| Todas estas análises, que descrevem a mobilização total do mundo pela técnica na época moderna, podem fazer pensar nas que Ernst Jünger desenvolvia no seu livro Der Arbeiter (1932). O próprio Heidegger indicou, de resto, tudo o que a sua conferência sobre A Questão da Técnica (GA7) devia às «descrições de O Trabalhador», e sublinha a importância fundamental desta obra que «empreende de uma forma diferente da de Spengler aquilo de que até aqui toda a literatura nietzscheana se tinha mostrado incapaz; tenta tornar possível uma experiência do ente e do modo segundo o qual ele é, à luz do projeto nietzscheano do ente como vontade de poder» (Contribuição à questão do ser, Questions I, Paris, Gallimard, 1968, pp. 205-206). Isto não quer dizer, contudo, que Heidegger se contentaria em retomar as análises de O Trabalhador sem nada lhes acrescentar de essencial. A obra de Jünger continua, com efeito, qualquer que seja a pertinência das suas descrições, principalmente insuficiente na medida em que ela não se interroga de todo sobre as causas profundas nem sobre a significação verdadeira do reino da vontade de poder, enquanto vontade de vontade, na época moderna. «A metafísica de Nietzsche não é de modo nenhum captada de forma pensante; os caminhos de um tal pensamento não estão mesmo indicados; pelo contrário, em lugar de se tornar problemática no verdadeiro sentido da palavra — isto é, digna de questão —, esta metafísica torna-se evidente e aparentemente supérflua» (Ibid., p. 206). Noutros termos, Jünger descreve a mobilização técnica do mundo servindo—se de conceitos da metafísica nietzscheana mas sem pôr em questão estes conceitos. Para Jünger, a mobilização técnica do mundo é a resposta adaptada à promoção do niilismo, caraterística da época moderna. Longe de estar cheia de ameaças, ela marca o advento de uma nova figura do homem, desenhada sobre o super-homem nietzscheano, a do Trabalhador, herói dos tempos modernos. Esta visão «heroica» da técnica acentua ainda a técnica, segundo Heidegger, e não permite aperceber a essência da técnica, e ainda menos o perigo que lhe é inerente. E este perigo insuspeito, e isto de forma necessária, por Jünger que Heidegger trata, pelo contrário, de estigmatizar. A técnica, «a ordenação desdobra o seu ser, diz ele, como o perigo» (GA11, A viragem, Questions IV, Paris, Gallimard, 1976, p. 142). | Todas estas análises, que descrevem a mobilização total do mundo pela técnica na época moderna, podem fazer pensar nas que Ernst Jünger desenvolvia no seu livro Der Arbeiter (1932). O próprio Heidegger indicou, de resto, tudo o que a sua conferência sobre A Questão da Técnica (GA7) devia às «descrições de O Trabalhador», e sublinha a importância fundamental desta obra que «empreende de uma forma diferente da de Spengler aquilo de que até aqui toda a literatura nietzscheana se tinha mostrado incapaz; tenta tornar possível uma experiência do ente e do modo segundo o qual ele é, à luz do projeto nietzscheano do ente como vontade de poder» (Contribuição à questão do ser, Questions I, Paris, Gallimard, 1968, pp. 205-206). Isto não quer dizer, contudo, que Heidegger se contentaria em retomar as análises de O Trabalhador sem nada lhes acrescentar de essencial. A obra de Jünger continua, com efeito, qualquer que seja a pertinência das suas descrições, principalmente insuficiente na medida em que ela não se interroga de todo sobre as causas profundas nem sobre a significação verdadeira do reino da vontade de poder, enquanto vontade de vontade, na época moderna. «A metafísica de Nietzsche não é de modo nenhum captada de forma pensante; os caminhos de um tal pensamento não estão mesmo indicados; pelo contrário, em lugar de se tornar problemática no verdadeiro sentido da palavra — isto é, digna de questão —, esta metafísica torna-se evidente e aparentemente supérflua» (Ibid., p. 206). Noutros termos, Jünger descreve a mobilização técnica do mundo servindo—se de conceitos da metafísica nietzscheana mas sem pôr em questão estes conceitos. Para Jünger, a mobilização técnica do mundo é a resposta adaptada à promoção do niilismo, caraterística da época moderna. Longe de estar cheia de ameaças, ela marca o advento de uma nova figura do homem, desenhada sobre o super-homem nietzscheano, a do Trabalhador, herói dos tempos modernos. Esta visão «heroica» da técnica acentua ainda a técnica, segundo Heidegger, e não permite aperceber a essência da técnica, e ainda menos o perigo que lhe é inerente. E este perigo insuspeito, e isto de forma necessária, por Jünger que Heidegger trata, pelo contrário, de estigmatizar. A técnica, «a ordenação desdobra o seu ser, diz ele, como o perigo» (GA11, A viragem, Questions IV, Paris, Gallimard, 1976, p. 142). |