estudos:braver:horizonte
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| + | ====== Horizontes ====== | ||
| + | //BRAVER, Lee. Division III of Heidegger’s “Being and time”: the unanswered question of being. Cambridge (Mass.): the MIT press, 2015.// | ||
| + | **Passando de um dado horizonte para a dação de horizontes** | ||
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| + | 1. Ser e Tempo constitui, no fundo, uma obra de fenomenologia transcendental que, apesar de conter doses de existencialismo kierkegaardiano, | ||
| + | * Para Kant, o ego transcendental utiliza as formas da intuição e os conceitos do entendimento para organizar os dados sensoriais, conferindo-lhes tempo, espaço, causalidade e objetividade. | ||
| + | * Para Husserl, a subjetividade transcendental costura múltiplas adumbrações ou perspectivas numa entidade unificada, conferindo-lhe o status de objeto único, persistente e independente. | ||
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| + | 2. Ser e Tempo segue essa abordagem básica, com diferenças importantes, | ||
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| + | 3. Um dos pontos principais da Primeira Divisão é o caráter primária e majoritariamente engajado e ativo do [[lx> | ||
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| + | 4. É por essa Lei que a primeira página do livro passa imediatamente da pergunta sobre o ser à pergunta sobre o sentido do ser, investigável apenas mediante o exame do ente que compreende e para quem o sentido pode ser — o Dasein —, perguntando Ser e Tempo pelo ser através da ontologia fundamental, | ||
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| + | 5. Uma resposta possível à pergunta sobre por que Heidegger não terminou o livro reside na hipótese de que ele de fato o terminou, sendo isso apenas difícil de perceber devido à pressa da publicação, | ||
| + | * A introdução estabelece que o Dasein é uma questão para si mesma, o que se revela fundado em seu ser-no-mundo ([[lx> | ||
| + | * A conclusão da Divisão I estabelece que a tentativa de resolver essa questão, e portanto o próprio ser-no-mundo, | ||
| + | * A Divisão II dá à espiral seu giro final ao repousar na temporalidade ([[lx> | ||
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| + | 6. Uma estranheza reside no fato de o livro não seguir exatamente essa linha de raciocínio, | ||
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| + | 7. A Divisão I estabelece três modos de ser — disponibilidade (Zuhandenheit), | ||
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| + | 8. As duas divisões foram amontoadas numa só quando a Divisão II foi apressada à impressão a fim de garantir uma promoção na Universidade de Marburg, resultando o último quarto do livro (II.iii.§65–II.vi) numa tentativa embaralhada e altamente comprimida de reconceber os modos de ser já discutidos como formas de temporalização, | ||
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| + | 9. Ser e Tempo escreve uma " | ||
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| + | 10. Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia, | ||
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| + | 11. O ser só pode ser significativo — e portanto o sentido só pode ser — para uma compreensão, | ||
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| + | 12. Ainda que o final de Ser e Tempo sugira que a exibição da constituição do ser do Dasein seja apenas um caminho possível entre outros, Os Problemas Fundamentais insiste repetidamente que a direção do caminho seguido por Kant, o retorno ao sujeito em seu sentido mais amplo, é a única possível e correta, chegando à conclusão de que todos os grandes filósofos recorrem a alguma forma de subjetividade, | ||
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| + | 13. A filosofia, para Heidegger, pergunta como o ser é e por que é assim, questões malogradas pela tradição filosófica — a primeira ao focar exclusivamente na simples presença, a segunda ao recorrer a entes particulares como Deus ou as Formas, erro posteriormente chamado de ontoteologia, | ||
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| + | 14. Nesse ponto da carreira heideggeriana, | ||
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| + | 15. A discussão crítica da tese kantiana leva à necessidade de uma ontologia explícita do Dasein, pois somente com base na exposição da constituição ontológica básica do Dasein torna-se possível compreender adequadamente o fenômeno correlato à ideia de ser, sendo a ontologia do Dasein a meta latente e a exigência constante de todo o desenvolvimento da filosofia ocidental. | ||
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| + | 16. Assim como Kant fundamentou a matemática e a ciência nas faculdades transcendentais e Husserl nomeou o estudo da consciência a ciência de todas as ciências, o estudo do ser do Dasein (a analítica existencial) torna-se a fundação da ontologia, transformando o giro moderno em direção à subjetividade, | ||
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| + | 17. O projeto kantiano é retomado com o propósito de realizá-lo corretamente, | ||
