estudos:bollnow:chambon:arqui-insuficiencia
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| + | ====== Arqui-insuficiência ====== | ||
| + | //CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.// | ||
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| + | **Reflexão da arqui-insuficiência** | ||
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| + | 1. O completamento recíproco do Interior e do Distante destina-os a ser cada um o representante do outro, sendo a imagem a presença do distante como distante que transborda e delimita o Interior, sendo cada qual fundamento do outro, caracterizados por insubstancialidade que os destina a completar-se mutuamente. | ||
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| + | 2. A insubstancialidade recíproca do fundamento e daquilo que ele funda, do fundamento como fundamento, do fundado como fundado, é o tema axial de "O Mundo como Percepção e Realidade", | ||
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| + | 3. Tudo se enoda em torno da questão de saber como a Representação é cena de existência, | ||
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| + | 4. A abertura é extática por seu caráter de visão, de contemplação, | ||
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| + | 5. Schopenhauer constatou a existência do círculo, tentando resolver a contradição ao fazer do círculo a própria prova do caráter puramente fenomenal e representativo do conhecimento. | ||
| + | * Schopenhauer afirma que "o indivíduo é, de um lado, o sujeito do conhecimento, | ||
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| + | 6. O relativismo do conhecimento caracteriza-se pela inseparabilidade do sujeito e do objeto, questionando-se se o campo do conhecimento não aparece como independente do sujeito, que nele se encontra por princípio, sendo o pertencimento do sujeito ao mundo das formas visíveis seu ser-fora-de-si, | ||
| + | * Schopenhauer afirma que, "desde que nos avisamos de penetrar em nós mesmos, e dirigindo o olho de nosso espírito para dentro, queremos contemplar-nos, | ||
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| + | 7. Essa interpretação do círculo, combinando realismo empírico e idealismo transcendental, | ||
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| + | 8. Como forma existente na cena, o sujeito não é nela apenas objeto visível de fora, questionando-se como poderia sustentar a cena se fosse apenas puro olhar, ser inteiramente fora de si, suscitando-a apenas como forma do conhecimento, | ||
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| + | 9. O advento da distância entre espectador e objetos, fazendo destes objetos para ele, não lhe permite, contudo, dominá-los, | ||
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| + | 10. Pelo ultrapassamento que institui, a distância é revelação de horizonte, sendo o horizonte assim revelado anúncio do caráter de totalidade do ser, sendo o ultrapassamento uma aparição do Mundo como Mundo, modificando o saber do Mundo as condições de existência de seu depositário. | ||
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| + | 11. Este se torna existente não portado, rejeitado sobre a estreiteza da finitude, sentindo duramente os limites de sua condição, encontrando ao esbarrar neles a coação de fazer-se a si mesmo, sendo remetido a si porque a Terra-Mãe o abandonou e rejeitou para fora de seu seio. | ||
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| + | 12. O espetáculo é o processo pelo qual a Totalidade emerge de sua noite e se distingue dos entes em geral e do ente que se é a si mesmo, processo pelo qual um existente, projetado ao grau supremo da elevação, retomba cruelmente sobre si para descobrir explicitamente a insuficiência de sua forma. | ||
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| + | 13. Essa descoberta não se acrescenta a uma forma já dada que permaneceria indiferente ao ultrapassamento, | ||
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| + | 14. Uma imagem está em obra, não pertencendo, | ||
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| + | 15. A autonomia da autoabstração é possível pelo fato de a imagem ter valor cósmico, repousando o desprendimento por si da imagem, a imagem da imagem, sobre primeira imagem que é o Todo, imagem que não é representação, | ||
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| + | 16. A autorreflexão de uma imagem insubstancial tem, contudo, segunda condição: necessita de base empírica e sensível, supondo a reflexão, o autodestacamento de uma imagem por si mesma insubstancial, | ||
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| + | 17. A reflexão da imagem supõe um plano anterior do qual se destacar escavando a distância, desdobrando-se a reflexão ao articular-se sobre esse plano anterior, sendo a abstração processo ao mesmo tempo empírico e aprioristico. | ||
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| + | 18. Se, em sua constituição, | ||
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| + | 19. R. Chambon aprofundou essa noção de um inconsciente perceptivo, distinguindo o pensamento no sentido corrente, performance facultativa do sujeito exercida a partir do já aparecido, do pensamento intraperceptivo, | ||
| + | * Chambon afirma que "o pensamento intraperceptivo... informa um aparecer em vinda e não poderia ser posto na conta de um sujeito que só existirá na aparição cumprida, enquanto aparecido para si mesmo" | ||
