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| + | ====== Beneval de Oliveira: O “Ser Selvagem” ====== | ||
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| + | ==== A Fenomenologia no Brasil ==== | ||
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| + | === Na Historicidade de Merleau-Ponty === | ||
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| + | //A Fenomenologia no Brasil, Beneval de Oliveira, Pallas, 1983// | ||
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| + | É indiscutível que o problema da historicidade na filosofia contemporânea está ligado ao desenvolvimento de um processo dialético e antes que ao puramente objetivo se procura investigar na subjetividade a origem desse processo. | ||
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| + | Não foi à-toa que Nietzsche ao fundamentar a sua filosofia da arte partiu do princípio de que o homem é um ir além de si mesmo, como tônica de sua “vontade de poder”. Assim, a problemática do homem está ligada à atividade criadora, à facticidade, | ||
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| + | Não é muito diversa a tese de M. Heidegger na concepção ontológica e poemática do “Ser-Aí”, | ||
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| + | A temática da historicidade está magnificamente assentada na filosofia de M. Merleau-Ponty, | ||
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| + | Antes de tudo, como tão bem acentuou Creusa Capalbo, na sua tese de doutorado L’historicité chez Merleau-Ponty, | ||
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| + | É que Merleau-Ponty tem o sentido de uma filosofia global da existência (consciência e corpo) e dentro dessa concepção do homem integrado no mundo, parte para definições que convergem para a explicação de uma historicidade autêntica, que, a nosso ver, não pode deixar de satisfazer os espíritos mais exigentes, sempre que nos engajamos no modo de compreender a História, como ela realmente é. Porque jamais se poderá compreender a História se não partimos do estudo do próprio homem, que é o seu indiscutível agente, ligado obviamente, ao mundo cultural de que fez parte, pois é ilusório pensar que se possa compreendê-lo fora de seu meio geográfico, | ||
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| + | Isto posto, podemos assinalar, citando Merleau-Ponty ((Merleau-Ponty — A Fenomenologia da Percepção — p. 433)), descobrimos pois com o mundo, como berço das significações, | ||
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| + | Entretanto, “a tradição do social, ou do mundano, não mata sua liberdade, mas, ao contrário, a cultura e a sociedade são formadoras do homem, mas de sua parte, é o homem quem as forma e as transforma. Vale-se, para tanto, da linguagem que tem o poder de significar os discursos atuantes e transformadores. De qualquer modo, a marcha para a realização do ser humano é o exercício de seu poder cultural que não é somente poder de se movimentar, mas também de se afetar e de se simbolizar através da palavra. De tal sorte que isto que está em questão é a instituição da pessoa, sua formação para o exercício de seu poder-ser este ou aquele, de se consagrar a um projeto que move sua vida”. ((Creusa Capalbo — L’historicité chez Merleau-Ponty — Revue Philosophique de Louvain — Tome 73 — Aoüt 1975)) | ||
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| + | Merleau-Ponty designa sob o termo de instituição “todos os acontecimentos de uma experiência que a dotam de dimensões duráveis, por relação aos quais toda uma série de outras experiências tendo sentido, formarão um contexto pensável ou uma história. Por consequência, | ||
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| + | Conforme já assinalamos, | ||
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| + | O homem, por si próprio, está sob o influxo do desejo num estado de devenir eterno. O desejo é fundamentalmente o desejo que tem o indivíduo de instituir-se e de impor-se no seu relacionamento inter-humano, | ||
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| + | De outro lado, “é preciso reconhecer que tudo é necessidade no homem e, por exemplo, não é por simples coincidência que o ser racional é também aquele que se mantém de pé ou possui um polegar que se opõe aos outros dedos, a mesma maneira de existir se manifesta aqui e lá”. ((Merleau-Ponty, | ||
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| + | Diz ainda Merleau-Ponty: | ||
