estudos:bollnow:chambon:diferenca
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:bollnow:chambon:diferenca [27/07/2026 09:05] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:bollnow:chambon:diferenca [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Diferença ====== | ||
| + | //CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.// | ||
| + | |||
| + | **A irrealidade real da diferença** | ||
| + | |||
| + | 1. A unidade do Mundo e do ente, pensada por Eugen Fink, revela que a transcendência horizontal atesta, por sua estrutura, uma transcendência vertical na qual o ente é erguido e sustentado, de modo que meditar a verticalidade da transcendência prolonga naturalmente a transcendência horizontal a partir de seu caráter significativo. | ||
| + | |||
| + | 2. A transcendência horizontal, caracterizada pela diferença ontológica entre o ente e o Ser, revela-se como sintoma da não subsistência do Ser, pois sua radical diferença em relação ao ente impede que ele se mantenha isolado, conduzindo Fink a naturalizar a diferença ontológica e a distinguir dois modos de ser-no-mundo ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 3. Suspeita-se que a relação horizontal entre o Ser e o ente anuncia uma relação de pertencimento vertical, sendo por isso segunda em relação a esta, de modo que o desdobramento horizontal se configura como um mirage de uma transcendência recolhida no ente, ainda que este mirage não seja ilusão, pois o mesmo campo se desdobra nas duas diferenças, | ||
| + | * Kant afirma que o Mundo não pode ser conhecido como coisa entre coisas, pois "nunca vemos o Todo, apenas um setor limitado do nosso olhar", | ||
| + | |||
| + | 4. A não objetividade do espaço não implica automaticamente sua irrealidade, | ||
| + | * Fink assevera que, ao transferir o mundo para o sujeito, tomando o homem como morada por excelência onde o mundo se forma, "o homem adquire uma significação ontológica muito acima de todos os seus privilégios ônticos conhecidos por outro lado". | ||
| + | * A redução da dimensão extática à condição humana aproxima-se do problema que leva Kant a fazer do Mundo uma ideia reguladora da experiência, | ||
| + | * Fink observa que, em Kant, "o mundo não significa senão o todo do fenômeno que é preciso pensar como totalidade, mas não o todo do ente em si", de modo que o mundo é compreendido a partir do fenômeno, e não o fenômeno a partir do mundo. | ||
| + | |||
| + | 5. É necessário pensar o problema do Mundo em seu sentido correto, restituindo-lhe sua função cosmológica, | ||
| + | |||
| + | 6. O horizonte da totalidade que se recorta na manifestação não se revela como simples espaço dispensador de aparecimento, | ||
| + | |||
| + | 7. A dimensão extática da existência não é qualidade do homem, mas se funda no Mundo enquanto universo, pois é porque o Mundo é o Todo em si do ente, o Real em sua unicidade, que o homem lhe está aberto e recebe dele sua abertura ao além de si mesmo. | ||
| + | |||
| + | 8. O Mundo permanece ainda um pensamento, o pensamento humano por excelência, | ||
| + | |||
| + | 9. O pensamento do Mundo possui o homem, e não o inverso, pois a abertura ao mundo não coube ao homem, mas o homem é que coube à abertura ao mundo, existindo extaticamente voltado para a extensão do universo do qual lhe advém a luz da razão, da linguagem e da compreensão ontológica, | ||
| + | |||
| + | 10. As indicações de Fink permitem compreender melhor a identidade do saber e do ser e como a compreensão humana do ser se articula sobre a totalidade do ser em si, ainda que sem revelar suficientemente a natureza dessa relação, remetendo às pesquisas de Fink sobre o imaginário e a irrealidade. | ||
| + | |||
| + | 11. A reflexão de Fink sobre o imaginário é antiga, remontando a um artigo de época husserliana no qual têm origem certas ideias de "O Jogo como Símbolo do Mundo", | ||
| + | |||
