estudos:birault:pensar:1.1.1
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| + | ====== 1.1.1 Conhecer ====== | ||
| + | HBEP | ||
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| + | **AS INVENÇÕES KANTIANAS** | ||
| + | |||
| + | * Com [[sofia> | ||
| + | * O retorno direto de Kant a Aristóteles e Platão restabelece a problematicidade originária da metafísica, | ||
| + | * A ontologia torna-se, pela primeira vez, um problema explícito, abalando profundamente o edifício da metafísica tradicional e dissipando a aparente evidência com que se tratava a generalidade do ente comum. | ||
| + | * O alcance futuro de Kant ultrapassa tanto a apropriação especulativa promovida pelo idealismo transcendental quanto o posterior retorno neokantiano, | ||
| + | * A filosofia crítica constitui o terceiro dos seis momentos descritos por Nietzsche na história do mundo verdadeiro, antes do colapso correlativo da verdade suprassensível e do mundo das aparências. | ||
| + | * O mundo verdadeiro torna-se inacessível, | ||
| + | * A antiga ideia metafísica conserva-se sob a forma enfraquecida, | ||
| + | * A importância excepcional da virada kantiana exige que se deixem de lado as interpretações pós-kantianas e neokantianas para reconhecer as invenções decisivas e as conquistas irreversíveis de Kant, tomando-se como fio condutor a divisão tripartida das faculdades da alma. | ||
| + | * As faculdades da alma reduzem-se à faculdade de conhecer, ao sentimento de prazer e desprazer e à faculdade de desejar, cada uma dotada de princípios próprios e irredutíveis a um fundamento comum. | ||
| + | * O juízo, situado entre entendimento e razão, fornece princípios a priori ao sentimento de prazer e desprazer, assim como o entendimento os fornece ao conhecimento e a razão à faculdade de desejar. | ||
| + | * A descoberta da unidade sistemática dessas faculdades conduziu Kant à busca dos princípios a priori do sentimento, apesar da aparente impossibilidade inicial dessa investigação. | ||
| + | * A descoberta dos princípios próprios do sentimento permitiu reconhecer três partes da filosofia, cada uma delimitada por princípios a priori determináveis. | ||
| + | * A filosofia divide-se em filosofia teórica, teleologia e filosofia prática, sendo a teleologia a mais pobre em princípios determinantes a priori e constituindo o objeto da obra inicialmente projetada sob o título de Crítica do gosto. | ||
| + | * A ordem cronológica das três críticas revela retrospectivamente a ordem lógica das faculdades da alma, dos modos de conhecimento, | ||
| + | * A divisão tripartida permanece na Didática da Antropologia, | ||
| + | * A sensibilidade também recebe elogios de poetas e pessoas de gosto, para os quais a sensibilização dos conceitos favorece o conhecimento e a nudez do entendimento constitui verdadeira indigência. | ||
| + | * A sensibilidade não necessita de um panegírico, | ||
| + | * A sensibilidade pode manifestar uma pureza tríplice, teórica, prática e estética, mediante o espaço e o tempo a priori, o sentimento puro do dever e o prazer estético puro e desinteressado. | ||
| + | * A investigação inicial deve concentrar-se nas invenções relativas à faculdade de conhecer e, sobretudo, na lógica da sensibilidade pura denominada Estética transcendental, | ||
| + | * O tratamento abreviado da faculdade de conhecer justifica-se tanto porque a interpretação heideggeriana da Crítica da razão pura será retomada posteriormente quanto porque a filosofia prática kantiana deverá ser compreendida como etapa decisiva da emergência da noção de valor e do niilismo nela implicado. | ||
| + | * A problematização kantiana da metafísica oferece a melhor introdução ao pensamento de Heidegger, ao mesmo tempo que a vontade de potência nietzschiana revela uma dívida profunda para com Kant nos domínios do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | **A FACULDADE DE CONHECER** | ||
| + | |||
