de hoje. É um propósito velho de milênios. O que possui de sempre novo é apenas a necessidade de se propor sempre de novo, com a novidade de ser cada vez a primeira vez. A novidade, que a velhice milenar do pensamento nos põe a pensar hoje, como a primeira vez, é o sentido do cálculo, dominante na **ciência ** e na técnica planetária de nossos dias. Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | A falta de pensamento vive numa fuga. Na fuga da angústia de pensar. É tão angustiante pensar que não queremos nem ver nem reconhecer a indigência de pensamento. Chegamos até a negar-lhe a possibilidade de presença. Como é possível fugir de pensar numa época como a nossa, na era da **ciência ** e da técnica? Como se pode falar hoje em indigência de pensamento, quando por toda parte se multiplicam os sucessos do saber e cresce o interesse pelo conhecimento? | ||
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| + | Há séculos se vem operando gradativamente uma revolução radical em todos os parâmetros decisivos da história. O homem se vê cada vez mais transplantado numa outra realidade. É o transplante do pensamento que calcula. Dele nasce esta nova posição do homem no mundo e para "com o mundo que designamos com o título de moderno: idade moderna, **ciência ** moderna, homem moderno, mundo moderno. Na voragem da modernidade impera o objeto, cuja objetividade ministram e administram a **ciência ** e a técnica planetárias. Tudo é processado em reserva de controle e de domínio. A natureza já não é senão um gigantesco reservatório, | ||
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| + | Hoje, no entanto, ainda nos é dado um mundo trancado em sua auto-suficiência produtiva, onde o pensamento do sentido se retrai. Os discursos se entregam cada vez menos ao silêncio da fala. As coisas vão-se despindo de serenidade à proporção em que se revestem de velocidade. Tudo se torna fugaz, transitório, | ||
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| + | Resposta: Nos discursos teóricos e nos percursos clínicos, a psicanálise é um recurso constante ao sentido que nos ocorre no silêncio dos próprios cálculos diferenciais da **ciência ** e da técnica. Nestas condições, | ||
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| + | Uma segunda consequência é o lugar epistemológico atribuído à própria história da psicanálise. O recurso, que sempre de novo se faz, à literatura histórica, não encontra paralelo em nenhuma **ciência **, somente na teologia, na filosofia e na poética. Pois em qualquer **ciência **, por mais extensas que sejam as investigações precedentes, | ||
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| + | O que Freud descobriu não foi uma nova hipótese dentro do universo de discurso da medicina de seu tempo, para explicar a origem e o desenvolvimento das neuroses. Não se tratava de uma nova etiologia que explicasse a neurose pela frustração sexual. Com uma tal explicação, | ||
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| + | Para a medicina, um sintoma é um fato. Ora, sendo sempre feito, todo fato resulta de causas. É um efeito. Por isso, para o novo universo, a neurose não é um sintoma mas um sentido. Todo sintoma pertence ao universo de discurso dos fatos e é como tal que se torna objeto de pesquisa e tratamento de ciências fatuais. A medicina é uma **ciência ** de fatos. Quando um médico diz que a medicina só conhece o homem da sola dos pés até aos cabelos da cabeça, está dizendo, sem dúvida, uma verdade. A questão é apenas saber sobre que está dizendo uma verdade. Decerto, não está falando sobre a verdade do homem, mas a partir dela sobre a verdade da medicina. Pois a verdade sobre que se fala nunca é a verdade a partir da qual se fala. Do contrário já não haveria nem homem nem medicina para falar. Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | Limitadas pela identidade, as relações de identificação estão sempre sujeitas às tempestades de transferências e projeções, | ||
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| + | Que apelo de pensamento nos surpreende neste texto de Bion? Trata-se de uma condenação da **ciência ** acusada de despersonalizar o homem e reduzi-lo a um autômato incapaz de relacionar-se com a vida de seus objetos? É uma denúncia da psicose de angústia do cálculo que resultaria de uma ansiedade de arriscar uma identificação com a morte na vida? Somos convidados a arremeter contra a **ciência ** e a técnica para podermos viver? Aprendendo a pensar I: Filosofia e Psicanálise | ||
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| + | Entender assim é unidimensionar **ciência **, técnica, psicose, cálculo, vida, morte, pensamento, psicanálise. Unidimensionar é correr apenas numa dimensão, seguindo o trilho de uma só bitola. Ora, enquanto discorremos numa bitola só, seja na do cálculo seja na do sentido, ainda não pensamos o bitolamento de nossos discursos. Presos à oposição de uma ou outra alternativa, | ||
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| + | Para nós, filhos precoces do pensamento, tardos em pensar, os modelos e técnicas, as teorias e métodos do cálculo nos concernem no próprio sentido de nossa existência. Por isso sempre dizemos " | ||