| + | 12. A fenomenologia husserliana, | ||
| + | |||
| + | 13. A originalidade das análises fenomenológicas está em distinguir o objeto imaginário do simples imagem, mostrando Fink como os objetos da lembrança e da representação são realmente, à sua maneira, exteriores, dado que a representação, | ||
| + | * O mundo refletido possui espaço irreal próprio, no qual as coisas refletidas têm seus lugares e relações de lugares, sendo esse espaço do mundo refletido dotado de profundidade irreal. | ||
| + | * Sendo a representação dotada de mundanidade análoga à da percepção, | ||
| + | |||
| + | 14. Da mundanidade da representação resulta que o irreal pode absorver seu espectador, podendo o homem perder-se no lembrar, no sonho ou no imaginário a ponto de esquecer momentaneamente seu mundo presente, revelando essa fascinação a autonomia da aparência frente ao real. | ||
| + | |||
| + | 15. O mundo representado não equivale ao mundo real da percepção, | ||
| + | * As retenções constituem despresentificações, | ||
| + | |||
| + | 16. A representação integral do passado é impossível, | ||
| + | |||
| + | 17. A obscuridade do passado revela a dependência da consciência em relação ao horizonte do tempo, podendo ela remontar de uma lembrança distante a uma mais próxima, mas não descer indefinidamente por via representativa, | ||
| + | |||
| + | 18. A diferença entre representações e horizontes de ausência evita confundir percepção e representação, | ||
| + | * Assim como a arte para Schopenhauer, | ||
| + | * Kant insistiu primeiramente sobre a imaginação, | ||
| + | |||
| + | 19. Fink redescobre temas análogos aos kantianos, mas lhes restitui a profundidade devida, sustentando que a imaginação só pode ser médium revelador do horizonte se este permanecer independente dela, pois transformada em visão atual a experiência do horizonte se reduziria a mera imagem incapaz de penetrar a envergadura própria do longínquo. | ||
| + | |||
| + | 20. A representação, | ||
| + | |||
| + | 21. O enraizamento das representações confere-lhes estrutura de mundo que permite a iteração das representações, | ||
| + | |||
| + | 22. Coloca-se o problema do estatuto da irrealidade, | ||
| + | * Questiona-se o estatuto ontológico do fictum, revelando-se ineficazes os conceitos habituais da fenomenologia para submetê-lo à divisão entre objetos imanentes e transcendentes, | ||
| + | |||
| + | 23. O mundo da representação não flutua no nada, ancorando-se no fluxo real dos vividos que co-constituem a percepção, | ||
| + | * Fink afirma em "O Jogo como Símbolo do Mundo" que "o tempo dos acontecimentos do mundo refletido se abre sobre o tempo dos acontecimentos reais", | ||
| + | |||
| + | 24. A questão da articulação entre o mundo real e o mundo da representação confirma a impossibilidade de reduzir a consciência de representação a uma consciência de imagem, sendo instrutivo refletir sobre o estatuto de uma imagem objetiva, como a de um quadro, cuja função de imagem se revela problemática por articular um suporte real e um mundo irreal. | ||
| + | |||
| + | 25. Na imagem coincidem o suporte real e o mundo da irrealidade, | ||
| + | * A imagem é ela mesma uma janela, janela do vasto real sobre o campo fechado do irreal contido pelo suporte, e janela do mundo irreal sobre o mundo real, sendo a fenestralidade da imagem o paradoxo desse entre-dois. | ||
| + | |||
| + | 26. A clivagem do ego entre sua posição de espectador do suporte da imagem no mundo real e sua posição de espectador do mundo de imagem faz o ego residir no entre-dois, descobrindo também o vivido de consciência correspondente a irrealidade como momento de seu ser que não pode conter. | ||
| + | |||
| + | 27. Se a percepção de uma imagem objetiva é paradoxal, mais ainda o é a consciência de representação, | ||