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| + | 20. Outro requisito do círculo da representação e da existência é que o sujeito não visione os limites de seu campo, havendo presença reunida, proximidade do longínquo e da extensão infinita que transborda como horizonte a esfera dos objetos visíveis, começando todo conhecimento por sensibilidade ao longínquo. | ||
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| + | 21. Essa presença não deve ser entendida como informação clara sobre os limites de nosso campo de visão, indecisos e não oferecidos objetivamente, | ||
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| + | 22. Se pudéssemos superar nossos limites representando-nos a extensão que os engloba e mede, seríamos rejeitados neles e incapazes de ultrapassar o círculo da experiência sensível, sendo toda representação do horizonte, que parece dar ao sujeito posição livre, objetivação dos limites. | ||
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| + | 23. A objetivação dos limites separa a região encerrada pelas fronteiras daquela que se encontra além, não tendo mais acesso a região dentro das fronteiras ao território exterior, estando, contudo, a proximidade dos longínquos enodada à experiência sensível, embora ateste seu ultrapassamento em relação a ela. | ||
| + | * Cita-se descrição segundo a qual "o que aparece primeiro e continua a aparecer no seio e ao redor de toda presença concreta qualificada... é o campo de presença, a imensidão do vazio estendido que envolve cada existência atual" | ||
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| + | 24. Acrescenta-se que "o campo de presença se estende de modo ilimitado", | ||
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| + | 25. Quando soubermos em que reside a unidade da representação e da existência, | ||
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| + | 26. O real se dá sob o modo da dureza, do obstáculo, da resistência, | ||
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| + | 27. A transcendência ultrapassa o homem por ter caráter de totalidade, não sendo apenas projeção das formas do conhecimento sensível, só tendo caráter de totalidade se não tiver apenas valor fenomenal, revelando-se enodada em si ao ente, sendo o processo que abre para o ser em si do Mundo como Mundo. | ||
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| + | 28. Ela desemboca no que é em si relação de portança, pertencimento e participação, | ||
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| + | 29. Uma descrição puramente antropológica dessa complementaridade é incapaz de elucidar sua natureza, não possuindo o homem, sem que se saiba por quê ou como, esses dois caracteres antinômicos de sua relação com o real como propriedade de sua experiência, | ||
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| + | 30. Antes de responder a essa difícil questão, retorna-se à relação entre representação e existência, | ||
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| + | 31. A transfenomenalidade é manifestação do ser em si no fenômeno, transbordamento do fenômeno no fenômeno, unidade do ser e do fenômeno, falando o autor de "O Mundo como Percepção e Realidade" | ||
| + | * Cita-se que "a expressão do fato é necessariamente paradoxal, tratando-se, | ||
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| + | 32. A unidade paradoxal do dado e do não-dado significa que o ser habita o fenômeno, havendo um ser-do-fenômeno que não é seu ser-fenômeno, | ||
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| + | 33. Como anunciando um além constitutivo de si mesmo, indicando a independência e prioridade do ser em si, o fenômeno tem valor analógico, valor de idealidade, mas não de idealidade subjetiva, desenhando-se uma adequação entre as formas da sensibilidade e o quadro total do Mundo. | ||
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| + | 34. Se a consistência objetiva do fenômeno é manifestação do ser em si, as formas da representação sensível são também as dimensões de ser da Totalidade, lançando essa adequação luz sobre o caráter insuficiente e enganoso do realismo empírico. | ||
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| + | 35. Sartre e Merleau-Ponty negavam serem as sensações conteúdos internos da consciência, | ||
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| + | 36. R. Chambon sublinha as contradições que caracterizam a demonstração sartriana das pretensas insuficiências das doutrinas fisiológicas da sensibilidade, | ||
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| + | 37. Segundo Sartre, o estabelecimento desse resultado compreende três momentos contraditórios: | ||
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| + | 38. É um círculo vicioso, sendo a única maneira de escapar, segundo Sartre, retornar ao realismo primitivo da experiência, | ||
| + | * Chambon afirma que "o argumento do Cretense se volta aliás contra Sartre. Supondo que este tenha razão, apesar das impossibilidades intrínsecas do realismo ingênuo, as experiências sensoriais desvendariam bem as coisas em pessoa" | ||
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| + | 39. Chambon sublinha a implacável contradição segundo a qual a descoberta do sítio subjetivo das sensações, | ||
| + | * G. Granel sublinhou também, a seu modo, a antinomia da representação, | ||
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| + | 40. Diante dessa complementaridade paradoxal, mas indiscutível, | ||
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| + | 41. Reintroduziu Berkeley no seio do espírito exterioridade que confere às representações estatuto de quase-objetividade, | ||