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| + | Assim a aceitação da **ciência ** e a espera do sentido se completam e, completando-se, | ||
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| + | A linha é a linha zero. Em contraste com os dados e fatos, os feitos e fados, com o cheio da **ciência **, o zero indica o vazio da nesciência. Pois é justamente lá, onde tudo se -esvazia de **ciência ** e escorre para a nesciência, | ||
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| + | 2. Não é possível pensar o pensamento dos primeiros pensadores gregos só com os recursos da **ciência ** e da filosofia. Toda historiografia já é sempre uma filosofia da história, quer o saiba ou não. Uma investigação de pensamento, que não pretender negar--se a si mesma como pensamento, tem necessariamente de ser uma restauração da mesma empresa. " | ||
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| + | 3. No século VI a religião, a política, a educação gregas exercem determinada consciência da poesia e mitologia. Houmeros tem Hellada pepaideuke. Prisma e espelho, nesta consciência se refletem e analisam as peripécias de verdade e não verdade da existência grega. Denunciando a miopia da consciência vigente, os primeiros pensadores se lançam a pensar reciprocamente as diferenças de religião e política, de educação e habilidade, de poesia e mito pela identidade do pensamento, pensando a com-pertinência de ser e pensar. Para nós, filhos do petróleo e da técnica, tardos em pensar, se tornou ainda mais difícil este mistério da identidade numa época de poluição e consumo. E por que? - Porque temos os ouvidos tão poluídos de **ciência ** e filosofia, temos os olhos tão consumidos pelas utilidades que já não podemos ver o mistério da pobreza nem ouvir a voz do silêncio no alarido do desenvolvimento. Desconhecemos o paradoxo da revolução do pensamento. Já quase não temos sensibilidade para as vibrações de nosso destino. E isso, não tanto porque, absorvidos pelas solicitações do consumo, quase não pensamos, mas sobretudo porque, quando pensamos, quase inevitavelmente o fazemos nos moldes da filosofia e da **ciência **. Aprendendo a pensar I: O pensamento originário | ||
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| + | O pensamento está sempre em tensão: com a consciência, | ||
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| + | Só não devemos entender o trágico no sentido filosófico da tradição. Neste sentido, tragédia é desgraça, a queda das alturas, a transformação súbita ou paulatina da glória em sofrimento. Trágico é o abandono desesperado do homem às forças da natureza, à vontade dos deuses, à fatalidade do destino. Onde impera a desolação, | ||
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| + | O que assim nos é dado, livra-nos também da arbitrariedade no esforço de pensar-lhes a originariedade de pensamento. Pois o que hoje nos é dado, como pro-vocação para pensar, é a filosofia ocidental na forma da **ciência ** moderna. Os recursos da filologia clássica, da historiografia literária, da linguística e arqueologia nos possibilitam recuperar os fragmentos dispersos nas vicissitudes da tradição. Os caminhos da **ciência ** constituem uma via em que se torna acessível a Historicidade da história. Seguindo o modelo de pesquisa da **ciência **, as diversas investigações submetem os documentos conservados a um processamento que visa a constatar, analisar, aproveitar e interpretar as fontes, para assim assegurar e estabelecer os textos originais. É o processo conhecido com o nome de crítica das fontes e dos textos. Não se trata de simples relato das fontes nem de mero levantamento dos textos. Todo o esforço converge para tornar objetiva a Historicidade. Na história, porém, só é objetivo o que se deixa comparar, uma vez que, na comparação de tudo com tudo, se chega a uma explicação. Por isso também a possibilidade de comparação vale como modelo de objetividade histórica. O alcance das pesquisas só se estende até onde vai a comparação, | ||
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| + | 5. Para, nos caminhos da **ciência **, chegarmos à via da Historicidade, | ||
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| + | O verbo, hermeneus, significa trazer mensagens. O hermeneos, o mensageiro, pode ser posto em referência com Hermes, o mensageiro dos deuses. Ele traz e transmite a mensagem do destino que trama as vicissitudes da história de homens e deuses. Nem toda interpretação é uma hermenêutica. Somente a que descer até o vigor do mistério que estrutura a história. Na hermenêutica, | ||