| + | * A Estética transcendental elabora, segundo o sentido antigo de sensação, uma teoria das condições a priori da sensibilidade pura, na qual espaço e tempo constituem as formas universais e necessárias de apresentação de todos os fenômenos. | ||
| + | * As formas da intuição podem tornar-se intuições formais quando são representadas com os fenômenos mediante uma atividade unificadora do entendimento e do Eu penso, exercida sem a mediação das categorias. | ||
| + | * A independência dessa sensibilidade em relação aos órgãos sensoriais inaugura um conceito ontológico e não sensualista de sensibilidade, | ||
| + | * A relatividade da experiência humana possui validade objetiva e significado ontológico, | ||
| + | * A razão humana torna-se sensível e finita segundo uma finitude originária, | ||
| + | * O espaço e o tempo não pertencem às coisas em si nem à mera impressão empírica, mas são introduzidos na experiência pela razão humana sensível e finita. | ||
| + | * A duração noumênica pode ser concebida como não temporal, assim como uma extensão noumênica poderia ser pensada como não espacial, sendo a imensidade divina apenas simbolizada pela infinitude do espaço finito. | ||
| + | * A temporalidade finita permanece essencialmente estranha à eternidade, ainda que esta seja concebida como vida, duração ou devir eternos. | ||
| + | * A natureza estética do espaço e do tempo pressupõe um sentimento originário da espacialidade e da temporalidade anterior aos conceitos do entendimento. | ||
| + | * Para além de sua dependência histórica das ciências físico-matemáticas, | ||
| + | * A afirmação pascaliana de que o coração sente as três dimensões do espaço já reconhecia a independência da experiência espacial originária em relação ao entendimento e à sensibilidade meramente sensual. | ||
| + | * À defesa da sensibilidade corresponde uma defesa da imaginação, | ||
| + | * A receptividade da sensibilidade pura não depende necessariamente da impressão empírica, pois a relação entre receptividade e afecção sensorial vale de fato para os seres humanos, mas não de direito para todo ser racional finito. | ||
| + | * A restrição kantiana segundo a qual os objetos somente podem ser dados aos seres humanos mediante a afecção do espírito deixa aberta a possibilidade de uma intuição finita sem afecção. | ||
| + | * O conceito ontológico de razão pura e finita não deve ser confundido com a configuração antropológica particular da razão humana. | ||
| + | * A receptividade da intuição pura deve ser compreendida como autorreceptividade, | ||
| + | * Espaço e tempo são formas singulares oriundas da atividade do espírito que coordena as sensações segundo leis permanentes, | ||
| + | * Ao constituírem o âmbito e a condição de todos os fenômenos externos e internos, espaço e tempo conferem à imaginação uma função estruturante que não converte o real em sonho nem reduz o idealismo transcendental a psicologismo. | ||
| + | * A imaginação kantiana não é essencialmente fantasiosa, pois a fantasia constitui apenas uma modalidade aberrante da imaginação, | ||
| + | * A imaginação produtiva ou reprodutiva apresenta algo diante do olhar, conservando uma materialidade sensível que impede suas imagens de possuírem a vacuidade dos conceitos. | ||
| + | * A liberdade imaginativa permanece restrita e terrestre, pois manifesta a pertença humana ao sensível e, embora parcialmente irrealizante e infinitizante, | ||
| + | * A recuperação da função originariamente poética da imaginação não a transforma em faculdade errante, pois toda produção imaginativa obedece, recebe ou inventa regras. | ||
| + | * As imagens podem ser governadas pelas regras empíricas da associação, | ||
| + | * Mesmo em sua atividade mais lúdica, a imaginação permanece espontaneamente regulada por uma heautonomia que inventa as próprias regras do jogo. | ||
| + | * A imaginação torna-se operária indispensável do conhecimento, | ||
| + | * A causalidade da imaginação produz somente imagens ou representações sensíveis e deve distinguir-se da causalidade da vontade, capaz de produzir a realidade ou existência dos objetos representados. | ||
