estudos:carman:carman-2003307-311-ipseidade
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| + | ===== IPSEIDADE (2003: | ||
| + | Longe de se basear em qualquer conceito prévio de subjetividade, | ||
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| + | Seria simplista argumentar, como se poderia esperar que Heidegger fizesse, que a tradição filosófica se apoderou de nossa concepção cotidiana inautêntica de nós mesmos como o “impessoal” indiferente (das Man) e então simplesmente deixou essa interpretação endurecer até se tornar um dogma arraigado. Na verdade, a história que Heidegger conta no §64 (ET64) de Ser e Tempo é muito mais sutil, pois ele sugere que o conceito de subjetividade surgiu como uma fusão de dois tipos diferentes de interpretação de si: uma autêntica e outra inautêntica. A subjetividade, | ||
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| + | Remontar a ideia de subjetividade a uma compreensão de si inautêntica parece estar mais de acordo com a insistência habitual de Heidegger sobre a queda da filosofia tradicional e seu esquecimento da questão do ser. Em nossas interpretações de si comuns, sugere Heidegger, normalmente deixamos de nos compreender explicitamente como seres-no-mundo, | ||
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| + | ao dizer-eu, a presença (Dasein) refere-se ao ente que ela mesma sempre é. A auto-interpretação cotidiana, porém, tem a tendência de se compreender a partir do “mundo” das ocupações. Ao significar-se onticamente a si mesma, ela não vê o modo de ser daquele ente que ela mesma é. (SZ 321; STMS) | ||
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| + | Esse tipo de reconhecimento de si está fundamentado na inevitável queda do Dasein no mundo de suas preocupações: | ||
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| + | O que motiva esse “fugaz” dizer-eu? A decadência da presença (Dasein), em que ela foge de si mesma para o impessoal. O impessoalmente-si-mesmo fala “com naturalidade” eu. No “eu” pronuncia-se o si-mesmo que eu, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, propriamente não sou. (SZ 322; STMS) | ||
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| + | Que concepção explícita do eu constitui essa forma anônima e decaída de expressão de si? Um sujeito puramente vazio, formalmente idêntico a si mesmo (309): “o si-mesmo do eu-me-ocupo, | ||
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| + | Mas, por mais plausível ou implausível que essa história de derivação possa ser por si só, ela não é, de forma alguma, a história completa que Heidegger conta. Além de expressar nossa compreensão inautêntica média do eu, o conceito de subjetividade também incorpora uma compreensão autêntica da ipseidade. Nossa maneira comum de dizer “eu” não é autêntica, insiste Heidegger: “Numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, com o “eu” pronuncia-se a cura na fala “fugaz” do eu nas ocupações. O impessoalmente-si-mesmo diz, em alto e bom tom, eu-eu porque, no fundo, ele não é propriamente ele mesmo e escapole de seu poder-ser próprio” (SZ 322; STMS). Novamente, dizer que nosso entendimento comum da primeira pessoa é “inautêntico” poderia ser uma afirmação avaliativa ou descritiva, implicando que é deficiente e indesejável de alguma forma ou apenas que não é diretamente reflexivo, mas mediado por alguma concepção geral ou impessoal de sis que é indiferente ao fato de eu ser este em particular. Sem dúvida, fugir da sua autêntica capacidade de ser parece uma coisa ruim. No entanto, é plausível interpretar a afirmação de Heidegger em um sentido descritivo, uma vez que ele continua dizendo que a compreensão de si inautêntica deve ser entendida em termos do próprio ser autêntico do Dasein: “a constituição ontológica do si-mesmo não se deixa remontar a uma substância-eu e nem a um “sujeito” mas, inversamente, | ||
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| + | Dizer que o eu inautêntico deve ser entendido em termos do eu autêntico deve significar, em vez disso, que o Dasein pode interpretar a si mesmo de forma direta e impessoal somente porque é o tipo de entidade cuja dimensão de primeira pessoa é primitiva e irredutível, | ||
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| + | Isso não quer dizer que o Dasein se torna um si apenas quando alcança a resolutividade, | ||
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| + | A partir dela (cura) é que se esclarece a consistência do si-mesmo enquanto pretensa permanência do sujeito. Mas o fenômeno do poder-ser próprio abre também uma visão para a consistência do si-mesmo no sentido de ter adquirido sustento. A consistência do si-mesmo (Ständigkeit]) no duplo sentido da solidez consistente do que permanece é a contra-possibilidade própria da consistência do que não é si-mesmo, na indecisão decadente. Do ponto de vista existencial, | ||
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| + | A ipseidade no sentido formal de estar em uma relação direta e única consigo mesmo é o que torna possível a realização da ipseidade no sentido avaliativo de ter alcançado a autêntica resolutividade de antecipação. O conceito moderno de subjetividade combina, portanto, duas noções (311) pré-ontológicas distintas de ipseidade: uma concepção inautêntica de ipseidade como algo que simplesmente ocorre e uma compreensão autêntica de ipseidade como constante ou resoluta em seus compromissos. | ||
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