estudos:biemel:estudo:tecnica
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| + | ====== TÉCNICA ====== | ||
| + | //BIEMEL, Walter. Martin Heidegger: an illustrated study. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1976.// | ||
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| + | **Aletheia e a Natureza da Técnica ("A Questão da Técnica," | ||
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| + | - Segundo uma visão corrente, o Heidegger de Ser e Tempo estaria estreitamente associado à fenomenologia, | ||
| + | - Das quatro conferências, | ||
| + | - A questão é formulada com precisão logo no início, estando em jogo a essência, a natureza da técnica, sendo essa essência não algo técnico, do mesmo modo que a essência da árvore não é ela própria uma árvore encontrável entre as demais árvores. | ||
| + | - O ponto de partida é a concepção comum da técnica como instrumento, | ||
| + | - Encontra-se aqui a curiosa situação de que um meio a serviço da tarefa de dominar precisa, ele mesmo, ser trazido sob controle, porque ameaça escapar ao domínio do homem. | ||
| + | - Heidegger admite que esse conceito de técnica como instrumento é " | ||
| + | - Para poder percorrer esse caminho do correto ao verdadeiro, é preciso ter clareza sobre o que se chamou de instrumental: | ||
| + | - O que é devido nesse ser-responsável-por, | ||
| + | - Poiesis, contudo, não se limita de modo algum à agência humana, sendo também physis (Natureza) poiesis, pois constantemente, | ||
| + | - Pergunta-se qual é o ponto principal do pôr-para-fora, | ||
| + | - Pergunta-se, | ||
| + | - No pensamento grego — do qual, como se sabe, deriva o conceito de techne —, techne e episteme pertencem juntas, sendo ambas modos de conhecer, de estar-versado-em; | ||
| + | - Heidegger examina uma possível objeção segundo a qual, embora esse modo de definir techne seja aplicável à esfera grega, não poderia ser aplicado à técnica moderna das máquinas de força em sua relação com a ciência moderna, surgindo daí duas questões: primeiro, se a interconexão entre aletheia e techne se aplica também à técnica moderna; segundo, qual é a natureza intrínseca e essencial da técnica moderna. | ||
| + | - A resposta de Heidegger à primeira questão é afirmativa: mesmo a técnica moderna deve ser vista no contexto de ocultamento e disclosura, sendo necessário, | ||
| + | - A resposta, que a princípio soa inofensiva, é que, na atitude técnica, tudo é apresentado apenas quanto à sua disponibilidade e possibilidade de uso — tudo se torna um fundo (Bestand, estoque ou provisão); como se expressa na primeira versão inédita, o estoque é algo extante, sendo extante na medida em que está encomendado ou pode ser posto nessa condição, tornando-se assim algo encomendado, | ||
| + | - Enquanto aquilo que está diante do homem foi e é um objeto — o que ocorreu primeiro na era moderna com a determinação do homem como sujeito, para quem o que lhe faz face é o objeto —, uma certa independência ainda lhe era concedida; diz-se " | ||
| + | - Desse relato abreviado, poder-se-ia ter a impressão de que essa mudança do dado, de objeto a estoque, seria simplesmente um assunto de capricho humano, podendo essa mudança ser entendida até como uma espécie de reprovação, | ||
| + | - O que importa aqui não é reconhecer a autoridade de alguém; o que importa, por fim, é perguntar em que condição existe o homem do século vinte, sendo o que importa preservar a própria liberdade, pôr em movimento um questionamento que torne a nós mesmos questionáveis; | ||
| + | - Partiu-se do fato de ser um equívoco pensar que a mudança em nossa atitude em relação aos entes, a mudança de objeto para estoque, se deva a um capricho humano, pois nessa mudança se torna consciente uma transformação da não-ocultação (aletheia), transformação que, segundo Heidegger, está totalmente fora do controle do homem, embora o afete em suas profundezas mais íntimas; tal transformação da não-ocultação é o que se encontra em nosso trato com os entes no modo do conceito grego de pôr-para-fora, | ||
| + | - Ao praticar a técnica, o homem participa da dis-posição como modo de desvelamento; | ||
| + | - Viu-se que a natureza do homem é definida e sustentada por sua relação com a não-ocultação; | ||
| + | - O modo técnico de lidar com os entes não é, assim, uma atividade arbitrariamente escolhida pelo homem; ao contrário, o homem é colocado dentro desse modo de lidar, desafiado a ele, por esse modo específico de desvelamento a que Heidegger chama a " | ||
| + | - Ge-stell, a estrutura de fundo, não tem natureza de coisa, mas nomeia um modo específico de não-ocultação; | ||
| + | - Poder-se-ia objetar que ora se associa Ge-stell à não-ocultação, | ||
| + | - O fato de a maquinaria de vários tipos (cujas palavras em alemão são muitas vezes formadas como Gestell) estar ligada às operações e à organização da técnica não deve levar a pensar em Gestell como referência a algo desse caráter coisal, buscando Heidegger, ao contrário, questionar retroativamente a não-ocultação peculiar à técnica, o que indica claramente o estatuto que Heidegger confere à técnica e mostra o quanto seu relato se distancia de toda descrição da técnica como instrumento. | ||
| + | - Heidegger assinala expressamente que a palavra Stellen em Gestell pretende manter viva a conexão com Stellen no sentido de pôr-para-fora ou produzir, como ocorre em poiesis; no tipo de produzir conforme a poiesis, os entes são trazidos à presença, embora não de modo que passem a estar aí, à nossa disposição, | ||