| + | * Na matemática, | ||
| + | * O tempo é um ente imaginário quando considerado absolutamente em si, mas torna-se conceito extremamente verdadeiro quando referido à lei imutável que rege todos os objetos possíveis dos sentidos. | ||
| + | * A ambivalência do tempo exige esclarecer como um ente imaginário pode ser simultaneamente um conceito dotado de máxima verdade. | ||
| + | * O nada próprio do ente imaginário distingue-se do nada do ente de razão, do nada privativo e do nada negativo, pois corresponde à simples forma da intuição sem substância, | ||
| + | * Embora espaço e tempo puros não sejam objetos em si mesmos, possuem a consistência de algo que impõe sua lei universal e imutável a todos os fenômenos. | ||
| + | * A verdade do tempo é originária e superlativa, | ||
| + | * O tempo, embora seja o nada de uma intuição autogerada, constitui a forma imaginária do mundo fenomenal e o princípio realíssimo de toda realidade empírica. | ||
| + | * A sensibilidade pura revela-se imaginação pura porque não recebe seus materiais da percepção ou da memória, mas precede e condiciona a aparição de todos os fenômenos, conferindo-lhes sua forma geral. | ||
| + | * A forma pura representada como objeto torna-se matéria pura, cujo diverso a priori é unificado por uma síntese de apreensão interpretável como atividade da imaginação transcendental sob a jurisdição do entendimento. | ||
| + | * O espaço representado como objeto geométrico contém, além da forma da intuição, a reunião do diverso sensível em uma representação intuitiva unitária. | ||
| + | * A forma da intuição fornece o diverso, enquanto a intuição formal fornece a unidade da representação. | ||
| + | * Essa unidade precede todos os conceitos, embora pressuponha uma síntese que não pertence aos sentidos e torna possíveis os conceitos de espaço e tempo. | ||
| + | * A unidade da intuição a priori pertence ao próprio espaço e ao próprio tempo, e não a um conceito determinado do entendimento. | ||
| + | * A finitude originária, | ||
| + | * Caso a verdadeira finitude seja a finitude de uma liberdade que se torna finita, sua origem deve ser procurada na atividade passiva da imaginação, | ||
| + | * As filosofias modernas da finitude encontram na teoria da imaginação pura o primeiro esboço de uma liberdade ou transcendência ontologicamente finita. | ||
| + | * Mesmo na Antropologia, | ||
| + | * A imaginação é absolutamente produtiva quando realiza a apresentação originária de um objeto anterior à experiência e reprodutiva quando restitui à consciência uma intuição empírica anteriormente recebida. | ||
| + | * Espaço e tempo pertencem à apresentação originária, | ||
| + | * A imaginação também atua na percepção presente mediante a apreensão, reunindo o diverso intuitivo em uma imagem. | ||
| + | * A participação necessária da imaginação na própria percepção constitui uma descoberta, pois os sentidos fornecem impressões, | ||
| + | * A formação perceptiva do objeto exige, além da receptividade das impressões, | ||
| + | * A imaginação, | ||
| + | * Mesmo elevada a potência transcendental, | ||
| + | * A ideia de natureza ou mundo fenomenal aproxima-se do conceito heideggeriano transcendental de mundo como campo da transcendência em que se joga o ser do Dasein enquanto ser em função de si. | ||
| + | * A função poética da imaginação como faculdade fundamental e poder geral da síntese foi reconhecida pelos contemporâneos de Kant e tornou-se decisiva para o idealismo e o romantismo alemães. | ||
| + | * [[sofia> | ||
| + | * [[sofia> | ||
| + | * [[sofia> | ||
| + | * A interpretação heideggeriana da imaginação transcendental move-se em direção oposta ao idealismo alemão porque este dissolve a finitude na vida da Ideia absoluta e reduz a imaginação a uma função ainda inconsciente do entendimento ou da razão. | ||
| + | * A divergência entre Heidegger e o idealismo alemão somente se esclarece no horizonte próprio da ontologia fundamental, | ||