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| + | 42. Há afinidade entre idealismo e certa forma de realismo, sendo certo realismo da distância facial o outro aspecto de um idealismo rigoroso, devendo-se recorrer a certas análises de Kant, segundo o qual o objeto exterior não é necessariamente um ser em si. | ||
| + | * Kant afirma que "não pode haver nele de real senão o que é representado, | ||
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| + | 43. Kant conclui que "o real dos fenômenos exteriores não é, portanto, real senão na percepção, | ||
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| + | 44. O ato mesmo de perceber tem realidade na medida em que o caráter de imagem da intuição faz da recepção de seu conteúdo externo resultado da exterioridade, | ||
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| + | 45. Superar o caráter exterior do conteúdo recebido através do médium do espaço, pela distância que dele nos separa, é o projeto de Kant, permitindo-lhe fazer funcionar o esquematismo, | ||
| + | * Kant afirma, quanto ao esquematismo, | ||
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| + | 46. A superioridade do pensamento, sua anterioridade ao sensível, ligam-se à necessidade de trazer à sensibilidade o que ela não possui: o momento do objeto, não contendo a sensibilidade esse momento por ser representativa, | ||
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| + | 47. Se a coisa em si estivesse realmente presente no fenômeno, o ultrapassamento seria inútil, dizendo Kant que nesse caso nosso conhecimento permaneceria empírico, mas se o ultrapassamento do sensível não fosse necessário, | ||
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| + | 48. Kant o entende assim porque, segundo ele, a objetividade do conhecimento repousa sobre o divórcio radical entre o momento da coisa e o da diversidade sensível, justificando-se isso supostamente porque a sensibilidade como imagem repele ao infinito, no desconhecido, | ||
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| + | 49. Aparece a significação do realismo empírico, sendo radical o ultrapassamento que objetiva os dados sensíveis e os projeta à distância, precisamente por partir do sensível, tendo a aprioridade base empírica. | ||
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| + | 50. Por ignorar a transfenomenalidade, | ||
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| + | 51. É pensamento impotente, pois jamais poderá fazer com que um mundo e coisas venham assombrar os dados sensíveis, não podendo a síntese apriorística remediar isso, sendo o realismo empírico o outro lado de um idealismo de constituição. | ||
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| + | 52. O transbordamento do fenômeno rumo à totalidade de suas condições, | ||
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| + | 53. O sujeito é o princípio do entre-dois objetivo, contendo a cena de sua comparência com o objeto, sendo a distanciação que objetiva os dados sensíveis entendida como o ato de empurrar diante de si o rosto das coisas, apoiando-se nessa distância para dominá-lo. | ||
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| + | 54. Assim é dado ao sujeito transcendental conter o campo do conhecimento, | ||
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| + | 55. A exterioridade em relação a nós do objeto e de sua superfície, | ||
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| + | 56. Não é considerado como campo senão do ponto de vista do face a face objetivo, sendo a realidade exterior do objeto sua inserção no quadro da representação, | ||
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| + | 57. Chambon lembra todos os fatos experimentais que estabelecem o sítio interno, intracerebral, | ||
| + | * Chambon afirma que "não há, contrariamente ao que imaginou o realismo ingênuo, ou uma fenomenologia demasiado simplista da transcendência, | ||
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| + | 58. A crença empírica na identidade do real e de seu espetáculo, | ||
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| + | 59. A diferença entre intencionalidade e transcendência é esquecida, supondo isso o estatuto amundano da subjetividade que cumpre esse ato, mesmo quando esta, como em Sartre, é identificada a seu cumprimento, | ||
| + | * M. Henry afirma que "a transcendência se lança adiante porque, nesse movimento de sair de si e ir para o fora, ela cria, com esse fora, o primeiro-plano de luz que constitui a dimensão efetiva da fenomenalidade" | ||
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| + | 60. R. Chambon retorque que não é possível que uma subjetividade em si mesma inextensa e amundana saia efetivamente de si, questionando-se, | ||
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| + | 61. O ato de acesso à exterioridade jamais teve de ter lugar, sendo o ser-à-exterioridade um em-ser, não tendo a exterioridade de ser alcançada, sendo a abertura ao mundo anterior a toda transcendência de ato, não sendo correlato de um gesto, sendo a exterioridade meio portador, meio de pertencimento. | ||
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| + | 62. Ela só o é se nela tivermos nosso sítio, sendo isso não apenas pressuposto pela localização de nosso campo visual em nosso cérebro, mas também anunciado pela própria estrutura da fenomenalidade sensível, podendo-se, mesmo ignorando tudo de fisiologia sensorial, adivinhar pelo próprio jogo da linguagem dos sentidos seu caráter de situação. | ||