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| + | Um pensamento originário é a coragem de descer às raízes das próprias possibilidades de pensar. Um pensamento originário é um pensamento radical. Procura interpretar os modos de ser da realidade, restituindo as estruturas de suas diferenças à identidade do mistério. O modo de ser, que nos apresenta como presente, não é originariamente um determinado presente cronológico. É tão antigo como a história. Algo, que é e sempre foi como é, por mais que se recue no tempo, é reconduzido ao vigor de um destino que estrutura a dimensão radical do Ser e por isso remonta para além de toda memória historiográfica. É a partir deste diapasão que nos fala o pensamento originário. O que é e como é o espaço-tempo de todas as coisas nas diferenças de seus modos presentes de ser é pensado num pensamento re-velador da identidade no mistério das dicotomias de ser e não ser, de movimento e permanência, | ||
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| + | Nesta pressuposição reside a única mas também a deficiência fundamental da investigação de H. Cherniss, como se vê da seguinte caracterização: | ||
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| + | A reflexão sobre a situação de nossa existência revela a consciência de uma unidade e de uma interrupção histórica. Sentimo-nos viandantes de um único Dia Histórico, que se estende do sol nascente na aurora grega de Homero ao sol poente na era atômica. Temos uma consciência nítida de nossa ruptura com a tradição e da diferença entre a manhã e a tarde da História Ocidental. Assim qualquer investigação se insere hoje necessariamente na época da técnica e da **ciência **. Época da **ciência ** não é, para dizer com Kant, uma generatio aequivoca. Não nasceu por geração espontânea ex nihilo sui et subiecti, como diriam os aristotélicos latinos. Pertence a uma tradição milenária, da qual é uma transformação histórica. Quem hoje se empenha num problema filosófico, | ||
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| + | 4. O Lugar da Introdução à Metafísica: | ||
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| + | Com efeito o vigor histórico do esquecimento do Ser, que na era da técnica e da **ciência ** atinge o paroxismo de sua virulência, | ||
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| + | Pensar é articular o destino do Ser e esse se dá num vigor " | ||
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| + | A época da técnica e da **ciência ** se essencializa numa " | ||
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| + | 2. Desta perspectiva, | ||
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| + | b) Alternativa de análise-tautologia e síntese-empiria. O discurso das ciências formalizadas é analítico e tautológico, | ||
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| + | c) Sobre as relações entre estas duas ordens de **ciência ** não poderá haver discurso, uma vez que tais discursos não seriam nem sintético-empíricos, | ||
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| + | 9. O Tractatus não é uma corrente de discursos, que pretendesse demonstrar teses segundo uma ordem hipostática ou para tática de argumentação. É que todo discurso está ordenado à organização lógica de fatos relativos a um conhecimento objetivo do mundo. O pensador não quer provar nada. Visa tão-somente a re-velar nas funções da língua o vigor do pensamento e assim denunciar a ilusão de se lhe atribuir o registro próprio da **ciência **. O projeto do Tractatus é inteiramente despojado de qualquer pretensão científica. A vitalidade de seus aforismos não pode ser determinada como um sistema de sentenças. Só fatos são suscetíveis de discurso. Uma sentença não pode exprimir senão um fato, simples ou complexo. Como o autor de Delfos, o pensador não afirma nem nega coisa alguma. Ele apenas assinala, enviando-nos à viagem de todas as nossas línguas. A metafísica tem sido vítima de seus próprios encantos. Mobilizada pelo narcisismo metafísico, | ||
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| + | Ironicamente é na própria febre do desenvolvimento que nos chega hoje o sentido da intempestividade de Heidegger, daquilo que o pensamento do Ser quer dizer para nós, filhos progressistas do progresso. Em nossos dias, indiferente às diferenças ideológicas, | ||
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| + | O simples uso do candelabro não nos transmite as manifestações do mundo que seu ser instaura. É que seu emprego reside justamente em servir-se de suas relações efetivas, em usar seus serviços sem procurar realçar o sistema de referências que os possibilita. Usar um instrumento é obrigá-lo a desaparecer no uso que dele se faz. O bom candelabro é aquele de que não se sente a presença. Usar um instrumento é não se deter em seu modo de ser e sim passar através de sua utilidade à obtenção de sua finalidade. Para que o instrumento nos manifeste seu modo de ser, é necessário mudar de comportamento. É o que acontece na arte. A obra de arte nos abre e mostra o ser do candelabro como instrumento de iluminação. O modo de ser da arte é manifestar o mundo de tudo aquilo que é. É verdade que essa manifestação do ser se opera em toda atividade e em todo comportamento humano. Todavia, nem sempre é desenvolvida explicitamente. A **ciência **, por exemplo, é implicitamente uma manifestação do mundo, não obstante ela não se preocupa nem se atém à revelação do ser das coisas. Atenta ao que no real é determinação objetiva, universalizável e pragmática, | ||
