estudos:bollnow:chambon:henry
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| + | ====== Michel Henry ====== | ||
| + | //CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.// | ||
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| + | **A crítica de M. Henry** | ||
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| + | 1. M. Henry afirma que " | ||
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| + | 2. A situação já sempre se anuda antes que se possa voltar sobre ela para compreendê-la e a ela se dispor, prescrevendo a essência da situação, entre outras impossibilidades, | ||
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| + | 3. O êxtase confunde-se, | ||
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| + | 4. O problema é levantado em passagem de "Vom Wesen des Grundes" | ||
| + | * Heidegger assevera que "que ela seja em potência um si-mesmo, e que o seja de fato proporcionalmente cada vez à sua liberdade, que a transcendência se temporalize como ato proto-histórico, | ||
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| + | 5. O acesso aos entes fora de nós supõe-se repousar sobre sua superação, | ||
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| + | 6. O sentir-se em meio ao ente origina-se de uma superação, | ||
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| + | 7. Relativo ao homem e condição da finitude, o Mundo tem caráter transcendental, | ||
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| + | 8. Reconhecer isso é negar a relatividade do ser e do ente, transformando-a em traço positivo da transcendência, | ||
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| + | 9. A sequência do texto de Heidegger admite, contudo, que algo escapa ao seu poder, questionando-se como a situação resultaria inteiramente da transcendência, | ||
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| + | 10. Heidegger vê-se obrigado a reconhecer a realidade da situação, falando de uma impotência que afeta o próprio gesto da liberdade, anunciando essa impotência a incapacidade do gesto de sustentar-se a si mesmo, havendo algo na transcendência que a impede de ser inteiramente fundamento. | ||
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| + | 11. A crítica de M. Henry visa mostrar explicitamente que a transcendência não pode fundar-se a si mesma, não podendo sustentar a relação de compreensão que a une ao homem e pela qual este a penetra, pois se o homem fosse fundado pela transcendência do Ser, ultrapassado por sua exterioridade como os demais entes, como poderia penetrá-la. | ||
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| + | 12. Se o homem estivesse inteiramente fora, romper-se-ia o vínculo privilegiado do Ser com sua testemunha, sendo necessário, | ||
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| + | 13. M. Henry levanta as contradições do texto de Heidegger a fim de mostrar a independência da situação em relação ao ato de sua compreensão, | ||
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| + | 14. O movimento pelo qual a transcendência a esclarece é segundo em relação à situação e não a produz, sendo-lhe o ser-no-mundo anterior, reprovando M. Henry a Heidegger não ter pensado essa anterioridade, | ||
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| + | 15. Permanece diferente, porém, a perspectiva de M. Henry, que afirma não residir a impotência da transcendência apenas no resultado do avanço do existente, isto é, no investimento pelo mundo idêntico a seu projeto, não residindo tampouco nesse investimento a situação que ela determina e que por ela se constitui. | ||
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| + | 16. O investimento continua sendo, para ambos os autores, produto da transcendência, | ||
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| + | 17. Isso faz da finitude um caráter transcendental, | ||
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| + | 18. O desdobramento do conceito de situação não deixa, porém, de ter sentido profundo, desconhecido por Heidegger, visando ainda assim mostrar que a transcendência não funda a transcendência, | ||
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| + | 19. Um ser inteiramente fora de si não conservaria a proximidade necessária consigo mesmo para acolher sua finitude, implicando a situação provada como tal, e o próprio cumprimento do movimento de transcendência, | ||
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| + | 20. A essência da finitude, conforme sua significação transcendental, | ||
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| + | 21. Questiona-se se uma perspectiva egológica resolve bem a dificuldade, | ||
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| + | 22. A exterioridade repousa ainda sobre si mesma, não exigindo o círculo que se o supere, mas que nele se instale e se pensem suas implicações, | ||
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| + | 23. M. Henry critica a estrutura cíclica que Heidegger atribuía à compreensão ontológica, | ||
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| + | 24. Não se pode ao mesmo tempo destacar a natureza transcendental da relação ao homem e considerar que a essência do Dasein é ser fundada pelo Ser, sendo isso fazer do homem, cujo papel privilegiado se afirma, contudo, um ente entre outros. | ||
| + | * M. Henry afirma que "o sentido último da doutrina é sem dúvida o recobrimento e finalmente a identificação da relação transcendental com a simples relação de imanência que confere cada vez o ser ao ente", sendo a fundação transcendental identificada por Heidegger ao ser-no-mundo. | ||
