estudos:camus:onfray-2012-camus-vontade-de-satisfacao
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| - | ====== Onfray (2012) – Camus, vontade de satisfação ====== | ||
| - | ONFRAY, Michel. **L’ordre libertaire: la vie philosophique d’Albert Camus**. Paris: Flammarion, 2012. | ||
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| - | ==== Um filósofo nietzschiano ==== | ||
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| - | * A compreensão da dívida intelectual e existencial de Albert Camus para com Friedrich Nietzsche, explicitada na afirmação de 1954 sobre dever ao filósofo alemão uma parte do que se é, exige o reconhecimento de que a obra camusiana encontra na fidelidade à infância e na leitura nietzschiana suas raízes fundamentais, | ||
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| - | * A definição de um filósofo nietzschiano não deve ser confundida com a mimese estéril ou a repetição dócil da totalidade dos pensamentos do autor de // | ||
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| - | ==== Pensar a partir de Nietzsche ==== | ||
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| - | * A condição de nietzschiano reside na capacidade de raciocinar não como Nietzsche, mas a partir dele, utilizando seus diagnósticos rigorosos sobre o niilismo europeu, a superação do ideal ascético judaico-cristão e a destruição da metafísica ocidental em prol de uma física da vontade de potência, para edificar uma ontologia radicalmente imanente que valoriza a filosofia pré-socrática e a luz mediterrânea contra as brumas nórdicas e as paixões tristes do socialismo. | ||
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| - | * A identificação de Albert Camus com o estilo existencial e de pensamento nietzschiano manifesta-se na profusão de referências nos seus cadernos, abrangendo temas como a dor, a vida filosófica, | ||
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| - | ==== Uma longa história de amor ==== | ||
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| - | * A relação intelectual entre o pensador de Argel e o de Rocken iniciou-se precocemente, | ||
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| - | * A interpretação camusiana rejeita as leituras moralizadoras que confundem a ontologia trágica da vontade de potência com o egoísmo vulgar, defendendo que o pessimismo nietzschiano é uma forma de olhar o real sem filtros, nem otimistas nem pessimistas, | ||
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| - | ==== O nietzschianismo, | ||
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| - | * A recepção inicial da filosofia nietzschiana na juventude pode manifestar-se através de um dandismo superficial e de uma vanidade defensiva, como observado no comportamento do jovem Camus e nas suas cartas a Fréminville, | ||
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| - | * A assimilação da complexidade ontológica de Nietzsche requer uma maturação que transcende a leitura adolescente, | ||
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| - | ==== O companheirismo com Nietzsche ==== | ||
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| - | * A presença de Nietzsche na vida de Camus estendeu-se até o momento derradeiro, simbolizada pela presença de um exemplar de //A Gaia Ciência// na pasta encontrada nos destroços do acidente fatal em 1960, demonstrando que o diálogo com o filósofo alemão, iniciado na juventude, permeou toda a sua produção intelectual, | ||
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| - | ==== Nietzsche, um homem revoltado ==== | ||
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| - | * A análise da revolta metafísica em //O Homem Revoltado// dedica um capítulo a Nietzsche, situando-o entre Max Stirner e Fiodor Dostoievski, | ||
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| - | * A crítica camusiana denuncia a manipulação da obra //A Vontade de Potência// pela irmã do filósofo, Elisabeth Forster-Nietzsche, | ||
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| - | ==== Um impasse ontológico ==== | ||
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| - | * A proposição nietzschiana de consentimento total à inocência do devir e a afirmação incondicional de tudo o que existe, incluindo o mal e o sofrimento, conduz a um impasse ontológico onde a revolta se torna impossível, | ||
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| - | * Diante da constatação de que a aceitação total preconizada por Nietzsche poderia justificar o assassinato e a tirania da história divinizada pelo marxismo, Camus elabora um nietzschianismo de esquerda ou libertário, | ||
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| - | ==== Os grandes fogos de Gênova ==== | ||
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| - | * A afinidade entre Camus e Nietzsche aprofunda-se na partilha da fragilidade física e psicológica, | ||
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| - | ==== Sofrer é amadurecer ==== | ||
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| - | * A experiência corporal da doença, seja a sífilis de Nietzsche ou a tuberculose de Camus, constitui uma via de acesso a um conhecimento ontológico inacessível aos sãos, onde o sofrimento não é interpretado à luz da culpa judaico-cristã, | ||
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| - | * O hedonismo ontológico proposto como resposta à finitude e à dor estabelece uma correlação intrínseca entre sofrimento e alegria, onde a consciência da morte iminente intensifica o desejo de vida e a vontade de amar o destino, transformando a enfermidade numa ocasião de força e numa ferramenta de criação filosófica existencial. | ||
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| - | ==== O absurdo avesso e o direito hedonista ==== | ||
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| - | * A tuberculose, | ||
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| - | * A filosofia de Camus, alinhada com a premissa nietzschiana de que um sistema válido é inseparável do seu autor, emerge da visceralidade da experiência pessoal e da lucidez estéril diante da morte, rejeitando consolations sobrenaturais para afirmar uma estética do Absurdo que busca a cura e a consolação na própria imanência e na exaltação da vida ameaçada. | ||
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| - | ==== A renúncia e a afirmação ==== | ||