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| + | Agora talvez esteja mais claro qual é o problema da Crítica Literária, onde reside toda a angústia do Crítico. É o problema de não ser arte literária, de não ser Literatura para ser apenas **ciência ** da Literatura. É a angústia de criticar a arte literária com os critérios da filologia e da linguística, | ||
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| + | Um Destino Histórico Essencial implanta a terra linguística na galáxia da metafísica em cuja órbita gravitam as ciências. O pensamento precursor do poeta erra pelo espaço sem peso das ciências, à procura de gravidade. Por isso a preparação da semeadura exige uma formação do poeta no interior das ciências. Aqui o desafio é educar-se sem confundir poesia nem com erudição nem com **ciência **. O desafio é o perigo. Um perigo tanto mais salutar quanto mais, na descendência Histórica da metafísica, | ||
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| + | É que descobrir que uma coisa, além de si mesma, apresenta outra, em razão de uma isomorfia de estrutura em todos os níveis dos fatos, é descobrir a mecânica da representação. O grilo não cabia em si. Dispunha de uma mecânica universal a que nada poderia resistir. Aprendeu a falar, pois era a mecânica da linguagem. Aprendeu a cantar, pois era a mecânica da música. Aprendeu a calcular, pois era a mecânica da técnica. Aprendeu a controlar, pois era a mecânica do poder. Aprendeu a conhecer, pois era a mecânica da **ciência **. Antes o grilo não tinha nem coisas. Agora surge-lhe o mundo, a totalidade dos fatos. Toda a clareira da Floresta ficou grilada de mecânica. Aprendendo a pensar I: A Poesia e a Linguagem | ||
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| + | Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, | ||
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| + | É difícil para o homem de um mundo transiente e profano aceitar as inúmeras definições, | ||
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| + | Porque o homem é sempre a ponte de passagem para o mistério, seu conhecimento nunca é apenas o poder da discursividade. É sobretudo e em tudo o vigor de deixar ser o mistério. Destarte, o mistério não é o provisório e passageiro mas o originário e permanente. A tal ponto que é o não-mistério, | ||
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| + | Esta nesciência nesciente do mistério que se dá enquanto se retrai em nossa época de mistério é o princípio fundamental de toda hermenêutica digna deste nome. O nome, hermenêutica, | ||
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| + | Assim, por exemplo, quando Bultmann, valendo-se dos meios e recursos da **ciência **, mostra presentes em São Paulo a teologia judaica ou o cristianismo do povo, o iluminismo helenista ou a vivência sacramental dos gnósticos, estes resultados não explicam a causa de São Paulo e de Bultmann. Por quê? Porque esta causa é o mistério. Porque a Linguagem do mistério de Cristo em causa no texto e na interpretação é que permite aos recursos e meios da **ciência ** a diákrisis pneumáton. Pois o que diretamente fala no texto são sempre as palavras dos outros espíritos, do espírito judaico, do espírito do povo, do espírito helenista, do espírito gnóstico, breve, das espiritualizações do espírito humano. Mas a força de todas estas espiritualizações, | ||
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| + | 10. No tocante à diferença entre autoridade e poder, esta provocação nos chega hoje na virulência da funcionalidade de tudo e de todos. Em seu processo de elaboração, | ||
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| + | A perspectiva de diferença do presente diálogo é constituída pelo Pensamento Essencial (das wesentliche Denken) de Martin Heidegger. Em seu processo de elaboração, | ||
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| + | a interpretação das Sagradas Escrituras se faz hermenêutica quando chega à identidade da Linguagem de Deus nas diferenças de tempo e vida entre a língua das Escrituras e a língua de nosso martírio. É que esta identidade constitui o óleo da consagração de qualquer texto enquanto nos coloca no envio do mistério da fé. a fé é a via em que somos en-viados à viagem do mistério de Cristo. Daí também o problema hermenêutico não ser o desafio da construção de uma ponte que nos proporcione passar do presente para o passado. É o desafio da consagração da diferença de nosso presente. a fé do presente é a presença da fé nas diferenças que ligam a uma mesma tradição passado e presente. Não foi decerto a partir da experiência da fé que se disse naquela semana da LEB, dever o teólogo abster-se de falar sobre economia e política econômica. Como todas as demais diferenças, | ||
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| + | Mas o que tem a ver a flora da flor com o cristianismo do povo? — Resposta: tudo! Sem **ciência **, até mesmo sem consciência, | ||
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