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| + | 63. É contrassenso concluir da distância que nos apresenta em frente as coisas, e parece exteriorizar realmente suas fachadas sensíveis, que a testemunha seja espectador absoluto do campo e o constitua, sendo antes o vis-à-vis sensível e frontal englobado pelo campo da transcendência. | ||
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| + | 64. Toda perspectiva exige a situação de sua testemunha, exigindo um sítio no interior do campo dos horizontes, sendo antes o espectador, e seu próprio campo de visão, que nele estão situados, longe de o campo dos horizontes só ter sentido para seu espectador. | ||
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| + | 65. O campo de visão não se estende ele mesmo às dimensões do universo, cercando-o, ultrapassando-o e fundando-o o Mundo, indicando a transfenomenalidade que o campo de visão está engastado na extensão prévia do real em si, que suporta o conhecimento que dele se toma, precedendo-o e sobrevivendo-lhe. | ||
| + | * Cita-se que " | ||
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| + | 66. A secundariedade atestada da percepção em relação ao ser em si que nela se revela significa que o espetáculo deve ser posto na conta do mundo, devendo distinguir-se dois campos: o da aparição sensível para nós e o campo total da realidade absoluta, do qual nosso campo de visão é apenas um recorte. | ||
| + | |||
| + | 67. O campo sensível tem, portanto, sítio, revelando-se notável paradoxo da conhecimento sensível: anuncia o ser total do mundo graças ao recuo, para nós, das fachadas, e é, contudo, evento intramundano de condições fisiológicas, | ||
| + | |||
| + | 68. Ele antes enraíza o sujeito tanto mais fortemente quanto anuncia a totalidade englobante do Mundo, só podendo atestar o enraizamento de sua testemunha porque o campo sensível, onde opera, tem função de anunciar o Mundo, onde esse campo tem seu sítio. | ||
| + | |||
| + | 69. O campo sensível é o sítio, delimitado e finito no interior do mundo, que revela, contudo, o Mundo em seu caráter de totalidade, sendo o lugar do mundo onde se espelha o Mundo, sendo a diferença evento intramundano. | ||
| + | * Cita-se: "posto que de fato seres e coisas se exibem apresentando-se de fora, tudo se passa como se, de certo modo, o existente ao qual se mostram... devesse ' | ||
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| + | 70. Confirma-se assim o ultrapassamento do realismo empírico, sendo a abertura consciente apenas o análogo de uma abertura real, sendo apenas um como-se, figurada, se há como que semi-mentira ou parábola, porque há vínculo entre o pensamento que investe as imagens sensíveis e essas próprias imagens. | ||
| + | |||
| + | 71. As imagens são condição inexorável do pensamento que as informa, não operando este apenas a priori, só sendo ideal a abertura por se cumprir através de imagens, imagens que são verdadeira e apenas imagens, representações com sítio delimitado e finito no cérebro humano, das quais as coisas reais são por isso distintas. | ||
| + | |||
| + | 72. A exterioridade cognitiva das imagens, distintas das verdadeiras coisas em si, é, portanto, ela mesma apenas projeção do pensamento, sendo a distância que nos separa das coisas apenas ideia dessa distância, informando a ideia eficazmente as imagens porque estas têm realmente valor de mundo. | ||
| + | |||
| + | 73. As imagens pertencem a um mundo figurado, sendo o mundo figurado, contudo, o verdadeiro mundo, sendo próprio da imagem sensível refletir o mundo, onde tem seu sítio como imagem, anunciando a totalidade do real do qual proveio por condicionamentos físicos. | ||
| + | |||
| + | 74. A ideia, informando as imagens sensíveis, deve ser análogo da realidade cósmica, sendo necessário que as formas determinantes da representação sensível sejam os quadros reais do ser-no-mundo, | ||
| + | |||
| + | 75. O como-se da abertura não é imitação de uma abertura, não sendo esta uma ficção, não tendo estatuto nem de ilusão nem de realidade, recebendo a consciência caráter perceptivo que não teria se o aspecto analógico da abertura fosse, em sentido positivo e restritivo, mera ideia. | ||
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| + | 76. A idealidade da abertura não é idealidade de um sujeito, não podendo o sujeito, introduzido nessa abertura, fazê-la sua, não sendo a ideia representação, | ||
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| + | 77. Uma ideia a priori, trazida a posteriori pelo sujeito, não informaria o sensível, não o faria vir a seus limites, determinando a ideia o sensível ao ultrapassá-lo, | ||
| + | |||
| + | 78. A noção kantiana de a priori não define esse processo, permanecendo exterior ao que verdadeiramente se passa, impedindo a articulação da ideia sobre o sensível, e assim o fato de não ser aporte de um sujeito, que o espectador informe ativamente por si mesmo o sensível. | ||
| + | |||
| + | 79. Não pode considerar as imagens de seu cérebro como sendo primeiro suas, não estando as representações contidas no espírito, não sendo o que um espírito imaterial se daria, sem que se saiba como, diante de si e nele, como sinais de um mundo, sendo as representações imagens situadas em lugar físico, o cérebro. | ||
| + | |||
| + | 80. As imagens existem por si mesmas, emprestando primeiro sua existência ao tecido físico cerebral que as suporta, sendo, por consequência, | ||
| + | |||
| + | 81. Questiona-se o que impede uma imagem de dar o real, sendo ela extensão localizada em parte real do mundo, cabendo ainda compreender como uma parte do mundo, o cérebro, pode dar a totalidade do mundo, e como uma parte fisicamente estendida no mundo pode ser seu representante. | ||