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| - | * As limitações impostas pela doença forçaram Camus a renunciar a carreiras tradicionais e ao desporto, desviando-o do percurso acadêmico da Escola Normal Superior e preservando o seu pensamento da formatação institucional, | ||
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| - | ==== Técnica de si estoica ==== | ||
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| - | * A leitura de Epicteto e do estoicismo imperial durante a convalescença forneceu a Camus uma técnica de si baseada na distinção entre o que depende e o que não depende do indivíduo, ensinando-o a trabalhar sobre a representação da dor e a aceitar a necessidade do destino, uma sabedoria prática que Nietzsche também incorporou na figura do super-homem e que permitiu ao jovem Camus transformar a vontade de cura numa afirmação de vida. | ||
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| - | ==== Morrer feliz ==== | ||
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| - | * No romance póstumo //A Morte Feliz//, Camus explora a temática da morte consciente e voluntária através do protagonista Mersault, refletindo a convicção de que a doença altera a percepção sensorial do mundo e que a superação do medo da morte é condição essencial para a posse plena da vida, estabelecendo uma dialética entre o corpo doente e a vontade de alegria que culmina na possibilidade de um fim reconciliado com a existência. | ||
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| - | ==== O filósofo artista ==== | ||
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| - | * A figura do filósofo artista, central em Nietzsche e encarnada por Camus, opõe-se ao filósofo universitário ao rejeitar a objetividade científica em favor de uma subjetividade criadora que une vida e obra, utilizando a arte não como um fim em si mesmo, mas como meio de invenção de novas possibilidades de existência e de expressão de uma filosofia existencial que privilegia a música, a tragédia e a afirmação dionisíaca sobre a lógica apolínea. | ||
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| - | ==== "A arte de viver em tempos de catástrofe" | ||
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| - | * O engajamento do filósofo artista distingue-se tanto da arte pela arte quanto do realismo socialista, recusando servir ideologias que sacrificam o real em nome de um futuro radioso e optando por uma arte política que se coloca ao serviço dos que sofrem a história, diagnosticando o niilismo e propondo um estilo de vida que resiste às forças da morte e celebra a vida positiva, assumindo a tarefa de falar por aqueles que foram silenciados pela opressão. | ||
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| - | ==== Como ser fiel à sua infância? ==== | ||
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| - | * Em //O Avesso e o Direito//, Camus estabelece a fidelidade à sua origem pobre e argelina como o fundamento da sua obra, utilizando a fenomenologia da pobreza para extrair valores como a dignidade, o silêncio e a fraternidade, | ||
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| - | ==== A filosofia como autobiografia ==== | ||
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| - | * A obra camusiana confirma a tese nietzschiana de que toda a filosofia é uma confissão disfarçada do seu autor, enraizada na fisiologia e na biografia, e embora Camus tenha tentado negar essa conexão para proteger o seu pensamento de ataques //ad hominem//, a indissociabilidade entre a sua vida de órfão pobre e a sua filosofia solar torna a sua personalidade irrefutável, | ||
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| - | ==== Praga ou Vicenza ==== | ||
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| - | * A oposição entre a experiência de desespero e morte na alma vivida em Praga e a redenção luminosa e dionisíaca experimentada em Vicenza estrutura a geografia espiritual de Camus, confrontando o niilismo e a escuridão da Europa central com a cura e a ressurreição do espírito proporcionadas pela luz, pela natureza e pela estética mediterrânea, | ||
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| - | ==== A meia distância da pobreza e do sol ==== | ||
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| - | * A conjunção entre pobreza e luz solar na infância de Camus impediu que a privação material se transformasse em miséria espiritual, ensinando-lhe o despojamento e o orgulho natural, em contraste com a verdadeira injustiça da pobreza vivida sob céus cinzentos e industriais; | ||
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| - | ==== Bodas em Tipasa ==== | ||
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| - | * //Bodas em Tipasa// constitui uma obra-prima de filosofia dionisíaca que rompe com a tradição acadêmica apolínea ao propor uma escrita sensorial, lírica e imediata, onde a verdade não é deduzida racionalmente, | ||
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| - | ==== Viver segundo Bodas ==== | ||
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| - | * A lição existencial de //Bodas// reside na prática de uma fenomenologia do corpo que recusa a culpa cristã e o ideal ascético, celebrando a união física com os elementos naturais como uma forma de sagrado imanente e reivindicando o direito à felicidade e ao prazer sem vergonha, numa postura pagã que vê na natureza a única divindade e no presente a única eternidade possível. | ||
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| - | ==== A criação contra a civilização ==== | ||
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| - | * A distinção entre povos civilizados e povos criadores, exemplificada pela Argélia, valoriza a vida no presente, a ausência de mitos consoladores e a aceitação da finitude sem a mediação de uma cultura que amortece o impacto da realidade, propondo uma inteligência bárbara e dionisíaca que se opõe ao niilismo cansado da Europa e define o pecado como a traição da vida presente em nome de uma esperança futura ilusória. | ||
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| - | ==== Retornar a Tipasa ==== | ||
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| - | * O retorno a Tipasa na maturidade, após as polêmicas de //O Homem Revoltado//, | ||
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