| + | * O idealismo alemão desenvolve uma teoria do devir e da conciliação entre ser e devir, mas oferece pouco acerca do tempo e da temporalidade originária em suas três êxtases simultaneamente divergentes e inseparáveis. | ||
| + | * A interpretação heideggeriana encontra em Kant um conceito originário da temporalidade pura como imaginação pura, sem limitar a imaginação ao papel mediador entre sensibilidade, | ||
| + | * O segredo do tempo e do ser-si deve ser procurado na própria imaginação, | ||
| + | * Fora do sujeito, o tempo nada é, mas com o sujeito ele se torna tudo, razão pela qual a imaginação transcendental pode ser denominada tempo originário. | ||
| + | * Embora a imaginação seja a raiz comum da sensibilidade e do entendimento, | ||
| + | * A fundamentação kantiana da metafísica conduz à imaginação transcendental como raiz comum da sensibilidade e do entendimento e condição da unidade originária da síntese ontológica, | ||
| + | * A metafísica funda-se no tempo, de modo que sua questão fundamental acerca do ser se converte no problema de Ser e tempo. | ||
| + | * A imaginação transcendental pode originar a temporalidade configurada na Estética transcendental somente porque ela própria é, em sentido mais originário, | ||
| + | * A manutenção kantiana do tempo ao lado do Eu penso impede sua absorção no conceito absoluto e manifesta a resistência da temporalidade à identificação hegeliana entre pensamento e ser. | ||
| + | * O tempo impõe sua lei ao entendimento, | ||
| + | * Como o tempo não está no tempo, não passa e não muda, sua identidade imutável pode coincidir com a identidade do Eu penso ou mesmo constituí-la. | ||
| + | * A defesa da sensibilidade e da imaginação implica um rebaixamento relativo do entendimento e da razão, pois a sensibilidade passa a fazer ouvir sua voz e aceita submeter-se somente a uma razão que considere seus pareceres. | ||
| + | * O despotismo absoluto da razão dogmática cede lugar ao despotismo esclarecido da razão crítica, e o estado natural de conflito transforma-se em uma forma de paz civil entre as faculdades. | ||
| + | * A teoria kantiana apresenta uma conhecimento simultaneamente humilhado e exaltado, limitado e soberano, pois a revolução copernicana exprime inseparavelmente sua força e sua fraqueza. | ||
| + | * Pensar deixa de significar contemplar e passa a significar determinar, enquanto uma filosofia do conceito e do sentido substitui a filosofia da ideia e da essência. | ||
| + | * O entendimento torna-se ativo, os objetos regulam-se pelo sujeito e a razão conhece apenas aquilo que produz segundo seus próprios planos. | ||
| + | * A soberania assim conferida ao sujeito não supera a finitude, mas constitui sua consagração. | ||
| + | * O princípio segundo o qual somente se conhece a priori aquilo que se introduz nas coisas revela a impotência interna da própria razão que parece onipotente. | ||
| + | * A antecipação do a priori denuncia o atraso constitutivo do conhecimento humano, cuja intuição derivada nunca é contemporânea nem criadora do objeto recebido. | ||
| + | * Somente a razão humana, simultaneamente pura e sensível, necessita distinguir conhecimentos a priori e a posteriori, distinção inaplicável ao conhecimento divino. | ||
| + | * O a priori torna possível a experiência, | ||
| + | * A crítica a [[sofia> | ||
| + | * A finitude do entendimento legislador é ainda mais acentuada que a da intuição receptiva, pois o entendimento carece da imediatez intuitiva e precisa representar o individual mediante o desvio discursivo do universal. | ||
| + | * A revolução copernicana esclarece-se pela questão da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, nos quais um conhecimento enriquecedor antecipa o encontro empírico com o objeto. | ||
| + | * Para constituir conhecimento verdadeiro, o juízo sintético a priori deve concordar com o objeto antes da confrontação efetiva com ele. | ||
| + | * Excluída a hipótese teológica de uma harmonia preestabelecida, | ||
