User Tools

Site Tools


estudos:biemel:start

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
Next revision
Previous revision
estudos:biemel:start [18/01/2026 04:36] mccastroestudos:biemel:start [12/07/2026 14:27] (current) – external edit 127.0.0.1
Line 1: Line 1:
 +====== Biemel ======
  
 +Walter Biemel (1918-2015)
 +
 +//Entrevista a Walter Biemel. Raúl Fornet-Betancourt y Klaus Hedwig. Concordia, nº 15, 1989.//
 +
 +  * O entrevistado, alemão nascido na Romênia, decide estudar com Heidegger após ler Ser e Tempo em Bucareste, impressionando-se com a obra mesmo sem compreendê-la totalmente, e ao solicitar visto na embaixada alemã é advertido de que Heidegger estava gravemente enfermo
 +  * Chegando a Friburgo na primavera de 1942, seu primeiro seminário com Heidegger versou sobre os progressos da metafísica de Leibniz a Wolff, surpreendendo-se ao descobrir que o homem que limpava o quadro era o próprio Heidegger
 +    * a explicação de Heidegger sobre o Iluminismo como modo pelo qual o século XVIII se compreendeu a si mesmo, e sua observação irônica de que Wolff fora mais professor de filosofia que filósofo, como nós
 +    * o cuidado de Heidegger em ensinar a ler profundamente, exemplificado no seminário avançado sobre a Fenomenologia do Espírito de Hegel, onde interrogou os alunos sobre a expressão partes infinitas
 +    * a comparação entre o estilo de Heidegger e o de Husserl, sendo para aquele a estrutura e disposição de um texto sempre muito importantes, como se fosse uma fuga musical
 +  * Os alunos estavam intimidados diante de Heidegger, que preferia as aulas de sua juventude quando era contestado continuamente, chegando a testar os estudantes dando interpretações erradas de propósito para ver se acreditavam cegamente na autoridade
 +    * Heidegger interpelando pessoalmente os participantes, conhecendo seus nomes rapidamente e perguntando a quem parecesse entediado o que se passava
 +  * É difícil fixar um julgamento global sobre a relação das diferentes gerações de discípulos com Heidegger, que sempre foi cético quanto a toda tentativa de repetição de seu pensamento
 +    * a citação de Heidegger segundo a qual talvez os hegelianos não tenham entendido nada de Hegel nem os heideggerianos nada de Heidegger
 +  * Heidegger foi absolutamente um homem da palavra escrita, preparando suas aulas palavra por palavra com sublinhados coloridos indicando entonação, sem nunca confiar na inspiração espontânea
 +    * a discussão com Cassirer sendo quase uma exceção, preferindo Heidegger geralmente retirar-se após suas exposições sem debate
 +  * Na relação de Heidegger com a tradição filosófica, trabalhou Aristóteles por pelo menos dez anos, depois se aproximou de Kant em Marburgo e dedicou cinco anos a Nietzsche, concebendo a história da metafísica não como campo de opiniões contraditórias mas como certa continuidade
 +    * a crítica de Heidegger à história da metafísica decorrendo de nela identificar o conceito de vontade e a tendência do homem a se tornar senhor do ser, conduzindo à concepção técnica
 +  * O termo destruição é conceito perigoso que Heidegger usa não no sentido de eliminação mas de redescoberta do ímpeto originário, podendo ter sido tomado de Duns Escoto
 +    * a vantagem desse acesso sendo permitir atualizar Aristóteles, mostrando que há nele aspectos ainda por descobrir
 +  * Diferentemente de Husserl, que pensava poder recomeçar do zero, Heidegger estava convencido de não poder ignorar a história, estando esta dentro de nós mesmos
 +    * a preferência pelos pré-socráticos explicando-se por neles reluzir subitamente a importância da alétheia, experiência da abertura que possibilita o acesso ao ser
 +    * a presença constante do Mestre Eckhart e seu conceito de Gelassenheit até a obra tardia, questionando-se se não estaria presente quando Heidegger fala de Deus e do Divino
 +    * o trabalho de Brentano sobre os múltiplos sentidos do ser em Aristóteles tendo sido o núcleo detonador do pensamento heideggeriano, sendo o conceito de Seiendheit tentativa de traduzir ousía
 +  * Outros filósofos importantes para a gênese do pensamento próprio incluem Kierkegaard, Kant e Schelling, situando-se essa gênese entre 1917 e 1921, época da elucidação dos momentos da facticidade e da vida
