estudos:biemel:biemel-198780-96-ser-com-mitsein
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| + | ===== SER-COM (1987: | ||
| + | Em nossas relações com os utensílios, | ||
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| + | Nas análises anteriores, o problema do outro ainda não foi abordado explicitamente. Mas ele já estava envolvido de certa forma, porque o mundo não pode ser concebido fora de uma relação com alguém. O outro não é uma “coisa” que seria dada posteriormente à experiência de nosso eu isolado, mas, na medida em que somos “seres-no-mundo”, | ||
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| + | Agora precisamos entender o que Heidegger quer dizer com esse termo e, para isso, precisamos examinar o que torna possível o “ser-com”. | ||
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| + | Em primeiro lugar, estamos inclinados a interpretar o ser-com como uma co-presença de dois seres simplesmente dados. Assim, duas pedras colocadas uma ao lado da outra determinam uma co-presença; | ||
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| + | (...) | ||
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| + | Na expressão “ser-com” (Mitsein), a palavra “com” indica uma comunidade. Para que eu esteja com alguém, é preciso que haja uma certa comunidade entre ele e eu. É o que temos em comum que nos une. Em geral, estamos inclinados a pensar na comunidade como uma comunidade no espaço: quem ocupa a posição mais próxima da minha é/está comigo. Mas essa interpretação está errada. Ela se origina de uma transposição indevida de conceitos que são válidos apenas para coisas. As coisas que estão localizadas próximas umas das outras geralmente formam um determinado conjunto, mas não é apropriado chamar esse conjunto de comunidade, porque a verdadeira comunidade não tem nada a ver com o espaço. Meu amigo na Sibéria, de quem tenho notícias com pouca frequência, | ||
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| + | Há outra concepção de comunidade (de ser-com) segundo a qual o fundamento do ser em comum é uma comunidade da natureza. Essa concepção é defensável, | ||
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| + | (...) | ||
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| + | (...) Estou em uma exposição de pinturas, olhando para um retrato expressivo. Outro visitante chega, olha para a mesma pintura e fica igualmente comovido com seu poder evocativo. A pintura tem o mesmo efeito sobre ele e sobre mim. Essa identidade de impressões nos coloca em contato, forma um tipo de vínculo entre nós que pode se tornar a base de uma comunidade, um ser-com. Então, o que aconteceu? Nós olhamos para a pintura juntos (um com o outro). O outro entrou na zona revelada a mim. O mesmo ser, ou seja, a pintura, também se manifestou para o outro. Assim, compartilho com ele o que se tornou manifesto para mim em meu mundo e, portanto, em resumo, esse mundo em si. Compartilhar o “mundo” é o que constitui nosso ser-com. Graças a esse compartilhamento, | ||
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| + | Como vimos, Heidegger observa que, na vida cotidiana, o ente-utensílio que encontramos sempre se refere a outra pessoa, outro Dasein, que mantém um certo relacionamento com o utensílio, quer ele o tenha fabricado ou usado. Basicamente, | ||
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| + | Portanto, Heidegger tem dois termos para caracterizar o ser-com, Mitsein e Mitdasein. mit-Sein designa meu ser com outro. O outro, por sua vez, é para mim mit-da, o que traduzimos como: ele coexiste comigo. O modo de ser do outro, do meu ponto de vista, é a coexistência (Mit-dasein). O termo Mitsein, portanto, refere-se a mim mesmo, e o termo Mit-dasein, aos outros que são/estão comigo. Posso descobri-los como coexistentes porque eu mesmo sou ser-com, ou seja, aberto aos outros compartilhando com eles minha abertura sobre os entes. | ||
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| + | Portanto, podemos dizer que o ser-com pressupõe uma igualdade de natureza; mas se essa igualdade torna a coexistência possível, é apenas porque estamos lidando com entes que estão abertos por sua natureza ao que se manifesta a eles e, portanto, capazes de compartilhar o mundo que lhes é comum. | ||
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| + | O erro fundamental da filosofia moderna, de acordo com Heidegger, é que ela limitou o “sujeito” humano de forma muito restrita. Primeiro constituiu um “sujeito puro” e depois tentou acrescentar o “mundo” e os “outros”. Mas todas essas tentativas de uma constituição posterior do “mundo” e dos “co-sujeitos” permanecem arbitrárias, | ||
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| + | O modo como as pessoas se comportam umas com as outras é o que Heidegger chama de solicitude (Fürsorge). Esse termo designa um existencial; | ||
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| + | Por meio do ser-com, a existência dos outros nos é revelada (erschlossen). Essa revelação dos outros é um elemento co-constituinte da Beudeutsamkeit, | ||
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| + | É assim que Heidegger escreve: “A estrutura da mundanidade do mundo é tal que os outros não estão presentes primeiro como sujeitos isolados, simplesmente dados, ao lado de outros objetos, mas que eles se mostram em seu... ser-no-mundo a partir do ente-sob-a-mão que pertence a esse mundo (SZ:123). | ||
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| + | O Dasein é originalmente com os outros; portanto, não há questão de tornar sua constituição dependente de uma dedução no sentido de Einfühlung. | ||
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| + | A relação do Dasein com os outros é — como acabamos de dizer — caracterizada pela solicitude. A palavra alemã “Fürsorge” contém a raiz Sorge (preocupação), | ||
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| + | Antes de concluir essa breve análise do ser-com, devemos abordar um problema que ainda não discutimos, o da solidão. O fenômeno da solidão não contradiz nossa tese sobre o ser-com? | ||
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| + | Mas o que é exatamente a solidão? A solidão estabelece um certo estado de separação dos outros. Portanto, a solidão não é possível sem uma certa compreensão dos outros. O ato de se isolar já pressupõe a existência de outras pessoas, em relação às quais nos isolamos. Mesmo no isolamento, portanto, encontramos um certo relacionamento com os outros; a solidão nunca é possível sem um ser-com anterior. É, em suma, uma forma negativa de ser-com: alcança um certo comportamento em relação aos outros que não seria possível na ausência de uma abertura para eles. Se o Dasein não fosse ser-com, ele não poderia se isolar. Heidegger escreve: “A falta e a ‘ausência’ (de outros) são modalidades de coexistência e, se elas são possíveis, é somente porque o Dasein, como ser-com, permite o encontro da existência de outros em seu mundo (SZ: | ||
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