| + | * A hipótese copernicana apresenta-se inicialmente como tentativa a ser comprovada, mas revela-se capaz de explicar o conhecimento a priori e solucionar a antinomia da razão pura. | ||
| + | * A concepção tradicional da verdade como adequação entre intelecto e coisa permanece intacta, embora a conformidade deixe de depender de uma verificação meramente posterior. | ||
| + | * A questão da verdade torna-se a questão da justificação, | ||
| + | * A interpretação heideggeriana da revolução copernicana é simultaneamente revolucionária e conservadora, | ||
| + | * A busca de um critério universal da verdade converte-se em conhecimento ontológico da constituição de todo fenômeno, anterior e fundante em relação ao conhecimento ôntico. | ||
| + | * O conhecimento ôntico somente pode adequar-se ao ente quando este já se encontra previamente manifesto em seu ser. | ||
| + | * O a priori kantiano possui, portanto, significado ontológico e finito, porque funda a conformidade empírica entre conhecimento e ente. | ||
| + | * O entendimento humano encontrava-se mais próximo do entendimento divino quando era concebido como faculdade contemplativa capaz de receber parcialmente as coisas em seu ser absolutamente verdadeiro. | ||
| + | * A antiga limitação do conhecimento humano ainda permitia sua participação fragmentária no saber divino, pois o espírito humano permanecia concebido como parcela do espírito de Deus. | ||
| + | * Em Kant, a finitude deixa de ser mera limitação negativa e torna-se finitude originária, | ||
| + | * Rompem-se assim as ligações entre o espírito humano e o espírito divino, e Deus deixa de ser sujeito, objeto, princípio, garantia, fundamento ou finalidade do conhecimento. | ||
| + | * A teoria kantiana torna-se uma teoria ateia do conhecimento e uma teoria agnóstica de Deus, substituindo o problema teológico da criação pelo problema transcendental da cognoscibilidade do mundo. | ||
| + | * A questão decisiva passa a ser como o ser humano pode conhecer entes que não criou e com cuja existência não mantém relação produtiva. | ||
| + | * A presença das coisas para o sujeito e a possibilidade de sua manifestação pressupõem uma cumplicidade originária entre homem e mundo que não pode ser explicada apenas pelas capacidades intelectuais humanas. | ||
| + | * A subjetividade transcendental abre uma dimensão de encontro situada aquém do homem e além das coisas, na qual se tornam possíveis tanto sua concordância quanto seu confronto. | ||
| + | * Hegel recusa a novidade do problema kantiano e acusa a filosofia crítica de atribuir ao espírito humano a responsabilidade pela deformação de um mundo verdadeiro em si mesmo. | ||
| + | * A comparação com Zenão favorece a dialética antiga, para a qual o próprio mundo fenomenal é falso, em detrimento da dialética kantiana, na qual as determinações projetadas pelo sujeito arruínam o mundo para o conhecimento. | ||
| + | * A limitação kantiana representa, para Hegel, uma humilhação indevida do espírito, cuja dignidade residiria precisamente em sua natureza pensante. | ||
| + | * A filosofia kantiana exprime simultaneamente a exaltação e a humilhação do conhecimento ao instituir uma verdade relativa e uma verdade absoluta, correspondentes a dois absolutos distintos. | ||
| + | * O absoluto finito e humano reside na unidade sintética originária da apercepção transcendental, | ||
| + | * O primeiro é o absoluto da relação, da correlação transcendental e da mediação imediata; o segundo é o absoluto da substância e da imediatez sem mediação. | ||
| + | * Ao excluir de si o absoluto verdadeiro, o conhecimento transfere para fora de seu alcance aquilo que reconhece como sua forma suprema. | ||
| + | * A oposição entre filosofia e religião, saber e fé, interioriza-se na própria filosofia, permitindo que o filósofo permaneça homem de fé dentro dos limites da razão. | ||
| + | * A fé racional não é um saber provisório apoiado em motivos razoáveis, mas um ato pelo qual a própria razão acredita, quer e espera sem possuir razões demonstrativas. | ||