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| + | Tudo o que somos, o somos numa base de situação de fato que fazemos ser nossa e que transformamos incessantemente por uma espécie de escape, que nunca é uma liberdade incondicionada” ((Merleau-Ponty — Ibid. p. 65)). | ||
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| + | Já se vê, portanto, que o instituído é sempre ultrapassado e este ultrapassamento se baseia num desejo que advém de uma carência, de uma falta impregnada em seu ser, de uma necessidade que coloca o ser humano em movimento não só no sentido temporal, como no sentido espacial da história. | ||
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| + | Para Merleau-Ponty “a história é alguma coisa que se fez, a história não constituí seu próprio sentido pelo intermediário de uma razão imanente, ele reconhece, não obstante, a parte necessária que a liberdade humana deve trazer para que o sentido da história se faça. Esta última pode realizar ou não o sentido que se debuxa, que nela se propõe, pois que será somente atualizada se assumida pelas liberdades humanas que a fazem. Consequentemente, | ||
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| + | E assim que se fala de uma direção na história ou de um progresso na história, captáveis pelos signos que indicam uma direção típica revelável nos acontecimentos através dos quais, em virtude da ação coletiva dos homens, brota o sentido; é neste entrecruzamento de resposta que levamos ao que a história nos propõe e da objetividade que aí se manifesta, instituindo um sentido e o progresso da história” ((Apud Creusa Capalbo — Op. Cit. P. 529)). | ||
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| + | Verifica-se, | ||
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| + | A vida é um fluir que flui na coexistência do Mitsein e este Mitsein é certamente um relacionamento que se movimenta na existência social na qual se desenrola a história. Então, a História deve ser compreendida, | ||
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| + | Razão por que Merleau-Ponty assinala que não devemos andar com a História em cima da cabeça, como se ela fosse uma teorética ou uma fonte abstrata de teorias, doutrinas ou conceitos. Reduzida às proporções humanas todos os fatos históricos têm a sua significação, | ||
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| + | Não vamos omitir o sentido dialético de todo esse relacionamento que está em permanente mobilidade, em constante alteração, | ||
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| + | No fundo da história está sempre o estado tensional da sociedade. Nesta porfia tudo nela se integra: o fator econômico, o fator político, o fator religioso, em tudo há uma dinâmica que é caracterizada em vários sentidos e direções, o que lhe permite dar-lhe as mais diferentes significações e estas não podem desvincular-se da realidade existencial que se cifra no corpo e na consciência. | ||
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| + | Pode, assim, como anota Merleau-Ponty ganhar a história uma interpretação existencial, | ||
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| + | Pergunta Merleau-Ponty: | ||
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| + | Dentro desta temática vale mencionar a contribuição do Prof. José Sotero Caio ((Sotero Caio, José — Boletim de Filosofia, n. 3 junho de 1981)) que após salientar “a consciência engajada” como marca fundamental da filosofia de M. Merleau-Ponty, | ||
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| + | Enfim, o mundo é um inacabamento e a vida humana uma infinidade de meios possíveis que está moldada nas suas relações intersensoriais. | ||
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| + | BIBLIOGRAFIA | ||
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| + | 1) CAPALBO, Creusa — L’historicité chez Merleau-Ponty — Revue Philosophique de Louvain — Tome 73 — Aoüt 1975 — 535 pp. | ||
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| + | 2) DE WAELHENS A. — Une Philosophie de l’Ambiguité — L’existencialisme de Maurice Merleau-Ponty. Publs. Univs. de Louvain, Louvain — Belgique. | ||
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| + | 3) MERLEAU-PONTY, | ||
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| + | --------------------La Structure du Comportement — 1942 — P.U.F. — Paris. 251 pp. | ||
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| + | 4) SOTERO CAIO, José — O Conceito de Historicidade em Merleau-Ponty face ao terrorismo — Boletim de Filosofia n, 3 — Instituto de Filosofia e Ciências Sociais — Universidade Federal do Rio de Janeiro — 77 pp. | ||
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