estudos:blattner:sz:historicidade
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| + | ====== Historicidade ====== | ||
| + | //BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.// | ||
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| + | **A Estrutura Ontológica do Acontecer e a Historicidade Universal** | ||
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| + | * A historicidade ([[lx> | ||
| + | * No modo impróprio da historicidade (uneigentliche Geschichtlichkeit), | ||
| + | * No modo próprio da historicidade (eigentliche Geschichtlichkeit), | ||
| + | * Heidegger adota o verbo alemão acontecer ([[lx> | ||
| + | * Os entes intramundanos possuem uma historicidade derivada denominada histórico-mundial ([[lx> | ||
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| + | **O Si-Mesmo como Distensão e o Movimento da Existência** | ||
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| + | * O acontecer (geschehen) do ser-aí (Dasein) estruturalmente não se reduz à permanência estática de um ente simplesmente dado ou presente ([[lx> | ||
| + | * O ser-aí (Dasein) não preenche um caminho ou trecho de vida previamente dado no tempo com fases isoladas de suas atualidades instantâneas, | ||
| + | * A distensão (Erstreckung) opera de forma universal tanto na propriedade quanto na impropriedade; | ||
| + | * A impropriedade da distensão não reside na falta de continuidade temporal, mas na infidelidade ou deslealdade para com aquilo que o ser-aí (Dasein) já se encontra sendo no momento de clareza. | ||
| + | * A recepção de uma possibilidade do patrimônio (Erbe) por meio da transmissão (überkommen) constitui um ato interpretativo ativo e dinâmico da própria vida, o que justifica a denominação de distensão distendida (erstreckte Erstreckung). | ||
| + | * O movimento próprio da existência humana difere da locomoção física das coisas dadas, definindo-se a partir da própria distensão do ser-aí (Dasein): "A mobilidade da existência não é o movimento de algo presente. Ela se define a partir da distensão do ser-aí. Chamamos o acontecer à mobilidade específica da distensão distendida" | ||
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| + | **A Co-Solicitude e as Relações com os Outros** | ||
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| + | * O ser-com ([[lx> | ||
| + | * A solicitude (Fürsorge) apresenta duas possibilidades extremas de realização existencial: | ||
| + | * A solicitude que substitui (einspringende Fürsorge) consiste em assumir a responsabilidade pelas tarefas e objetivos do outro, correndo o risco de torná-lo dependente, dominado ou tutelado, como exemplificado pela superproteção parental. | ||
| + | * A solicitude que antecipa (vorausspringende Fürsorge) não visa desonerar o outro de seu cuidado (Sorge), mas sim devolvê-lo propriamente à sua própria existência, | ||
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| + | **O Co-Acontecer e o Destino Comum das Comunidades** | ||
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| + | * Sendo essencialmente um ser-no-mundo ([[lx> | ||
| + | * O destino comum (Geschick) de uma comunidade não resulta da mera soma aritmética ou amontoado de destinos individuais ([[lx> | ||
| + | * O co-acontecer próprio (eigentliches Mitgeschehen) configura-se como um embate dialógico e comunicativo sobre a identidade coletiva em face de uma tradição comum, desdobrando-se desde debates privados até discussões públicas de grande escala. | ||
| + | * O surgimento do conceito de assédio sexual no movimento de libertação das mulheres nos Estados Unidos ilustra essa especificação coletiva, na qual as integrantes se apropriaram de possibilidades culturais e as redefiniram para responder às injustiças concretas de suas vidas. | ||
| + | * O co-acontecer impróprio (uneigentliches Mitgeschehen) esquiva-se da responsabilidade de discutir, debater e especificar as interpretações coletivas herdadas, tratando os rumos comunitários como dogmas imutáveis e já decididos. | ||
| + | * O processo de construção de uma identidade nacional alemã republicana e não chauvinista no início do século XXI exemplifica a estrutura do co-acontecer comunitário. | ||
| + | * A consolidação desse consenso político resultou de intensos debates acadêmicos, | ||
| + | * Essa disputa interpretativa permitiu que os cidadãos alemães transmitissem a si mesmos uma nova possibilidade de autocompreensão institucional e cívica, caracterizando uma resposta coletiva e ativa ao seu próprio patrimônio (Erbe) histórico. | ||