| + | * A ruptura kantiana da antiga adequação entre ser e conhecer faz com que o conhecimento imponha suas condições ao ser fenomenal, mas também ameaça desvalorizar o conhecido justamente porque ele se torna obra do sujeito. | ||
| + | * Caso o mundo fenomenal seja poema da imaginação transcendental e o espírito encontre nas coisas somente aquilo que nelas introduziu, a verdade do conhecimento pode revelar uma falsidade originária inscrita em sua própria força. | ||
| + | * Nietzsche explicita a errância essencial do conhecimento humano ao localizar sua finitude não em deficiências ocasionais, mas na própria força produtora de suas verdades. | ||
| + | * A crítica nietzschiana radicaliza a transformação kantiana do ser em valor e da ontologia em axiologia, fazendo do valor atribuído a uma coisa o verdadeiro equivalente de seu ser. | ||
| + | * O erro torna-se pressuposto do pensamento, pois toda atividade cognitiva depende de uma composição poética anterior. | ||
| + | * Diferentemente da imaginação transcendental kantiana, essa composição é poético-prática e funciona como vontade de potência orientada à dominação. | ||
| + | * A produção imaginativa perde sua inocência ontológica e cai no domínio vital da ação. | ||
| + | * A vontade de potência recusa o ideal de conhecer e substitui-o pela esquematização que impõe ao caos a regularidade e as formas necessárias à satisfação das exigências práticas. | ||
| + | * A razão, a lógica e as categorias formam-se segundo a medida da necessidade vital de subsumir, esquematizar, | ||
| + | * O poder plástico da razão ou da imaginação deixa de ser poético-ontológico, | ||
| + | * O duplo jogo do conhecimento permanece necessário tanto em Kant quanto em Nietzsche, pois o ser humano reencontra nas coisas aquilo que ele próprio introduziu e deve continuar exercendo de bom grado tanto a ciência da descoberta quanto a arte da produção. | ||
| + | * A ignorância necessária inscrita no conhecimento obriga-o a impor sentido onde desejaria apenas descobrir essência, instaurando uma duplicidade em que a violência continua a simular inocência. | ||
| + | * Verdadeiro já não é simplesmente o que é verdadeiro, mas aquilo que se considera, avalia e acredita como verdadeiro. | ||
| + | * A fé não desaparece diante do saber, mas apodera-se secretamente de seu ser, de sua substância e de sua própria concepção de verdade. | ||
| + | * A desmistificação nietzschiana não elimina a verdade, mas reconhece a necessidade vital do valor de verdade, ainda que esta seja definida como um gênero de erro indispensável à conservação de determinada espécie. | ||
| + | * A verdade necessária à vida contém, contudo, um princípio mortal, pois a vontade de verdade pode ocultar uma vontade de morte. | ||
| + | * Ao esquecer que a manutenção precária da vida constitui a condição da verdade, o ser humano transforma o valor condicionado da verdade em realidade incondicionada e absoluta. | ||
| + | * As condições humanas de conservação são projetadas como predicados do ser em geral, e a vontade de verdade converte-se em vontade de verdade a qualquer preço. | ||
| + | * A ingenuidade hiperbólica consiste em tomar o ser humano como sentido e medida do valor das coisas, ignorando a origem projetiva dos valores. | ||
| + | * O antropomorfismo é necessário para a vida, mas o antropocentrismo permanece aberrante, porque as formas procedem do ser humano sem que ele seja o centro ou o sujeito do mundo. | ||
| + | * Em lugar da oposição entre homem e mundo, há um caos inserido no caos e uma embriaguez interna à própria embriaguez, cuja potência formadora produz as configurações do conhecimento. | ||
| + | * O jogo infantil e desmascarado do conhecimento deve prosseguir com leveza, pureza e coragem, mediante a mesma vontade de potência que se manifesta alternadamente nos momentos fortes e fracos da atividade cognitiva. | ||
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