estudos:buzzi:buzzi-ip111-115-filosofia
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| + | ====== Filosofia (IP: | ||
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| + | Só é possível conhecer a realidade, isto é, torná-la presente intelectivamente, | ||
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| + | O conhecimento filosófico não é pois um afastamento do ser, uma qualquer representação do ser. Nietzsche definia o filósofo com essa elementar comparação: | ||
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| + | > «Um burro pode ele ser trágico? Sucumbir sob o peso, que não consegue suportar, nem se pode lançar fora! o caso do filósofo....» (Goetzen-Daemmerung). | ||
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| + | Em alemão «sucumbir» é zugrunde gehen, que significa ir ao fundo, no duplo sentido de aprofundar e ir a pique. A essência da filosofia estaria nesse «ir ao fundo sob o peso». E isso no duplo sentido de ir à raiz da realidade, de aprofundar, de fundamentar e no sentido de ir à breca, destruir-se, | ||
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| + | A filosofia, em seu impulso primeiro, é um pensar tão carregado do próprio ser, tão próximo à raiz do ser que não há representação que consiga recolher e comunicar seu desvelamento. Mas como o burro que deve carregar seu fardo sem sucumbir, assim o filósofo há de constantemente indagar, questionar o ser, esforçar-se por dilucidá-lo, | ||
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| + | O pensamento filosófico não é pois simples acumulação de informações, | ||
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| + | A função da filosofia é evocar, através de uma representação conceptual adequada, a evidência ou a transparência da presença do ser. A representação se faz a partir do ser, como o índio que ausculta, ouvido colado à terra, a marcha das hostes inimigas. Nessa auscultação há o sentir do passo do outro, este lhe entra pelo corpo a dentro e, nesse con-sentir, o inimigo é discernido, é descoberto, é revelado. Quando o ouvido se descola da terra, o índio sabe da existência do adversário, | ||
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| + | Portanto, o conhecer-filosófico é um representar o ser em conceitos que permanecem tão solidários ao ser que ao proferi-los evocam, sugerem sua presença. Por isso a filosofia não é representação do ser, mas presentação, | ||
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| + | > «Havia um homem que ficava tão perturbado ao contemplar sua sombra e tão mal-humorado com as suas próprias pegadas que achou melhor livrar-se de ambas. O método encontrado por ele foi o da fuga, tanto de uma, como de outra. | ||
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| + | > Levantou-se e pôs-se a correr. Mas, sempre que colocava o pé no chão, aparecia outro pé, enquanto a sua sombra o acompanhava, | ||
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| + | > Atribuiu o seu erro ao fato de que não estava correndo como devia. Então, pôs-se a correr, cada vez mais, sem parar, até que caiu morto por terra. | ||
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| + | > O erro dele foi o de não ter percebido que, se apenas pisasse num lugar sombrio, a sua sombra desapareceria e, se sentasse ficando imóvel, não apareceriam mais as suas pegadas». | ||
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| + | > (A Via de Chuang-Tzu, pp. 197-198). | ||
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| + | O episódio, narrado com tanta graça, ilustra o que seja contemplação. Na palavra contemplação está templum (temenos), que era o lugar delimitado, secionado dentro da paisagem céu-e-terra, | ||
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| + | Tespestade, em português, diz apenas distúrbios atmosféricos. Para os latinos, tempestade (tempestas) significava também o tempo oportuno. Guardamos esse sentido no termo intempestivo que é sinônimo de inoportuno, fora do tempo próprio. | ||
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| + | O áugure se colocava no templo para, olhando o pássaro, acolher o instante favorável, que lhe revelaria o sentido do tempo, a direção da história. Ele recolhia, portanto, quando menos esperava, tempestivamente, | ||
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| + | Filosofar é contemplar: é colocar-se com empenho no espaço, no templo da representação ou ação e aí permanecer, no sustine artesanal, à escuta: em tempo oportuno (tempestas) o sentido do tempo fará sua patência no pensar e a ação recobra nessa patência significativa seu vigor de continuidade e sua justiça. O pensamento reconhece assim a verdade do ser na sombra da representação. A representação é o pássaro da tempestade. O filósofo é o áugure que aí contempla o anúncio da verdade. A ação humana é justa e se encaminha ao destino certo quando nela houver momentos de parada, de escuta, de contemplação de sua verdade. A verdade norteará então a vontade nos passos da ação. | ||
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