 +  * O termo hermenêutica da facticidade se explica porque para Heidegger tratava-se de interpretar o que sucede na existência, ampliando a perspectiva hermenêutica para além do texto até a própria existência humana, termo que depois abandonou
 +    * outros teólogos influentes sendo São Paulo, Santo Agostinho e Lutero, tendo Heidegger assistido aos seminários de Bultmann em Marburgo
 +    * Dilthey sendo figura significativa tratada com muito respeito, e Rilke importante sobretudo no tema da morte, tendo Heidegger notado que Ser e Tempo apareceu no ano da morte de Rilke
 +  * A correspondência entre Heidegger e Husserl foi destruída em 1940 durante o ataque a Antuérpia, mas sabe-se que Husserl reconheceu cedo a importância de Heidegger, chamando-se a si mesmo de amigo paternal
 +    * a ruptura ocorrendo após a publicação de Ser e Tempo, pois Husserl acreditava que Heidegger apenas aplicava a fenomenologia à história, reprovando-lhe já antes que o ego não fosse tomado fenomenologicamente mas simplesmente postulado
 +    * Ser e Tempo tendo constituído verdadeiro choque para Husserl, que não compreendeu o que Heidegger realmente perseguia, falando depois de correntes irracionalistas no epílogo às Ideen
 +  * Quanto à evolução interna do próprio Heidegger, distingue-se um primeiro grande período culminando em Ser e Tempo, uma nova etapa iniciada em 1930 com Da essência da verdade, a Kehre em 1936, e a filosofia tardia com os conceitos de Ereignis, Geviert, Ding, Seinsgeschick
 +    * os cursos de 1933-34 sobre Hölderlin marcando a primeira vez que um poeta e não um filósofo é tema de curso, tornando-se central o diálogo entre poesia e pensamento
 +  * A filosofia tardia possui certa unidade refletida nos conceitos de Wohnen, Lichtung, Gestell, na interpretação da técnica como culminação da metafísica e do niilismo como ocultação do ser
 +  * Quanto ao fracasso do primeiro início, Heidegger pensa que há uma espécie de subtração ou retirada do ser, dupla dimensão em que a alétheia desaparece e isso se dá também pela intervenção do homem
 +    * o ser necessitando do homem sem que este possa determinar quando ou como acontecerá uma nova revelação do ser, havendo em Heidegger uma espécie de expectativa de salvação
 +  * A continuidade entre o primeiro e o segundo início reside em que a condição para este é a compreensão da história da metafísica, não podendo o outro início ser tentado sem antes pensar tudo o que ela contém
 +    * essa crítica da técnica sendo crítica da situação de desamparo das coisas, em que o homem já não conhece nada sagrado
 +  * Quanto à citação de Hölderlin sobre o perigo e o que salva, o entrevistado expressa dúvidas pessoais, pois o perigo sozinho não basta para que aconteça uma virada salvadora, podendo o perigo já ser tão grande que torne impossível um giro retificador
 +  * Heidegger recorre à poesia e à arte porque nelas o acontecimento da verdade sucede de forma mais decisiva, explicando isso sua proximidade com Hölderlin, poeta não-metafísico, chamando o entrevistado Heráclito e Hölderlin de interlocutores privilegiados de Heidegger
 +    * o novo vocabulário da arte, palavras como habitar ou pátria, não vindo da metafísica, devendo assinalar a outra relação com o ser
 +    * Heidegger conhecendo bem a poesia e, em pintura, sobretudo Klee e também Picasso
 +  * Quanto à ausência de ética em Heidegger, a questão decisiva era ver como o homem entra em relação com o ser de modo a possibilitar um habitar autêntico, deixando então de se colocarem as questões éticas clássicas
 +    * não se tratando de mero saber platônico, mas de realização efetiva dessa relação devida com o ser, havendo já em Ser e Tempo certa ética nas análises sobre a assistência ao outro
 +    * a diferença clássica entre filosofia teórica e prática desaparecendo porque, para Heidegger, o pensar autêntico já é ação
 +  * Quanto a Heidegger e a política, é manifesto que em 1933 ele teve a ilusão de uma verdadeira revolução, tendo se deixado levar a ponto de dar conferências hoje incompreensíveis, embora o discurso de reitorado não fosse nacional-socialista no sentido corrente por seu núcleo ser o conceito de alétheia
 +    * o livro de Farías sendo criticado por reduzir Heidegger ao período entre abril de 1933 e fevereiro de 1934 e por não se ocupar da obra escrita, falando Heidegger dos nazistas como criminosos quando o entrevistado estudava com ele