estudos:buzzi:buzzi-i-pref-humano
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| + | ====== Humano (I:Pref) ====== | ||
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| + | //Data: 2022-09-18 21:00// | ||
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| + | ==== Itinerário ==== | ||
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| + | === Prefácio === | ||
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| + | // | ||
| + | Caminho é a passagem obrigatória de quem busca. | ||
| + | O homem é caminho que busca. | ||
| + | A busca é processada na trama da fala, no enredo da língua, no enfardamento da palavra. | ||
| + | A fala do caminho " | ||
| + | Em que país habita o caminho do homem? | ||
| + | Itinerário ajuda a ver que esse país é a gratuidade, a terra como doação dos céus. | ||
| + | O homem é insistentemente convocado a viver nesse país. | ||
| + | O habitante do país da gratuidade fala bem uma só língua: a do louvor. | ||
| + | Conquistar o louvor da gratuidade é a pátria de toda fala. | ||
| + | Nessa pátria todos os caminhos se cruzam e em seu cruzamento surge o templo da comunidade.// | ||
| + | |||
| + | ESTE livro se formou lentamente num discurso, que é apenas caminho, parábola da vida. O discurso se constitui numa sucessão de palavras, umas após outras, numa perseguição sem pouso, acerca de um tema único: a vida que já somos. A linguagem diz nossa consagração à vida. Viver é devotar-se à vida no enredo de uma língua, na trama de uma fala, no enfardamento de um palavreado. | ||
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| + | Estamos, antes de qualquer decisão, no destino e na urdidura da linguagem: sentimos em nós a doação da vida e, no toque cordial dessa gratuidade, cultivamos a virtude da devoção à vida. A devoção à vida nos leva a empreender tarefas, a frequentar cursos, a ler livros, a interpretar as possibilidades do discurso. | ||
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| + | Quanto mais desejamos aperfeiçoar o empreendimento da vida mais recorremos aos cursos para, na provocação de diferentes discursos, retomarmos com mais fervor a linguagem da vida que nos está mais próxima: o nosso diário. | ||
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| + | O que importa em toda leitura que fazemos, em todo curso que frequentamos, | ||
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| + | O livro, na arquitetura de um discurso de ideias, parece que se afasta da linguagem do viver-diário. Somos tentados a contrapor a paisagem descortinada pelo livro à paisagem conhecida do quotidiano. Essa oposição invade todos os caminhos do pensamento distraído. Surge então a dicotomia: livro e vida. | ||
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| + | No entanto, não há oposição entre livro e vida, pois nunca vivemos a vida na conquista absoluta dela mesma. | ||
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| + | Vivemo-la na leitura de nossa subjetividade, | ||
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| + | Vivemos a vida sempre numa leitura, num livro. O quotidiano é o livro fundamental. Os outros são modulações diferenciadas do mesmo. | ||
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| + | No livro-diário temos a vida na unidade dinâmica de dois níveis: o funcional e o significativo. | ||
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| + | No nível funcional andamos sempre empenhados na conquista de objetivos determinados. Aprimoramos nossas competências, | ||
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| + | O viver-diário se escoa no círculo de uma tal funcionalidade: | ||
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| + | Embora se objetive em sistemas de funcionalidade e persiga, na operatividade de tais sistemas, «bens» definidos (o salário, o alimento, o vestuário, o automóvel, o jogo, a estima de uma pessoa, a catequese de um bairro, a saúde de um doente, a alegria de quem está triste, o ânimo de quem está desanimado, o bom comportamento, | ||
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| + | Na estância do viver-diário, | ||
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| + | No desejo de sermos mais, arquitetamos projetos em cujo recinto imaginamos alcançar os «bens» que nos gratifiquem a vida em maior plenitude. A isso tudo somos compelidos pelo dom-da-vida. O impulso de louvação à vida é o nível significativo que institui os caminhos da funcionalidade e empolga os discursantes de sua fala. | ||
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| + | Na medida em que, na estância de funcionalidade do livro-diário, | ||
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| + | Este livro se inscreve no desejo de conquistar uma maior correspondência e co-pertença à vida, de tal maneira que o viver-diário seja o caminho da devoção de quem se surpreende na gratuidade absoluta da doação. | ||
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| + | A conquista de devotamento ao dom-da-vida está na linguagem deste discurso: | ||
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| + | " | ||
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| + | Depois da queda, a corrente impetuosa de águas espumantes se precipita ao longo de quarenta milhas, entre as rochas. Nem tartarugas, peixes ou crocodilos podiam nadar nesse turbilhão. | ||
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| + | Viu, porém, um homem nadando na torrente. | ||
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| + | Crendo tratar-se de um suicida cansado dos sofrimentos da vida, mandou que seus discípulos o salvassem da morte. | ||
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| + | A uns cem passos abaixo, porém, o homem saiu da água, sacudiu alegre os cabelos molhados e cantarolava. | ||
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| + | Disse Confúcio: | ||
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| + | Pensei que você fosse um espírito. Vejo, porém, que é mortal. Diga-me, por favor, em que consistem a técnica e o método de sua natação? | ||
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| + | Respondeu-lhe o mortal: | ||
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| + | Não sei. Instalei-me na terra, enraizei-me no hábito do quotidiano; no desempenho recolhido do habitat diário, alojei-me na fluência da vida; aos poucos a fluência da vida se tornou o habitáculo da minha natureza como a lei perfeita da regência do corpo. Caio na água, desço e subo com ela, na correspondência a sua doação. Não há técnica nem método. | ||
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| + | Perguntou-lhe Confúcio: | ||
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| + | O que significa instalar-se no hábito do quotidiano, alojar-se na fluência da vida, tomar corpo na regência da lei perfeita? | ||
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| + | Respondeu-lhe o homem: | ||
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| + | Sou campônio. Nasci na terra. Moro nela. Isso se chama paz, o recolhimento do diário. Da paz flui a vida. Deixar fluir a vida no recolhimento diário é o hábito. Isso se chama: ser. Com o tempo, o ser toma corpo, cresce como fruto da vida, prenhe de vigor. Tudo é uno. Cada caminho é ressonância da vida. Isso se chama: liberdade ou espírito. É só isso, nada mais". (Chuang Tzu, Thomas Merton: "A via de Chuang Tzu" cap. 19). | ||
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