| + | * O reflexo dos dados representados nos momentos impressionais significa a abertura desses momentos ao irreal, revelando os horizontes de retenção e protenção penetrarem os momentos impressionais e torná-los aptos a servir secundariamente de suporte às representações. | ||
| + | |||
| + | 28. O problema colocado à fenomenologia descritiva pela consciência representativa concerne ao estatuto de seu suporte impressional, | ||
| + | * Michel Henry, comentando Husserl, observa que "a finitude do conhecimento não resulta do fato de o ente possuir propriedades em número infinito, reside no modo de dado do ente, isto é, no ente enquanto é um objeto", | ||
| + | * O mundo é pré-dado como campo de experiência real ou possível, como conjunto dos horizontes co-dados, movendo-se toda experiência de entes determinados num sistema de familiaridade com as coisas que a redução fenomenológica coloca em relevo sem suprimir o momento do objeto transcendente, | ||
| + | |||
| + | 29. A redução que distingue o Mundo como correlato do ego fratura a unidade do objeto transcendente, | ||
| + | |||
| + | 30. O arrancamento dos horizontes à familiaridade enganosa que os mascara não contradiz a explosão da unidade do Mundo, pois há vínculo entre a concepção transcendental do Mundo e a negação de seu caráter de totalidade, ganhando a consciência o poder de constituir os horizontes ao negar a generalidade única e primeira do Mundo, restando apenas multiplicidade de horizontes particulares articulados segundo modos arquitetônicos diversos. | ||
| + | |||
| + | 31. A concepção segundo a qual a temporalidade organiza uma matéria por uma forma pressupõe o corte radical entre o material sensual e a atividade intencional, | ||
| + | * Sartre resume que é a impossibilidade de os termos em número infinito de uma série existirem simultaneamente diante da consciência, | ||
| + | |||
| + | 32. A descrição da consciência de irrealidade contraria o corte radical entre matéria e forma, obrigando a pensar relação mais estreita entre o conteúdo impressional e os horizontes de retenção e protenção, | ||
| + | |||
| + | 33. Se a temporalidade é médium entre o tempo do real e o da representação, | ||
| + | |||
| + | 34. "O Jogo como Símbolo do Mundo" retoma a questão do estatuto da imagem e de sua relação com o suporte, não bastando as condições físicas da reflexão para esgotar o ser da imagem, cujo próprio é não ter existência substancial, | ||
| + | * Fink observa que "mesmo que a imagem, em sua função de cópia, se afaste de si mesma, mesmo que se dê como não original e diga seu afastamento em relação ao original, não deixa de ser que a não originalidade é ela mesma uma maneira do ser autônomo; enquanto imageada, a imagem é original" | ||
| + | |||
| + | 35. A solução não reside em fazer da consciência humana o fundamento do caráter de remissão significativo da imagem, pois ainda que essa ideia remedeie a insuficiência da explicação pelo suporte material, permanece insuficiente, | ||
| + | |||
| + | 36. Toda essa articulação converge para o mistério da relação entre o irreal e o real, poupando o irreal de reduzir-se a produção da consciência, | ||
| + | |||
| + | 37. Nem toda imagem é cópia, gozando pintor e poeta de liberdade de estilo que os liberta de originais, o que aparece também no fenômeno dos jogos, os quais não imitam servilmente a vida séria, possuindo antes poder de encantamento capaz de arrancar momentaneamente o homem à estreiteza de sua existência e de libertá-lo do cuidado e do peso do passado, sendo a autonomia do imaginário idêntica ao fato paradoxal de sua realidade. | ||
| + | |||
| + | 38. O imaginário não possui essa realidade acima do real por si mesmo, permanecendo dimensão segunda cuja subsistência repousa sobre realidades, como as personagens sobre a pessoa física dos atores, remetendo novamente ao médium do real e do irreal. | ||
| + | |||