| + | |||
| + | 82. Uma parte real e por todo seu volume imersa no mundo pode representar o mundo se contém em seu interior sua superfície e seus bordos, reunindo assim uma Visibilidade ainda não desdobrada, contendo sua objetividade e representando assim o Fora em si. | ||
| + | |||
| + | 83. Ao preservar a forma da objetividade de ser apenas forma, conferindo-lhe realidade e presença a si, dá ela, do interior, realidade a seus próprios foras particulares, | ||
| + | |||
| + | 84. Por essa vinda a si do Mundo, o Mundo é Ideia, Ideia equivalente ao ser total do Mundo, Ideia-real, tornando essa representação de primeiro nível possível uma representação segunda, para a parte, de seus foras particulares, | ||
| + | |||
| + | 85. Nesse segundo nível a representação de seus foras particulares não equivalerá tampouco à sua imaginação, | ||
| + | * R. Chambon esclarece que "tal pensamento, com sua proliferação autônoma distinta da do pensamento consciente facultativamente exercido, deve, para ser abrente, viver do próprio sopro das potências do mundo" | ||
| + | |||
| + | 86. Um tal ser supõe, reciprocamente, | ||
| + | |||
| + | 87. O fundamento ontológico da Representação é a solução do problema deste livro, aparecendo a justificação ontológica da representação na adequação, | ||
| + | |||
| + | 88. Essa adequação implica, por sua vez, a participação do ser-sujeito na mundanidade do mundo, obrigando essa fórmula a modificar a visão objetivista da natureza, exprimindo-se essa redução na crítica de M. Henry à delimitação heideggeriana da transcendência, | ||
| + | |||
| + | 89. Isso permitia a Heidegger apresentar o mundo como forma da compreensão humana e negar-lhe caráter de totalidade em si, sendo esse ao princípio de toda forma de redução fenomenológica, | ||
| + | |||
| + | 90. M. Henry responde que é precisamente a ausência de verdadeira permanência em si que impede o existente bruto de se ultrapassar, | ||
| + | |||
| + | 91. O em-si do ente jamais foi verdadeiro em-si, só se falando dele por metáfora, conservando essa crítica, contudo, aspecto essencial da posição heideggeriana ao considerar também o existente natural como coisa, opondo-se a essa tese geral que o cumprimento da transcendência é inseparável da transfenomenalidade. | ||
| + | |||
| + | 92. Esta supõe a identidade das formas da representação e das condições de existência mundanas, significando essa identidade que o ser total do mundo é inseparável da subjetividade, | ||
| + | * Chambon comenta que "a filosofia do mundo implica tese fundamental sobre o ente: empresta a este a individualidade, | ||
| + | |||
| + | 93. A naturalização da diferença ontológica, | ||
| + | |||
| + | 94. Do ponto de vista kantiano, as formas do mundo são apenas quadro do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 95. Essa unidade, dobrada em seu estatuto amundano, só dá existência aos quadros do mundo como formas do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 96. O dobramento do visível sobre si mesmo requerido pela transfenomenalidade tem sentido de aparecer em si, de um aparecer-se do aparecer, sendo a vinda em si, a si, do aparecer em sentido absoluto, modo de superar o nada por vinda radical, instalação que corta o vazio. | ||
| + | |||
| + | 97. Por ser ato, opera sem testemunha, não sendo o desdobramento das fachadas de um objeto acessível de fora, nem a promoção de aparências no horizonte de exterioridade, | ||
| + | |||
| + | 98. Por ser o ato de superar o fora, a trazida do ser não se faz do ponto de vista do fora, mas é precisamente pela tensão e recolhimento próprios da vinda ativa que o fora adquire realidade, significando o dobramento do aparecer sobre si mesmo numa de suas partes que a vinda-fora não se faz de fora. | ||
| + | |||
| + | 99. Trata-se de experiência interna idêntica ao próprio ser, do verdadeiro tecido da luz, sendo por isso a cena da objetivação, | ||
| + | |||
| + | 100. Se é preciso que o fora da atualização seja interiormente visitado, é porque essa visitação corresponde a recolhimento e a função unificante, questionando-se como o Espaço exerceria sua função separadora se não fosse tenso e recolhido. | ||
| + | |||
| + | 101. O Vazio, se reduzido a si, não existiria, só existindo como superado, na contração recolhedora da atividade, sendo, contudo, o vazio insuprimível, | ||
| + | |||
| + | 102. Para melhor compreender como as formas do conhecimento são idênticas à cena cósmica da existência, | ||
| + | |||
| + | 103. Essa identidade é proposta por ideia central de "O Mundo como Percepção e Realidade", | ||
| + | |||
| + | 104. Isto é, o aparecer em si do aparecer, sua dobra, correspondendo esse ser ao que Ruyer chama domínio absoluto, domínio unitário de consciência, | ||
| + | * Ruyer afirma que "os bordos de uma visão não podem ser visíveis, posto que uma visão não é ela mesma coisa vista" | ||
| + | |||
| + | 105. Para melhor compreender essa tese, pode-se partir da questão, perseguida desde o início, de como o aparecer, apesar de seu retraimento no desdobramento horizontal, pode ser dado a si, questão colocada precisamente por Ruyer, que introduz assim sua noção de domínio absoluto. | ||
| + | |||
| + | 106. A questão de como a visão de um objeto exterior pode ver-se a si mesma deve ser colocada, pois uma visão que não se apreendesse a si mesma, permanecendo toda fora de si, se dissiparia e deixaria de ser visão do objeto externo. | ||