| + | - O deixar-tornar-se-presente grego, presente nesse pôr-para-fora no sentido de poiesis, e a moderna garantia de recursos como um desafiar da Natureza no sentido do Gestell são, por assim dizer, dois polos opostos que, contudo — e isso não deve ser esquecido —, pertencem à mesma dimensão, a saber, a dimensão básica da não-ocultação (aletheia); a não-ocultação acontece em ambos, embora de modos muito distintos; nas conferências de Bremen, Einblick in das, was ist, Heidegger evidenciou como a ciência moderna é, em sua essência, técnica, o que significa que o que se passa na ciência moderna corresponde à verdade do Ser no sentido do Gestell, encontrando essa verdade sua expressão nela. | ||
| + | - Não se pode aqui aprofundar a questão de como, na ciência moderna, já antes do desenvolvimento da técnica, atua a tendência de desafiar a Natureza no sentido de exibir uma inter-relação de forças calculável de antemão: a teoria física moderna da Natureza preparou o caminho não primariamente para a técnica, mas para a essência da técnica, pois o reunir [Versammeln], | ||
| + | - Num segundo passo, a reflexão se concentra em apreender o Ge-stell; justamente porque no Ge-stell se pensa não algo coisal, mas antes um modo da relacionalidade do homem com os entes, é preciso circunscrever mais de perto o pensamento que se pretende transmitir; ao falar da relacionalidade do homem, surge de imediato a pergunta: como essa relacionalidade se constitui? Pode o homem simplesmente desenvolver relações a seu bel-prazer e depois aboli-las, distanciando-se delas? Ou tal desenvolvimento é governado por um ditame, um ditame que a princípio permanece oculto para nós e, em sua maior parte, talvez continue assim por muito tempo? | ||
| + | - Heidegger evita deliberadamente falar de relacionalidade (o homem como centro de relações), | ||
| + | - No Ge-stell ocorre um modo particular de desvelamento, | ||
| + | - Essa resposta tem caráter mais negativo do que positivo, o que não é por acaso, nem um artifício retórico destinado a aumentar a tensão do leitor, sendo antes indicação de que aqui se deixou para trás o domínio objetivo com suas perguntas e respostas unívocas; isso, porém, não significa de modo algum que se entre agora num domínio em que todas as vacas são cinzentas, mas antes que aqui se exige uma mudança no modo de pensar, que não é fácil de realizar, razão pela qual Heidegger retoma novamente o que precisa ser pensado no Ge-stell: o Gestell é o reunir [agente] naquele colocar [Stellen] que desafia [stellt] o homem a desvelar, no modo da dis-posição, | ||
| + | - Não se sabe como isso pôde chegar a ocorrer, mas sabe-se muito bem o que acontece em consequência do que assim ocorreu; no Ge-stell experimenta-se um modo particular de desvelamento; | ||
| + | - Porque esse destino traz o homem, de tempos em tempos, a um caminho de desvelamento, | ||
| + | - Embora a princípio parecesse não haver possibilidade de escapar a uma relacionalidade particular, ou modo de estar relacionado — neste caso, o da dis-posição —, o texto citado acima afirma que existe de fato outra possibilidade, | ||
| + | - Esse manter-se-dentro do não-oculto e o levar-a-cabo da não-ocultação não significam de modo algum que o homem seja um mero portador ou mensageiro, alguém que apenas executa, põe em prática; como o desvelamento acontece não depende, é claro, dele; mas, por outro lado, o homem não precisa necessariamente estar totalmente absorvido na dis-posição, | ||
| + | - Justamente no caso da dis-posição encontra-se como o próprio homem só tem permissão de ser algo disponível — e, no entanto, assume ares de ser senhor absoluto sobre todo ente, como se assim pudesse contornar a perda que sofreu; o homem parece encontrar em toda parte apenas a si mesmo; na interpretação de Heidegger, contudo, torna-se evidente exatamente o oposto: ainda assim, é precisamente em lugar nenhum que o homem, na verdade, encontra agora seu próprio eu, isto é, a si mesmo em sua natureza ou ser. | ||
| + | - Pergunta-se como algo assim pode se sustentar, diante do fato inegável de que a eficácia e a ação do homem assumem proporções tais que subitamente nos vemos na situação imprevista de tornar nosso ambiente progressivamente inabitável; | ||
| + | - Mas o que Heidegger sustentava não era que o homem deixasse de se fazer notar constantemente, | ||
| + | - Que, no curso da história da metafísica, | ||
| + | - Com a supremacia do Ge-stell, segundo Heidegger, tornou-se real a ameaça de que possa ser negado ao homem entrar num modo mais primordial de desvelamento e assim experimentar o apelo de uma verdade mais originária, | ||
| + | - Busca-se compreender o que constitui o caráter ambíguo da essência da técnica; até aqui, referiu-se apenas ao traço característico do perigo máximo, o fato de que o homem está tão completamente sugado no frenesi da dis-posição que a relação com a verdade como desvelamento fica totalmente bloqueada e que outras possibilidades de desvelamento também não podem ser apreendidas como possibilidades; | ||
| + | - Ao tentar compreender esses percursos de pensamento, a questão que se impõe e reclama atenção cada vez mais urgente é esta: como pôde vir a ocorrer o tipo de não-ocultação significado pelo Ge-stell? A resposta de Heidegger é que é o próprio Ser que se mostra desse modo; na conferência ainda inédita "O Perigo", | ||
| + | - Em conclusão, refere-se a uma dificuldade inerente a essa interpretação, | ||