| + | 39. A relação entre o irreal e o real repousa sobre a dimensão originária que os reúne, o Mundo como totalidade em si, meio supremamente concreto de todas as coisas e por isso mesmo irreal, pois não tem realidade por si, não subsistindo sem o ente, sendo real como fundamento deste. | ||
| + | * Fink assevera que "o ser do mundo não se encontra como região de coisas mais fortes e mais poderosas ao lado, atrás ou acima das coisas ordinárias; | ||
| + | |||
| + | 40. É porque o Mundo é a potência geradora do Tempo que ele não possui existência própria à maneira de um Ente Supremo, consistindo a atualidade ou realidade do Tempo apenas no existente que traz consigo, no próprio ato de trazer, sendo essa atualidade jamais acabada constantemente penetrada por certa irrealidade que entra em sua natureza sem defini-la, conferindo a atividade em gênese uma realidade segunda à dimensão do imaginário. | ||
| + | |||
| + | 41. Quando a imaginação se liberta de sua sujeição a um modelo, suas imagens deixando de ser cópias, ela não deixa de se referir mais estreitamente à realidade, fazendo sinal não para as coisas mas para seu ser, designando e manifestando o Outro das coisas não como o que delas está separado, mas como aquilo que a elas remete, no que consiste o fato dos símbolos. | ||
| + | |||
| + | 42. Ocorre um completamento que reporta explicitamente as coisas finitas, enquanto coisas individuais e finitas, ao mundo que a tudo engloba, tornando-se então símbolos não como signos para outra coisa, mas como símbolos em si mesmas na medida em que apresentam sua finitude como intramundanidade. | ||
| + | * Fink afirma que as coisas reportam explicitamente as coisas finitas, individuais, | ||
| + | |||
| + | 43. Coloca-se a questão do vínculo entre a intramundanidade em si e sua revelação, | ||
| + | |||
| + | 44. O Todo é imagem porque a superação remete ao ente sem designar além dele nenhuma realidade subsistente, | ||
| + | * Fink afirma que "o Todo que nunca é visível como Todo aparece num campo interior a ele mesmo; ele se reflete em si mesmo", | ||
| + | |||
| + | 45. Da intramundanidade a sua revelação produz-se como um retorno, sendo a manifestação do Mundo imagem de uma imagem, imagem daquilo que, sendo já imagem no em-si, não podia distinguir-se e tornar-se primitivamente visível por si mesmo, mas que, sendo imagem, possuía por princípio a possibilidade de refletir-se além dos entes e indicar-se num ultrapassamento finito. | ||
| + | |||
| + | 46. Que no ultrapassamento o Mundo seja reportado ao ente não tem significação restritiva alguma, pois o Mundo, nada sendo de ôntico, não subsistiria independentemente do ente, não sendo o existente ultrapassado rumo a uma realidade que o sobrevoa, aparecendo o reenvio do Mundo ao intramundano como restrição apenas em face de uma visada tensa rumo a um pretenso objeto absoluto por trás do ente. | ||
| + | |||
| + | 47. Ainda que nada encontre além do ente, o ultrapassamento permanece sendo ultrapassamento, | ||
| + | |||
| + | 48. O Mundo é ideia no fenômeno, mas não como ideia reguladora, sendo antes ideia por anunciar, por analogia, uma relação cósmica da qual se faz signo, não podendo esse signo ser ideia do homem ou do sujeito sob pena de perder seu valor iniciático, | ||
| + | |||
| + | 49. A idealidade do ultrapassamento consiste em sua incapacidade de sustentar-se a si mesmo, pressupondo a atualidade do movimento gerador do Tempo, o qual não tem realidade alguma sem o ente, enquanto ultrapassamento agente e criador inseparável de sua criação, significando essa idealidade o caráter segundo da transcendência horizontal, que se torna assim espécie de imagem ou ideia relativa a quem a conhece. | ||
| + | |||
| + | 50. Essa idealidade não significa, contudo, que o ultrapassamento esteja contido na representação do sujeito, sendo necessário compreender melhor como se constitui o pensador capaz de conter a ideia ou imagem do cosmos sem reduzi-la à sua representação, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