| + | * Ruyer afirma: "A conhece B implica: 1) que A está em posição de recolher informações sobre B, 2) que A, em sua textura mesma, em seu ser mesmo, é autoconhecimento, | ||
| + | |||
| + | 107. Se a visão se conhece a si mesma, questiona-se como o faz, se tornando-se por sua vez objeto, o que é impossível, | ||
| + | |||
| + | 108. O círculo vicioso denunciado por Kant encontra solução se admitirmos que a visão não precisa, para se autoconhecer, | ||
| + | |||
| + | 109. A visão que já não se vê não é para si mesma, não é objeto de sua representação, | ||
| + | |||
| + | 110. A existência, | ||
| + | * Ruyer afirma que "a natureza da consciência é a própria natureza da extensão real. Uma extensão verdadeira... é também um domínio de consciência" | ||
| + | |||
| + | 111. A existência que se autoconhece sem precisar autorrepresentar-se é física porque já não se pode dizer a seu respeito esse est percipi, deixando o conteúdo da fenomenalidade, | ||
| + | |||
| + | 112. Assim a visão tem bordos, não se possuindo, mas como não se vê de fora, seus bordos não lhe aparecem, sendo essa consequência precisa da ausência de toda redução de seu ser à representação de si, significando a não-aparição dos bordos a realidade da extensão onde se estende o domínio. | ||
| + | * Chambon comenta que "a extensão do campo consciente não é invenção ou criação da própria consciência" | ||
| + | |||
| + | 113. Acrescenta-se que "o não-transbordamento, | ||
| + | |||
| + | 114. O domínio absoluto é o foco para quem as formas do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 115. Se ficássemos nisso, as fronteiras do objeto seriam tão totais que o absoluto seria inacessível, | ||
| + | |||
| + | 116. Mas na medida em que as formas não são vistas, a separação entre o que está no limite e o que está além do limite não se ergue por si mesma, o que confere a esse limite realidade absoluta, tornando-se por essa realidade as condições da limite não mais simples forma vazia do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 117. Elas adquirem assim realidade, tornando-se condições de existência para a subjetividade, | ||
| + | |||
| + | 118. Daí a unidade do domínio e daquilo que o transborda, não sendo as fronteiras que definem o domínio objetivas, sendo lugar de penetração íntima e recíproca do dentro e do fora, sendo a unidade do domínio e daquilo que o transborda a heteronomia do domínio e sua relatividade ao Todo. | ||
| + | |||
| + | 119. É unidade de passividade, | ||
| + | * Descreve-se: | ||
| + | |||
| + | 120. O ente, não vendo nada de fora, não pode destacar seu si do mundo, nem o mundo de seu si, sendo a interioridade absoluta da não-visão o lugar da dobra do ser e do ente em si, significando a ausência geral de destacamento de si a passagem de um no outro do elemento portador e do elemento portado. | ||
| + | |||
| + | 121. Aquilo que se revela fundamento revela-se fundado e reciprocamente, | ||
| + | * M. Henry afirma que "a imaginação sintetiza e unifica originalmente o horizonte enquanto o forma e o recebe. A unidade do horizonte remete, pois, à unidade da representação como unidade da essência e do que ela representa" | ||
| + | |||
| + | 122. A projeção pela essência do horizonte que ela forma supõe, como condição de sua coerência, sua recepção, sendo esta uma só coisa com sua projeção, supondo a projeção do horizonte receptividade mais originária, | ||
| + | |||
| + | 123. Questiona-se se, dependendo a unidade do campo de exterioridade da unidade do si, não é complicação inútil dizer que o campo é objetivado, não podendo existir nenhum desvio entre o si e o campo se a unidade do si funda a unidade do campo. | ||
| + | |||
| + | 124. No seio do fundamento autoafetivo, | ||
| + | |||
| + | 125. R. Chambon modifica assim a natureza da autoafetação em relação ao que era na concepção de M. Henry, deixando o campo de exterioridade de ser horizonte mantido à parte pelo si, deixando este de ser seu foco constituinte, | ||
| + | * Chambon descreve o conjunto absoluto como " | ||
| + | |||
| + | 126. Não há separação alguma entre a totalidade e o material que ela detém, não havendo ponto sujeito e ponto objeto nessa omnitude de existência onde o absoluto da simbiose é extravio, êxtase na instase, falta de si por perfeição do uníssono, definindo-se a coincidência do ser consigo como transbordamento íntimo em que elemento portador e portado não se distinguem de modo algum. | ||
| + | |||
| + | 127. Resulta disso que a existência, | ||
| + | * Chambon afirma: "tal é sem dúvida o fundo do paradoxo trágico: a presença colmada, perfeita, a maravilhosa adesão a si sem a qual nada seria é, quanto a si, o abismo da ausência absoluta" | ||
| + | |||
| + | 128. Esse sopro no coração da Presença nos confronta com o trágico do fundamento, sendo o próprio do fundamento fundar a dimensão insubstancial da exterioridade, | ||
| + | |||
| + | 129. O fundamento é o em-si do ser-em-si do fundado, sendo, portanto, de certo modo, fundamento por falta, transbordado pelo que funda, não sendo por isso o foco onde o fundado vem a si na presença um foco de presença facial ou objetiva, sendo antes relação de complexidade. | ||
| + | |||
| + | 130. O fundamento é primeiro sem sê-lo, não havendo nada verdadeiramente primeiro: nem o meio portador do mundo, nem o ente portado nele, nem a unidade do ente que dá ao mundo seu caráter de totalidade englobante, nem mesmo a unidade dessa unidade e da unidade englobante do Mundo, não podendo o ser começar por uma parte de sua constituição geral. | ||
| + | |||
| + | 131. Um ser, como o domínio absoluto físico, em quem o Mundo é simbolizado, | ||