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| + | 18. O fenômeno primordial da temporalidade é assegurado ao demonstrar-se que todas as estruturas fundamentais do Dasein já exibidas são, no fundo, " | ||
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| + | 19. Um problema menor decorre do apreço arquitetônico heideggeriano por tríades baseadas nos três tempos verbais, pois embora a simples presença corresponda nitidamente ao presente e a existência corresponda ao futuro, a disponibilidade parece também primariamente futural, possuindo o equipamento passado em seu material e presente em seu uso imediato mas sendo fundamentalmente teleológico, | ||
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| + | 20. Existem três problemas mais significativos com a Teoria da Divisão Superlotada, | ||
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| + | 21. O segundo problema reside no fato de que a explicação definitiva dos traços básicos dos fenômenos por meio dos existenciais do Dasein só funciona enquanto o Dasein retiver essas estruturas particulares, | ||
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| + | 22. O Dasein torna-se de fato histórico em Ser e Tempo, mas apenas até certo ponto, sugerindo fortemente o livro que todo Dasein, em toda época e lugar, está-no-mundo do mesmo modo básico, encontrando os mesmos modos de ser, variando apenas os entes ônticos particulares mas não seus tipos ontológicos. | ||
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| + | 23. Uma das mudanças do trabalho tardio consiste no fato de que a história desce até o fundo, transformando o Dasein junto com os entes ao seu redor em mudanças epocais, tornando essa mudança insustentável a ontologia fundamental de Ser e Tempo. | ||
| + | * O que há de fundamental na ontologia fundamental é incompatível com qualquer construção sobre ela, devendo a analítica do Dasein ser repetida mais originariamente de modo completamente diferente após esclarecido o sentido do Ser. | ||
| + | * O fundamento da ontologia fundamental não é um fundamentum inconcussum, | ||
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| + | 24. Um sistema permanente de um único conjunto de modos de ser não pode ser construído sobre as areias agora movediças do ser historicamente alterável do Dasein, tendo Hegel conseguido incorporar a mudança histórica fundando ainda a ontologia no sujeito apenas por conter todas as formas possíveis de subjetividade e realidade numa totalidade completa e sistemática, | ||
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| + | 25. Essa nova ênfase na história é apoiada pelo fato de as duas obras indicadas como reconcepções da Divisão III, Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia e Introdução à Metafísica, | ||
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| + | 26. O terceiro problema decorre do movimento de Ser e Tempo consistir num recuo ou aprofundamento progressivo, | ||
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| + | 27. Aquilo para onde a atenção deve agora se voltar está mais próximo do que o habitualmente mais próximo "à primeira vista", | ||
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| + | 28. A descrição das ferramentas retorna primeiro à sua disponibilidade (Zuhandenheit), | ||
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| + | 29. Kant foi o primeiro a apelar ao sujeito para explicar traços legítimos da realidade, residindo a crítica heideggeriana à solução kantiana na falta de unificação ou justificação adequada da seleção de exatamente esses conceitos, deixando sua constituição específica como fato bruto, solução que o jovem Heidegger buscou resolver mostrando como os três modos de ser emergem do cuidado do Dasein, derivado por sua vez de sua temporalidade. | ||
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| + | 30. É evidente, contudo, que essa resposta apenas empurra a questão um passo atrás, pois esses tipos de fenômenos são experimentados porque há esses existenciais, | ||
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| + | 31. Encontra-se aqui, em veia marcadamente humeana e wittgensteiniana, | ||
| + | * Toda metafísica deixa algo essencial impensado, a saber, seu próprio fundamento. | ||
| + | * A expressão " | ||
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| + | 32. Reconhece-se que no fundo de toda atividade transcendental reside um ponto necessário e ineliminável de receptividade passiva, engolindo a lançabilidade ([[lx> | ||
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| + | 33. Essa virada pode ser lida como mudança de posição em relação a Kant e Hegel: inicialmente alinhada à objeção hegeliana contra a sacola desfundamentada de formas e conceitos kantianos, tentando Ser e Tempo resolver esse problema remetendo todos os existenciais ao tempo, passando o trabalho tardio a apreciar a profundidade da falta de resposta kantiana, alinhando-se agora a ele contra a exigência hegeliana de explicações finais, descrevendo alguns textos do final dos anos 1920 a temporalidade como o mistério último em vez da resposta final. | ||
