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| + | ===== SER É DEUS (MEHT: | ||
| + | No “Prólogo” do Opus Tripartitum, | ||
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| + | A prova que Eckhart dá para a proposição de que o ser é Deus é a seguinte. A relação entre o próprio ser (ipsum esse) e um ser particular (ens hoc aut hoc) é como a relação entre a própria brancura e qualquer coisa branca. Assim como as coisas brancas são brancas por compartilharem da própria brancura, os entes individuais existem em virtude de serem eles mesmos. Mas se o ser não fosse Deus, mas algo diferente de Deus, então o próprio Deus existiria em virtude de algo diferente dele mesmo, e outros entes existiriam em virtude de algo diferente de Deus. Mas se fosse assim, Deus não seria (o que queremos dizer com) Deus. Segue-se também disso que Deus existe. Isso pode ser demonstrado pela própria versão de Eckhart do argumento ontológico. Nada é mais evidente do que uma proposição idêntica. Mas se é verdade que “o ser é Deus”, então é verdade que Deus é. Pois os dois termos, ser e Deus, são idênticos. | ||
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| + | Além disso, se o ser é Deus, então nada da perfeição do ser lhe falta. Deus é a pureza e plenitude do ser (plenitudo esse, purum esse: LW, III, 77). Ele contém e inclui (praehabeat) et includat: LW, I, 169) de forma preeminente as perfeições limitadas e múltiplas que foram “emprestadas” (Q, 119, 20-20, 6/C1. 128) às criaturas. Finalmente, se o ser é Deus, então Deus é “um”. Ele possui seu ser em uma simplicidade atemporal que exclui inteiramente a sucessividade e a multiplicidade, | ||
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| + | Tudo o que está aquém de Deus, na medida em que está aquém do ser, é ao mesmo tempo ser e não-ser, e algo de ser é negado a isso. Pois está abaixo do ser e fica aquém dele. Portanto, a negação lhe convém. (LW, II, 77) | ||
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| + | Mas deve-se negar toda negação no próprio Deus. Deus é a “negação da negação”: | ||
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| + | Portanto, nenhuma negação, nada negativo, convém a Deus, exceto a negação da negação, que é o que o um, tomado negativamente, | ||
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| + | A frase “negação da negação” é, pelo menos linguisticamente, | ||
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| + | A ênfase neoplatônica que Eckhart coloca na “unidade” do ser divino reaparece nas obras alemãs em termos da distinção entre a “Deidade” (Gottheit, divinitas) e “Deus” (Gott, deus). “Deus” refere-se ao ser divino na medida em que se relaciona com as criaturas e na medida em que é nomeado a partir dessas relações. Por isso, “Deus” é chamado bom como a causa da bondade das criaturas, sábio por causa da ordem que estabeleceu no universo, etc. atribuída a Ele. A Deidade é aquela que é mais pura que a bondade e a verdade, que é ainda anterior ao Filho e ao Espírito Santo. O “um” refere-se a Deus: | ||
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| + | ... lá onde Ele está em Si mesmo, antes de fluir para o Filho e o Espírito Santo... Um Mestre disse: o um é uma negação da negação. (Q, 252, 32-5/Serm., 230) | ||
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| + | A Deidade é a unidade absoluta do ser divino, a negação de toda multiplicidade, | ||
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| + | A afirmação de Eckhart de que ser é Deus pode parecer emprestada do ensino de Tomás de Aquino de que Deus é seu próprio ato de ser. Mas enquanto Eckhart muitas vezes reveste seu pensamento na linguagem de Tomás de Aquino, a tendência básica de seu pensamento é bem diferente. Pois Eckhart nega o princípio central da metafísica tomista, a primazia do esse. Assim, em um surpreendente conjunto de questões disputadas realizadas em Paris, Eckhart parece se contradizer categoricamente e negar ser de Deus. Depois de aceitar os argumentos de Tomás de Aquino para a identidade de ser (esse) e compreender (intelligere) em Deus, ele afirma em suas Perguntas parisienses que chegou a uma conclusão muito pouco homística: | ||
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| + | . . . Não sou mais da opinião de que Ele compreende porque é, mas que é porque compreende, de modo que Deus é intelecto e ato de compreender, | ||
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| + | Há algo maior ou mais profundo em Deus do que “ser”, e isso é “compreender”. Deus não está sendo, formalmente falando: | ||
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| + | . . . em Deus não há ser (ens) nem ato-de-ser (esse), porque nada está formalmente presente tanto na causa quanto naquilo de que é causa, se a causa for uma causa verdadeira. Mas Deus é a causa de todo ser. Logo, o ser não está formalmente presente em Deus. (LW, V, 45/48) | ||