| + | |||
| + | 132. Tal é o processo da reflexão em que a imagem do Mundo se torna imagem da imagem, análogo a um desdobramento progressivo, | ||
| + | |||
| + | 133. O espetáculo do mundo é reino em espelho que não advém de uma só vez, não conseguindo, | ||
| + | |||
| + | 134. É preciso que o Mundo afirme sua diferença, o que só ocorrerá com um desdobramento, | ||
| + | |||
| + | 135. Essa imagem, fundada na Imagem primeira onde o Mundo e o ente se simbolizam, completando-se um ao outro, pode valer pelo fora, mas faz retrorreferência à sua condição na Imagem primeira, da qual necessita para ser projetada no miragem da exterioridade objetiva e receber, como diz Chambon, um têmpera de realidade. | ||
| + | |||
| + | 136. Inversamente, | ||
| + | |||
| + | 137. Durante fase intermediária, | ||
| + | |||
| + | 138. O ser-fora não aparece por si mesmo, permanecendo a ideia condicionante, | ||
| + | |||
| + | 139. O desdobramento se acabará quando emergir das camadas onde ainda estava soterrado, aparecendo então a exterioridade das superfícies como tal, fazendo os limites, vindos a si e revelados por si, ressaltar e distinguir o fundamento de sua limitação, | ||
| + | |||
| + | 140. A ideia se tornará o horizonte transbordante, | ||
| + | |||
| + | 141. Mas é aparência, ponto-limite, | ||
| + | |||
| + | 142. Assim o estado de representação a que chegará o Mundo jamais igualará seu ser inteiro, não podendo a reflexão da imagem equivaler à Imagem, pois se por impossível se produzisse tal equivalência, | ||
| + | |||
| + | 143. Chegada ao termo de sua reflexão, a imagem remete a seu estatuto de imagem, a sua insubstancialidade, | ||
| + | |||
| + | 144. Tal é a complexidade primitiva, havendo relatividade recíproca do Fora e do Dentro, não sendo primeira nenhuma das duas dimensões do ser, sendo primeira talvez apenas a necessidade, | ||
| + | |||
| + | 145. Essa unidade, só sendo pela unidade em si do ente, nada é por si mesma, não engendrando o ente, fundamento passivo que sofre o que funda, a extensão de sua existência, | ||
| + | |||
| + | 146. A unidade do ente e do mundo, do portado e do portante, unidade soberana e salutar pela qual o mundo exerce sua função portante, é apenas momento do ser, cumprindo-se no ente finito e remetendo ao esgarçamento nele constituído pela luta do fundamento e do fundado. | ||
| + | |||
| + | 147. Essa luta significa que se estabelece tensão entre os dois níveis do ato de aparecer, sendo a primeira camada aquela em que o Fora é interiormente contido, e por isso dado a si como elemento ou dimensão, sendo a segunda aquela em que o campo do fora, precisamente por ter sido dado a si e tornado real, exerce mais completamente sua operação de afastamento. | ||
| + | |||
| + | 148. Questiona-se como se faz a passagem de uma camada a outra, sendo o aparecer em si uma dobra, experiência interna onde o fora está presente a si, em si, como o Todo, pela vinda do ente, não se distinguindo o Todo dele nessa dobra, tampouco se conhecendo a experiência que dele se faz. | ||
| + | |||
| + | 149. A Imagem do afastado temporal é completamente irrefletida, | ||
| + | |||
| + | 150. Para que o ser (= a dobra do ser e do ente) venha inteiramente, | ||
| + | |||
| + | 151. O que funda a reflexão da dobra é que o Todo está em excesso relativamente ao que porta, em excesso pelo próprio fato de sustentá-lo, | ||
| + | |||
| + | 152. Essa aparição não pode senão ser a imagem da experiência interna, seu modo de se espelhar de fora, não podendo o Todo, não tendo existência senão por sua imagem em si, sendo apenas movimento real-ideal, libertar-se de sua dobra originário no ente, dobra que não é apenas manifesto na manifestação horizontal, mas existe primeiro em si anteriormente a ela. | ||
| + | |||
| + | 153. Tais são sem dúvida os requisitos da identidade da representação e da existência, | ||
| + | |||
| + | 154. Na relação de co-pertencimento do ser e do ente, o Todo é o que sustenta e porta a existência que, em sua interioridade sem visão de seus próprios limites, nada tem de si mesma e não se destaca Dele, dominando e cercando Ele, contudo, tanto menos o existente. | ||
| + | |||
| + | 155. Já O deixa meio só, meio entregue a si mesmo em seu projeto rumo ao futuro, arriscando-o, | ||
| + | |||
| + | 156. É essa a razão da oscilação que caracteriza a experiência de realidade, do sentimento de suporte e do sentimento de desamparo, oscilação cuja alternância, | ||
| + | * Bollnow afirma que "a estreiteza extrema da consciência existencial do tempo no estado da decisão resoluta se abre à medida que essa decisão consegue executar-se até produzir o sentimento de ser portado em segurança sobre o largo dorso do tempo" | ||
| + | |||
| + | 157. Essa descrição de dilatação-retração evidencia que o fundamento portador porta o que porta no próprio movimento, não sendo tal a passagem dilatadora do ultrapassamento à coincidência que a realidade detenha o projeto, revelando-se portadora não no projeto responsável e retraído sobre si, mas no movimento de seu cumprimento momentaneamente sem obstáculo. | ||
| + | |||
| + | 158. O projeto é portado no momento de sua passagem ao ato e de sua inserção no real, sendo esta precisamente apenas um momento, questionando-se como a decisão resoluta nasce do enraizamento, | ||
| + | |||
| + | 159. Ele surge de um estado de repouso e suficiência em si sem tensão alguma rumo a um futuro, não podendo o futuro elevar-se da ausência de futuro senão se ele mesmo for sem futuro à segunda potência, não tendo o futuro futuro, ou não sendo o projeto intencional, | ||