| + | * Embora Heidegger afirme que o co-acontecer comunitário representa o acontecer plenamente próprio do ser-aí (Dasein), a autenticidade ou propriedade ([[lx> | ||
| + | * A trajetória de Franz Jägerstätter atesta que a resolução ([[lx> | ||
| + | * A tese de que a autenticidade exige um vínculo indissolúvel com a comunidade assemelha-se à posterior instrumentalização política de Heidegger junto ao Nacional-Socialismo, | ||
| + | * O co-acontecer próprio (eigentliches Mitgeschehen) pode ser compreendido como um enriquecimento ou desdobramento da historicidade própria (eigentliche Geschichtlichkeit), | ||
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| + | **O Ser "No Tempo" e o Estatuto do Ter-Sido** | ||
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| + | * O ser-aí (Dasein) existe no tempo, porém essa temporalidade ([[lx> | ||
| + | * Embora a temporalidade originária não se confunda com o tempo cronológico, | ||
| + | * Para demarcar a diferença ontológica entre o passado das coisas e a dimensão histórica da existência, | ||
| + | * A história, em sua acepção comum, costuma designar o que já transcorreu e cessou, o que perdeu a relevância atual, o que perdura exercendo influência causal ou, ainda, a totalidade das civilizações passadas e os monumentos herdados. | ||
| + | * O ser-aí que não mais existe não se define ontologicamente como passado, mas sim como tendo-sido-aí ([[lx> | ||
| + | * A caracterização do ter-sido ([[lx> | ||
| + | * Afirmar que indivíduos de épocas anteriores viveram significa reconhecer que eles realizaram a distensão ([[lx> | ||
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| + | **A Historicidade Derivada das Coisas: O Histórico-Mundial** | ||
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| + | * Os entes intramundanos que se encontravam inseridos no horizonte de atuação do ser-aí que já foi-aí (dagewesenes Dasein) herdam uma historicidade secundária denominada histórico-mundial ([[lx> | ||
| + | * O ser-aí (Dasein) constitui o ente primariamente histórico, de modo que os objetos e relíquias só adquirem caráter histórico por sua vinculação ao mundo de um ser-aí que já foi-aí: " | ||
| + | * Um monumento arqueológico, | ||
| + | * A historicidade dos entes não se eleva ou se aprofunda à medida que sua origem cronológica se distancia no passado físico: "Os entes não se tornam 'mais históricos' | ||
| + | * A determinação histórica não comporta graus de intensidade, | ||
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| + | **A Fundação Existencial da Historiografia** | ||
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| + | * Heidegger busca desenvolver as pesquisas do filósofo Wilhelm Dilthey acerca das ciências humanas, apontando que a fundamentação existencial da historiografia ([[lx> | ||
| + | * O tema primordial da ciência historiográfica deve ser delimitado em conformidade com o caráter da historicidade própria e com a abertura do ser-aí que já foi-aí, o que se processa por meio da repetição ou retomada ([[lx> | ||
| + | * A historiografia própria (eigentliche Historie) manifesta a dimensão universal em um acontecimento singular e irrepetível ao desvelar o ser-aí que já foi-aí em suas possibilidades existenciais: | ||
| + | * A compreensão historiográfica autêntica exige que o historiador não apenas catalogue fatos pretéritos, | ||
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| + | **Limites e Críticas ao Modelo Heideggeriano de Historiografia** | ||
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| + | * A exigência de que a historiografia repita e assuma as possibilidades existenciais do passado gera dificuldades metodológicas severas diante de contextos culturais radicalmente distintos daqueles do intérprete. | ||
| + | * A análise de artefatos históricos, | ||
| + | * Modelos hermenêuticos alternativos, | ||
| + | * A metodologia historiográfica de Heidegger assemelha-se à sua prática de interpretação de textos filosóficos, | ||
| + | * Essa postura tende a classificar o rigor filológico e historiográfico tradicional — que preserva a distância crítica entre o analista e o objeto — como uma atitude imprópria que reduz as obras do pensamento a meras relíquias de museu. | ||
| + | * A ausência de uma caracterização sistemática sobre o fazer historiográfico geral e sobre sua derivação da historicidade comum indica que as teses contidas no parágrafo [[obra: | ||
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