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| + | Eckhart tenta conciliar esta posição com a que adotou nos Prólogos que {esse est deus} argumentando que o ser não pertence a Deus “formalmente”, | ||
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| + | Mas a pureza do ser é identificada por Eckhart como compreensão. A compreensão não é o ser, mas aquilo pelo qual o ser é conhecido. As ideias não são coisas, mas os meios pelos quais as coisas são conhecidas. Pois vimos acima que Eckhart segue o ensinamento de Aristóteles de que, para conhecer, a alma deve ser “pura” ou “sem mistura” com o que ela conhece. Se o olho fosse colorido, veria todas as coisas sob essa cor. A compreensão deve, se quiser conhecer todas as coisas, estar separada de todos os entes. Mas Deus é o que chamamos de ens separatissimum, | ||
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| + | A noção de que a compreensão é de alguma forma “não-ser” enquanto seu objeto é “ser” é outro tema sugestivo para o historiador da filosofia moderna. Encontramos uma ideia semelhante na “Primeira Introdução à Wissenschaftslehre” de Fichte, e é também essa mesma dualidade que está por trás da famosa observação de Hegel no “Prefácio” da Fenomenologia de que o verdadeiro é tanto substância (ser) quanto sujeito (negatividade). O assunto para Hegel é “negatividade pura e simples”, o “tremendo poder do negativo”. Uma ideia semelhante pode ser encontrada em Jean-Paul Sartre, para quem conhecer é negar. | ||
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| + | A “essência nua” de Deus, a vida pura, simples e interior de Deus, é a vida da compreensão, | ||
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| + | Se tomamos Deus em Seu ser, então O tomamos em Seu vestíbulo, pois o ser é o vestíbulo em que Ele habita. Mas onde está Ele então em Seu templo, no qual Ele brilha como santo? A razão é o templo de Deus. Deus habita em nenhum lugar mais autenticamente do que em Seu templo, na Razão. Como aquele outro mestre disse, Deus é Sua Razão, que vive no conhecimento de Si mesmo, permanecendo somente em Si mesmo, onde nada jamais O perturba. Pois Ele está ali sozinho em Sua quietude. Em Seu conhecimento de Si mesmo, Deus conhece a Si mesmo em Si mesmo. (Q, 197, | ||
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| + | Ao atribuir tal primazia à compreensão, | ||
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| + | A atividade do pensamento pensando em si é inteiramente autocontida, | ||
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| + | . . . aquilo que é movido de si mesmo como de um princípio interior e em si. Mas aquilo que não é movido a não ser por alguma coisa externa, não é nem se diz que vive. Disso resulta que tudo o que tem uma causa eficiente anterior e acima de si mesmo, ou uma causa final fora ou diferente de si mesmo, não vive no sentido próprio. Mas esse é o caso de todas as criaturas. Somente Deus como fim último e primeiro motor vive e é vida. (LW, III, 51) | ||
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| + | Deus não requer nenhuma causa eficiente para colocá-lo em atividade, nem age por causa de qualquer fim fora de si mesmo. Ele é a causa e o princípio de todas as coisas, mas Ele não requer nenhuma causa ou princípio para Si mesmo. Daí Eckhart cita com aprovação a Proposição VII do Liber XXIV Philosophorum: | ||
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| + | Deus é o princípio sem princípio, o processo sem variação, o fim sem fim. (LW, III, 16, n. I/C1. 239) | ||
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| + | A vida do pensamento autopensante é autossuficiente, | ||
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| + | A vida significa um certo transbordamento pelo qual uma coisa, brotando em si mesma, primeiro se inunda completamente, | ||
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| + | Embora seja um exagero ver em Eckhart a primeira teoria do processo de Deus, é verdade que ele enfatizou a qualidade viva e ativa da natureza divina. Ele estava à vontade com a doutrina cristã da Trindade, pois viu ali um processo de vida dando origem à vida. E ele considerava o ato da criação como uma extensão adicional da vida interior da Trindade (LW, II, 22/C1. 226). O Pai é o único, o princípio (principium) da vida; o Filho é o gerado; o Espírito é seu amor e ardor mútuos um pelo outro. A criação é o transbordamento, | ||
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| + | Assim, para recapitular a doutrina de Deus de Eckhart, Deus é esse, unum, vivere e intelligere. Mas apenas o último nome penetra além do vestíbulo na essência nua de Deus e fornece o fundamento dos outros nomes. | ||
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