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| + | 25. Considerar o homem como o referente da compreensão ontológica e o polo da transcendência, | ||
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| + | 26. Segundo M. Henry, uma relação transcendental entre o homem e o Ser não impede, sem dúvida, que o homem esteja situado no campo do Ser, mas implica que sua parte essencial escape a essa situação, não sendo o homem um ente, pois como poderia sê-lo se institui o Ser e sua transcendência. | ||
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| + | 27. O privilégio que o homem adquire na relação compreensiva deveria destituí-lo de sua condição ôntica, mantendo Michel Henry o caráter transcendental da situação, questionando-se se, ao fazer do avanço ôntico um resultado da transcendência, | ||
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| + | 28. O que M. Henry lhe recusa então é o poder de seu próprio poder, recusando-lhe deter o poder de fundar a situação, sendo esse poder emprestado, sustentando que a situação não deve resultar da superação precisamente por ser característica transcendental, | ||
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| + | 29. Retirando todo alcance intramundano à situação, a distinção entre a situação e sua compreensão perde seu sentido, comportando o cumprimento da transcendência uma colocação em situação, sendo seu poder tornar o homem finito, devendo pensar-se o caráter inexorável e a realidade da situação. | ||
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| + | 30. Sem isso a transcendência flutuaria no ar, como um sonho, sendo necessário conferir-lhe peso, valor de realidade, revelando o discernimento entre a situação e sua compreensão na atitude sua plenitude de significação, | ||
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| + | 31. A ideia de que a transcendência funda a situação é, contudo, parcialmente verdadeira, no sentido de que o cumprimento da transcendência supõe a descoberta do si em meio aos entes, implicando o cumprimento da transcendência sua submissão a ela, tratando-se de estrutura complexa caracterizada pela extrema relatividade dos elementos que a constituem. | ||
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| + | 32. A transcendência se cumpre ao nos confrontar com o fato de uma situação não criada, sendo assim o Dasein verdadeiramente, | ||
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| + | 33. O Dasein participa da constituição de seu fundamento na medida em que este cumpriu sua obra, questionando-se se essa estrutura de dupla remissão pode subsistir por si mesma, remetendo a dupla remissão a um fundamento mais antigo que comportava em si a necessidade de remeter, ao se cumprir, a um ente tal como o homem. | ||
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| + | 34. O que está em questão, e que torna difícil a análise da situação, é o duplo processo em jogo, sendo o cumprimento da transcendência, | ||
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| + | 35. O Todo já não contém o ente, sendo este remetido a si, caindo a parte como que fora do Todo, dando isso a impressão de que o Todo já não é o Todo e de que a relação de pertencimento está rompida, nascendo daí a sugestão de uma relação transcendental entre o Todo e o ente. | ||
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| + | 36. Na medida em que a remissão a si da parte é uma delimitação, | ||
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| + | 37. A promoção da parte no isolamento que parece destacá-la de todo situs interno não é, afinal, senão indício da relação essencial que une a operação de limitar ao limite, sendo natural que uma potência de limitação se cumpra numa limite que cai fora dela, refletindo isso ainda mais firmemente o pertencimento e a unidade que deve religá-los. | ||
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| + | 38. É por isso que se disse residir a dupla remissão do homem ao Ser e do Ser ao homem em um fundamento mais antigo, residindo tudo em não considerar a exteriorização como fenômeno estático, revertendo, ao contrário, uma concepção transcendental da superação a fundá-la sobre si mesma. | ||
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| + | 39. Isso é dar-lhe o poder de fundar a situação e produzir a afecção daquele que a sofre, revertendo nisso a superação horizontalmente compreendida ao homem, e então já não se compreenderia a razão dessa remissão ao homem, tornando o suporte da transcendência por si mesma incompreensível e gratuita a necessidade que designa o homem como um de seus polos. | ||
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| + | 40. Seria preciso considerar isso sob a luz de um relativismo mais geral, estando o sujeito fora, produzido pela transcendência que sofre e que não pode ser posta a sua conta, sendo nisso mesmo a abertura remetida a ele, estando o sujeito, embora relativo a ela, fisicamente fora, no campo dessa abertura. | ||
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| + | 41. O sujeito é remetido à abertura que se abriu sem ele, sendo o sujeito o polo da abertura por ser esta uma exterioridade escancarada, | ||
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| + | 42. É contraditório conferir valor absoluto ao referente de uma dimensão relativa, testemunhando o fato de a abertura ser relativa ao sujeito que este não é seu polo nem sua origem originária, | ||
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| + | 43. Somos assim obrigados a buscar, atrás do sujeito, seu fundamento, não podendo esse fundamento ser um constituinte em sentido absoluto, um ego. | ||
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