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| + | 34. Aqui o terceiro problema da Teoria da Divisão Superlotada — a inteligibilidade última — junta-se ao primeiro — a necessidade de uma explicitação do próprio ser — através da diferença ontológica entre os entes ônticos particulares e seu ser ontológico, | ||
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| + | 35. Essa resposta à pergunta sobre por que o ser é, e por que é do modo que é, constitui intencionalmente uma não-resposta, | ||
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| + | 36. O retorno ao próprio ser estava planejado para a Divisão III, tornando sua ausência particularmente dolorosa, embora o texto publicado toque o tópico em dois lugares — o [[obra: | ||
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| + | 37. Uma discussão sobre realidade e verdade se intromete no meio dessa análise sem conexão óbvia com os parágrafos anteriores e posteriores, | ||
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| + | 38. A hipótese proposta situa esses parágrafos como parte da explicitação do próprio ser planejada para a Divisão III, ou ao menos como preparação para ela, tendo sido inseridas entre as divisões as partes com as quais havia razoável satisfação ao se decidir não publicá-la, | ||
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| + | 39. Essa definição de ser realiza várias coisas: primeiramente, | ||
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| + | 40. Somente é possível nomear o ser, pois ele não se dignará à discussão, sendo o lugar que abrange todos os locais e espaços-tempo-de-jogo, | ||
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| + | 41. Em segundo lugar, essa definição libera para a aceitação do ser tal como aparece em vez da imposição de restrições pressupostas sobre o que ele deve ser, resolvendo assim o segundo problema, o da história, permitindo o reconhecimento do fluxo da experiência tanto no dinamismo do equipamento e do mundo do trabalho inicial quanto na variedade histórica dos modos de ser do trabalho tardio, sendo essa abertura radical ao que se mostra o " | ||
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| + | 42. Em terceiro lugar, essa definição ajuda a apreciar a profunda significância da fenomenologia, | ||
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| + | 43. Esse relato da verdade supera também qualquer subjetivismo remanescente em Ser e Tempo ao remover a influência do Dasein sobre a existência e forma da clareira, não sendo mais o Dasein que projeta a clareira aberta, mas o próprio ser que se abre, atraindo o Dasein para o evento de sua ocorrência. | ||
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| + | 44. É inapropriado, | ||
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| + | 45. O retorno do Dasein ao próprio ser fora planejado para a Terceira Divisão, sendo difícil ver como tal mudança poderia efetuar-se dentro do arcabouço daquele livro, pois o ser ali era visto como experimentado pelo Dasein, em grande medida determinado pela natureza deste, negando-se ainda assim que o ser ou a verdade possam existir sem o Dasein, sendo um dos desafios do trabalho tardio manter essa interdependência mútua sem colocar o Dasein no comando. | ||
| + | * É necessária a grande inversão em que os entes não se fundam no ser humano, mas a humanidade se funda no ser. | ||
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| + | 46. Dentro do arcabouço transcendental de Ser e Tempo, a clareira é criada autonomicamente à maneira do sujeito transcendental kantiano, havendo constante ênfase no Dasein como iniciador, estabelecendo as condições de possibilidade para experimentar tipos particulares de entes que não poderiam surgir de mera recepção passiva da experiência, | ||
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| + | 47. Em Ser e Tempo, é por serem as criaturas que são e por fazerem os tipos de coisas que fazem que os entes se mostram ao Dasein de todo, e nos modos específicos em que o fazem; o trabalho tardio inverte essa formulação: | ||
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| + | 48. Essa compreensão do ser resolve os três problemas da Divisão Superlotada, | ||
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| + | 49. Essa leitura também explica outra porção mal-ajustada do texto, o [[obra: | ||
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| + | 50. Enquanto "A Origem da Obra de Arte" aponta às obras de arte para resolver esse problema, é possível que o §17 fosse destinado a antecipar a discussão da Divisão III sobre fenomenologia como solução, podendo o próprio livro Ser e Tempo ter sido pensado como possuindo o modo de ser de um signo — uma ferramenta que se ilumina sem cometer o tipo de interrupção que transforma e distorce o sujeito —, tornando a Divisão III, "Tempo e Ser", aquilo que, em O Que Se Chama Pensar, é chamado de humanidade: um signo não lido apontando para o ser que se retira. | ||
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