| + | |||
| + | 160. A necessidade é sintoma de essencial passividade no coração da atividade, sendo real a experiência do apoio porque suscita a ação, sendo esta real por surgir do fundo portador e a ele retornar durante seu cumprimento, | ||
| + | |||
| + | 161. Essas reflexões colocam em questão a noção de fundamento, questionando-se o que pode aportar, o que pode criar a ação se sua origem está atrás, no largo dorso do passado, o que a justifica, implicando, contudo, o fundo portador a ação por não ser em si mesmo um estado. | ||
| + | |||
| + | 162. Não é algo definido, estático e acabado, sendo o fundo fundo de movimento, não tendo o movimento, em certo sentido, origem, não estando a intemporalidade de sua base nem no passado nem no futuro, não havendo um atrás, abalando-se o solo, abrindo-se, estendendo sua abertura. | ||
| + | |||
| + | 163. Não repousa, imóvel, mas instiga o movimento, portando o solo a movência por ser, como solo, algo insubstancial e relativo em relação ao movimento que porta, sendo sua relatividade sua passividade, | ||
| + | |||
| + | 164. A ação só é real, só modifica o mundo e nele se insere com força, só inova ao surgir do solo portador, o que a impede, contudo, de produzir no absoluto, não podendo libertar-se do fundo, dele destacar-se para trazer algo que nele não esteja já contido, nem conferir fim último à realidade onicontenedora. | ||
| + | |||
| + | 165. A ausência de destacamento é a coincidência, | ||
| + | |||
| + | 166. Pois nessa dobra do aparecer, em si mesmo, o Todo não tem autonomia, só vindo a si pela necessária autotrazida do ente, pela contração unificante em que este se reúne e contém o excesso de seu fundamento, só vindo esse excesso a si pela contração, | ||
| + | |||
| + | 167. Isso supõe a cena do Todo-Mundo como dimensão da Vinda, sendo tal abertura da presença em ato o Tempo, dimensão da atualização, | ||
| + | |||
| + | 168. O Todo é a unidade dos projetos e das realizações, | ||
| + | |||
| + | 169. Não, pois o fundamento é o Tempo, tendo por função abrir a amplitude do possível, não estando assim os estados futuros inscritos na cena do Todo como se este os detivesse em si mesmo, sendo contidos pelo Todo a título de possíveis, exigindo os possíveis a centração sobre si e o relevo de um ser agente. | ||
| + | |||
| + | 170. O fundamento funda e não funda, entregando os existentes à sua ação, libertando-os para cumprir seu destino, libertando o fundamento vivido em adequação na coincidência o projeto de si do existente, sustentando mas não sendo substância. | ||
| + | |||
| + | 171. Na radicalidade de sua solidão onde nada o ultrapassa nem o precede, é absolutamente indiferente a toda hierarquia, não sustentando o Todo como um estado que traria de volta a si o que dele depende, não invejando as coisas, desprovido, sem o menor olhar sobre si, deixando existir o que existe. | ||
| + | |||
| + | 172. O fundamento portador, incapaz de revelar-se etapa final e salutar atrás ou adiante das coisas, não é algo a que se chega, não podendo por isso persistir em si, nada, sob ele, ainda o porta, não remetendo sua função de portar a si mesma, nem se destacando por si mesma, não se portando assim o porte a si mesmo. | ||
| + | |||
| + | 173. A oscilação da coincidência e do ultrapassamento, | ||
| + | |||
| + | 174. O ser não pode, contudo, permanecer nessa imobilidade, | ||
| + | |||
| + | 175. O fundamento não funda o autoultrapassamento do existente, tendo-se como que retirado, entregando a si mesmo o ser finito no projeto, exprimindo seu retraimento que não é abrigo seguro, solo em todos os pontos sólido, sendo, contudo, assim que funda e necessita, isto é, abre a abertura dimensional que sustenta a remissão a si do existente. | ||
| + | |||
| + | 176. É assim que continua a portá-lo em sua atividade quando esta deixa momentaneamente de estar entravada, sendo precisamente tal desamparo que se reforça quando o Todo, simbolizado no ente, busca refletir-se, | ||
| + | |||
| + | 177. Pertence ao caráter de sua autorreflexão que o ente seja rejeitado sobre si mesmo, e entregue ainda mais a seu abandono, revelando-se o Todo ao revelar a insuficiência do ente, incapaz de manter o ser de si, mas assim se manifestando o Todo sob o aspecto de sua incapacidade de fazer existir algo inteiramente suficiente. | ||
| + | |||
| + | 178. Revela-se segundo sua própria insuficiência, | ||
| + | |||
| + | 179. A visão descentra o homem e o rejeita sobre si porque revela o Todo como fundamento de portança, ele mesmo insuficiente, | ||
| + | |||
| + | 180. Se a afetividade humana oscila constantemente entre estados de angústia e felicidade, é porque se situa no limite que reúne e separa o desamparo e o pertencimento, | ||
| + | |||
| + | 181. Ela é o próprio conteúdo desse desdobramento, | ||
| + | |||
| + | 182. A afetividade da situação é lugar de enraizamento, | ||
| + | |||
| + | 183. Há sempre já um sujeito que sente, que prova sua situação, havendo sempre já um mínimo de desvio entre o sentimento e ele mesmo, sendo a afetividade da situação, do seio da consciência cognitiva, e para ela, a lembrança de um enraizamento no seio do mundo, sem distância, prévio ao advento do espetáculo. | ||
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| + | 184. O enraizamento, | ||
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| + | 185. Este manifesta a insuficiência de nossa forma acentuando, ao contrário, nossa solidão e a consciência de si, sendo a afetividade a reverberação do ser-no-mundo, | ||
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